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Começa agora o Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta segunda-feira. A análise é do Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.

Olá, Maria João, bom dia.

Olá, Miguel. Nicolás Maduro vai ser ouvido hoje em tribunal nos Estados Unidos. Miguel, o que esperar deste julgamento que acontece no mesmo dia em que Delcy Rodríguez toma posse como presidente interina da Venezuela e que já anunciou a criação de uma comissão para libertar Maduro e a mulher?

Nós não podemos esperar grande coisa deste julgamento. Eu acho que este julgamento já está mais ou menos pré-definido. E já sabemos mais ou menos qual vai ser a sua conclusão. Os Estados Unidos e principalmente o presidente dos Estados Unidos vão aproveitar este julgamento para mandar algumas mensagens, que é primeiro de que os Estados Unidos não têm medo de entrar num país independente, num país terceiro, de retirar ilegalmente o seu presidente e julgá-lo. Neste caso, isto não foi uma operação militar, e é isso que continuam a dizer, que não é uma operação militar, mas uma operação policial, muito próxima daquilo que foi em 89 com Manuel Noriega, que é efetivamente ser considerado um narcoterrorista e ter praticado esses crimes em solo americano por razão da morte dos americanos por consumo de drogas. Mas dizer também a outros países da América do Sul e também à volta do globo, digamos assim, de que os Estados Unidos têm esta capacidade e que Donald Trump não tem absolutamente medo nenhum de impor a força ou de utilizar a força para impor aquilo que são as suas ideias. Aqui, vamos ser francos, a questão não é o narcoterrorismo e não é a questão do narcotráfico no seu sentido mais estrito, porque em 89 foi exatamente a mesma coisa. Naquilo que é o chamado quintal norte-americano, não pode haver líderes que estão contra aquilo que é a linha política norte-americana. E isso era uma coisa que a Venezuela, através de Hugo Chávez e também de Maduro, estavam lá, sabendo nós a proximidade que a Venezuela tem com a China e com a Rússia. A presidente interina toma hoje posse.

E a quem Trump já deixou um aviso, diz que vai pagar mais caro que Maduro se não fizer o que deve. É mais uma ameaça, não é?

Essa é mais uma ameaça, que é a questão. Vai utilizar um expediente da Constituição dizendo que existe a incapacidade material de Maduro utilizar agora. Não foi decretada nenhuma das cláusulas, nenhum dos artigos que está na Constituição, permitindo quase ad eternum que ela se mantenha durante o final do mandato, sendo que depois poderá ser ainda reivindicada a chamada lei marcial, se a Venezuela entrar em estado de guerra, o que também suspende a data das eleições. Agora, o que nós vamos ter aqui? Vamos ter, de um lado, Donald Trump a tentar impor a sua vontade através da política. Marco Rubio ontem já veio dizer que Donald Trump não vai ser o presidente da Venezuela e vão tentar que este regime aceite a presença e o ditame dos Estados Unidos. Mas aqui temos um problema muito grande e com isto termino, é que o governo da Venezuela está muito dependente daquilo que é o narcotráfico e o que são as organizações também presentes na Venezuela. E não vamos imaginar que tudo o que se está a passar na Venezuela, tudo o que acontece em vários estados e várias regiões que são governadas por narcotraficantes, vão simplesmente abrir a porta e receber os Estados Unidos. Existe um problema sério de guerra civil, existe um problema sério de os Estados Unidos terem mesmo que fazer aquilo que Donald Trump disse, que é a segunda vaga. Não sei se é com boots on the ground, como aconteceu em 89 no Panamá, ou se será com ataques estratégicos.

O que é certo é que depois da Venezuela, a Colômbia pode estar na mira de Donald Trump, que disse que soa bem a ideia de levar a cabo uma operação militar na Colômbia. Também Marco Rubio deixou um aviso a Cuba, disse: "Se vivesse em Havana e fizesse parte do governo, estaria preocupado". E volta também a falar-se da Gronelândia. Miguel, Trump não vai parar. Ele que, com a detenção de Maduro, passou de fato uma mensagem clara, que há pouco falavas, de que está disposto a usar a força para dominar, para controlar países e eventualmente ocupá-los.

