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Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Obrigado.
E hoje descobriste uns aiatolás ocidentais?
Alguns. Não são assim poucos. Mas vamos lá. No sábado de manhã, mal começaram os bombardeamentos dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, poucas horas depois do início do conflito, fomos logo informados de que havia sido atingida uma escola e tinham sido mortas dezenas de crianças. Imediatamente, isto permitiu constatar várias coisas. Uma escola em Teerão, bem-entendido. A primeira coisa é que, pelos vistos, as comunicações com o Irão foram repostas depois de semanas a fio, um mês e meio, praticamente isso, em que não se conseguia saber quase nada do que se passava dentro do país. As informações vinham de forma clandestina. Isso para que o regime pudesse continuar a matar os populares com maior à vontade. Agora voltamos a ter informações acerca das vítimas, das pessoas que morrem com morte violenta no Irão. A segunda coisa é que a notícia do bombardeamento à escola permitiu que percebêssemos que a tendência de Israel, e no caso também dos Estados Unidos, que estão a combater ao lado de Israel, uma tendência para atingir escolas ou, como em Gaza, hospitais. Não adianta ter a tecnologia militar mais avançada e escolher muito criteriosamente os alvos estratégicos a abater, se depois, no fim de contas, quase todas as bombas acabam a cair em escolas e hospitais. Lembramo-nos bem do que acontecia em Gaza e agora, pelos vistos, o padrão tende a ser idêntico. E a terceira coisa que se apurou foi a tendência de boa parte dos media ocidentais para repetir o grau de confiança em organizações que estão ligadas a regimes terroristas e que também nesta matéria, isto já se verificara em Gaza. Em Gaza levava-se à letra tudo o que fosse afirmado pelo mítico Ministério da Saúde local. Agora, nesta guerra, pelos vistos, confia-se nas informações das instituições de propaganda do regime iraniano. E daqui deriva a quarta, a última e a mais importante coisa demonstrada pelo bombardeamento à tal escola em Teerão. Quando ainda há poucas semanas o regime iraniano chacinou dezenas de milhares de pessoas, muito poucos no Ocidente ligaram ao assunto. Quando o Irão diz que Israel e os Estados Unidos mataram umas dezenas de pessoas, aqui no Ocidente, há incontáveis alminhas a entrar em comoção instantânea. Estiveram, acho eu, a um pequeno passo, pareceu-me, de decretar que, à semelhança do que estavam sempre a dizer em Gaza, que Israel e os Estados Unidos estão a cometer genocídio sobre o povo iraniano. Ora bem, não é preciso ser-se excessivamente astuto para deduzir que para essas alminhas sensíveis, os mortos no Irão não contam para nada. Só contam se essas mortes puderem ser imputadas, mesmo que por fontes altamente duvidosas, a países ocidentais. E se esses países forem os dois em questão, Israel e os Estados Unidos, tanto melhor. O que é importante aqui não é quem morre, isso não interessa. Interessa quem mata ou quem supostamente mata. E também não é inteiramente justo sugerir que essa gente aprecia por si mesma o regime dos aiatolás. Essa gente, esses ocidentais mais sensíveis, apreciam ou toleram tudo e todos os que se opuserem ao Ocidente ou àquilo que se chamava, não sei se ainda se chama, o nosso modo de vida entre o Irão e nós, este nós entre aspas, eles marcham obviamente ao lado do Irão, como marchariam ao lado de quem calhasse contra nós. E é por isso que evocam sem parar o famoso direito internacional, que foi sempre uma maneira de condicionar os países democráticos e ignorar os abusos das tiranias. Não há que ter dúvidas. Uma pessoa que nunca disse uma palavra acerca dos patrocínios iranianos ao Hezbollah, ao Hamas, aos Houthis, ao terrorismo em geral, se essa pessoa nunca se indignou pelos assassinatos cometidos ou tentados pelo Irão ao longo destas décadas contra políticos e diplomatas estrangeiros, se essa pessoa não proferiu um lamento, um queixume que fosse a propósito dos inúmeros infelizes assassinados pelo regime, estes mais recentes e os deste quase meio século, não faço ideia a que número isto chegará. E se essa pessoa vem hoje lembrar o direito internacional, essa pessoa não é grande entusiasta das sociedades democráticas e livres, com certeza. E só para terminar, essa pessoa também não tem problema nenhum em engolir patranhas e reproduzir patranhas, porque afinal, as bombas que caíram na tal escola de Teerão e que terão matado dezenas de crianças, eram da responsabilidade da Guarda Revolucionária do Irão, obviamente. E se as crianças foram mortas pelo regime de Teerão, os seus cadáveres já não têm qualquer utilidade, saem do assunto, deixam de ser tema e é com gente assim que estamos a lidar. Eu deixo os adjetivos e os substantivos para qualificar esta gente ao critério de cada ouvinte.
Obrigado, Alberto. E até amanhã. Alberto Gonçalves ficará amanhã com Ideias Feitas. Um abraço, Alberto.