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Este é o Som do Gabinete Guerra das Manhãs 360, hoje com análise de José Filipe Pinto, professor catedrático em Ciência Política e especialista em movimentos extremistas e relações internacionais. Bom dia, bem-vindo, professor.
Muito bom dia, Maria João. Bom dia, senhores ouvintes.
Muito bom dia. Donald Trump tomou uma decisão que vai durar 90 dias: a suspensão temporária de todos os programas norte-americanos de assistência externa. Pensamos logo nas consequências para a Ucrânia, mas Trump acrescentou que é melhor para Zelenskyy do que para Putin. José Filipe Pinto, ajude-nos a perceber as reais implicações desta decisão e por que é melhor para Kiev do que para Moscovo.
Maria João, a tomada de posse de Donald Trump está a causar aquilo a que eu chamo de um tsunami de incertezas relativamente à Ucrânia e inclusive ao Médio Oriente, mas com menos intensidade. E por quê? Até agora, nós tínhamos a ideia de que um líder ou um presidente transformacional, como por exemplo aconteceu com Ronald Reagan, tinha uma visão de longo prazo, e um líder transacional, de que o melhor exemplo é George W. Bush, tinha uma visão a muito curto prazo, era alguém com vistas muito curtas. O problema é que Trump se está a apresentar, neste momento, como algo tão indefinido que não o sabemos caracterizar. Por quê? Porque ele parece apostado na criação de um novo sistema que ponha em causa as instituições americanas. E nesta questão, temos de perceber que, na questão que me coloca, vamos ter presente o mundo de múltiplas ordens. Significa o quê? Ele sabe que vai ter de dialogar com Putin e com Xi Jinping, mas está a lançar, neste momento, muitas exigências sobre Putin, dizendo designadamente que se Putin continuar esta guerra, levará a Rússia à ruína. O que isto quer dizer? Quando Zelenskyy foi ao Fórum Económico e Mundial a Davos, na Suíça, ele deu os parabéns a Donald Trump, isso é normal, e procurou captar a sua simpatia dizendo que aquele era um dia de mudança e esperança. O problema é que a mudança não está a ir no sentido dos desejos ucranianos. De facto, quando Trump passou a ordem de que a Maria João disse, uma pausa de 90 dias no programa de assistência externa aos Estados Unidos, essa medida acaba por penalizar muito a Ucrânia. E por quê? Porque nem sempre a mudança é sinal de esperança, mas ele não podia dizer que era mau para a Ucrânia e bom para Putin. Por quê? Porque isso significaria ceder à ordem eurasiana. Então o que ele faz? Faz um jogo em que toma uma medida e faz uma interpretação completamente diferente dessa medida. Significa que vai ameaçar Putin com novas sanções. O que ele está a dizer é que se Zelenskyy está disponível para as negociações, é evidente que se Putin não vai para as negociações, terá de ser responsabilizado. Só que temos também de perceber que Zelenskyy está numa posição que eu considero altamente fragilizada. Por quê? Porque está a dar aos europeus a ideia de que têm de o apoiar, porque Trump vai deixar de o apoiar.
E professor, ele pediu 200 mil soldados europeus para manter possível o acordo de paz. Parece viável?
