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E começa agora mais um Gabinete de Guerra das manhãs 360º, esta terça-feira com a análise de Jorge Rodrigues, coordenador do Observatório de Risco Geopolítico da Porto Business School. Bom dia, Jorge, muito obrigada por se juntar a nós e hoje mais cedo do que é habitual.
Bom dia, Maria João. Muito gosto.
Bom dia. Jorge, começamos pela reunião informal em Bruxelas dos líderes dos governos europeus. Por que agora e o que é que podemos esperar que saia deste encontro?
Como diria António Barreto num excelente artigo: "A Europa está em perigo". Há quem considere até que poderá deixar de existir no futuro. Uma coisa é certa, já percebeu que a paz perpétua de Kant, que esteve na origem, não será definitiva e, portanto, para além da prosperidade, é sempre preciso equilibrar com segurança. Eu diria que neste momento a Europa está frágil. Aliás, há um estudo interessante do Centro Schuman que diz que há dois grandes riscos neste momento que a Europa tem que considerar. Um é a disrupção isolacionista, que eu acrescento, e mercantilista de Trump. E depois o segundo, muito ligado à Rússia, expansionista e revisionista, que é um risco de um cessar-fogo favorável para a Rússia na Ucrânia. Isto acaba por ser um wake-up call. A Europa percebe que não pode continuar a ser a potência herbívora sem peso na sociedade política, no sistema político internacional. O objetivo neste momento, em teoria, será preparar o Livro Branco da Defesa, que sairá dentro de dois meses, mais ou menos, e eu diria até mais a cimeira NATO em junho, que teremos depois uma cimeira da União Europeia logo a seguir. Portanto, é basicamente num estilo descontraído à costa, que tem funcionado muito bem e com o apoio do interessadíssimo Donald Tusk, da Polónia, claro, é muito próximo. O que a Europa procura agora? Ganhar e recuperar o éter, ser um ator geopolítico global, ser influenciador, ser capaz de intervir na nova arquitetura de segurança, vendo a segurança de uma forma alargada, energia, supply chain, ciber, etc. E depois desenvolver nessa autonomia estratégica aquilo que é essencial, num conjunto de parcerias que naturalmente começa com o Reino Unido, que ainda se vê com um pé dentro e um fora da Europa, mas também com autonomia de ter parcerias e relacionamento direto de uma forma que não dependa dos Estados Unidos, inclusive com países como a China, que poderá manter alguma ligação e não entrar em conflito como estava. Finalmente, eu julgo que é particularmente relevante envolver ou ser envolvido dentro do sistema integrado da NATO e não como um exército europeu separado. Eu penso que deixa estas linhas gerais num momento particularmente importante, demonstrando que é possível viver com Trump, mas que não vai depender da evolução que Trump queira para a Europa.
Pois. Netanyahu está desde ontem nos Estados Unidos. Entretanto, soube-se que vai prolongar a estadia em Washington até sábado. Jorge Rodrigues, o que é que sabemos dos encontros que já teve com a administração Trump?
Sabemos que está a cumprir os grandes objetivos da visita. Em primeiro lugar, é o primeiro líder que é recebido por Trump, portanto, isso demonstra a prioridade na região. Israel é o representante da ordem liberal no Médio Oriente, apesar da ordem liberal não dizer muito a Trump, mas têm alguns aspetos em que estão completamente alinhados. Um deles, e particularmente relevante, é redesenhar estrategicamente o Médio Oriente, criando ali uma coligação anti-Irão nuclear, que é uma das prioridades de Trump a nível internacional, e desenvolver e manter os acordos de Abraão assinados com quatro países antes, e agora alargar à Arábia Saudita, o que deixaria a região curiosamente, e neste contexto, um pouco mais pacificada, não há dúvida nenhuma. Só que há aqui alguns pontos de discórdia que ainda não ouvimos nada, que é exatamente Trump quer a paz imediata e Netanyahu quer explorar o que poderá ter sido um sucesso militar dos últimos meses. Há aqui pontos preocupantes, nomeadamente a coligação de Netanyahu no governo, em que Smotrich já veio referir, e aliás apoiado por vários elementos mais radicais, digamos assim, que o acordo com a Arábia Saudita seria prejudicial para os objetivos de Israel na guerra. Isso coloca em causa o processo de paz, coloca em causa o futuro, nomeadamente e em particular a terceira fase, mas já dando maus sinais para a segunda.
