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O Ideias Feitas. E o tema escolhido pelo Alberto Gonçalves é a edição número 27 da Marcha do Orgulho LGBTI+. Porto de partida para esta crônica, uma pergunta: os gays portugueses resistem a quê? Alberto Gonçalves, boa tarde.

Olá, Miguel, já lá chegarei. Vou só contar aqui um minúsculo episódio. A primeira vez que estive em São Francisco, na Califórnia, há uma dúzia de anos, fiz questão de ficar no bairro Castro, que é o bairro por excelência da cultura gay, da comunidade gay. Tinha curiosidade de ver o que se passava lá, porque é um dos pontos de destaque de São Francisco, e fiquei lá três ou quatro noites. E todas as manhãs ia tomar café no mesmo café, na mesma confeitaria, o que quer que aquilo fosse. E nessa mesma confeitaria estavam sempre as mesmas pessoas, além de outras, claro, mas lá numa mesa havia aquilo que eu percebi ser uma ativista dos velhos tempos do heroísmo da resistência homossexual nos Estados Unidos, do movimento dos primeiros esboços de resistência nos anos 60, com uma plateia de cinco, seis ou sete pessoas bastante mais novas. E aquela pessoa mais velha estava sempre a evangelizar aqueles mais novos sobre a necessidade de resistir, a importância do ativismo. Eles estavam no bairro Castro, que deve ser o lugar do mundo, pelo menos não haverá muitos mais, em que a dita comunidade homossexual ou um indivíduo que seja homossexual esteja mais à vontade, tenha menos problemas. Sobretudo hoje. Já tiveram problemas, principalmente até por causa do HIV nos anos 80. Hoje é difícil imaginar a que eles podem pensar em resistir. E lembrei-me deste pequeno episódio, quando soube que, justamente como disseste, no passado sábado aconteceu em Lisboa esta Marcha do Orgulho LGBTI+, depois tem uma série de letras. A 27ª marcha, e o lema desta marcha este ano era ou é, mas foi: "Nem silêncio, nem medo. Existimos e resistimos." Quer dizer, que os participantes na manifestação existem, parece-me inegável. Agora, eles resistem a quê? Portugal tem uma das mais favoráveis legislações do mundo para a dita comunidade gay. Não me parece que a nossa legislação prejudique, muito pelo contrário, as pessoas que são homossexuais, assumidas, não assumidas, isso não importa. E mesmo descontada a legislação, mesmo que a legislação até existisse e não fosse devidamente aplicada na prática, como acontece em alguns países, não me parece que em Portugal haja particularmente discriminação e muito menos perseguição a pessoas que calhou de serem homossexuais, como poderia calhar de ser heterossexuais, isso não é importante. E em Portugal, formal e informalmente, age-se, acho eu, como se isso, de fato, não fosse importante, porque não é a sexualidade da pessoa. Portugal não é o Irão, Portugal não é Faixa de Gaza, Portugal não é um desses países ou desses lugares. E, portanto, acho que os homossexuais não teriam, em princípio, grandes razões de protesto. Mesmo assim, ao que parece, têm. E os participantes e os organizadores da tal marcha lá conseguiram arranjar um ou dois pretextos para dizer que resistem e ter assim motivo para se manifestarem, senão também é um desconsolo, não havia grande razão. Agora, quais são esses pretextos? Segundo a comissão organizadora da marcha, passo a citar: "A nova conjuntura política", presumo que seja o pobre doutor Montenegro, "volta a colocar as pessoas e famílias LGBTQI+ em perigo, com sinais de que as conquistas das últimas décadas estão hoje em risco de retrocessos." Quer dizer, mesmo as conquistas das últimas décadas não impediram que antes da 27ª marcha houvesse a 26ª, 25ª, 24ª, todas elas com protestos e reivindicações. Mas, pelos vistos, agora é pior. Este ano é pior, há perigos e há retrocessos. E que perigos e retrocessos são esses? Do que percebi, são sobretudo dois. Um deles é que, pela primeira vez em décadas, Lisboa não teve o Arraial Pride neste mês de junho, porque isso é uma coisa que costuma acontecer. E a segunda coisa é a recente proibição de hastear bandeiras de movimentos particulares em edifícios públicos. Ora, por muito que se queira dramatizar as coisas, não é exatamente um regresso à barbárie ou à Idade Média. Por um lado, o Arraial não se realiza porque pelos vistos costuma realizar-se no Terreiro do Paço, e este ano o Terreiro do Paço vai estar ocupado por umas instalações quaisquer dedicadas à transmissão dos jogos do Campeonato Mundo de Futebol. E, por outro lado, o fato de não se erguer a bandeira do arco-íris, por exemplo, em câmaras municipais, não será exatamente um motivo de angústia e sofrimento. Quer dizer, eu acho que uma pessoa que seja homossexual consegue levar a sua vida de maneira mais ou menos normal, confortável, sem haver bandeiras desfraldadas por aí. E é este o problema do progresso social, porque à medida que as reivindicações razoáveis são satisfeitas, os ativistas veem-se privados da possibilidade de as fazer. E das duas, uma: ou desistem do ativismo, o que quase nunca acontece, ou passam a reivindicar coisas cada vez mais absurdas para justificar a manutenção desse mesmo ativismo. Ou seja, ou arranjam um emprego, ou esticam as suas causas fraturantes muito para lá dos limites do ridículo. E já vou terminar, Miguel. Eu, se fosse às entidades competentes, deixava o movimento LGBTI+ fazer o Arraial, eu deixava-os pendurar a bandeira do movimento em tudo que fosse edifício público e privado, até em prédios de apartamentos e marquises. E depois queria ver a que eles resistiriam no ano que vem, porque de certeza queriam resistir a alguma coisa. No mínimo, iriam resistir ao bom senso.

"Os gays portugueses resistem a quê?" É a pergunta que serve de ponto de partida para o "Ideias Feitas" desta segunda-feira, com assinatura do Alberto Gonçalves e vai ficar já daqui pouco disponível em podcast. Alberto, até amanhã.

Até amanhã, Miguel. Um abraço.

O que têm em comum Sérgio Sousa Pinto e Miguel Pinheiro?

Ora lá está. Cá está a prova do crime.

A frontalidade e o espírito crítico sobre a política e a atualidade.

O que me interessa é a liberdade. E não gosto desta coisa de pessoas que virem possuídas de certezas absolutas, quererem apropriar-se da lei para impor as suas conceções aos outros.

Realpolitik.

Não, não conseguimos. O SNS eu achei que ia dar.

Não devias pôr o SNS como último item.

Desculpa, tens toda a razão. Vou tentar fazer melhor.

Para ouvir na Rádio Observador, à quarta-feira, depois do jornal do meio-dia e em todas as plataformas de podcast. O Realpolitik tem o apoio da AIMAP, a metalomecânica responsável por 24 mil milhões de euros de exportações.

Reza a lenda que em 66 os jogadores comeram bacalhau antes de todos os jogos, menos antes do fatídico contra Inglaterra. E em 2016, um jogador tinha a barriga cheia de bacalhau quando nos encheu de orgulho. Chegou o bacalhau da sorte, um bacalhau para todos comermos antes de Portugal jogar, para dar sorte e alimentar a fome de vencer. Disponível e pronto a comer na cozinha Continente. Continente, parceiro alimentar das nossas seleções.

Rádio Observador, são 18h59 em Portugal continental e na Madeira, 13h01