Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Está no ar mais um episódio do Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, que também pode ouvir em podcast. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. Quem é o teu bom de hoje?
O bom de hoje, não há dúvida nenhuma, são os ativistas da acampada. Eu tenho criticado várias opiniões e posições dos ativistas, mas a minha opinião nisto é irrelevante. O facto inegável é que tiveram uma grande vitória com a decisão do Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa. Sim, a juíza escreve claramente que a decisão tomada sobre a montagem de uma tenda no Rossio se aplica apenas a Renata Cambra, basta ler. Apresenta a ação, escreveu a juíza, não tem por objeto apreciar a legalidade de uma ocupação coletiva da Praça Dom Pedro IV, nem o reconhecimento de um direito geral ou abstrato à instalação de tendas em espaço público por um número indeterminado de participantes. O objeto dos presentes autos, continua a juíza, reporta-se exclusivamente à situação jurídica individual da requerente. Portanto, sim. E sim, a juíza impõe várias condições a este direito, nomeadamente no que diz respeito ao ruído, à liberdade de circulação e por aí adiante. Portanto, sim, estas duas coisas são verdade, mas são também irrelevantes, porque politicamente a vitória dos ativistas foi total. E a partir de ontem, a PSP ficou sem margem para atuar, a não ser que haja violência ou uma situação grave. E por isso, para já, as ruas pertencem às acampadas, que conseguiram aquilo que queriam. Aliás, é curioso porque foi ontem que as acampadas portuguesas tiveram esta vitória e foi também ontem que a polícia de Madrid finalmente retirou a acampada da Praça do Sol, que lá estava há mais de um mês. Também houve algumas associações a falarem em violência policial e tudo isso. Enfim, as duas coisas aconteceram no mesmo dia, lá numa direção, cá noutra.
É, agora só o mercado de Natal é que trava a acampada.
É um mercado a funcionar. Eu não sei se trava. O tribunal disse que tinha de haver uma compatibilização entre a tenda de Renata Cambra e o mercado de Natal. E caso houvesse um conflito entre as duas coisas, saía a tenda, que teria de ir para um local próximo e com utilidade.
Sim, ali no Rossio.
Mas agora vamos ver, porque agora a decisão estará nas mãos de Carlos Moedas. E por isso vamos ver o que é que acontece. Eu penso que o mercado de Natal começava a ser montado hoje.
Hoje. É.
E esta madrugada só ficaram acho que três tendas, penso eu. Não sei como é que Carlos Moedas vai gerir isto. Ele tem tentado que não se dê por ele. Parece que não existe, mas agora vai ter de facto que gerir isto, agora vai ter esse problema, agora não dá para fazer de conta que não está lá.
Miguel, o teu mau falou ontem sobre esta decisão do tribunal.
Olha, sim. A PSP falou sobre isto. Eu estou a colocá-la no mau porque a PSP perdeu, ficou claro do que eu acabei de dizer, mas fez de conta que ganhou. E isto é que me deixa aqui um bocadinho incomodado, porque o porta-voz da polícia deu uma conferência de imprensa ontem à tarde e disse coisas como esta: "A decisão do tribunal vai muito ao encontro do que já estávamos a fazer." E depois, falando sobre o Porto, o porta-voz da PSP afirmou isto, eu vou citá-lo. Portanto, ele estava a falar ontem sobre aquilo que aconteceu de domingo para segunda. E ele disse: "Nesta última noite no Porto, tal como fizemos também na noite anterior, permitimos que ficasse um número simbólico e razoável de tendas na praça. Em concreto, no Porto, foi permitido. E depois, durante esta noite, fomos dialogar com os manifestantes na praça e eles, de forma ordenada, cerca das 4h da manhã, retiraram as estruturas de acampamento." Isto disse o porta-voz da PSP. Ora, nós podemos ter a opinião que quisermos sobre os factos, e nos últimos dias eu até defendi que a atuação da polícia tinha parecido proporcional. Mas lá está, nós podemos ter a opinião que quisermos sobre os factos, mas não podemos inventar factos. E isto, peço desculpa, é inventar. Porque não, no Porto a PSP não permitiu que permanecesse na praça um número simbólico de tendas. Foi precisamente o contrário. Aquilo que a PSP, que todos nós sempre ouvimos a PSP a dizer, e foi tudo registado pelos jornalistas, foi: "Tirem as tendas e fiquem as pessoas." Aliás, o porta-voz da PSP entrou numa contradição evidente, porque se a polícia tivesse permitido que no Porto ficasse um número simbólico de tendas, então por que é que foi lá às 4h da manhã dialogar outra vez com os manifestantes? Se o que ele disse é verdade, então não havia nada para dialogar, bastava deixar lá as tendas. Aliás, ao todo estavam lá, penso que entre 12 e 16 tendas, por isso simbólicas eram. Então foram lá fazer o quê às 4h da manhã? Se a decisão da polícia era deixá-las ficar lá, foram às 4h da manhã fazer o quê? Dialogar sobre o quê? Por isso, acho que lutar contra os factos é que é uma coisa que não pode ser. As pessoas defendem as suas posições, depois os tribunais decidem. Se as pessoas discordam dos tribunais, recorrem das decisões, recorrem a outros tribunais. Agora, não vale a pena estar a fazer de conta.
