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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Hoje, Alberto, bem-vindo. Queres falar sobre Chicão.
É verdade. Olá, Ricardo, boa tarde. Tu falaste agora no Chicão, mas eu começo por duvidar que a maioria dos portugueses e a maioria dos ouvintes da Rádio Observador, isto não é nenhum certificado de ignorância, muito pelo contrário, mas duvido que a maioria das pessoas saiba quem é, só pelo nome, Francisco Rodrigues dos Santos. Eu tive que ler o nome com cuidado para não me enganar, porque tendi a confundir com a pessoa que batizou a Fundação Francisco Manuel dos Santos, mas não é Manuel, é Rodrigues, Francisco Rodrigues dos Santos e como tu já indicaste, é talvez um pouco mais conhecido por Chicão. E o senhor Francisco, o senhor Chicão, foi em tempos líder do CDS, aliás, foi o líder que ajudou o partido a ficar sem representação parlamentar e hoje ele tem o destino ou acabou por ficar com o destino de inúmeros políticos sem perspectivas imediatas de carreira: é comentador televisivo. No seu comentário televisivo de anteontem, o senhor Francisco comentou muito naturalmente as eleições presidenciais. Entre parênteses, devo dizer que após minuciosa pesquisa de cerca de dois ou três minutos, constatei que na primeira volta das eleições o senhor Francisco apoiou entusiasticamente o candidato Gouveia de Melo e na segunda volta apoiou com entusiasmo ainda maior o doutor António José Seguro. Quem o senhor Francisco não apoiou foi o candidato André Ventura. Aliás, deve ter ficado tão satisfeito com a derrota deste que a rebaixou com uma imagem lírica ou poética. O senhor Francisco disse o seguinte: "Se eu tivesse cerca de 70% dos portugueses com apenas duas escolhas a rejeitar-me, eu pintava a cara de vermelho e tinha vergonha de dizer que podia liderar o que quer que fosse neste país." Eu não estou aqui mandatado para defender o doutor Ventura, obviamente, e que de resto, goste-se ou não, tem tido um percurso ascendente na vida política e nos correspondentes resultados eleitorais. Tem vindo praticamente sempre a crescer enquanto partido ou enquanto líder de partido, enquanto candidato presidencial. E nestas eleições, por exemplo, o doutor Ventura teve 1 milhão e 729 mil votos, o que não me parece trágico para quem não existia politicamente há meia dúzia de anos. Quem nunca chegou propriamente a existir na política foi o senhor Francisco, que em 2022, ou seja, há menos de meia dúzia de anos, viu o partido que liderava ter 89 mil votos no país e no círculo eleitoral que encabeçava, que era Lisboa, o CDS teve 19 mil votos. Eu repito: 19 mil votos e integrado num partido. Eu fiz as contas, são 91 vezes menos que os votos que o doutor Ventura teve agora sozinho. E nem assim o senhor Francisco pintou a cara de alguma cor que se visse. Pelo contrário, ele agora até mostra a cara lavada num espaço fixo de comentário na CNN Portugal e ao que julgo saber, ao lado de um ex-presidente de junta de freguesia, que por acaso é filho do doutor António Costa. Quanto à referência ao vermelho, é capaz de ter sido um lapso freudiano, já que o senhor Francisco afirmou em entrevista recente que deixou de ser de direita e até se arrepende de ter sido de direita. Acontece a muito boa gente, sobretudo acontece à boa gente que começa uma carreira a emitir palpites nas televisões. Ou nunca foram de direita ou, de modo a serem aceites, convém que deixem de ser de direita. Com a vasta maioria dos comentadores, passa-se mais ou menos o contrário do que sugere aquela frase feita de autor mais ou menos desconhecido, que diz que quem até aos 20 anos não foi de esquerda não tem coração e quem depois dos 30 continua de esquerda não tem cérebro. E eu não vou ser desagradável a ponto de insinuar que o senhor Francisco Rodrigues dos Santos não tem o órgão que a frase refere, mas é evidente que a facilidade com que ele enterra as próprias convicções em prol de outras que o ajudem a ganhar uns trocos, mostra que o que o senhor Francisco não tem é vergonha na cara. Não tem vergonha e pelos vistos também não tem pinta.
Obrigado, Alberto, e até amanhã aqui no "Ideias Feitas".
Até amanhã, Ricardo.
O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.