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É hora de desfazer ideias feitas, como sempre com o Alberto Gonçalves. Hoje, Alberto, com um olhar para a orientação de voto dos jovens portugueses. Olá.
Olá, Vanessa, boa tarde. Começo por dizer que estou à vontade, porque nunca valorizei ou desvalorizei o voto de acordo com a idade de quem vota. E também porque nunca achei que a abstenção, e já explico porque falo em abstenção, fosse necessariamente um sintoma de que a democracia está em risco, de que o regime vai acabar. Apesar disso, ouço há décadas dois clichês sobre eleições em Portugal. Um dos clichês é que é importante trazer os jovens para a política, o outro clichê é que é fundamental combater a abstenção. Pois bem, ao que tudo indica, as eleições de domingo passado conseguiram ambas as proezas. Ou seja, vieram mais jovens votar e a abstenção diminuiu bastante. Parece que foi a abstenção mais baixa desde 95, salvo erro, há quase 30 anos, o que é notável. O estranho é que apesar de ser notável e de se ter conseguido estas duas proezas, não se vê quase ninguém a celebrar. E não se vê por quê? Porque os votos, ao que parece, os votos dos jovens e da abstenção foram em grande parte parar à direita e em particular ao Chega. Parece que só o Chega terá tido, eu tenho aqui anotado, 354 mil votos de jovens. E está-se a considerar jovens pessoas entre os 18 e os 35 anos. São muitos votos. O AD ainda teve mais votos, teve perto dos 400 mil nesta faixa etária, e a IL também, para a dimensão que tem, teve 152 mil. Ou seja, os votos dos jovens nos partidos da direita são o dobro, ou sensivelmente um pouco mais do que o dobro, dos votos dos jovens nos partidos da esquerda, todos juntos. Estou a falar de PS, Bloco, Livre, PAN, CDU. Logo, os votos de jovens, e isto a considerar que muitos deles até aqui eram abstenzionistas, outros é a primeira vez que foram votar, mas muitos não costumavam votar, ao que parece, como nos dizem os estudos. Mas parece que esses votos, para certos democratas, pelo menos, são votos de fachos. Eu até abriria um parêntesis para tentar perceber, porque nunca consegui até hoje, o nível mental de quem tenta ofender outras pessoas chamando-lhes fachos. A seguir àquele insulto de "ré mio", do compensado, deve ser o insulto mais básico que um cérebro humano consegue conceber. Muitos cérebros não conseguem passar disto. Mas para esses democratas, os votos destes tais jovens ex-abstencionistas fachos, num mundo ideal nem deviam contar. Isto é o que acontece sempre. Nós sabemos como é a relação da esquerda com aquilo que eles chamam as minorias ou os grupos, ou subgrupos, com os negros, com os homossexuais, com as mulheres, com quem calha. Ou seja, para a esquerda, os jovens só são bons quando são de esquerda, quando votam à esquerda. Quando não são de esquerda nem votam à esquerda, os jovens podem ir morrer longe. E nem de propósito é para longe que graças ao socialismo e graças às políticas socialistas que têm dominado Portugal na quase totalidade das últimas três décadas, os jovens têm ido. Têm ido para longe, para fora. E têm ido por vários fatores, a maioria deles materiais e palpáveis, porque os sucessivos governos socialistas, as políticas socialistas, as opções que o PS toma, coligado ou não, aliado ou não com a extrema-esquerda, toma quando está no poder, têm condicionado a esperança dos jovens portugueses terem um futuro aqui. Então muitos emigram, entre os que ficam, muitos estão desempregados. O desemprego jovem anda pelos 20%. Dos que estão empregados, a grande maioria tem salários absolutamente miséria e não conseguem aceder à casa própria, dificilmente conseguem viver. É isto. Por outro lado, há também uma reação dos jovens, julgo eu, é difícil medir, mas julgo que há uma reação dos jovens à ortodoxia instalada neste país há tantos anos. Ou seja, de tanto ouvirem falar da mesma coisa, de tanto levarem injeções de homogeneização de pensamento, os jovens tendem a ser do contra. E ser do contra em Portugal é não ser socialista, é não ser estatista, é não ser coletivista. Mesmo que o Chega muitas vezes caia nesses pontos ou subscreva esses pontos, de qualquer maneira, pareceu inspirar, pareceu representar um sentimento de mudança. E é nessa mudança que os jovens votam. E é o voto nesse sentimento de mudança ou nessa esperança de mudança que, pelos vistos, surpreende muitos dos nossos queridos democratas, que ficaram muito espantados por ver os jovens votar assim e não da forma que eles queriam. Ora bem, também já me aconteceu muitas vezes, as pessoas não votam da forma que eu gostaria ou que eu voto. É isso que se chama democracia. Mas muitos dos nossos democratas não sabem muito bem o que isso é e acho que já não vão a tempo de aprender.
Crônica do Alberto Gonçalves desta quarta-feira. O tema: o voto dos jovens, o título: a mocidade portuguesa é faixa. Alberto, até amanhã.
Até amanhã, Vanessa.