Temos ainda o ministro israelita das Finanças que disse que o acordo com a Arábia Saudita vai ser prejudicial para os objetivos de Israel na guerra. Jorge, como é que devemos interpretar as declarações de Smotrich?
É exatamente para introduzir. Portanto, há aqui uma instabilidade a nível de futuro que nos poderá deixar preocupados neste ponto. Apesar de estar a correr relativamente bem a troca de reféns, com alguma entrega até antecipada, diria, e com algumas preocupações particularmente humanistas, a verdade é que há vários sinais de vários locais em que a segunda fase poderá ser preocupante. A segunda fase já deveria ter começado aqui com negociações, está um pouco adiada. Isso já implica a retirada do terreno e perda de algum posicionamento militar por parte de Israel. Portanto, há de facto uma instabilidade, há de facto uma preocupação que deve ser considerada das duas partes, deixando bem claro que obviamente também do lado do Hamas e do eixo de resistência, há um reposicionamento e há uma tentativa de demonstração de força que obviamente poderá colocar em causa a evolução do processo em si.
Entretanto, sobre a guerra na Ucrânia, Trump diz que a sua administração tem mantido discussões muito sérias com a Rússia e que ele e Putin poderão, em breve, tomar medidas significativas para pôr fim ao conflito de quase três anos. Jorge Rodrigues, então e Zelenskyy não é tido nem achado nisto?
Não, não se consegue sentar à mesa dos grandes. Infelizmente, será assim. Isso é sempre até um pouco humilhante, mas desde o início do conflito que vimos dizendo que os Estados Unidos irão decidir o momento final da guerra. Portanto, será sempre nesse campo. Não é que o empenhamento na paz seja mau, muito pelo contrário. Que tipo de paz é que poderá ser preocupante e os sinais não são positivos ao não envolver Zelenskyy ou a União Europeia, que são dois actores essenciais nisso. Zelenskyy, obviamente, tenta irritar a Europa, tenta obrigá-la a reagir, tenta envolver directamente a Polónia, tem feito o possível para, de alguma forma, ter um lugar na mesa de negociações e obviamente Putin tenta aproveitar o momento. Tem uma iniciativa fraca, certa, 30 km por dia, com muito desgaste de recursos humanos e materiais, mas a verdade é que tem iniciativa no terreno e quer fazer um esforço de aproveitar a separação entre Trump e a Europa, dizendo que a Europa não se consegue defender sozinha, que virá a abanar a cauda, etc. Mas de alguma forma tentando criar alguma vantagem. E a paz vantajosa, como vimos há pouco no summit, é que vantagem russa num acordo de paz é particularmente perigosa numa perspectiva de expansionismo e a Europa mais tarde irá pagar esse tipo de acordo. Portanto, ficará sempre algo pendente que não fica resolvido.
Jorge, antes de terminarmos, o que sabemos sobre o ataque dos Estados Unidos ao Estado Islâmico na Somália?
Eu acho que mais do que tudo é uma sinalização e é curioso, realmente, as primeiras ações são sempre relevantes, têm sempre muito significado em todas as administrações. Neste caso concreto, é curioso que um presidente com preocupação comercial, naturalmente, se oriente para o comércio internacional e para a África. Poderemos dizer que é para conter o Al-Shabaab, os terroristas da região. Tudo isso será verdade, é um conflito de baixa intensidade que as forças especiais dos Estados Unidos continuam a prestar assistência militar, mas ele quer deixar uma marca bem clara em que obviamente não defende os boots on the ground, mas raids aéreos e terrestres, sem dúvida, e que a África, ao contrário do primeiro mandato, vai ser vista sob umas lentes competitivas, tendo em conta os seus recursos, tendo em conta a sua importância. E a Rússia e a China, neste segundo mandato, podem contar com competição em território africano e Trump vai querer deixar a bandeira dos Estados Unidos também neste continente.
Jorge Rodrigues, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Um bom dia e boa semana, Jorge.
Bom dia e boa semana.
Muito obrigada.