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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de atenção geopolítica. Hoje contamos com a análise de Ana Miguel dos Santos, especialista em segurança e defesa nacional e internacional. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Vamos começar por uma das notícias que está a marcar o dia: o avião da Flydubai, que seguia do Dubai para Telavive e que teve de aterrar de emergência na Arábia Saudita, depois de o copiloto ter esfaqueado o piloto. O ministro da Defesa israelita, Israel Katz, já veio dizer que o atacante tinha uma intenção clara: derrubar o avião com toda a gente a bordo e afirma também que foi uma tentativa de ataque terrorista jihadista. Que leitura é que faz deste incidente? Foi, de facto, uma tentativa de um ataque terrorista?
Antes de mais, muito boa noite aos ouvintes e a ti, Laura. Obrigada pelo convite. Isto, antes de mais, representa um escalar da ameaça e das tensões que já existiam. Sem dúvida daquilo que nós ouvimos, não temos margem para duvidar da existência de um ataque e de um atentado. Saber se, e é aquilo que falta confirmar, as ligações deste piloto ou deste copiloto a estas organizações, agora é certamente aquilo que está a ser apurado. Naturalmente, partimos de um pressuposto, que é um pressuposto real, de acordo com as informações que a administração israelita tem. Naturalmente, é daí que parte a sua análise e, portanto, agora nos próximos dias vamos também receber essa confirmação. Mas aqui acabamos por encontrar, no fundo, uma expansão. A confirmar-se essa declaração do ministro israelita, está cada vez mais a externalizar-se a ameaça e, portanto, os meios utilizados e a forma de tentar fazer pressão sobre o governo israelita e ao avançar militar de Israel, naturalmente, é utilizar outros mecanismos que causem esse impacto e essa ferida e que procurem o medo. Porque a partir do momento em que nós temos uma ameaça, isto faz-nos recuar um bocadinho a 11 de setembro. Estamos a entrar outra vez nas aeronaves civis e numa forma de atacar não só israelitas, porque não iriam só israelitas lá dentro do avião, mas externalizando, sem dúvida, a ameaça e o ataque.
A Rússia enviou hoje uma ameaça à NATO, num documento conhecido hoje. Moscovo avisou que se a Aliança Atlântica tentar isolar o enclave russo Kaliningrado, que faz fronteira com a Polónia e com a Lituânia, a resposta do Kremlin será devastadora. Neste mesmo documento, Moscovo acusa a Aliança Atlântica de seguir um caminho perigoso e irresponsável, avisando que pode levar ao início de um conflito armado direto entre a Rússia e os 32 estados-membros. Antes de olharmos para o tom das ameaças de Moscovo, vale a pena só tentar contextualizar para quem nos ouve, qual é que é exatamente o valor estratégico e militar de Kaliningrado no Báltico?
É exatamente isso, é estratégico e é muito disputado e, sobretudo, tem sido alvo de uma forte disputa, não apenas pelos recursos existentes, mas é um enclave e, portanto, permite passagem estratégica entre países, entre forças e entre até espaços econômicos. Mas eu diria que é mais importante nós olharmos para aquela que é a ameaça de Putin. Eu acho que estas duas guerras têm nos ensinado muito sobre aquilo que é a bipolaridade da guerra. Sobretudo, nós olhando para estes dois conflitos com a lente do século XXI, é absolutamente até disruptivo, porque nós estávamos habituados a este nível de discursos muito rápidos, de conflito armado, da linguagem da guerra, da linguagem da força. Qual é, para mim, o grande terror disto? É exatamente o dilema mais estudado em segurança internacional, que é o dilema da segurança, porque é exatamente o paradoxo que vem. Ou seja, entre mais capacidades, o escalar do discurso e do nível de projeção daquilo que é o teu plano estratégico em termos de ataque ou de defesa, e o que isso vai impactar no