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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise é do Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.
Olá, Maria João, bom dia.
Olá, Miguel. Está fechado o acordo entre Estados Unidos e Irão. Trump já anunciou a reabertura do Estreito de Ormuz, mas, Miguel, ainda nada foi assinado. A cerimônia oficial está marcada para sexta-feira na Suíça. Mas esta pressa de Donald Trump em cantar vitória e mandar os navios ligarem os motores em Ormuz não é um passo em falso, sabendo que a trégua no Líbano continua a ser violada diariamente e que o Irão não aceita assinar o papel se Israel continuar a fustigar Beirute?
Nós sabíamos duas coisas aqui que eram importantes para Donald Trump. Primeiro, era importante que ele anunciasse esta vitória no dia do seu aniversário. É uma questão de ego e é uma questão daquilo que é a figura de Donald Trump e nós sabíamos isso. Sabemos também que o Irão, de forma inteligente, foi negociando e foi negociando os pontos que lhe interessavam, nomeadamente a liberação dos fundos que estavam bloqueados e o levantamento de sanções eram importantíssimos, que se conseguisse negociar e que estivessem presentes neste plano. Fala-se de 14 pontos, nós olhamos para os 14 pontos, não são muito diferentes daquilo que foram os 14 pontos apresentados há alguns meses atrás por parte dos negociadores, nomeadamente aquilo que o Paquistão nos veio dizer. Agora sabemos que existe aqui uma fragilidade neste acordo para o memorando de entendimento, porque aqui é que está a grande diferença. Nós não temos um acordo de paz e apesar daquilo que vocês estavam a falar há pouco, da situação de que os mercados estão a ver isto de uma forma positiva, a baixar o preço do petróleo, tudo isso é importante para a economia internacional e também é importante para o Irão, porque o Irão precisa realmente dos fundos congelados para reforçar a sua economia que está numa situação complicada. Agora, o maior desafio de tudo isto é como é que Donald Trump, e a mim parece-me difícil, porque eu acho que Donald Trump perdeu a mão e perdeu o controle daquilo que é o seu parceiro no Médio Oriente. E nós ainda não ouvimos uma única linha desde ontem à noite por parte de Israel.
Verdade.
Mas ouvimos aquilo que Israel nos disse durante toda a outra semana, que era um acordo com os Estados Unidos não implica um acordo com Israel. O processo, quer na questão do Hamas, quer na questão do Hezbollah, não está terminado e vai continuar, e Israel tem a sua própria agenda. O maior desafio de Donald Trump vai ser como é que os Estados Unidos vão controlar o seu parceiro na região, que é Israel, e como é que Israel vai se comportar relativamente à questão deste acordo. Parece-me que vai ser difícil, parece-me que nós vamos talvez voltar outra vez a este ponto da situação em que o Irão possa nos dizer, e até depois de ter recebido até parte do dinheiro que possa vir a ser libertado, que o Irão volte a dizer que o Estreito está encerrado ou que se vai retirar da mesa das negociações, porque como dizia ontem o líder do Parlamento iraniano, o cão raivoso, que era assim que ele identificava Israel, põe em causa, efetivamente, o acordo entre os Estados Unidos e o Irão. Portanto, vamos ter que aguardar. Mas agora é tudo muito preso por arames, se me permite a expressão, e caminha tudo sobre um gelo muito fino que pode quebrar a qualquer momento. Donald Trump não quer, mas pode quebrar.
Sobre o nuclear, supostamente a razão para tudo isso ter começado, o acordo prevê que o Irão não produza nem compre armas nucleares. Urânio enriquecido será enviado para outro país. É suficiente?
Aparentemente, é suficiente para Donald Trump. Donald Trump saiu do chamado JCPOA, que era o acordo Barack Obama de 2015.
Que terminava em 2030, não é?
Exato. E ele acabou em 2018 dizendo que era o pior acordo possível, mas curiosamente Barack Obama ontem à noite veio dizer que este acordo não deve estar muito longe daquilo que era o modelo do JCPOA. E eu também acredito que não. Acredito é que haja ali um hiato temporal, se calhar não de cinco anos, mas talvez de 10 anos, ou de 15, em que diz que o Irão está proibido de produzir qualquer urânio enriquecido, mesmo para uma questão civil. Agora, as promessas do Irão nós já conhecemos, inclusive existe uma fatwa, que é uma lei religiosa do próprio Irão, a determinar o uso não nuclear do urânio enriquecido e a declaração de que o urânio é para civil e que efetivamente o Irão reconhece o acordo de não proliferação de armas nucleares. O Irão sempre sublinhou isto, portanto também não é nada de novo, o que significa que, permite-me aquela expressão portuguesa que diz que se calhar andamos aqui a trocar seis por meia dúzia e vamos acabar com um acordo muito parecido com aquele que era o acordo Barack Obama.
Poucas horas depois de Trump ter anunciado o acordo com o Irão, a Rússia lançou uma nova vaga de ataques sobre a Ucrânia. Pelo menos nove pessoas morreram, há dezenas de feridos. Kiev e Kharkiv foram as cidades mais atingidas. E a pergunta que se impõe, Miguel, é se Putin quis enviar um recado direto a Donald Trump. No fundo, dizer ao presidente norte-americano que tem pressa em fechar um acordo ainda este mês, que os termos e o calendário do fim da guerra na Europa são decididos pelo Kremlin, e não pela vontade de Washington.
Eu acho que sim, eu acho que pode ser entendido como uma mensagem para muita gente, uma mensagem para Donald Trump, mas acima de tudo, uma mensagem para a Europa e para Zelensky. Cabem lembrar que na sexta-feira passada nós tivemos três enviados por parte da Europa, o embaixador da França, do Reino Unido e da Alemanha Que estiveram reunidos com o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros. Não sabemos muito dessa reunião, mas sabemos que era efetivamente sobre a questão ucraniana. Agora, o que nós sabemos é que existe, por parte de Vladimir Putin e de Volodymyr Zelensky, uma intenção enorme de começar a fazer esta guerra em profundidade, não mais estar só concentrado na linha da frente, mas fazer esta guerra em profundidade para tentar efetivamente criar brechas naquilo que é a resistência de cada um dos países. Obviamente que nós não estávamos habituados a ver estes ataques maciços a Kiev, estávamos habituados muito mais a ver aquilo que se passava na linha da frente. Agora, esta tentativa de Putin é desgastar a população ucraniana, é criar uma fadiga de guerra, é criar um movimento também, principalmente aquilo que já se sabe, uma tentativa de um aumentar da escalada durante o verão, nomeadamente uma grande tentativa mesmo de quebrar as barreiras e a resistência da Ucrânia, quer seja na linha da frente, quer seja também a resistência dentro de portas. Sabemos que este avanço é importante durante o verão para que depois do verão, e esta é a minha perspectiva, Putin aceite sentar à mesa, mas que chegue à mesa reforçado, que chegue à mesa numa posição de superioridade. A partir do momento que a Ucrânia conseguiu estancar os avanços da Rússia na linha da frente, que temos uma linha da frente praticamente congelada de parte a parte, e que financeiramente a Ucrânia continua a ter capacidade de se financiar através da União Europeia e que tem agora capacidade de infligir aqueles ataques dentro de portas na Rússia, quer seja através dos drones, quer seja através dos mísseis balísticos, a Rússia precisa de responder para quando sentar à mesa das negociações, não vir de uma forma enfraquecida. E é a isso que estamos a assistir.
Miguel Baumgart, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra da Semana. Obrigada.
Igualmente. Obrigado.