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Começa agora o novo Gabinete de Guerra da Rádio Observador, esta manhã com a análise de José Filipe Pinto, professor catedrático em Ciência Política e especialista em movimentos extremistas. Bom dia, professor. Muito obrigada por estar conosco.
Muito bom dia, Maria João. Bom dia, senhores ouvintes.
Muito bom dia. Zelensky diz esperar ter pronto um plano de paz em novembro e mostra-se disponível para a participação russa na Cimeira de Paz. Professor, o que explica esta alteração de posição? Será que a elevada probabilidade de Trump regressar à Casa Branca se está também a fazer sentir no discurso do presidente ucraniano?
Eu penso que sim. Eu julgo que se trata de uma queda na realidade, na sequência, primeiro de tudo, do que se está a passar no terreno e depois da reunião da NATO e evidentemente, do possível regresso de Trump à presidência. Repare, Zelensky chegou à cimeira da NATO com expectativas muito altas e saiu de lá com a convicção perfeita de que algumas palavras podem ser objeto de diferentes interpretações. E a meu ver, é o que se passa com a palavra inevitável ou irreversível. Porque irreversível, no que concerne à adesão da Ucrânia à NATO, pode funcionar como uma promessa a um prazo tão demorado que poderá nunca vir a concretizar-se. E da mesma forma, o material bélico que foi prometido, só está a chegar ou irá chegar a conta-gotas e mesmo assim com restrições de utilização. É por isso que Zelensky está ciente que as negociações serão uma inevitabilidade e, a meu ver, mais grave ainda, ele já sabe que perdeu a capacidade de ser ele a ditar os termos de um futuro acordo de paz. Então, o que é que acontece? Ele tem de aceitar passar para o tabuleiro estratégico e fazer cedências, procurando garantir o mínimo dos máximos. A meu ver, esse mínimo dos máximos passa por manter a independência, limitar as perdas territoriais e assegurar a reconstrução do país na fase, portanto, pós-guerra. Ora, como um jogo de xadrez precisa de dois jogadores, Zelensky sabe que não pode jogar sozinho e está a procurar a jogada que lhe permita a decisão isenta de arrependimento. A forma muito fácil como ontem Roberta Metsola foi reeleita presidente do Parlamento Europeu, pode servir de um paliativo encorajador para Zelensky, mais a mais se na quinta-feira Ursula von der Leyen também for reeleita presidente da Comissão Europeia. Mas a situação exige medidas drásticas, Maria João, e têm de ser tomadas a contragosto. Eu diria que há aqui um caminho ainda a percorrer. E desde logo, porque Zelensky se autoexcluiu por decreto da capacidade de negociar com Putin. E depois, porque Putin tem um mandato de detenção emitido pelo Tribunal Penal Internacional. No entanto, todos nós sabemos que a diplomacia há muito que está no terreno e que, portanto, está a fazer o seu caminho. Quanto a Biden, é evidente que Biden é aqui-- contra Trump, queria eu dizer. Quanto a Trump, é evidente que Trump é aqui um elemento-chave. E aqui, Maria João, entra em cena Viktor Orbán, que é uma espécie de caixeiro-viajante ou de vendedor ambulante de um pré-projeto de paz. As viagens que fez a Kiev, a Moscovo e a Pequim, foram concluídas com a visita precisamente a Trump, nas vésperas do atentado que Trump veio a sofrer. E repare, o diretor político do governo de Orbán, que curiosamente também é o aprido Orbán, afirmou que esse plano de paz já está nas secretárias de todos os primeiros-ministros da União Europeia. Portanto, eu penso que não me parece abusivo dizer que Orbán se sentiu respaldado também por Trump e que este lhe deu uma concordância tácita a um plano onde as posições, tanto a russa como a chinesa, podem não estar suficientemente asseguradas, mas estão pelo menos presentes.
Entretanto, Zelensky acaba de alterar as chefias das Forças Armadas e Moscovo colocou em prisão domiciliária um general crítico da estratégia na Ucrânia. José Filipe Pinto, ninguém está satisfeito em qualquer dos lados?
