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Está no ar mais um "Ideias Feitas" e hoje o Alberto Gonçalves quer falar sobre Graça Freitas, a directora-geral de saúde, que hoje foi condecorada com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito. Alberto Gonçalves, não é propriamente uma surpresa para quem seguiu as tuas crónicas ao longo desta pandemia. Consideras que não era bem uma medalha que a doutora Graça merecia?
Não, e é melhor não dizer o que eu acho que a senhora doutora Graça Freitas merecia. Olá, Miguel. Boa tarde. Mas deram-lhe uma medalha, deve ser, com certeza, um penduricalho muito bonito e que encheu a senhora doutora de orgulho, disse ela. E disse também que fez o melhor que sabia e podia durante a pandemia da Covid. Ora bem, desde logo, podemos concluir que a doutora Graça Freitas sabia e podia pouco, pelos vistos, porque fui ver, já sabia mais ou menos, mas voltei a ver que Portugal é o sexto país do mundo, excluindo uns principados e aqueles lugarejos pequeninos, mas de países com alguma dimensão, de Estados propriamente ditos. Portugal é o sexto país do mundo com mais casos de Covid em proporção ao número de habitantes. Podemos considerar por 100 mil habitantes, por milhão de habitantes, o que quisermos. Ou seja, dado que a DGS, que a senhora dirigia, tratava sobretudo da prevenção, esta situação é claramente um desastre. Não há outra forma de colocar o assunto. A questão da Covid, em termos de propagação em Portugal, de contágio, correu muito mal, desde logo. E, no entanto, o senhor presidente da República achou por bem condecorar a senhora pelos feitos e pelas proezas praticadas. Não percebo porquê. Ou melhor, se calhar percebe-se, mas os motivos não são, com certeza, muito óbvios, não são aqueles que são evocados. Mas depois, houve outras coisas, ao contrário desta, em que a senhora doutora Graça Freitas soube fazer. Essas ela soube fazer, soube proporcionar-nos à escala mais leve, na vertente mais ligeira de tudo isto. A doutora Graça proporcionou-nos uns momentos de ridículo, umas rábulas. Lembramo-nos daquela história com a garrafa de água, lembramo-nos daquela história do elevador, aquele episodiozinho do elevador. Lembramo-nos daquelas primeiras afirmações sobre a falsa impressão de segurança que as máscaras davam para, logo uns dias depois, dar um palpite absolutamente inverso. Lembramo-nos essas coisas todas que, de facto, não são as mais graves nisto tudo.
Graça Freitas, de resto, durante esta cerimónia em que foi agraciada, ela admite que cometeu erros durante o processo de gestão da pandemia.
Miguel, desde logo, como eu tinha dito mais antes, no ponto anterior, cometeu o erro da pandemia em Portugal ser totalmente avassaladora em matéria de contágios. Quer dizer, o sexto país do mundo com mais casos de Covid por milhão de habitantes, acho que é suficientemente grave ou esclarecedor para mostrar que a pandemia não foi bem gerida, desde logo. Mas depois, deixemos isso. E deixemos também aquela história da abertura da garrafa d'água e daqueles momentos mais caricatos que a doutora Graça nos proporcionou. Ela, infelizmente, soube e pôde fazer coisas mais graves. "Deu a cara", foi a expressão que o professor Marcelo usou. Ela deu a cara por muitas das decisões terríveis que afectaram a vida de todos nós. Quer dizer, por aquele fecho interminável das escolas, por fechar jardins públicos e praias, por ajudar a demolir a economia através do fecho de negócios, de comércios, tudo isso. Ela deu a cara por isso e soube fazê-lo, sem dúvida nenhuma. Mas o mais grave de tudo é que a senhora deu a cara por outra coisa. Hoje em dia, actualmente, e já há uns meses, já há largos meses que a Europa é confrontada com excesso de mortalidade. Ora, um dos lados em discussão argumenta, uma das escolas de pensamento, melhor dizendo, argumenta com estupefação. Ninguém consegue explicar este excesso de mortalidade. Estamos a falar de casos não de Covid, evidentemente. Há um outro lado, minoritário, mais silenciado pelos media tradicionais, que argumenta que são as vacinas que estão a matar gente ou coisa do gênero. Sinceramente, nem a explicação de um lado faz sentido, nem a falta de explicação do outro faz sentido. Acho que há uma explicação mais ou menos razoável para o excesso de mortalidade que se verifica em muitos países do mundo, sobretudo europeus, e particularmente em Portugal. E esse excesso de mortalidade advém de uma situação pela qual a doutora Graça Freitas deu a cara, que foram as cirurgias adiadas, foram as consultas canceladas, foram os tratamentos de quimioterapia interrompidos, foram as doenças que não puderam diagnosticar. Foi toda uma série de devaneios absolutamente catastróficos que iriam ter consequências a uma certa altura. E julgo que essas consequências, se não explicam todo este excesso de mortalidade, explicam uma boa parte dele. Era inevitável que Todos os absurdos praticados naquela altura da Covid e, no caso concreto da saúde, iriam ter consequências. Eu conheço casos absolutamente comprovados, específicos, próximos, de pessoas que viram o seu tratamento contra uma doença oncológica interrompido porque os serviços hospitalares estavam preocupados com a Covid. Houve casos também, dado o pânico que se espalhou a propósito da Covid, de pessoas que abdicaram voluntariamente de prosseguir esses tratamentos, ou de serem diagnosticadas, ou de serem operadas, porque tinham medo de entrar num hospital, tal o medo que se infundiu nas pessoas. Portanto, a doutora Graça Freitas deu a cara por estas coisas todas. Estas coisas todas têm consequências, estas consequências são muito graves, são trágicas. Há muita gente que tem morrido que não precisava ter morrido. Quer dizer, um dia iriam morrer, como todos nós, mas não precisavam ter morrido já ou tão cedo. E essa morte deve-se à incúria absoluta, à irresponsabilidade absoluta que foi demonstrada nesta situação. A senhora, não sei se está a pensar nisto ou noutra coisa qualquer, disse que apesar dos erros que tomou, como tu disseste, Miguel, apesar dos erros que tomou, apesar dos erros que cometeu, não fez nada por mal. Acredito que não seja vontade da senhora propriamente condenar pessoas à morte. Agora, ela pode não ter feito por mal, mas fez muito mal. Também sabemos que tudo o que a senhora fez, ela apenas deu a cara, que ela seguia ordens. Ela própria reconhece que seguia orientações da ciência ou do CDC americano, não sei porque escolheu especificamente o CDC americano. A doença não era uma doença particularmente dos Estados Unidos da América, mas ela reconhece isso. Agora, também recebeu ordens, com certeza, da então ministra da Saúde e todos aqui em Portugal receberam ordens, com certeza, do doutor Costa, que ia gerindo isto não de acordo com a maior ou menor gravidade da pandemia, mas de acordo com aquilo que achava que ia ser popular ou não decretar. A doutora Graça Freitas pode até nem ter tido nenhuma decisão, provavelmente ela em si não produziu nenhuma decisão de relevo. Agora, como o Presidente da República disse, embora com outra intenção, ela deu a cara por isto tudo. E ao dar a cara por isto tudo, convinha que as consequências que lhe tocassem, ou seja, que a responsabilidade que lhe pudéssemos imputar fosse um bocadinho além de uma mera medalha, de um penduricalho que a senhora hoje recebeu.
Não era bem uma medalha que a doutora Graça merecia, o título da crônica de Alberto Gonçalves no "Ideias Feitas" de hoje, a pretexto da condecoração a Graça Freitas atribuída pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito.