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Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo. Olá, Ricardo, boa tarde. E queres ir à greve geral? Ir à greve geral salvo seja. Há um tema . É o tema greve geral. Eu não sou de fazer greves e já se perceberá porquê depois de ouvir o Ideias Feitas, mas também quem já ouviu algumas vezes é capaz de imaginar. Eu acho que as pessoas desconfiam, Alberto. São capazes de desconfiar. Capazes disso são elas. E temos greve geral, portanto, ou tivemos greve geral, ainda estará a decorrer, dependendo das profissões. Como amanhã é feriado e depois de amanhã é sexta-feira, mais um motivo para se marcar a greve geral para o dia em que se marcou. E a CGTP já disse que se trata de um grande sucesso, como todas as greves gerais anteriores, as gerais e as particulares são sempre um grande sucesso e traduzido do sindicalês, isto significa mais ou menos que uma parte da função pública fez greve e uma parte muito pequenina dos trabalhadores do setor privado fizeram greve. Por que é que houve greve? A explicação oficial é o famoso pacote laboral, que a ser aprovado não mudaria grande coisa para ninguém e sobretudo não mudaria quase nada para os funcionários da administração pública. O que é um bocadinho irônico, mas se isto é um bocadinho irônico, muito mais irônico é constatar que os países que o PCP ou a CGTP tomam como exemplares e inspiradores, nesses países não há greve. Em paraísos como a Coreia do Norte, a China, a Rússia, Cuba, Venezuela, Nicarágua, não muitos mais, mas mais dois ou três ou quatro. Nesses países, ou o direito à greve nem sequer está previsto nas respectivas constituições, ou o direito está previsto, mas os sindicatos são completamente subordinados ao partido único que manda nesses sítios. E se mesmo assim isto não chega para dissuadir alguns excêntricos de tentar fazer greve por conta própria, a violência das autoridades encarrega-se do resto e portanto, as greves não chegam a ter grande efeito ou a existir de todo. É claro que se alguém lhes perguntasse, o PCP ou a CGTP diriam que nesses países não há greve porque os meios de produção estão justamente e abençoadamente nas mãos do Estado, logo os trabalhadores beneficiam de condições de trabalho ideais, condições essas que tornariam a greve escusada. Por definição, é difícil melhorar o que já é perfeito. E se uma pessoa insistisse e duvidasse em achar perfeito um sistema econômico cujos salários mínimos e médios, na maioria dos casos, roçam a miséria e na minoria dos casos também não andam longe, o PCP e a CGTP diriam, sem dúvida, que isso não é bem assim e que a eventual pobreza nos países socialistas, a existir, assim em abstrato, imaginando que pudesse existir, dever-se-ia a embargos externos e outras malfeitorias provocadas pelas nações capitalistas, a que o verdadeiro socialismo é totalmente alheio. E se, por fim, uma pessoa for mesmo muito chata e lembrar que as condições de trabalho, por exemplo, em Portugal com ou sem pacote laboral, são um luxo incomparável com os abusos sofridos pelos infelizes que tiveram a sorte de viver sob um regime comunista, o PCP e a CGTP vão com certeza dizer que tudo isso são boatos, são mentiras, mentiras torpes espalhadas pelos lacaios do grande capital, etc. O PCP e a CGTP têm resposta para tudo, exceto para uma coisa: eles não conseguem explicar por que a imensa maioria dos trabalhadores, se puderem decidir, pelo mundo fora, cá e pelo mundo fora, jamais escolhe o comunismo. Alguns até podem escolher fazer greve, por protesto contra determinadas alterações da lei ou ameaças de alterações da lei, como é o caso, ou por conveniência, porque a praia está aí e tem feito algum calor, mas nunca escolhem o comunismo. E a resposta é simples, porque os trabalhadores sabem, e os que não sabiam, foram aprendendo ao longo dos anos e das décadas, que apesar de toda a bazófia, toda a prosápia em volta da melhoria das condições de vida, o comunismo não quer melhorar a vida de ninguém, quer destruir o que há para construir em cima das ruínas, dos escombros, o mundo dos seus sonhos, que é um mundo muito mais medonho, de que ainda, infelizmente, há exemplos avulsos e necessariamente impostos pela força. Felizmente, onde a força não decide tudo, os comunistas falharam e hoje tentam fingir que estão vivos através de uns suspiros ou de greves inconsequentes como a presente, que na realidade não adianta nem atrasa coisa nenhuma. Mas o que importa nisto tudo é que o PCP, que hoje é uma espécie de museu e a greve é uma espécie de artefato museológico, o PCP hoje em dia já não engana ninguém. Obrigado, Alberto. E bom feriado. Bom feriado, Ricardo. Um grande abraço.