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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360, esta quinta-feira com análise do coronel José Carmo. Bom dia, bem-vindo e obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Olá, bom dia.

Bom dia. Os enviados de Donald Trump para a guerra na Ucrânia vão voltar a reunir com a equipe de Zelensky, na Flórida. O encontro acontece depois da ida da delegação norte-americana a Moscovo, que para Trump correu muito bem, apesar de não haver acordo. Coronel, vamos continuar nisto, o que esperar deste encontro na Flórida?

Sabe-se pouco, mas o que se sabe do que se passou em Moscovo é que a Rússia manteve inalteráveis e sem vacilar as suas pretensões maximalistas. Trump, pelos vistos e pelas declarações dele, continua a acreditar na boa fé de Putin, há ali uma certa empatia dele com Putin, o que o leva a aceitar ou acreditar naquilo que ele diz e na sua vontade de, de facto, fazer a paz. E o que irá acontecer na Flórida é mais uma vez colocar a Ucrânia perante a espada e a parede, no sentido em que a América irá reafirmar quais são os pontos que Putin não abdica. E, no fundo, são aqueles pontos em que a Ucrânia também não pode abdicar. Ou seja, temos uma situação em que uma parte pretende alcançar objetivos que a outra parte considera existenciais e, portanto, não há maneira se não houver uma cedência. E de quem é a cedência aqui? A única cedência lógica, justa e razoável, e até utilitária, mesmo para a Europa e para os Estados Unidos, é que a Rússia abdique de coisas que não estão na ordem internacional atual. Ou seja, são coisas que alteram completamente a ordem internacional atual, que é adquirir território pela força, impor a vizinhos uma espécie de suserania. Isso é o que a Rússia pretende e a Ucrânia não pode aceitar, porque a Ucrânia pretende ser um Estado soberano e não irá fazer de outra maneira. Terá que lutar até o fim.

Entretanto, Emmanuel Macron já esteve com o presidente chinês. O objetivo desta visita à China é tentar corrigir o desequilíbrio comercial com a Europa e pressionar Xi Jinping a usar as relações que tem com Vladimir Putin para pôr fim à guerra na Ucrânia. Coronel José do Carmo, a intenção é boa, mas parece-lhe que o líder chinês possa de alguma forma ceder no apoio a Moscovo?

Não, a China está no melhor dos mundos. A China está, neste momento, num mundo em que continua a ganhar dinheiro com a Rússia. A Rússia é mais barata, continua a vender para a Rússia uma série de coisas, bens de uso dual, que são usados depois nas armas e nos equipamentos russos. E, por outro lado, tem uma Rússia que é um competidor vizinho e com o qual há até alguns desacordos e disputas territoriais, e tem a Rússia a colocar-se basicamente sobre o abrigo da China, que passa a ser outra vez o Império do Meio, ou seja, todos os vizinhos vão ali buscar a batatinhas à China. Então a China está no melhor dos mundos, porque continua a vender para a Europa, continua a vender para o mundo e tem uma relação privilegiada com a Rússia, em que a Rússia fica cada vez mais sob as ordens ou o controle ou a influência chinesa. Neste momento, a Rússia já teve que emitir dívida na China. A China está no melhor dos mundos, só tem vantagens nisto. Consegue que os seus aviões passem por cima de tudo. Não tem barreiras de fronteiras em que os aviões europeus ou americanos têm, não podem passar por certos territórios. A China consegue ir a todo lado. A China entra facilmente neste mundo. E ele só será posto em causa se houvesse uma ação concertada do mundo ocidental para colocar alguns condicionantes à China, o que também não parece que irá fazer nos próximos tempos, porque a situação não o permite.

Sim. Entretanto, as Nações Unidas adotaram uma resolução que exige o regresso imediato, seguro e incondicional das crianças ucranianas que foram transferidas à força ou deportadas para a Rússia. Coronel, que força tem esta resolução junto do Kremlin? É obrigado?

Não, as Nações Unidas não conseguem impor nada, muito menos à Rússia. À Rússia ou a qualquer membro. Note que isto é uma resolução da Assembleia Geral, não são resoluções vinculativas. Aliás, uma resolução dessa nunca seria aprovada no Conselho de Segurança, porque a Rússia obviamente iria vetar. É simbólico, marca uma posição, mas não tem qualquer influência na Rússia. Aliás, a Rússia está a pôr-se completamente acima da ordem internacional baseada em regras e não é uma resolução das Nações Unidas que irá condicioná-la de modo nenhum. Fica apenas como uma referência moral, uma tomada de posição moral, não passa disso.

Uma pesquisa realizada em nove países europeus, incluindo Portugal, e que é notícia no The Guardian, diz que quase metade dos europeus considera Donald Trump um inimigo da Europa. Um número ainda maior diz que o risco é alto de entrarmos em guerra com a Rússia e mais de dois terços acreditam que os seus países não seriam capazes de se defender em caso de guerra. Coronel, são dados muito revelantes do estado de espírito na nossa Europa?

Sim, e no fundo, não foge muito à verdade. Ou seja, os Estados Unidos estão a tomar posições que põem objetivamente em causa a aliança NATO, a aliança ocidental, o fundo do Ocidente, com a sua própria cartilha de valores civilizacionais, etc. A América está a tomar atitudes, mas para a América, diga-se de passagem, a política americana no exterior sempre foi ditada por certos valores, certos imperativos geopolíticos, e estas decisões desta administração estão efetivamente a pôr em causa tudo isso. E, no fundo, acabam por isolar a América na sua ilha grande. E a América sempre foi visto ou sempre foi entendido por quem percebe disto que não iria sobreviver numa competição global se isolasse lá no seu continente. Estas posições não parecem vantajosas para a América, não são vantajosas para a Europa. A NATO ainda tem uma certa capacidade dissuasória perante a Rússia Mas esta clivagem, este divórcio que se está a criar entre os Estados Unidos e a Europa, como se a Europa fosse apenas um aliado como qualquer outro, e não é. Há ali uma partilha de valores e há ali uma partilha também de interesses, e está por em causa isso. E a Rússia poderá até ser tentada a testar a solidez dessa aliança. Por exemplo, se a Rússia enviar um míssil, até pode ser por engano, um míssil de cruzeiro que se desvie eventualmente e vá parar a Varsóvia ou a parar ao pé de Berlim, não há capacidade de resposta desses países. Esses países não têm meios que também levem ao desvio de um míissil, digamos assim, para perto de Moscovo. Não têm esse tipo de mísseis. Porque foram respeitando os acordos, quem tem são os Estados Unidos. Se mesmo falamos de armas nucleares, os países da Europa, tirando a Inglaterra e a França, que têm alguns meios de dissuasão, não têm capacidade nuclear e a Rússia pode ameaçá-los a qualquer momento. Isso pode acontecer.

Sobre o Médio Oriente, Trump diz que o cessar-fogo em Gaza continua e diz que a fase dois deve começar em breve. São declarações depois do confronto em Rafah, que deixou cinco militares israelitas feridos, e também depois do ataque israelita em Khan Yunis, em retaliação, que resultou em seis mortes, incluindo crianças. Coronel José do Carmo, perante este cenário, falar em fase dois faz sentido ou é Trump a ser Trump com o seu habitual excesso de otimismo?

Trump tem ali uma medalha, porque conseguiu a paz e essa paz depois tem alguns dividendos também nas relações com países como a Arábia Saudita e países árabes, nos quais também há negócios a fazer. Agora, de facto, o que se passa em Gaza é que em Gaza, neste momento, o Hamas também não desarmou, as coisas ainda não avançaram. Já lá vão dois meses, quase, e não há nada de novo. Os reféns, vão lá ver se já foram todos entregues ou não, ainda se está a investigar isso, mas neste momento, o que está é uma parte de Gaza controlada por Israel, por detrás da linha amarela, e outra parte controlada pelo Hamas. Há uma ideia de que, mesmo que não se desarme o Hamas, todas aquelas medidas de reconstrução, de apoio, irão apenas para a parte que está controlada por Israel, por detrás da linha verde. E o Hamas ficará naquela zona de ninguém. Basicamente, é isso que se pensava que se ia fazer, porque não há mais ninguém capaz de desarmar o Hamas. Não foi Israel, não há ninguém que vá lá meter tropas para desarmar o Hamas, ninguém irá combater o Hamas para o desarmar. Poderá haver aqui uma divisão de Gaza factual, não de direito, mas factual, em que uma parte se irá desenvolver, a tal metáfora da Riviera, será a parte controlada neste momento por forças israelitas, mas que poderão deixar de o ser a qualquer momento. E a parte que é o coração das trevas, ali no centro de Gaza, onde tudo irá continuar sob controle do Hamas e, portanto, sem apoios, com aquela miséria.

Duas realidades, não é?

Sim, é para isso que se caminha. Aliás, há pressões justamente para que Israel comece a aplicar essa parte da reconstrução na parte que controla.

Sim. Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise no Gabinete de Guerra. Bom final de semana.

Obrigado.

Obrigada, bom dia.