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Ideias Feitas . Ideias Feitas com o comentador observador Alberto Gonçalves. Boa tarde, Alberto.

Olá, boa tarde, Alberto Gonçalves. Hoje vamos ao teatro e é a peça "Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas."

Vamos com calma, porque a peça acho que só estreia em abril, pelo menos foi o que me pareceu. É no Teatro Nacional D. Maria II. Portanto, é paga pelo erário público, ao que suponho. Vi o anúncio da peça hoje ou ontem, já não me lembro exatamente, e chama-se exatamente assim: "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas." Pelo que li na sinopse, trata-se de uma família que há 70 anos tem por hábito raptar para depois matar o que eles chamam de fascistas. E depois há uma personagem, que é a Catarina, que tem que matar o seu fascista, que já foi raptado, e ela, pelos vistos, hesita. Aparece pelo meio o fantasma de Catarina Eufémia, que dialoga, não sei se com a Catarina da peça, se com o fascista. É uma peça que promete e é assinada pelo próprio autor, o dramaturgo em causa é o próprio diretor do Teatro Nacional, o que também é curioso. Não sabia, não sei se haveria uma lei a impedir que o diretor encenasse uma peça de sua autoria, mas pelos vistos não há. Não vale a pena estar a encenar grandes dramaturgos, se pode encenar ele mesmo e faturar mais qualquer coisa em direitos de autor. Chama-se Tiago Rodrigues, já agora, não conheço a pessoa. Acho que foi Prêmio Pessoa há um ano, mas isso também não quer dizer muito. É curioso o tema e o título. O título procura, sem dúvida, alguma polêmica, mas eu suponho que não procura apenas polêmica, é também uma espécie de manifesto, de afirmação do que vai na cabeça do autor e das pessoas que participam na peça. A beleza de matar fascistas é uma resposta a esta cultura do ódio que se associa à extrema-direita e ao populismo de extrema-direita e, portanto, à extrema-esquerda, naturalmente, que quase certeza será o caso. Sou capaz de apostar que sim. Responde com uma cultura de amor, promove ou simpatiza com pessoas que raptam outras pessoas para as matar. Não sei se serão exatamente fascistas, provavelmente, e também sou capaz de apostar que sim, os fascistas em causa são apenas as pessoas que discordam das ideias, no caso, da família ficcionada em causa e também presumo que do dramaturgo Tiago Rodrigues. Suponho que as ideias dele não andarão muito longe da família que ele procura retratar. Se andam, peço antecipadamente desculpa. Os fascistas da história serão fascistas com muitas aspas e serão apenas pessoas que não concordam com os ideais do autor e os ideais da família ficcionada, repito. Imagino que perante regimes verdadeiros ou parecidíssimos com o fascismo, que são aqueles que temos hoje, desde a Coreia do Norte, passando por Cuba e Venezuela, e agora está nas notícias o caso da Bielorrússia. Presumo que essa família não considere que os ditadores ou que os funcionários desses regimes sejam exatamente fascistas. Aqui já é outra história. É curioso que estas coisas se passem. Eu imagino o que seria o Teatro Nacional promover uma peça, ou exibir uma peça que promovesse ou que de alguma forma mostrasse com certa simpatia o ato de matar comunistas, uma família que raptasse e matasse comunistas. A menos que fosse uma crítica violenta a essa família, julgo que isso não seria possível. Por um lado, ainda bem, por outro lado, é pena que exista este estúpido critério, que ainda ontem falei aqui a propósito do caso da Bielorrússia. Há aqui um pormenor que eu gostava de notar é que a esquerda e a extrema-esquerda, quanto mais extrema, maior superioridade moral gosta de exibir perante os demais mortais. E há uma outra classe que muitas vezes coincide com a esquerda, que é a classe teatral. Algumas pessoas talvez não saibam disso, mas quando da Revolução Francesa, alguns dos entusiastas mais furiosos da guilhotina e do terror eram justamente pessoas ligadas ao teatro. Houve alguns que organizaram e que orientaram a decapitação de milhares de pessoas. Alguns atores, encenadores, dramaturgos não tenho a certeza absoluta, mas atores e encenadores, com certeza. É engraçado que esta classe teatral também junta a sua superioridade moral, porque os artistas são sempre superiores ao canalizador ou ao cantoneiro comum, e junta a sua superioridade moral à superioridade moral da esquerda. Temos aqui um caldo curioso. Acho muito bem que toda gente exiba, escreva e encene o que quiser. Acho um bocadinho estranho que isto se passe num teatro público ou num teatro nacional. Nunca percebi muito bem pra que serve um teatro nacional num país que não tem propriamente uma tradição dramatúrgica, mas é o que vai acontecer e vai estar em exibição em abril do próximo ano. As pessoas, por mim, podem ir ver à vontade. Eu provavelmente não irei, mas será curioso o fato de isto não dar, certeza, polêmica absolutamente nenhuma, como daria polêmica se a Catarina e a família dela gostassem de matar comunistas.

Obrigado, Alberto Gonçalves. Alberto Gonçalves hoje a desfazer ideias feitas à boleia dessa peça intitulada "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas", texto e encenação de Tiago Rodrigues. É uma produção do Teatro Nacional Dona Maria II.

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