Exato. Veja só o que ele ontem diz no Air Force One. Ontem, no Air Force One, quando é perguntado novamente sobre esta questão da Colômbia, ele diz que a Colômbia é governada por um homem doente, a sick man. Pode ser sick man em termos de estar doente, mas também sick, neste caso, no sentido de ser um homem louco, digamos assim. E isso pode acontecer. Qual é a questão? Se a Colômbia não afinar pela música tocada pelos Estados Unidos, apesar de nós termos agora eleições em março, os Estados Unidos podem se sentir tentados, efetivamente, a fazer a mesma coisa, a declarar que o presidente colombiano é um narcoterrorista, declarar que a Colômbia é um narcoestado e fazer esta intervenção novamente. Não esquecer que o Chile tem um novo presidente eleito, que é pró-Trump, não esquecer que a Bolívia também se declarou pró-Trump, não esquecer que a Argentina. Ou seja, começa a haver ali um movimento de pinças dentro daquilo que é o quintal político dos Estados Unidos, a chamada Doutrina Monroe, ou seja, a América para os americanos, mas para os americanos no sentido de controle. E falta-nos aqui um elemento Nós temos em outubro as eleições brasileiras e nós vamos ter, de certeza, não uma intervenção militar no Brasil, isso eu descarto completamente.

Mas uma interferência.

Mas vamos também ter uma interferência política americana directa na eleição dos Estados Unidos. A ideia é capturar a América do Sul para estar completamente do lado de Trump, fechando aquilo que é o comércio e as grandes relações económicas que a China tem com a América Latina. 36% da alimentação consumida na China vem desta região do globo.

Para hoje, Miguel, há também reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, uma reunião de emergência para discutir o ataque norte-americano que fez mais de 30 mortos na Venezuela. O que deve sair daqui quando sabemos que muitos países temem Donald Trump?

Eu acho que as Nações Unidas estão feridas de morte há muito tempo, e também por culpa do seu secretário-geral, por algumas posições que foi tomando e que criou feridas difíceis de sarar. Não me parece que haja grande coisa, porque veja, nós vamos ter a China, que vai fazer aqui um papel quase de vitimização e vai utilizar as suas declarações hoje no Conselho de Segurança, até porque a China é um dos cinco membros permanentes, e que vão no sentido de condenar. A Rússia vai fazer a mesma coisa. Mas nós sabemos que a Rússia de certeza que sabia, em parte, da operação. E depois daquela reunião estranhíssima do Alasca, eu estou desconfiado de que houve aqui mais uma.

Sabemos pouco, não é? Pois.

Sabemos pouco, mas se calhar há aqui um novo tratado de reduzidas de divisão do mundo, ou seja, a Rússia deixa de interferir na América Latina, nomeadamente na Venezuela, e faz aquele papel de: "Ah, não, mas eu condeno muito isto", e os Estados Unidos estão a aplicar o mesmo na Ucrânia. Portanto, eu acho que vai haver algum ruído, vai haver condenações, vai haver um apontar de dedo, vai haver um condenar, e isso é óbvio, da fragilidade em que se tornou o direito internacional e das constantes violações, mas a China também está com o olho em Taiwan há mais de 80 anos e a Rússia também fez a agressão à Ucrânia. Vai ser só mais um dia de retórica política, mas ao final não vai trazer nada e não vai alterar nem aquilo que Donald Trump quer fazer e muito menos vai dar paz de espírito, digamos assim, à Venezuela. Este governo mantém-se na Venezuela, este governo está activo, o que significa que cortou-se a cabeça do presidente da Venezuela, digamos assim.

E Edmundo González tem alguma hipótese, Miguel?

Não, neste momento não tem, nem ele nem Corina. E por quê? Porque não controlam território, porque não controlam nenhuma facção do exército, porque não têm uma milícia militarizada, porque não controlam nenhuma instituição governamental. E como não controlam, como não têm capacidade de alguma forma forçar o regime a mudar, são uma carta fora do baralho nesta fase. A fase deles será uma terceira fase, que é a fase em que eu considero que é a transição para a democracia, com eleições marcadas. E aí, sim, poderão aparecer como um elemento agregador da oposição e fazer essa transformação. Mas neste momento, não. Neste momento, sim, os olhos estão todos virados para a vice-presidente, porque Donald Trump acredita que o governo vai seguir as indicações dos Estados Unidos e basicamente vai fazer o que os Estados Unidos querem. Eu creio que não. Eu creio que nós vamos olhar aqui, mais dia, menos dia, na necessidade de haver uma segunda vaga. E temos aqui uma situação muito complicada: é que nem o exército, nem o governo, nem as milícias, nem os grupos dos chamados cartéis, dos narcotraficantes, vão aceitar a ingerência dos Estados Unidos e nós poderemos mesmo assistir a uma guerra civil na Venezuela.

Miguel Baumgartner, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Bom dia e boa semana, Miguel.

Igualmente, obrigado.