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E desfazemos ideias feitas, como sempre, com o Alberto Gonçalves. Boa tarde, Alberto. Queres falar sobre a iliteracia dos portugueses e a preferência pelo socialismo?
Parece que há uma relação, pelo menos é o que tudo indica, porque têm saído sondagens para as legislativas do dia 30, e as sondagens continuam a dar o PS como muito provável vencedor. Já sabemos que às vezes as sondagens se enganam, mas normalmente nas legislativas não se enganam tanto. E, portanto, o mais provável é que o PS seja mesmo o vencedor. E claro que podemos imputar este previsível sucesso do PS à falta de oposição, porque quem tinha a responsabilidade de fazer oposição, no caso o doutor Rio e o PSD, não o fizeram. Talvez estejam a fazer agora um bocadinho, mas é provável que seja tarde. Mas não acho que seja esse o único motivo. E ao mesmo tempo que têm saído as sondagens, também saiu uma outra coisa. Saiu hoje um estudo do Banco Central Europeu, dados relativos a 2020, em que tenta, através de umas questões básicas, não estamos a falar de Finanças Aplicadas ou de Economia muito complexa, estamos a falar de questões mesmo básicas ligadas à economia e às finanças, tenta e faz um ranking do conhecimento dos povos dos países membros da zona euro, do seu conhecimento sobre finanças, sobre economia, sobre estas questões. E Portugal está no fim da lista. Não é para o fim da lista, Portugal é mesmo o último, e é o último destacado. Estamos atrás de cipriotas e de italianos, mas com destaque considerável e com menos de um terço, salvo erro, do conhecimento, segundo os critérios estabelecidos pelo Banco Central Europeu, do conhecimento revelado por alemães, holandeses e finlandeses são quem estão no topo da lista, e não admira se são também três dos países mais ricos da zona euro. Portanto, Portugal é dos países mais pobres da zona euro, e o facto de ser um dos países mais pobres da zona euro explicará, ou um dos mais pobres, peço desculpa, um dos mais ignorantes da zona euro, ou o facto de ser um dos mais pobres reflete o facto de ser um dos países mais ignorantes da zona euro em matéria económica. E isso explica que o PS, que governou nos últimos 26 anos, acho que governou 20, que continue à frente das sondagens, porque acho que num país normal, em que as pessoas estabelecessem o nexo entre as decisões políticas e as suas consequências, ou que o fizessem minimamente, o PS, mesmo sem uma oposição propriamente válida, o PS estaria a tentar chegar aos 10%, ou coisa parecida, se é que não estaria quase em risco. Em Portugal está com 35, 37, 38, 39% nas sondagens.
A que foi divulgada hoje dá 39%, é uma sondagem da Católica ao PS e 30% ao PSD, uma distância aqui de nove pontos percentuais.
