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Ideias Feitas na Rádio Observador. Olá, Alberto. Bem-vindo, Alberto Gonçalves.
Olá, Ricardo. Tudo bem?
E hoje queres falar de uma subida aos altares?
É, mais ou menos. Se não chegou aos altares, está lá muito perto. Está já nos últimos degraus. Por um lado, eu já falei disto ontem, isto é uma espécie de introdução e vou-me repetir, se calhar, mas temos uma enxurrada de gente alegadamente de direita que vai apoiar o doutor Seguro, justamente porque essa gente diz ser da direita democrática, civilizada, moderada e decente, essas coisas todas muito bonitas. E por ser isso, por ser tão civilizada e tão decente, apela ao voto num socialista sob o pretexto de que esse socialista não é bem socialista. E para essa direita decente não importa que o doutor Seguro tenha estado com Guterres, tenha estado com Sócrates, não importa que o doutor Seguro seja um defensor intransigente do Estado paternal ou paternalista, com tudo o que isso implica na economia, não importa que nas poucas vezes em que se pronunciou recentemente sobre política externa e que para um presidente não é um assunto de somenos, nessas últimas vezes o doutor Seguro tenha feito as críticas da praxe a Israel e à ação militar americana na Venezuela, além de que, que eu saiba, não se lhe conhecer uma palavra acerca do que está a acontecer no Irão. Mesmo assim, ou porque percebe quem o doutor Seguro é e gosta, ou porque quer a toda a força imaginar que o doutor Seguro é uma coisa que ele não é, a tal direita passa por cima dos pormenores e anda frenética ao lado do PS, ao lado simbólico do PS e dos partidos de extrema-esquerda, a recomendar o voto no homem. De repente, para uma parte significativa, pelo menos ao que parece, da autodesignada direita portuguesa, o doutor Seguro não é apenas um mal menor. Alguém que se escolhe a custo e por contraste com o doutor Ventura, isso seria perfeitamente compreensível. Mas não é isso que acontece. O que acontece é que o doutor Seguro parece transformado no candidato ideal e prevê-se que será o presidente ideal. Parece que não há ninguém no país que possa se comparar, sequer ao doutor Seguro em matéria de seriedade e hombridade, essas coisas todas. Ou muito me engano eu, ou muito se engana essa direita civilizada e decente. Ou então, e é uma terceira hipótese que se pode pôr, essa direita anda a tentar enganar-nos a nós. E, na verdade, não é direita nenhuma, nem sequer é esquerda, é o fruto de um sistema e de uma estagnação que deseja o doutor Seguro em Belém, na medida em que o doutor Seguro garante a famosa estabilidade, que alguns acham que é um bem em si mesmo, que é positivo em abstrato e que com frequência é a estabilidade, é um eufemismo para definir a governação da esquerda. Só com governações à esquerda é que o país mediático, pelo menos mais ou menos se acalma e se sente estável. E para além disso, a beatificação de uma personagem tão neutra, e aí vou te encontrar o título que tu mencionaste, a beatificação de uma personagem tão neutra e improvável quanto o doutor Seguro, é uma de duas grandes estratégias eleitorais em curso. A outra estratégia, que essa já é conhecida, já tem sido usada nas eleições anteriores e não com grandes resultados. Esta segunda estratégia junta a tal direita decente aos partidos comunistas e ao PS e consiste em alertar para o perigo da normalização do doutor Ventura. É extraordinário que depois do que o doutor Costa fez em 2015, ainda há quem tenha o descaramento de falar em normalização de extremistas. E há quem tenha o descaramento acrescido de condenar qualquer tentativa de comparação do Chega com o PCP e com o Bloco e de certo modo, nisso tem alguma razão. Eu, por exemplo, não comparo o Chega, que tem muitos defeitos, com forças políticas que defendem regimes ditatoriais, organizações terroristas e sociedades subjugadas ao totalitarismo. Eu comparo o Chega ao PS e tirando excessivas semelhanças na economia, que de fato são bastante lamentáveis, eu concluo que o Chega apesar de tudo, é por enquanto preferível, pelo menos o Chega e o doutor Ventura nunca estiveram no poder e, portanto, nunca infligiram ao país as desgraças que o PS nos tem lançado deitado em cima da cabeça de forma quase ininterrupta durante os últimos 30 anos. E o doutor Seguro exceto por este recente entrega que foi motivado por uma zanga pessoal, foi uma questão mais pessoal do que ideológica, o doutor Seguro desses 30 anos foi ator destacado para em 20. Por isso é difícil considerar que ele não será um socialista e que não está ligado às governações socialistas. Mas pronto, uma certa direita está unida à esquerda neste apoio frenético ao doutor Seguro e o que essa direita está a fazer é normalizar não o doutor Ventura, claro, está a normalizar o PS. E repito, essa direita não tinha que apoiar Ventura ou sequer votar nele, com certeza, nem por sombras. Agora, podia e devia normalizá-lo, normalizar o doutor Ventura. Normalizar o PS é que não devia fazer. Ao apoiar o doutor Seguro, que é um socialista encartado e que não oferece qualquer dúvida do seu socialismo, e nesse processo ao tratar o atual PS com o respeito que o atual PS não lhe tem nem terá, essa direita civilizada está a abdicar de usar o poder que o eleitorado lhe deu e arrisca-se a devolver mais uma vez o país à esquerda, se calhar até exatamente isso, se formos a ver bem, o que a direita civilizada quer. Agora, duvido que seja isso o que o país quer ou pelo menos uma boa parte dos eleitores dessa direita queiram.
Alberto, vais regressar amanhã para o Ideias Feitas.
Espero que sim.
Um abraço, Alberto. Até amanhã!
Um grande abraço, Ricardo. Até amanhã!
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