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Hoje, "Desfazer". "Ideias Feitas" com o Alberto Gonçalves. É o julgamento do momento, Anjos contra Joana Marques, e é o tema do teu "Ideias Feitas", Alberto. Olá.
Olá, Vanessa. Pensei que ias dizer o julgamento do século, também não chegaremos tão longe.
Pois.
Mas, de qualquer maneira, estou a imaginar que toda a gente já sabe o que aconteceu, mas para as três ou quatro pessoas que não acompanharam o caso, faço um resumo brevíssimo. Isto começou quando um duo de cançonetistas intitulados Anjos ou Os Anjos, não consegui ter a certeza, foram convidados para cantar o Hino Nacional aqui há uns tempos num evento qualquer, parece que era uma coisa que envolvia motorizadas. Já se vê que a minha descrição é altamente exata. A interpretação do hino, isso sim, é mais exato, foi um bocado calamitosa, ou pelo menos tinha uma certa originalidade nas harmonias, para ser simpático, as harmonias esforçavam-se para não baterem certo. Alguém filmou essa interpretação, pôs o vídeo na internet. A Joana Marques, que tem o programa dela na concorrência, ela tem programa na rádio, mas ela partilhou o vídeo no Instagram dela. Os Anjos exigiram que ela retirasse o vídeo, ela não retirou o vídeo e eles meteram-lhe um processo em que pedem uma indenização de 1 milhão de euros por prejuízos acumulados desde a referida partilha do tal vídeo. O julgamento começou ontem e tem tido momentos curiosos, e eu destaco a revelação de que um dos elementos dos tais Anjos desenvolveu uma crise de acne no meio desta história toda. Agora, sobre o assunto, queria notar só três ou quatro coisas, ou cinco, não sei. Algumas coisas. A primeira coisa é que não gosto do Hino Nacional e espero que isto não se enquadre naquele crime de ultraje que está previsto no Código Penal. Espero que o Ministério Público não abra um inquérito, mas o nosso hino é uma óbvia derivação do hino francês, da Marselhesa, e tem aquelas mesmas proclamações bélicas que a mim me causam uma certa urticária. Por isso, até gosto, até acho edificante que o hino seja maltratado por sujeitos que se julgam cantores. Não me incomoda absolutamente nada. A segunda coisa que queria dizer é que não sei quem são os Anjos, até este caso. Tinha uma vaga ideia da existência do nome, mas não conhecia . E não vou tentar explorar mais ou conhecer melhor. E queria dizer também que gosto do trabalho da Joana Marques. Eu consumo, mais ou menos com alguma regularidade, aquilo que ela faz desde um programa naquele canal semi-obscuro. O programa era o "Altos e Baixos". Eu não conheço a Joana Marques pessoalmente. Em tempos trocávamos umas mensagens, hoje nem isso. Mas a verdade é que nunca a deixei de ouvir, mesmo quando ela chamava negacionista e chalupa a qualquer pessoa que levantasse dúvidas acerca das medidas tomadas a pretexto da Covid. E de resto, independentemente das minhas preferências, é evidente que ela tem todo o direito de fazer as piadas que quiser, incluindo as que possam ofender-me e as que possam ofender os tais Anjos. É absurdo que um tribunal sequer pondere perder tempo com tamanha irrelevância. A outra coisa que eu queria dizer é que, ainda que aqui também esteja em jogo a liberdade de expressão, no caso da Joana Marques, isto não pode ser equiparado àquilo que recentemente aconteceu no Brasil. Um humorista chamado Léo Lins. Com a Joana Marques, a questão prende-se com a necessidade de uns músicos obscuros, acho eu, quererem publicidade barata ou pelo menos pelo preço das custas judiciais, que se não tivermos enlouquecido todos, eles vão acabar por ter que pagar. Mas não tem nada a ver com política. É apenas uma questão pessoal, na melhor das hipóteses ou na pior. Agora, para o bem e para o mal, de acordo com as perspetivas, a Joana Marques não se compromete politicamente, está longe de ser incômoda para com o sistema. É posição dela e tem todo o direito de a ter. O brasileiro Léo Lins é uma persona non grata para o governo do senhor Lula, e isso pesou com certeza no processo. Além do mais, a Joana Marques brincou com uma cantoria desafinada. O Léo Lins foi condenado à prisão efetiva por discurso de ódio, ou seja, por fazer humor com os tabus da esquerda contemporânea. E essa foi a deixa para o perseguirem e, se esgotarem os recursos, o meterem na cadeia. Ele ainda não está na cadeia, mas pode vir a estar, porque foi condenado a oito anos e três meses, salvo erro. E uma nota final é que em Portugal houve algumas pessoas, não muitas, mas é natural também, o caso passa-se no Brasil, mas houve algumas pessoas a defenderem o comediante Léo Lins. Há muitas pessoas a defenderem a Joana Marques, e isso é excelente, isso é ótimo, não tenho qualquer reserva. Junto a minha voz à dessas pessoas. Apenas gostaria que quando um humorista ou qualquer outra pessoa fosse julgado aqui em Portugal por dizer uma piada, mesmo que não gostemos dela, ou por expressar a sua opinião, mesmo que discordemos dela, haja uma idêntica reação indignada. E se não estou em erro, há um português que está preso por causa de uma piada de mau gosto que serviu de partida para um processo político. E quase ninguém se mostrou indignado. Eu sei que a pessoa em causa é um indivíduo muito mais extremamente desagradável que a Joana Marques, mas é nesses casos que se distingue se estamos a defender a liberdade, de fato, ou se estamos a defender as pessoas que não são simpáticas. Há uma diferença e essa diferença é fundamental.
"A liberdade não é só a da Joana" é o título deste "Ideias Feitas", aqui a propósito do julgamento Anjos versus Joana Marques. Alberto Gonçalves, bom feriado pra ti, até sexta-feira.
Igualmente, Vanessa, até sexta.
Até sexta.
O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.