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Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Bem-vindo, Alberto Gonçalves. Hoje queres falar da BBC e acredite ou não na BBC. Acreditar ou não na BBC, essa é a dúvida que tu queres lançar hoje.
Olá, Ricardo. Já não é uma grande dúvida, mas vamos por partes. No Reino Unido está a haver este enorme escândalo e o Observador ainda hoje tarde deu destaque a isso. Acho que é o destaque do site neste momento. É um enorme escândalo motivado por uma coisa que, ao fim e ao cabo, toda a gente já sabia que se estava a passar, que é a BBC mentir desalmadamente aos seus espectadores. Há novidades nisto, mas até são menores, são relativas face ao conjunto geral dos acontecimentos. As novidades são três: há um relatório de um ex-assessor de padroéis editoriais da BBC que recentemente foi parar às páginas do Telegraph, à subsequente demissão do diretor-geral e da chefe ou CEO de notícias da BBC e a um pedido de desculpas por parte da estação que fala em erros de julgamento. Ou seja, aquele tipo de desculpas que se pedem não por se ter agido mal, mas por se ter sido descoberto. Agora, quanto às mentiras propriamente ditas, as mentiras flagrantes da BBC, a mais falada, e é uma das que constam, evidentemente, desse tal relatório divulgado pelo Telegraph, tem sido a montagem feita a partir do discurso do discurso de Donald Trump a 6 de janeiro de 2021. Isso foi transmitido pela BBC, essa montagem, a uma semana das eleições presidenciais americanas de há um ano. A ordem das frases foi brutalmente editada para dar a entender que Trump apelava ao assalto ao Capitólio, quando no discurso propriamente dito, sem montagens, sem edição, sem truques, não há lá nada de semelhante. Cortar e colar palavras para fazer parecer que uma pessoa disse aquilo que não disse, não é exatamente, como a BBC admitiu, um erro de julgamento. E também não é mau jornalismo e não é sequer péssimo jornalismo. Ou é um expediente habitualmente usado em rábulas cômicas e aí apresentado como tal, ou é, como é o caso, uma fraude cometida e dado o sentido de oportunidade, dado o momento em que aquilo aconteceu, é uma fraude cometida para procurar influenciar um resultado eleitoral e talvez isto até constitua um crime. Não conheço a lei britânica a esse pormenor. Agora, entre as outras mentiras da BBC, esta não foi a única, muito longe disso, mas a segunda mais polêmica é um conjunto muito vasto de mentiras, todas ligadas à cobertura da guerra em Gaza. Nestes dois anos, a BBC tem revelado um considerável viés pró-palestiniano, para não dizer pró-Hamas, e antiisraelita, para não dizer antissemita. E alguns dos erros de julgamento mereceram pedidos de desculpas pontuais ao longo desse período, mas nenhuma das desculpas assumiu a evidência de que a BBC tem sido completamente parcial na matéria. Um outro relatório do ano passado, não este que eu falei há pouco, mas um outro, já tinha contado 1500 violações de imparcialidade na cobertura da guerra em Gaza feita pela BBC. E depois há outros assuntos que não foram tão falados, que a BBC terá mentido sistematicamente, mas cuja repercussão pública não foi tão grande. A orientação dessas mentiras da BBC, vendo bem, está totalmente de acordo com o regime vigiado e um bocadinho, eu não ia dizer ditatorial, mas para lá caminha, que passou a vigorar no Reino Unido. São questões raciais, em que, por exemplo, a BBC inventa situações de racismo que não existem, são temas LGBT em que se evitam notícias que possam ser menos agradáveis ou convenientes para aquelas agendas trans e coisas assim. Mas isso é um parêntesis. Agora, na despedida destes dois senhores da BBC, destes dois diretores da cúpula da BBC, ambos disseram coisas engraçadas. Dava para estar aqui dois ou três minutos a citá-los, mas não me vou alongar, não tenho tempo para isso. Não me vou alongar em citações. Deixo só uma frase da tal CEO das notícias da BBC, uma senhora, Deborah Turness, que disse: "Gostaria de deixar uma coisa bem clara: a BBC News não tem viés institucional. É por isso que é a fonte de notícias mais confiável do mundo." Quer dizer, pelo menos a senhora vai embora, demite-se, mas com sentido de humor, porque enquanto fonte de notícias, a BBC dos últimos anos é menos credível e confiável do que o saudoso Jornal do Incrível, do qual algumas pessoas se lembrarão. E o problema é que esta tendência, agora para terminar, Ricardo, esta tendência está longe de se esgotar na BBC. No Reino Unido, na América, pelo mundo afora, nas televisões, na imprensa, o que não falta é esta espécie de substituição do jornalismo, tal como o entendíamos, por doses, por um lado, que até é o menos grave de entretenimento, mas bastante mais grave, pior ainda, de engajamento. É o engajamento pelo qual os mídia abdicam de descrever o mundo para tentar adequar o mundo a determinadas ortodoxias e a pensamentos dominantes. O jornalismo ainda não morreu, felizmente, não vale a pena decretar já o óbito, mas infelizmente tem vindo a perder terreno para esta pura propaganda. E quem diz propaganda, diz fake news ou diz desinformação, que são duas daquelas calamidades que são muito invocadas no nosso tempo, são dois flagelos da nossa época. E são, de facto. A invocação é justíssima. Agora, o que é injusto é culpar em exclusivo, como se costuma fazer, as redes sociais por essa desinformação. A BBC, por exemplo, mas não só a BBC, tem muito mais culpa.
Obrigado, Alberto. Regressas amanhã para mais um episódio do Ideias Feitas. Até amanhã, Alberto. Um abraço. O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.