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O Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Hoje vamos olhar para outros conflitos, ou vamos pelo menos começar por aí, que não a guerra na Ucrânia e no Médio Oriente, que estão há vários meses no epicentro do espaço mediático. Vamos, por exemplo, falar da guerra no Sudão, que de resto é tema do artigo publicado, não sei se hoje, se ontem, pelo historiador Bruno Cardoso Reis, nosso convidado desta edição, uma crônica com o título "A Europa manifestou-se por Gaza, porque não pelo Sudão?" Não é este o tema deste gabinete de guerra, antes, a informação de que as Forças de Apoio Rápido do Sudão aceitaram a proposta dos Estados Unidos para um cessar-fogo. A milícia paramilitar do Sudão aceitou uma proposta dos Estados Unidos e também de algumas potências árabes para um cessar-fogo humanitário e afirmaram que estão abertas a negociações sobre a cessação das hostilidades, segundo um comunicado divulgado ontem. Um bom sinal, Bruno Cardoso Reis. Boa tarde.

Boa tarde. Obrigado pela referência ao artigo. No fundo, o ponto é, por um lado, foram os próprios manifestantes de Gaza que abriram um pouco esta questão, ao dizer que é impossível que não haja uma mobilização enorme na Europa quando há massacres, quando há genocídio. Ora, os massacres no Sudão, nesta cidade de Facher, por essas Forças de Apoio Rápido, são de tal ordem que as manchas de sangue são visíveis do espaço, do satélite. Sobretudo, o meu ponto no artigo é que, de facto, não faz sentido estar a exigir à Europa, mas há que ser coerente, que imponha soluções rápidas e fáceis aos 61 conflitos armados que há pelo mundo, que vão muito para além da Gaza ou Ucrânia, que são os mais visíveis, a começar pelo Sudão, mas desde o Mianmar ao Haiti, há múltiplos conflitos realmente pelo mundo. E que, no fundo, há um pouco este paradoxo, que é as mesmas pessoas que são muito críticas do imperialismo, do colonialismo europeu, que veem isso como algo que ainda hoje permite sacar culpas à Europa, têm elas próprias um pouco uma mentalidade neocolonial, no sentido que parece que acham que a Europa pode impor soluções a conflitos armados por todo o mundo, como se isto ainda fosse um mundo dominado pela Europa. Mas, sobretudo, este ponto, que é realmente no caso do Sudão, a situação agravou-se muito, tem-se agravado basicamente desde o reinício da guerra civil, em 2023. Já é a terceira guerra civil. O Sudão desde a independência em 1956, só teve 10 anos de paz. Se eu estou otimista? É melhor do que nada. Mostra que alguma pressão ocidental, mais do que da Europa, eu diria dos Estados Unidos, sobretudo sobre os Emiratos, que é um dos grandes apoiantes deste grupo armado, a par da Rússia, desta Força de Apoio Rápido, podem ter produzido aqui algum efeito, mas as Forças Armadas regulares, que são o outro lado desta guerra civil do Sudão, já vieram dizer que, para já, não aceitam, querem mais garantias. No fundo, há aqui muita desconfiança de que esta Força de Apoio Rápido está com uma certa vantagem no terreno e pode querer aqui um cessar-fogo nesta altura, por um lado, para atenuar as críticas muito fortes que está a receber por causa destes massacres e, por outro, também para consolidar estes ganhos e eventualmente preparar-se para novas ofensivas na zona central do país, que seria o que em termos militares faria sentido na fase seguinte.

O que está na origem deste conflito? É uma lógica do poder, uma luta pelo poder?

Sim, no fundo, o que nós temos aqui é algo que acontece muito em alguns países africanos, que é uma multiplicação de golpes de Estado. O Sudão é um campeão, é o terceiro país em África com mais golpes de Estado, que é o continente com mais golpes de Estado, seis vitoriosos e dezenas de outros. O problema é quando há um golpe de Estado, depois é difícil evitar que haja outros. Ou seja, se quem está no poder, está no poder pela força, por que eu não hei de chegar ao poder pela força e qual é a alternativa quando o que está muitas vezes são regimes autoritários? Portanto, o que aconteceu? Tivemos em 2019 um golpe de Estado contra o anterior líder militar, Omar al-Bashir, que já estava há décadas no poder, liderado quer pelo líder das Forças Armadas, quer por esta Força de Apoio Rápido, no fundo, coligaram-se. Depois, supostamente entregaram o poder às autoridades civis eleitas, mas nunca verdadeiramente. Em 2021, decidiram resolver esta disputa pelo poder, assumindo eles o poder num novo golpe militar, mas, de facto, depois não se entenderam na divisão de lugares, de posições de poder e portanto, em 2023 tivemos uma espécie de golpe falhado e o resultado desse golpe falhado é que como nenhum dos lados venceu, o que temos é uma guerra civil entre esses dois lados, em que a principal vítima é a população civil. Estamos a falar de, pelo menos, 150 mil mortos, para já, 12 milhões de deslocados, desses, 3 milhões no estrangeiro e, portanto, uma situação também de fome, de carência alimentar generalizada.