outro. Portanto, nós estamos a ver dois atores que estão exatamente a escalar, sendo certo que, naturalmente, os países da NATO têm sido mais contidos, procurando atacar mais a Rússia, mostrando que nós estamos preparados para defender, não querem atacar. Enquanto que Putin tem sido mais bipolar. Nós, na semana passada, ouvimo-lo a dizer que não queria abrir nenhuma guerra com nenhum país da NATO. Agora já fala dessa parte. Isso também tem a ver muito com o tipo de guerra que nós estamos a assistir na Ucrânia, uma guerra de atrito, em que tu tens um E aqui regresso à questão de Kaliningrado. Tu conquistas uma parte significativa do território, vais conquistando, mas depois o grande problema é manter a soberania, o poder e o controle dessa parte territorial. E as notícias que vamos recebendo é que, de alguma forma, a Ucrânia também vai conseguindo recuperar uma parte do território. Depois tivemos as eleições na Rússia, em que Putin fez questão de, através do ato eleitoral, mostrar controle e soberania por territórios ocupados. Portanto, é tudo muito confuso e isto torna-se ainda mais perigoso, sobretudo para países democráticos como nós, na Europa, que não estão preparados para aguentar. Não temos a resiliência e a serenidade suficiente para interpretar este tipo de ataques. Agora, é evidente que nenhuma ameaça pode ser subvalorizada ou desvalorizada por este lado, naturalmente. Vai ser muito difícil encontrares nos próximos tempos, um desescalar desta guerra.
Mas como é que a NATO deve responder a esta ameaça, se é que deve dar algum tipo de resposta?
Se nós fôssemos olhar e fôssemos ser puristas, a NATO já tinha argumentos, os países da NATO, até pelo nível de intrusão que já tem existido em territórios NATO, já existiam argumentos suficientes para ripostar. Para ripostar, naturalmente, responder. O comportamento de todos os países da NATO e da União Europeia tem sido, apesar de que desde o início tem sido não permitir um grande envolvimento de material, de armamento ocidental, não só americano, como de alguns países europeus, naturalmente, em território russo. Entretanto, com Donald Trump, isso foi permitido. A Ucrânia conseguiu entrar no território russo e começar a desequilibrar no coração da Rússia, em Moscovo. Isto cria, naturalmente, uma posição de maior vantagem, traz mais vantagem à Ucrânia, naturalmente, e outra possibilidade de resposta. Agora, há ainda a perceção/responsabilidade dos países europeus em sentir que quanto mais tu apoiares, quanto mais tu elevares e aumentares o teu discurso, naturalmente estás a contribuir para a escalada da guerra. Ainda existe muito esta perceção, ainda se quer conter muito, controlar, mas dentro da União Europeia, sobretudo, existe essa diferença entre os países do leste, que estão mais próximos da ameaça, que vivem no mesmo contexto histórico, que têm essa partilha de emoções, de sentimentos, de ódios, de feridas antigas, que estão a exercer maior pressão. E tu começas a notar alguma discrepância entre aquele que é o discurso dos países mais próximos, dos dirigentes dos países mais próximos da ameaça, o caso da Polónia, da Lituânia, da Estónia, mais esses países. A questão também da Alemanha, com um discurso muito mais preponderante, os nórdicos, e nós aqui mais para cá a tentar moderar, mais contidos, naturalmente estamos mais longe da ameaça. E começas a sentir esta pressão e este desnível. Ainda por cima, a acrescer a tudo isto, vamos ter períodos eleitorais na Europa que vão ser significativos e vão, de alguma forma, marcar o tipo de resposta que vamos observar nos próximos tempos. E isto vai criar, naturalmente, alguma clivagem naquelas que vão ser agora as decisões, a partir desses atos eleitorais. Naturalmente, eu penso muito na questão francesa, que é uma questão crítica.
Só para percebermos, está a falar da extrema-direita, da direita radical, e o crescimento.