Sim, que parece muito improvável que seja revertida até dia 30, a menos que a sondagem fosse... Quer dizer, na Câmara de Lisboa vimos, e já tínhamos assistido uma vez ou outra, também uma vez na Câmara do Porto, quando o doutor Rio chegou lá ao poder. Mas são sondagens autarcas, são um bocado diferentes das sondagens nacionais. Normalmente, é muito difícil haver uma reviravolta a esse ponto. Portanto, o PS está à frente e é o partido que durante estas quase três décadas praticamente governou constantemente Portugal. Houve umas exceções ali, houve aquela exceção muito breve do Durão Barroso, antes de ele se escapar para Bruxelas, e houve aquele período da chamada PAF, do Pedro Passos Coelho, que não foi propriamente um governo do Pedro Passos Coelho, foi um governo imposto pelo FMI, pela dita troika, por causa justamente das habilidades do PS. Não foi um governo com qualquer esboço de autonomia. Portanto, o PS é o partido do governo em Portugal desde há praticamente 30 anos, e há praticamente 30 anos, há 20 e tal anos, que Portugal vive em estagnação econômica. O fato de as pessoas não penalizarem essa estagnação econômica e não penalizarem o PS, provavelmente explica-se em boa parte por esta ignorância econômica e financeira, que, aliás, veio revelada neste estudo que foi publicado hoje ou ontem. Hoje foi notícia. Mas também já há uns tempos tinha havido um estudo semelhante, esse não versando os países da zona euro, mas versando até os 27 da União Europeia. E Portugal, que não estava em último aí, estava em penúltimo ou antepenúltimo, já não me recordo de cor. Portanto, isto mostra um padrão. E é um padrão que curiosamente é reforçado, ou mais detalhado, ou melhor explicado por uma sondagem, ou um pormenor de uma sondagem que saiu hoje. A sondagem do público, a que fizeste agora mesmo referência, por coincidência, ou por coincidência não, mas oportunamente, mostra que o PS é o partido que capta mais eleitores acima dos 65 anos, isso para o caso não quer, para o meu ponto não significa nada em especial, mas é o partido que capta mais eleitores com menos escolaridade. As pessoas que têm menos escolaridade votam, sobretudo, e em grande peso, no PS. Eu bem sei que o grau de escolaridade nem sempre reflete a inteligência ou a sensatez, ou o que quer que seja. Mas há, em princípio, uma pessoa que com uma licenciatura ou um doutoramento tem um bocadinho mais de conhecimento ou uma capacidade, em princípio e em teoria, uma capacidade de analisar a realidade maior do que uma pessoa que se ficou pelo sétimo, oitavo ano. Estamos a falar de 40% dos eleitores do PS que não completou o terceiro ciclo de escolaridade. É significativo. No caso do PSD, são apenas 14% dos eleitores do PSD que não completaram o terceiro ciclo. Os outros partidos são As coisas estão mais distribuídas e mesmo a Iniciativa Liberal tem uma porcentagem de licenciados bastante alta. A CDU e o Bloco distribuem mais ou menos equitativamente, mas entre o PS e o PSD há uma diferença brutal de escolaridade no seu eleitorado típico e potencial. Portanto, é capaz disso tudo somado explicar alguma coisa. As pessoas votam no PS porque não conseguem perceber a relação entre as políticas do PS e as consequências nas suas vidas. Eu acho que são aquelas pessoas que imaginam que os serviços públicos são gratuitos, por exemplo, quando se diz que a educação tem que ser gratuita ou a saúde tem que ser gratuita, como se não custassem, e não custassem muito a todos nós. Não estou a dizer que não deva haver educação ou saúde públicas. Agora, deve haver a noção de que não são gratuitas de forma nenhuma. São coisas absolutamente expensiosas e que nos saem do bolso, que não caem do céu, obviamente. E eu acho que as pessoas não percebem coisas tão simples quanto estas. E é essa incapacidade de perceber coisas tão simples quanto estas, que as leva a recompensar o PS por tudo de mau que o PS, que a governação, as sucessivas governações do PS têm feito ao país. É uma explicação que é verdade que atenua bastante a responsabilidade ou a irresponsabilidade do doutor Rui Rio, mas é uma explicação plausível, porque só assim se entende que não haja qualquer consequência para os atos que o PS comete enquanto governo. Ou seja, o PS governa impunemente e ganha eleições apesar disso ou por causa disso. Dia 30, como já falámos aqui, acho muito pouco provável que o PS não volte a ganhar eleições. E vamos continuar no mesmo, com políticas que mantêm o país estagnado, com poder de compra cada vez mais diminuído. Vamos discutir com o lugar e ataque o último lugar em termos de qualidade de vida e de nível de vida da União Europeia. É o que nos resta, mas parece uma alternativa.
Alberto Gonçalves, aqui com esta análise ao que considera ser a iliteracia dos portugueses, que têm preferido o socialismo, e as sondagens continuam a dar uma vitória ao Partido Socialista nas próximas eleições, ainda assim, sem maioria absoluta. Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.