Como é que é possível que, tendo em conta a dimensão dos números que aqui elencaste, o conflito esteja a passar um bocadinho ao lado do espaço mediático? As Nações Unidas, por exemplo, têm feito o papel que é suposto terem?

Eu penso que, por exemplo, as Nações Unidas podiam ter tentado dar mais visibilidade a este caso, mas a verdade é que, infelizmente, a competição é muita. 2024 foi o ano em que se verificaram mais conflitos armados desde 1945, desde o final da Segunda Guerra Mundial. E depois há este efeito um pouco normal, mas lá está, por exemplo, os maiores militantes da questão de Gaza eram muito críticos disso. É normal que nós nos preocupemos mais, por exemplo, com o conflito na Ucrânia, que é no nosso continente, que afeta mais diretamente os nossos interesses, eventualmente a nossa segurança. E, portanto, é normal que estes conflitos um pouco mais periféricos percam a atenção. Agora, em termos da situação humanitária, realmente o Sudão Dá todas as razões pra ter o máximo de visibilidade, o máximo de atenção. É realmente dos mais graves, dos mais mortíferos. A Ucrânia é realmente o conflito mais intenso, causou mais mortes em 2024 também. Portanto, não é só a questão de ser na Europa. Sobretudo no caso da Ucrânia, são realmente baixas militares, são mortes e feridos militares, mas isso é o resultado do governo ucraniano dar absoluta prioridade a proteger a sua própria população. Eu recordo que a Rússia faz ataques generalizados todos os dias contra os principais centros populacionais da Ucrânia, sem qualquer tipo de pré-aviso, ao contrário do que acontecia com Israel no caso de Gaza. A razão porque isso não causa mais mortes é porque a Ucrânia dá realmente prioridade a construir abrigos, a ter defesas antiaéreas, etc. E também, no seu ataque à Rússia, sobretudo procura alvos bélicos e não alvos civis.

Vamos também falar da Venezuela. Donald Trump está mesmo empenhado em capturar Nicolás Maduro?

Donald Trump diz coisas diferentes dia pra dia. Quer dizer, na última semana ele disse: "Não estou a pensar em invadir a Venezuela", que apesar de tudo é diferente dizer não vou atacar de variadas formas, sem uma invasão em grande escala. Como já comentamos aqui, de facto, o perfil da força, que apesar de tudo já vai nos 10 mil, já passou de 4500 pra 10 mil, não aponta muito realmente pra uma invasão em grande escala, mas num dia diz que não vai atacar, não vai invadir, dois dias depois diz que os dias do presidente Maduro estão a acabar. Portanto, dá a entender que há aqui um objetivo realmente de mudança de regime, é difícil saber exatamente. Aquilo que se pode dizer é que é uma concentração de meios sem precedentes e indica realmente pelo menos uma forte pressão militar sobre o regime e, eventualmente, uma escalada na ação militar, pra além destes ataques contra lanchas do tráfico de drogas, eventualmente pra outro tipo de ataques contra a Venezuela. No fundo, com Donald Trump, a única certeza é a incerteza permanente, vamos dizer assim.

O apoio da Rússia à Venezuela pode contribuir para que este conflito degenere para proporções, porventura, maiores?

Não me parece que a Rússia esteja interessada em arriscar aqui desagradar a Donald Trump seriamente, eventualmente levá-lo até também a avançar com mais apoio militar, com meios, por exemplo, tipo os famosos Tomahawk, se se envolver mais diretamente. Mas realmente a Venezuela está a procurar isso. O regime russo, o regime iraniano, o regime chinês têm sido cruciais pra sobrevivência econômica, para continuar a armar o próprio regime contra a população. Mas eu acho que há limites até que ponto é que a Rússia irá no apoio a esse regime, sobretudo tendo em conta que está muito condicionada pelo conflito na Ucrânia.

A Venezuela e também o Sudão, hoje, na linha do horizonte deste Gabinete de Guerra com o historiador Bruno Cardoso Reis.