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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Obrigado.
Queres falar sobre o atentado de Sydney?
Quero, sim senhor. E por falta de tempo, não vou inventariar aqui, porque este atentado não foi único e não vou contar aqui a quantidade de manifestações antissemitas, de protestos e também de atentados com menor dimensão, mas que houve na Austrália desde 7 de outubro de 2023. Limito-me a dizer que foram muitas, foram demasiadas e que logo no dia seguinte, dia 8 de outubro, houve festança rija a propósito do massacre que tinha acontecido em Israel umas horas antes. E também acrescento que em diversas dessas manifestações houve gritos a pedir que os judeus fossem gaseados. Isso não é boato, está provado, está certificado, infelizmente. E se calhar é estranho que estas coisas possam ter acontecido sem qualquer impedimento por parte das autoridades, mas também só é estranho para alguém que tenha estado fora do planeta nos últimos anos ou entrado em hibernação ou qualquer coisa do gênero, porque, na verdade, as autoridades na Austrália não apenas permitiram que essas manifestações de ódio e os apelos a matanças decorressem sem incômodos, como ainda os premiaram com o reconhecimento do Estado da Palestina, seja lá o que isso for, seja lá para que isso tenha servido. Em diversas ocasiões, o primeiro-ministro local até chegou a alertar para o perigo da violência, mas a violência da extrema-direita, não a dos radicais islâmicos, não a dos seus apoiantes na extrema-direita, que os há e não são poucos, e sobretudo na extrema-esquerda. Não, essa violência, pelos vistos, não preocupa o senhor primeiro-ministro da Austrália. E esta impunidade a que se tem assistido na Austrália nestas matérias, teria de conduzir a qualquer coisa semelhante à matança de ontem, que, aliás, repito, não é o primeiro atentado recente à vida e à propriedade de judeus que ocorreu no país. A dimensão do que se passou ontem em Sydney é que foi outra. Quando se normaliza, não gosto da palavra, mas quando se banaliza, talvez seja melhor. Quando se banaliza o ódio, é natural e é inevitável que o ódio passe a ser aplicado na prática com mais ou com menos vítimas. Ontem foram algumas. Infelizmente, o atentado de ontem não foi um tiroteio, como muitos disseram, foi um atentado terrorista. O atentado terrorista de ontem não encontra só na Austrália as condições para acontecer. Podia ter acontecido em qualquer lugar do Ocidente, já que em qualquer lugar do Ocidente têm germinado as exatas condições que levaram àquela chacina, Portugal incluído. Praticamente todos os países tornaram comum e tolerável, e para muitos desejável, esta expressão do antissemitismo e com uma clareza, uma sinceridade e uma franqueza que já não se viam no espaço público desde a década de 1930. E o fato de às vezes se invernisar a coisa sob a máscara do antissionismo, que ninguém consegue explicar, e quando explicam, ficam mal na argumentação. Mas o apelo ao antissionismo, o recurso ao antissionismo não muda nada a não ser tornar o exercício mais hipócrita. E nas últimas horas, em Portugal e lá fora, a propósito de hipocrisia, vimos muitas das pessoas que mais contribuíram para este antissemitismo escancarado que anda por aí, a lamentar o atentado terrorista de ontem. E é difícil imaginar maior descaramento, porque os lençinhos palestinianos, os gritos do rio até ao mar, os boicotes, as flotilhas e as declarações de amor ao povo de Gaza, que nunca se estendem a povos verdadeiramente oprimidos noutras partes do mundo, já sabemos. Mas em suma, esta reprodução literal da propaganda do Hamas são parte indissociável do culto da morte que apareceu ontem ou reapareceu ontem naquela praia australiana. E não foi só a Austrália que premiou o culto da morte ao reconhecer o Estado da Palestina. Sabemos de outros países que o fizeram e infelizmente um deles é o nosso. E quase 100 anos depois, o antissemitismo no Ocidente voltou a ser legítimo e voltou a ser ruidoso e mortal. Por pudor era desejável, no mínimo, que todos os que o têm alimentado evitassem agora os lamentos fúnebres e pior ainda, o choque fingido. Li por aí algumas pessoas a dizerem-se chocadas. Não estão chocadas. De modo mais ou menos consciente, também é verdade que há alguns tontos nisto que nem sabem bem o que andam a fazer, mas é de presumir que a maioria sabe. E de modo mais ou menos consciente, eles fizeram o que puderam para que houvesse um atentado assim e para que houvesse os atentados anteriores e para que venha a haver os atentados futuros, se calhar. Ainda ontem em Amsterdão, outra cerimônia do Hanukkah só não terminou com mortos, por sorte. Ao partilhar e a difundir a visão de selvagens, essa gente é naturalmente cúmplice dos selvagens que ontem pegaram em armas e desataram a abater inocentes, inocentes cuja única culpa é de serem judeus. E os adereços, os símbolos e a retórica do palestinianismo não devem ser distinguidos dos símbolos e da retórica nazi. Nem os símbolos, nem os adereços, nem a retórica, nem os militantes. Há uma natureza comum a todos. Há uma natureza e infelizmente, há um objetivo.
Obrigado, Alberto. Alberto Gonçalves vai regressar amanhã com as suas "Ideias Feitas". O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.