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Desfazemos ideias feitas. Uma boa semana, Alberto Gonçalves. Bem-vindo!
Obrigado, boa semana.
Obrigada. Ora viva, Alberto Gonçalves. E neste início de semana, o Alberto Gonçalves quer regressar a um tema que já esteve em destaque aqui no "Ideias Feitas": declarações de Francisco Louçã. Mas neste caso não são propriamente as declarações, são as reações às declarações e aquilo que o Alberto entende ser o empenho também de várias figuras do Partido Socialista, que nem sequer é o partido de Francisco Louçã, na defesa de Francisco Louçã e contra um socialista, neste caso Sérgio Sousa Pinto.
Exatamente. As declarações do doutor Louçã, já falamos sobre elas, que ele aproveitou o discurso de uma deputada municipal de Lisboa para o doutor Louçã fazer umas piadas a propósito das grandes fomes da União Soviética, que para ele dá vontade de rir. E à parte muitas outras reações, uma delas foi a de Sérgio Sousa Pinto, que num canal, peço desculpa, não sei que canal foi. As declarações do doutor Louçã foram na SIC Notícias. O Sérgio Sousa Pinto falou, presumo que noutro canal, que não na SIC Notícias, e chamou ao doutor Louçã aquilo que o doutor Louçã de facto é: um bolchevique empedernido, ou conservado, ou preservado em 1917. Peço desculpa se não estiver a citar literalmente, mas foi qualquer coisa muito próxima disto. E a reação a este comentário do Sérgio Sousa Pinto sobre o doutor Louçã foi curiosa, o conjunto de reações, porque muitas pessoas do Partido Socialista, mais ou menos destacadas, mais ou menos públicas, mais ou menos anônimas, pessoas ligadas ao PS, vieram atacar uma pessoa que é deputada do Partido Socialista, que é o Sérgio Sousa Pinto, na defesa de uma pessoa que não é, como o João disse no início, do Partido Socialista, uma pessoa que é do Bloco de Esquerda, ainda por cima a propósito de um tema que podia haver alguns temas em que uma pessoa esteja de acordo com alguém de outro partido que não o próprio. Neste caso, estamos a falar de um assunto no mínimo grávido, e os comentários do doutor Louçã foram de péssimo gosto. Ver pessoas ligadas ao PS tomarem o partido, tomarem as do doutor Louçã nesta matéria, no que tem a ver com as grandes fomes do leninismo e do estalinismo, etc., é no mínimo curioso, porque se bem se lembram, o doutor António Costa, em 2015, quando integrou num projeto de apoio parlamentar o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, e constituiu aquela frente de esquerda de apoio ao governo, usou a metáfora de que já era tempo de fazer cair o muro. Ou seja, o que ele queria dizer, provavelmente, era que era tempo de integrar no regime democrático aqueles dois partidos comunistas, o Partido Comunista propriamente dito e o Bloco de Esquerda, que também é um partido comunista e que sempre estiveram fora do sistema democrático, a não ser no que aceitavam dos resultados eleitorais, mas de resto sempre foram partidos extremistas e antidemocráticos. Ora, cinco anos depois, o que se passou aparentemente é o contrário. O Bloco de Esquerda e o PCP continuam para lá do muro, continuam a ser partidos absolutamente radicais e extremistas. E o PS, que é um partido que no tempo da sua fundação e após o 25 de abril, no tempo do doutor Soares, se constituiu, não interessa se por convicção, se por estratégia, se constituiu justamente contra o possível avanço do comunismo em Portugal, o PS de repente vê-se numa posição de extremismo, vê-se como um partido extremista. É isso que o PS é hoje, porque mesmo as pessoas ligadas ao PS, são muitas delas que não se pronunciaram a propósito deste diferendo, deste debate não direto, porque o doutor Louçã não aceitaria nunca um debate direto, por exemplo, com Sérgio Sousa Pinto, mas desta altercação entre ambos, mesmo os socialistas que não comentaram isto diretamente, é de presumir, e todos nós temos essa sensação de que a grande maioria das pessoas em destaque no PS atual estaria do lado do doutor Louçã e contra o Sérgio Sousa Pinto. Ou seja, estaria do lado de um demagogo, de um radical, de um extremista, de uma pessoa que se tiver mais poder, já vai tendo alguma influência, mas se tivesse poder era uma pessoa literalmente perigosa, contra uma pessoa que é do próprio partido delas e que sempre se destacou pela moderação, pela sensatez e pela lucidez, e que o torna cada vez mais um caso isolado no PS. Ora, quando o Sérgio Sousa Pinto, ou uma pessoa como o Sérgio de Sousa Pinto, é um caso muito raro no PS, praticamente só, pelo menos no PS com visibilidade pública, é tempo de nós começarmos a pensar ao ponto em que o PS chegou. O PS hoje não parece ser, isto nota-se também nas formas como o doutor Costa exerce o poder, que não o exerce de forma propriamente democrática, embora formalmente seja um poder democrático, legitimado nas urnas, etc. Mas conhecemos todos os apetites menos democráticos ou mais prepotentes do doutor Costa. Mas no PS em geral, que não se esgota apenas no doutor Costa, mas naqueles todos que o sustêm lá na liderança, nota-se que instintivamente estas pessoas, se o assunto está entre a democracia ou moderação e o estalinismo, ou o leninismo, as pessoas defendem o estalinismo e o leninismo. Nada disto está na matriz fundadora do PS. Por muito que o doutor Soares e alguns dos cofundadores do PS tenham tido um passado mais ou menos breve e mais ou menos remoto pelo PCP, nada disto que na altura constituía o Partido Socialista, nada disto fazia parte da matriz do Partido Socialista. Muito pelo contrário, as referências do Partido Socialista eram as democracias nórdicas e alemã da altura. Hoje em dia o PS é um partido absolutamente radical, ou seja, o muro caiu, mas o PS passou para o lado de lá. Esta questão em relação ao doutor Louçã é apenas relevante de facto de ele ser conselheiro de Estado e é um sinal do estado que está o país, mas também é um sinal ainda maior do estado em que está o país e o nosso regime, quando o partido que ocupa o poder e que nas sondagens, ainda hoje numa nova sondagem saiu ainda mais reforçado, entre aspas. As sondagens não reforçam ninguém, mas dão indicações. O PS é o partido maioritário nas sondagens, de longe, por culpa também em boa parte do que o PSD tem sido, e é muito preocupante, pelo menos para mim é preocupante, para outras pessoas será motivo de regozijo, que o maior partido português hoje em dia seja um partido cujos militantes e alguns dirigentes e algumas figuras de proa defendem um estalinista, um leninista contra um democrata. Isso é o PS de hoje Volto a dizer, para mim é preocupante. Para algumas pessoas, isto será um motivo de júbilo. Agora, acho que para o regime que temos, para quem gostaria que o regime continuasse a ser democrático, isto é um péssimo sinal.
Obrigado, Alberto Gonçalves. Alberto Gonçalves neste início de semana a trazer para o Ideias Feitas este tema, sobre o qual já falámos, essas declarações de Francisco Louçã. Há boleia também dessas declarações de uma deputada municipal de Lisboa pelo PPM sobre a fome na Ucrânia, mas neste caso, o Ideias Feitas de hoje sobre o empenho de várias figuras do Partido Socialista na defesa de Francisco Louçã e contra o socialista Sérgio Sousa Pinto. Já agora falávamos sobre essas declarações de Sérgio Sousa Pinto, que foram no programa Lei da Bolha, na TVI 24. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.