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Está na hora de desfazer ideias feitas. Alberto Gonçalves, bem-vindo.
Olá, boa tarde.
Olá, boa tarde, Alberto Gonçalves. O Alberto Gonçalves quer hoje falar sobre uma data, a data de hoje, mas olhando aqui para trás, para os anos 70, mas também para falar sobre o 25 de novembro de 2020. Vamos a isso, Alberto Gonçalves.
É que não são exatamente a mesma coisa. Ora bem, o 25 de novembro é uma data que não tem caráter oficial em Portugal, por motivos diversos, mas que poderia ter, porque foi a data, ou foi no 25 de novembro de 1975, que Portugal criou os princípios de uma democracia. Se criou uma democracia plena, próspera e civilizada, é outra questão, mas criou as condições para termos uma democracia. O 25 de abril de 74 derrubou uma ditadura, mas infelizmente algumas das pessoas que participaram ou que se juntaram ao 25 de abril de 1974 queriam substituir a ditadura anterior por outra ditadura que a meu ver era pior. Essa tentativa de imposição de uma nova ditadura em Portugal vigorou, como se sabe, ainda vigorou sobretudo durante o Verão Quente de 75 e acabou por ser definitivamente, pelo menos nesse período, derrubada nessa data do 25 de novembro de 1975. Eu lembro que o 25 de novembro de 1975 foi um contragolpe militar, como o 25 de abril tinha sido um golpe de Estado, também militar. E em termos políticos foi apoiado pelos partidos do arco democrático, digamos, na altura era o CDS, o PPD, hoje PSD, e o PS. Muito bem. Aí é que está. Quem se lembra ou quem leu duas, três coisas sobre o assunto, sabe do empenho das figuras maiores do PS na altura nesse processo de oposição às tentativas de avanço do Partido Comunista e das forças de esquerda ainda mais radicais, se possível for, que estavam ligadas ao COPCON, etc. O doutor Mário Soares e outras figuras gradas do PS da época, outros dirigentes socialistas tiveram papel muito importante nisso, porque o PS era o maior partido português na altura e essa aliança do PS com os partidos que se convencionou chamar a direita, como o CDS e o PPD, foram fundamentais na consolidação do regime saído do 25 de novembro. E esse regime durante praticamente quatro décadas funcionou como uma democracia razoavelmente pluralista e com regras mais ou menos aceites por todos os partidos. Não seríamos um modelo democrático, mas também éramos uma democracia. Não vale a pena qualificá-la, mas tínhamos sido uma democracia. Em 2015, isso mudou. Isso mudou a partir do momento que o doutor António Costa saiu derrotado de umas eleições legislativas e fez uma aliança justamente com as forças que representavam uma delas diretamente, era o PCP, outra era uma força em termos partidários, era um nome novo, mas que representava aquela extrema-esquerda vinda da UDP, etc., que tinha tido um papel ativo no Verão Quente e na tentativa de imposição de uma ditadura comunista em Portugal. E a aliança do doutor Costa, a que ele se referiu como a abertura, ele achou que tinha derrubado um muro. Ele derrubou um muro, mas não foi para trazer os partidos extremistas para o regime democrático. Levou o regime democrático para dentro do extremismo, por assim dizer, ou contaminou o regime democrático com forças que não são democráticas. Isso nota-se hoje, essa diferença de atitude do Partido Socialista nota-se no silêncio, para dizer o mínimo, que o PS dedica hoje ao 25 de novembro. O 25 de novembro, que a chamada direita ou boa parte da chamada direita celebra informalmente, nas redes sociais e nos comentários publicados, não se vê essa celebração da parte do Partido Socialista atual. Isto porque o Partido Socialista atual já não está, aparentemente, e não quer estar no arco democrático. Eu disse há bocado que no mínimo o PS dedica ao 25 de novembro um absoluto silêncio, no máximo dedica mesmo alguma antipatia. Vi por aí nos Twitters e nos Facebooks da vida algumas pessoas ligadas mais ou menos, não com particular destaque, mas ligadas mais ou menos ao Partido Socialista, nitidamente repugnadas perante esta questão, perante aqueles que celebram ou que apreciam ou que simpatizam com a data e com o significado do 25 de novembro. O PS atual não gosta do 25 de novembro. O que é curioso, porque foi um movimento em que o PS participou ativamente e provavelmente em parte liderou. Em larga medida foi o PS que liderou, mesmo com nomes que não eram dirigentes socialistas, mas que muito provavelmente votavam no Partido Socialista, como o Melo Antunes, etc. O Salgueiro Maia, por exemplo, eram nomes que estavam muito ligados ao Partido Socialista, para além das cúpulas do próprio Partido Socialista que se envolveram Mais que ativamente no 25 de novembro e hoje o PS tem vergonha ou tem repulsa, ou tem o que tiver pelo 25 de novembro, o que não tem é simpatia. E isto passa-se desde estes últimos cinco anos, porque até o PS do engenheiro Sócrates, apesar de tudo, manteve sempre uma linha, não sei se por interesse ou se por falta de oportunidade, não interessa, mas a verdade é que manteve sempre uma linha que distinguia o PS dos partidos à sua esquerda, dos partidos antidemocráticos. E o doutor António Costa, com a famosa queda do Muro, famosa infeliz, destruiu essa linha. Realmente, e hoje o PS não parece querer associar-se à consolidação de uma democracia em Portugal. E é por isso que provavelmente não a temos, de forma pelo menos plena, hoje não a temos de certeza. Nunca tivemos uma, lá está, vamos repetir, mas nunca tivemos uma democracia fantástica ou exemplar, mas hoje o pouco que nos resta da democracia, se é que ainda resta, é muito menos do que isso. Isso deve-se à postura do PS e reflete-se e traduz-se nesta atitude curiosa do PS para com o 25 de Novembro, que é uma data que os socialistas hoje deveriam estar a celebrar e os socialistas atuais renegam. E renegam por, agora já não me vou repetir, não vale a pena voltar ao mesmo, há motivos para que os socialistas atuais não celebrem uma data que instituiu, de certo modo, as condições para a democracia em Portugal.
Obrigado, Alberto Gonçalves. Alberto Gonçalves hoje a assinalar neste dia 25 de novembro, 25 de novembro de 75, mas a olhar para este dia 25 de novembro, que hoje estamos a viver em 2020.
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