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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito e de tensão geopolítica no mundo. Hoje contamos com a análise do tenente-general Marcos Serronha. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite.

Olá, boa tarde. Obrigado.

Vamos começar por falar sobre a guerra na Ucrânia. Volodymyr Zelensky disse hoje em entrevista à CNN Internacional que se os Estados Unidos venderem à Ucrânia 5% a 10% dos mísseis Patriot que estão no arsenal dos Estados Unidos, será suficiente para que a Ucrânia consiga impedir todos os ataques russos com mísseis balísticos. Vamos por partes, tenente-general. A primeira pergunta que lhe faço é: é possível que Donald Trump venda até 10% dos mísseis Patriot que os Estados Unidos têm?

Boa tarde, obrigado pelo convite. Vejamos, possível era. Agora, eu julgo que o presidente Trump não estará interessado nisso por diversas razões. A primeira razão é uma questão interna, naturalmente, porque os estoques de Patriots estão muito em baixo, como sabemos. Os pedidos são muitos e de variados sítios, nomeadamente os países do Golfo Pérsico, o que também é um elemento de pressão forte, como sabemos, junto dos Estados Unidos. E eu já disse, não sei se foi aqui na Rádio Observador, mas já disse aqui há umas semanas quando Donald Trump falou com Putin, que muito provavelmente uma das coisas que Putin lhe impôs sob o ponto de vista de voltar às conversações, era que os Estados Unidos não fornecessem equipamento militar à Ucrânia. Sabemos que às vezes essas opiniões de Putin têm muito valor pra Donald Trump. Aliás, esta conversa entre os dois foi um dia depois do final da Cimeira da NATO, onde Donald Trump fez aquele anúncio com Zelensky que ia dar a possibilidade de fabricar os mísseis. Depois teve aquela conversa com Putin, da qual a única coisa que se sabe foi o que os russos disseram, que queriam voltar aos acordos de ancoragem, onde um dos pontos era os Estados Unidos não fornecerem equipamento militar à Ucrânia. E eu estou mais inclinado que esse será o ponto fundamental da decisão de Donald Trump de nem fornecer, nem autorizar o fabrico. Portanto, julgo que esse é o ponto mais importante. É evidente que os estoques também contam, e ele pode argumentar com os estoques, mas eu acho que no fundo será outra a razão.

A segunda parte desta pergunta é: 10% deste arsenal norte-americano de mísseis Patriot seria mesmo suficiente para que a Ucrânia se tornasse impermeável a ataques com mísseis balísticos? É o que defende Volodymyr Zelensky. Estes mísseis Patriot são assim um reforço tão importante?

Não, ser um reforço importante, são. Que sejam suficientes, também acho que não é bem assim. Esses 5% a 10% poderia ir até, falou-se uma coisa na ordem dos 100 mísseis intercetores Patriot. Vamos lá ver, embora a Ucrânia possa eventualmente fazer aqui uma utilização mais parcimoniosa dos Patriot, mas em princípio, para cada míssil balístico russo seriam precisos dois Patriot, é isso que garante a interceção completa, a capacidade de destruir o míssil no ar. Mesmo que fizessem só um, dava para 100 contra 100. A Rússia está a lançar uma média de 100 mísseis por mês. Portanto, entre as diversas tipologias.

Há quem fale mesmo em 200.

Sim, com mísseis de cruzeiro também. Esses são mais facilmente intercetáveis. Mas pronto, seja aquilo que for, percebemos que esses 100 mísseis Patriot dariam nas hipótese por mês. Que isto é importante? É, porque vamos ver. A possibilidade da Ucrânia ter capacidade de intercetar mísseis balísticos, em especial os mísseis hipersônicos, é um dado importante não só para a manutenção do moral da população ucraniana e das próprias Forças Armadas, especialmente da população, aumentar a capacidade de resiliência, como também era um sinal para a Rússia muito forte relativamente ao apoio dos Estados Unidos à Ucrânia. E aí, julgo que era mais importante, contava mais, era um sinal muito mais forte do que propriamente a capacidade de destruir todos os mísseis, que isso não será possível nos próximos meses, naturalmente. Porque a Rússia está a produzir um estoque de mísseis balísticos com alguma capacidade. Tem a possibilidade de receber o reforço de mísseis da Coreia do Norte. Embora sejam mísseis menos precisos, provocam os seus estragos e têm que ser intercetados também por sistemas antimíssil. Portanto, não era daí que advinha uma segurança completa da Ucrânia em termos da defesa do seu espaço aéreo, nomeadamente sobre a questão dos mísseis. Mas era um sinal do empenhamento dos Estados Unidos relativamente à Ucrânia, e isso era, se calhar, tão importante, não digo que é mais importante do que destruir os mísseis, mas tão importante pelo menos como destruir os mísseis. Mas será uma situação complicada que a Ucrânia vai ter.