Não, não é viável neste momento. Repare, Maria João, estamos a andar sempre com o passo maior do que a perna. Por quê? Porque em termos reais, estamos a falar para manter a paz. Neste primeiro momento, o que temos é de fazer um cessar-fogo. Só depois é que começarão um projeto visando a paz, e aí, sim, poderiam aparecer esses soldados europeus. Mas o que acontece é que estamos a esticar a corda por todos os lados. E Trump é mestre nessa área, tal qual como Zelenskyy. O que Zelenskyy disse aos líderes europeus? Que neste momento está a colocar um cenário de negociações, mas a colocar o enfoque nas exigências desproporcionadas e injustas de Putin. Repare, ele fala que a Ucrânia será obrigada a reduzir o exército a um quinto do atual. Depois, nós temos de ler mais nas entrelinhas do que nas linhas, porque se Zelenskyy está a tentar que a União Europeia não o abandone, temos de perceber que há aqui um dado novo. Ursula von der Leyen diz que cabe à Ucrânia a decisão sobre o seu território. E isto já está a admitir, ainda que implicitamente, que Zelenskyy terá de aceitar concessões territoriais. Vamos ver com que estatuto, vamos ver com que figura jurídica, mas a perda territorial é inevitável. E o que acontece é que Trump, neste aspecto, o livro dele, "A Arte da Negociação", eu já expliquei que mais se deveria chamar "A Arte da Persuasão", ou se preferimos, "A Arte da Imposição". E aqui é precisamente a mesmíssima coisa. O que ele está a tentar é, enquanto líder da ordem liberal, está a tentar pressionar a ordem eurasiana. Mas mais tarde ou mais cedo, vai juntar-se tanto com Putin como Xi Jinping e vão decidir o futuro da Ucrânia. O grande problema, e foi isso que ficou presente em Davos, é que tanto Zelenskyy como a União Europeia estão a perceber que dificilmente tomarão parte nessa decisão. Ora, é evidente que a decisão afeta tanto os interesses da União Europeia como, principalmente, os da Ucrânia.
Claro. No Médio Oriente e depois do cessar-fogo em Gaza, Israel terá voltado a investir contra a Cisjordânia. Professor, o que explica isto? O governo de Netanyahu diz que o objetivo é combater o terrorismo.
Quando o discurso da tomada de Trump aconteceu, Trump apenas procurou colher os louros da assinatura do cessar-fogo em Gaza e do consequente início da libertação de reféns. Ele, aliás, não fez nenhuma referência à Ucrânia, até porque este discurso, como nós sabemos, é marcado para dentro, mas fez a referência, ainda que breve, ao Médio Oriente. Só que nos dias seguintes, o que acontece? Ele prometeu acabar com as sanções que recaíam sobre os colonos extremistas israelitas na Cisjordânia. E isso não foi um acaso, é que de imediato Israel lançou uma operação militar. Onde? Na Cisjordânia. E não deixou de ser sintomático, voltamos às entrelinhas, Maria João, que quem agradeceu a Trump por ter levantado as sanções, tenha sido Smotrich, o ministro mais extremista do governo de Netanyahu. E depois, Trump fez questão de dizer que a guerra não era dos Estados Unidos, mas também disse, voltamos às entrelinhas a terceira vez, que Gaza tinha valor estratégico e que o Hamas estava destroçado ou muito enfraquecido e que Gaza era uma zona praticamente ou totalmente destruída. E acrescentou que não acreditava que o cessar-fogo se mantivesse. Era expectável, a meu ver, que as dificuldades só surgissem a partir do 16º dia, quando se começasse a negociar a segunda fase. Mas as expectativas são muito pouco animadoras. E esta operação na Cisjordânia, a operação denominada Muralha de Ferro, é um indício mesmo muito pouco animador pra uma solução pacífica no Médio Oriente. Eu costumo dizer que entre a solução dos dois Estados e o estado a que a situação chegou, existe claramente uma grande diferença.
Ainda sobre a tomada de posse de Donald Trump, estamos a falar do presidente do segundo país do mundo com mais ogivas nucleares em estoque. Quando Trump diz: "Não se metam conosco, nós vamos reagir", está a dirigir-se a alguém em particular, professor?