Aqui a questão estará na ambiguidade do que é simbólico. É uma, duas, 10, 15, 20. Ninguém tem o número, isso é evidente.
Claro, com certeza, mas também não se pode esperar que seja um juiz a decidir isso. Claro, com certeza, mas o meu ponto nem é esse. O meu ponto não está para frente, está para trás. O meu ponto está na reescrita da história. Não vamos agora reescrever as coisas. As pessoas defenderam o que defenderam, pensaram o que pensaram. Não têm necessariamente que mudar intimamente de opinião, mas há uma decisão de um tribunal. Agora, vir dizer que aquilo que a PSP fez foi isto que está vertido na decisão judicial, para amor de Deus.
Miguel, só falta o teu vilão, que são alguns polícias.
Sim, são os polícias com cravos. Já não estou a falar da conferência de imprensa ontem, enquanto decorria à noite mais uma assembleia popular no Rossio, havia, segundo os jornalistas do Observador, cerca de três agentes da PSP fardados, de serviço, junto ao Teatro Nacional D. Maria II e com cravos ao ombro ou algures na farda. A farda que um polícia usa não é dele, é do Estado. E quando um agente da PSP usa uma farda, e já agora um bastão ou uma pistola, representa o Estado, ou seja, representa-nos a todos. Quando um polícia usa uma farda, ele não tem opiniões, não tem partidos, não tem clubes, tem apenas a obrigação de cumprir uma determinada missão. A PSP, pelos vistos, não vê problema nenhum nisto, em polícias fardados com cravos. Contactada pela CNN, a PSP defendeu que a colocação de cravos, vou citar: "Constitui um gesto tradicional e profundamente enraizado na cultura e na história do nosso país, particularmente associado aos valores de Abril", e acrescentou, a PSP, que se tratou de uma manifestação individual e espontânea que não compromete os deveres funcionais dos polícias, nem a neutralidade institucional da PSP. E eu fiquei a pensar: "A sério? É mesmo isto?" Porque eu diria que se começarmos a ter polícias fardados com cravos, que são um símbolo político, a seguir vamos ter polícias fardados com outros símbolos e alguns se calhar muito pouco agradáveis. No dia em que a PSP entrar na política, eu suspeito que nunca mais sai. Mas se a PSP não vê nenhum problema, quem sou eu?
Foi uma tentativa de fazer uma ponte com os manifestantes, claramente.
Não sei o que foi. Se foi uma tentativa de fazer uma-
Foi como eu vi, quando vi na televisão as imagens e depois dentro do espírito nacional do carreirismo.
E os polícias que estavam sem cravos estavam contra as pontes e depois quando houver outras manifestações de que as pessoas não gostam, também vamos ter uns polícias a fazer pontes, outros a não fazer.
Daqui até olhares para um polícia sem cravo e dizer que é um fascista, é só um passo.
Nada disto me parece que seja recomendável, mas é o que é.
Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira são os ativistas da acampada, o mau é a PSP e o vilão de hoje são os polícias com cravos. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro. Nas manhãs, 360 sempre em podcast.