Claramente. Usam o provérbio, diz que: "casa em que não há pão, tudo ralham e ninguém tem razão". Mas na política não se aplica este adágio. Aplica-se um outro que diz que mesmo em tempo de carência, o líder enquanto não for derrubado, tem sempre razão. Por isso, se algo está a correr fora do previsto, a culpa não pode morrer solteira. Ora, de facto, como a Maria João disse, nenhuma das partes está contente, nenhuma está a atingir os objetivos. Há que mudar as chefias e prender quem ousa criticar o grande chefe. Repare, Zelensky está a repetir em tempo de guerra a estratégia seguida antes da invasão russa, porque o primeiro governo, a que ele deu posse, o governo Denys Shmyhal, durou, grosso modo, seis meses. E Zelensky não foi nada meigo nas críticas que fez à ineficácia desse governo. Quanto a Putin, todos nós sabemos que a experiência adquirida nos serviços secretos ensinou a cortar célere a voz à oposição. Putin é um ditador e como ditador, só está bem quando ao ouvir aquilo que quer ouvir e mais a mais, é ele que escolhe quem é que pode dar-lhe opiniões.
Professor, sobre o Médio Oriente, que leitura se pode, se deve fazer sobre o ataque de Israel a uma escola da ONU e zona humanitária?
Olhe, Maria João, é o regresso àquilo que eu defini como o modelo de Hama. Não é Hamas, é Hama. Hama é uma cidade da Síria onde as Forças Armadas da Síria, em fevereiro de 1982, massacraram a cidade porque havia lá uma sublevação que foi atribuída à Irmandade Muçulmana. E o que é que as tropas sírias fizeram quando entraram com os bulldozers? Não deixaram pedra sobre pedra na cidade velha. Assim, no caso agora de Israel, se algum líder do Hamas Se esconde entre a população e nas instalações onde julga estar a coberto de ataques israelitas, é evidente que nada melhor para Netanyahu e para Itamar Ben-Gvir, que é o ministro da Segurança Nacional, do que seguir o exemplo sírio, independentemente dos custos humanos que envolva. O importante é deixar claro que não há lugares seguros, nem organizações com direito à proteção das respectivas instalações. Tudo aquilo que possa servir de esconderijo, como uma escola ou um hospital, é para deitar abaixo. E a pressão é para aumentar, como ainda ontem Netanyahu disse. Portanto, o que vamos assistir aqui é não deixar pedra sobre pedra, é perfeitamente destruir tudo, sendo que essas instalações não estão a coberto de nenhuma proteção especial, porque Netanyahu diz que o Hamas as utiliza como bases militares.
E o que é que leva o Hamas a manter-se nas negociações? Desejo de paz, fraqueza momentânea ou responsabilizar Israel perante a comunidade internacional?
Maria João, sempre que o acordo parece possível, uma das partes, quando não as duas, encarrega-se de fazer novas exigências que colocam em causa o cumprimento dos termos do acordo. O Hamas sente que o crescente isolamento internacional de Israel significa que o massacre de 7 de Outubro está a perder importância face à forma desproporcionada como Israel está a retaliar. E assim, o Hamas está a assumir um papel de pacificador. Mas atenção, a meu ver, isso é uma falácia para esconder os seus reais objetivos e a sua fraqueza militar, que neste momento é inegável. O Hamas não deixou de ser um grupo político que dispõe de um braço terrorista. E acreditar nas palavras de um terrorista, mais a mais quando julga estar a lutar por uma causa justa e a religião entra em cena, a meu ver, não é apenas uma imprudência, é ignorância. E essa ignorância acabará por servir os interesses dos terroristas. Na minha opinião, o Hamas não passou e nunca passará a ser parte da solução para o futuro Estado palestiniano, que obviamente, como eu já disse em vários programas, ainda não existe e que não se vê a curto prazo uma existência possível, uma vez que um Estado precisa de um povo, de um território e de um aparelho de poder, e neste momento nenhuma dessas condições está garantida e falta o quarto elemento, a soberania.
Professor José Filipe Pinto, muito obrigada pela sua análise. Um bom dia, professor.
Obrigado, Maria João. Bom dia.
Muito obrigada. Bom dia.