Está a ditar a regra para o mundo de múltiplas ordens e para as duas potências que estão no outro lado, para a China de Xi Jinping e para a Rússia de Putin. Significa o quê? Que sendo eu um líder que desafia o sistema a nível interno, a nível externo, vou definir claramente qual é a minha zona de influência. Quando eu disse que a invasão russa da Ucrânia era a ordem eurasiana a definir a sua fronteira a Ocidente, e os dados comprovam precisamente isso, agora assistimos a Trump definir os limites da ordem liberal. E por isso mesmo está numa posição de força, aquela que eu defino como a diplomacia da canhoeira. E por isso mesmo, vai fazer o quê? Vai para o seu destino manifesto. Vai essencialmente para o Pacífico. O que aqui está em causa é a região do Indo-Pacífico e já não tanto a Ucrânia. E é por isso que nós percebemos que Trump envia recados a Putin, mas simultaneamente está a enviá-los a Xi Jinping, no sentido de que Trump dispõe também do poder nuclear. E nós sabemos que esse poder foi criado, foi inventado para não ser usado, apenas para servir como persuasão. O elemento dissuasor. Portanto, o que nós aqui temos é Trump a tentar recuperar a hegemonia norte-americana. O problema é que ele sabe que isso é um dado impossível. Ele vai recuperar a hegemonia norte-americana dentro do mundo da ordem liberal. E como há países que estão indecisos, é evidente que ele vai tentar aumentar a sua zona de influência nesses países. E depois temos situações como o Panamá e a Gronelândia, em que mais do que uma influência, podemos estar perante uma expansão territorial, mas não no tipo de invasão. Eu não estou a ver isso nessa perspectiva, porque repare, é aquilo que eu chamo, na história da América, muitas vezes a diplomacia da canhoeira foi acompanhada pela diplomacia do livro de cheques. E o livro de cheques permitiu aos Estados Unidos comprarem mais de metade do atual território de que dispõem. Portanto, o que acontece aqui é que Trump, em vez de procurar aliados, pretende mais do que isso. Pretende que os aliados se submetam por vontade própria face à imposição dos Estados Unidos. E por outro lado, que as outras potências não entrem na sua zona, na sua esfera de influência, e o deixem alargar essa esfera de influência, acenando com o quê? Com aquilo que dispõe, e um dos dados que dispõe, um ativo que dispõe, mas que não vai usar, é claramente o poder atômico.
Além de Trump, Elon Musk é outro dos nomes que mais vamos ouvir nos próximos tempos. Musk que em vez de MAGA, já escreveu o termo MEGA, Make Europe Great Again. Não devemos preocupar-nos, José Filipe Pinto? O que pode a Europa fazer ou como deve reagir?
O problema é que está a tentar transformar a Europa num satélite dos Estados Unidos. Como é que faz isso? Entra naquilo que eu comecei a nossa conversa, Maria João. A passagem de um líder transformacional, ele era um líder transacional, para um líder transformacional, mas no sentido que nós não sabemos. Verdadeiramente, Trump tem em Elon Musk alguém que procura o apoio dos partidos populistas, culturais ou identitários conotados com a extrema-direita. Todos estamos lembrados que Steve Bannon tentou na Europa formar uma internacional socialista de extrema-direita. Fracassou. Mas neste momento nós percebemos que Elon Musk é o homem mais rico do mundo e que está a dotar alguns desses partidos de enorme capacidade, tanto a nível da comunicação, na sua rede social, mas também a nível económico, a nível financeiro. Portanto, o que acontece é que este "E" de Europe não é no sentido de engrandecer a Europa. Não, é de devolver a Europa às ditaduras, à extrema-direita. E por quê? Porque a Europa é, com todos os problemas que tem, a zona mais democrática do mundo. E o que acontece é que um ditador lida muito mal com a democracia. E o que nós temos aqui é um plutopopulista. Um plutopopulista que é Trump, servido de um outro plutopopulista que é Elon Musk. Dito de uma forma mais simples, a ética, os valores, os princípios estão a ceder lugar aos interesses. E quem é o agente de todo esse processo? Elon Musk. É quem, como nós já sabemos, depois da Europa, já não chega à Europa, já não chega à Terra, chegará a Marte.
José Filipe Pinto, muito obrigada pela análise em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia, professor.
Um bom dia para ti, Maria João. Bom dia.