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Hoje um pouco mais cedo. "Ideias Feitas" na Rádio Observador com o Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo. Obrigado.

E hoje queres falar sobre uma ativista portuguesa detida na Líbia.

Já que poucos falam, coitada da senhora. Mas queria começar, Ricardo, só por fazer aqui o paralelismo cronológico entre dois casos muito similares. A 19 de maio passado, aquela flotilha muito falada, muito famosa, esta última flotilha que seguia pra Gaza com alegada ajuda humanitária, no fundo uns pacotes de farinha e açúcar, foi interceptada por Israel. E dois médicos portugueses, Maria Matos e Gonçalo Dias, foram detidos juntamente com os outros ativistas que seguiam na flotilha. No mesmo dia, poucas horas depois disso acontecer, o senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, o doutor Paulo Rangel, convocou o embaixador de Israel e falou em violação do direito internacional. O que por acaso até era discutível, mas isso é outro assunto que não cabe aqui. Ainda no mesmo dia e no dia seguinte, multiplicou-se a indignação pública em Portugal a propósito das detenções. Os familiares denunciaram falta de informação sobre a localização desses dois médicos ativistas. Houve apelos de associações, movimento de solidariedade com a Palestina e com os médicos que defendiam também a Palestina, figuras públicas também apareceram a dizer coisas. Isso tudo nas primeiras horas após a detenção. Um dia depois da detenção, o presidente da República, António José doutor Seguro, recebeu os familiares em Belém. Imagens dos ativistas detidos propagaram-se pelo mundo, porque o ministro de Israel resolveu fazer ali uma cena um bocadinho escusada. No dia 21 de maio, prosseguiram os contactos diplomáticos portugueses e de outros países que tinham lá também os seus compatriotas detidos. E ainda no dia 21 de maio, Israel anunciou a deportação desses ativistas, que estiveram lá dois dias. A 22 de maio, esses médicos chegaram ao Porto e foram recebidos em êxtase por umas dezenas de pessoas, talvez. Relataram umas coisas terríveis, que foram muito agredidos, muito intimidados, e tal. Pronto, este é o primeiro caso e a cronologia do primeiro caso. O segundo caso é mais ou menos simultâneo no tempo e foi também em finais de maio de 2026. Uma ativista portuguesa, Ana Margarida Batista, ia numa caravana similar, pertencente também a tal Global Samud, de solidariedade para com a Palestina e Gaza, mas esta ia por terra. Pretendiam atravessar o norte de África e aproximar-se lá da fronteira de Gaza, fingir que iam ajudar alguma coisa. No dia 24 de maio, a caravana entrou na Líbia. A Líbia está dominada por forças diferentes, mas nesta zona as forças que controlavam o território do leste da Líbia detiveram os participantes desta caravana. No final de maio, o governo português confirmou a detenção, iniciou contactos diplomáticos, etc. Não se conhecia nenhuma acusação formal, até hoje ainda não se conhece nenhuma acusação formal pública contra a tal ativista portuguesa. E durante este mês de junho todo, isto foi em final de maio, durante todo este mês de junho, o caso mereceu pouquíssima visibilidade nos meios de comunicação portugueses, nos telejornais e por aí. O governo informou agora muito recentemente que a senhora se encontra bem de saúde, embora emocionalmente desgastada, é natural. E até o dia em que estamos, até este momento, ela continua detida. Não foi anunciada uma data de julgamento, não foram tornadas públicas quaisquer acusações. A senhora praticamente saiu das notícias, não houve manifestações, não houve vigílias, não houve insultos à Líbia e o presidente António José Seguro não se encontrou com os familiares da senhora, pelo menos não encontrei registo disso. E descritas estas duas cronologias, acho que são mais ou menos óbvias as diferenças entre o tratamento dedicado a ambos os casos e as motivações ou a falta delas, também me parece mais ou menos evidente. Se uma ativista portuguesa estivesse detida há um mês em Israel sem culpa formada, de certeza que já teria havido centenas de exibições, milhares talvez, de exibições de comoção pública, petições, exigência de boicotes, bandeiras da Líbia queimadas em público, milhares de comentários jornalísticos indignados e, se calhar, umas estátuas e uns nomes de rua da senhora nos concelhos do Amador ou Vila Franca de Xira, nesses sítios que costumam dedicar com alguma facilidade batizar artérias públicas com nomes de heróis, no caso uma heroína. Agora, dado que a senhora dona Ana Margarida Batista está presa na Líbia, que por acaso até é um país que é inimigo de Israel e amigo da Palestina, é como se a senhora não existisse. Isto prova, se fosse preciso voltar a provar pela enésima vez, que ninguém quer saber da Palestina, nem de Gaza, nem dos direitos humanos, nem dos ativistas, nem daqueles genocídios míticos, nem de coisa nenhuma. A única coisa que se pretende nesta história toda em volta do Oriente Médio, não estou a falar da guerra com o Irão, estou a falar nos casos que envolvem Israel, a única coisa que se pretende nesta história toda é arranjar à força razões para caluniar Israel e a hipocrisia e o descaramento dessa gente toda. Eles fazem isto de uma maneira tão grosseira, isto é tão flagrante que quase tem graça. E aquela expressão "no Jews, no news" é uma frase feita, com certeza, mas infelizmente é uma frase muito verdadeira e cada vez parece mais verdadeira.

Obrigado, Alberto, e até amanhã.

Até amanhã, Ricardo.

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