Exatamente. E sobretudo, que não está só ligada à questão da guerra, está ligada a fatores económicos, a fatores migratórios, a um conjunto de circunstâncias que têm afetado o equilíbrio europeu tal qual o conhecíamos e que são, naturalmente, e este é sempre o perigo de quem estuda ou de quem trabalha estas matérias de segurança, é que acabam sempre por ser utilizadas, politizadas pela extrema-direita e extrema-esquerda. E não se encontra aqui a moderação necessária para se falar destes temas que são tão importantes para o ser humano, para qualquer um de nós. O valor da segurança, associado à ideia de sobrevivência, é algo que é inato. Nós não pensamos muito nisso, porque já está muito automatizado, faz parte do nosso instinto para a sobrevivência. E isto cria uma clivagem entre aquele que é o discurso político dos mais moderados e aquela que é a sensação muito silenciosa que cada um de nós vai tendo. E essa clivagem torna-se mais perigosa, porque depois estes discursos são muito, de alguma forma, saqueados, usados, digamos assim, controlados só pelos mais fundamentalistas. E isto é muito perigoso e distorce, naturalmente, aquela que deve ser a análise crítica da segurança.
Entretanto, também hoje o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, disse que os Estados Unidos estão a combater a capacidade nuclear do Irão porque a Europa não tem possibilidade de o fazer, mas garantiu que daqui a uma década o continente europeu já terá essa capacidade. Mark Rutte assumiu aqui de forma invulgarmente direta esta dependência europeia dos Estados Unidos para conter a ameaça nuclear iraniana. Ao projetar essa capacidade europeia apenas para daqui a uma década, a NATO está a admitir uma vulnerabilidade crítica no atual xadrez de segurança global, ou estará, por outro lado, a enviar um recado claro de aviso aos aliados europeus para acelerarem o investimento na defesa?
Sim, Mark Rutte tem sido muito acusado e até criando aqui alguns constrangimentos e desconfortos por parte dos líderes europeus, porque tem sido muito pró-Trump e tentando fazer o equilíbrio muitas vezes difícil, porque é evidente que os Estados Unidos têm um peso preponderante na NATO, ninguém esconde isso. Sobretudo na questão do nuclear, a França mantém a sua soberania, está fora desta defesa conjunta, portanto tem uma análise diferente. O grande tema aqui é: Mark Rutte consegue, nessa frase, de alguma forma justificar a invasão do Irão, o ataque do Irão, e que justifica impondo já uma opção de escolha para os europeus pelo nuclear. Portanto, traz aqui nesta sua declaração, esta dupla imagem, mantendo-se muito pró-americana e tentando, naturalmente, justificar. Não sei bem como é que vai ser recebida essa reação, mas mesmo que todos os países, e eu não quero ser pessimista, mas mesmo que todos os países europeus, e são muitos, que querem apostar na defesa e no maior investimento na segurança e na proteção, e no investimento conjunto, é muito difícil nós verificarmos isso nos próximos anos na Europa. É muito difícil, por quê? Eu escrevi isso há pouco tempo sobre a guerra que entrou no orçamento europeu. Tens países nórdicos e Alemanha, a voz mais vocal, no fundo, passo a redundância, a exigir que se façam cortes no orçamento europeu, mais das prestações sociais, no caso da agricultura, os fundos de coesão, porque estes países não querem aumentar as dotações orçamentais. E portanto, aqui é muito simples fazer a conta. Se acrescentas objetivos, mas não queres mudar no orçamento, alguma coisa vai ter que ficar para trás. Juntando com aquilo que eu disse há pouco, e recuperando, este é o grande desafio da Europa nos próximos tempos. É cada vez mais esta dualidade, eu não quero reduzir isto a uma questão dual, mas dois andamentos. Em que um mais pró-guerra, outro mais pró-social, precisamente porque estão mais afastados da guerra ou não, têm uma percepção diferente. Isto é que vai criar a clivagem interna. Isto também é um objetivo de Putin quando começou esta guerra. Não é só a conquista do território na Ucrânia. Ele conseguiu algo, que é esta fratura na lógica ocidental que nós tínhamos até agora na paz e, portanto, é esta confusão interna, isso ele de alguma forma já ganhou.
Chegamos ao final do nosso tempo. Ana Miguel dos Santos, especialista em segurança e defesa nacional e internacional. Muito obrigada pela sua análise.
Obrigada, Laura. Foi um prazer.
Fica por aqui o Gabinete de Guerras, está de regresso amanhã.