Vamos avançar, falar também da situação no Médio Oriente. De novo, a questão em torno do Estreito de Ormuz. Os Estados Unidos asseguram que têm controle da passagem, o Irão desmente, diz que é Teerão que controla a passagem.

Até aí não há novidade nenhuma.

Aí acaba por não haver novidade nenhuma.

Isso é conversa de ambos desde há uns meses.

Mas há agora também, de certa forma, um escalar com o Irão a troçar de Donald Trump e a acusar o presidente norte-americano de informações falsas. Como é que conseguimos perceber, tenente-general, quem é que realmente lidera a passagem?

O Irão já percebeu, sob o ponto de vista da linguagem estratégica, que meteu os Estados Unidos no bolso sob a ponto de vista da sua capacidade de intervenção militar. Já percebeu que para os Estados Unidos virem a ter um desfecho minimamente aceitável sob o ponto de vista estratégico para si próprios, era preciso entrarem numa guerra de alta intensidade e que parece que os Estados Unidos, por um lado, não terão interesse e mesmo sob o ponto de vista das capacidades, há alguma dúvida. Portanto, isto é o que nós podemos falar daquela parábola do rato que está solto, está a olhar para o gato que está preso e goza com ele porque sabe que ele não o pode atacar. É um pouco esta a imagem que temos neste momento.

E se o gato se solta, tenente-general?

O gato para se soltar, e pode soltar-se, naturalmente, mas é preciso tomar uma atitude sob o ponto de vista estratégico que não está em linha com aquilo que Donald Trump quer. O que não quer dizer que isto não venha a ter que acontecer, porque o que nós estamos aqui a assistir é uma guerra que não vai ter fim, cujo único fim possível sob o ponto de vista do fim da guerra, de acabar com o conflito, terá que ser ou um acordo que seja aceitável para as duas partes, naturalmente. E isso vai ser muito difícil, porque o antagonismo é grande relativamente à questão nuclear e à questão do controle do estreito. Como os Estados Unidos, para terem um desfecho aqui estratégico confortável para os Estados Unidos, vão ter que fazer uma operação militar de outras dimensões. E portanto, esta guerra o que vai acontecer é que vai manter uma intermitência, não sabemos até quando, e das duas uma: ou os Estados Unidos, no fim disto fazem como fizeram noutras alturas, no Afeganistão, na Segunda Guerra do Golfo, ou do Vietnã, que é pior, naturalmente, aí foi uma derrota militar, não houve dúvida nenhuma, e retiram e deixam a situação com uma derrota estratégica, ou vão ter que fazer uma operação militar mais robusta em algum ponto mais à frente. Este contínuo de conflito com mais ou menos intermitência das operações militares e sem um desfecho previsível, se for para acabar com a guerra, eu julgo que os Estados Unidos terão que ter aqui uma situação muito desfavorável para eles. Ou continuam esta situação de conflito e mais à frente poderão construir um outro tipo de apoio e de coligação no sentido de tentar resolver o problema. Não estou a ver nenhum desfecho favorável neste momento. O Irão, neste momento, a única coisa que tem contra ele é a questão económica e o bloqueio do estreito, que os Estados Unidos podem continuar. Também é uma questão que eu julgo que os Estados Unidos não descartam. Isso não é bom para a economia, mas esta gestão que o presidente americano tem feito relativamente à alta e à baixa dos preços do petróleo e das ações, pode continuar a fazê-la e essa tem efeitos sobre o Irão, sobre isso não tenho dúvida. Se é suficiente para colapsar o regime, muito provavelmente não.

E é com essa ideia que terminamos o Gabinete de Guerra de hoje com a análise do tenente-general Marco Serronha.