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Alberto Gonçalves. Ideias Feitas com o Alberto Gonçalves. Em Portugal, dia agitado com a tomada de posse do governo, mas vais até ao Brasil. Olá.
Olá, Vanessa. É melhor eu não ir mesmo até ao Brasil, porque aquilo não está muito propício à liberdade de expressão, como se vai ver. No Brasil, um comediante foi condenado, já foi notícia também no "Observador", a oito anos e dois meses de prisão efetiva, além de ser obrigado a pagar uma multa de quase €300 mil. E o comediante, que se chama Léo Lins, não é responsável por nenhum dos 40 mil homicídios anuais que há por lá, não é responsável por nenhum dos milhões de assaltos, não faço ideia quantos sejam, à mão armada ou desarmada que há por lá e também não é responsável por nenhum, que se saiba, dos abundantes atos de corrupção perpetrados por políticos que há por lá, incluindo agora recentemente, soube-se o saque da Segurança Social, que é um desfalque às reformas de pensionistas que já ultrapassou o bilião de euros e de que um dos principais suspeitos é o irmão mais velho do senhor Lula da Silva. Portanto, não foi por nada disso que este comediante Léo Lins foi condenado à cadeia. Aliás, no Brasil, raramente os envolvidos em casos de homicídio, de roubo, de vigarice de colarinho branco vão parar à cadeia. O senhor Léo Lins foi condenado por contar piadas durante um espetáculo de stand-up comedy em 2022. Eu vou repetir: ele foi condenado a oito anos e tal de prisão efetiva por contar piadas ou, no entender da juíza que o condenou, por cometer crimes de discriminação e incitação ao preconceito, ou seja, por fazer humor. Podemos ou não achar graça, pelos vistos, deixo viver um caso ou outro, não exaustivamente, ele faz humor com negros, com indígenas, com judeus, com nordestinos, com homossexuais, com evangélicos, com obesos. Faz esse tipo de humor. Pelos vistos, fazer esse tipo de humor no Brasil atual constitui um crime, ou pelo menos esse é o pretexto apresentado pelo Poder Judiciário. Mas toda a gente sabe, ou pelo menos desconfia fortemente, que o verdadeiro crime cometido pelo comediante Léo Lins é o de não ser submisso ao senhor Lula e ao regime do senhor Lula. Não é de admirar, por um lado, porque sob este governo vigente, o Brasil tem se mostrado cada vez mais próximo de países modelares em matéria de liberdade de expressão, como a Rússia, o Irã e também a China. Até porque há dias, há pouco, duas semanas, durante a sua visita à China, acho que foi mais ou menos há duas semanas, o presidente do Brasil mencionou, foi ele que disse, não sou eu a dizer, a intenção de aprender com o governo chinês sobre a regulação das redes sociais e o controle da desinformação. Ou seja, o senhor Lula quer importar para o Brasil os métodos censórios de uma ditadura sangrenta, de um regime totalitário, cujos motores de busca, como se viu anteontem ou há três dias, por exemplo, se recusam a dar informações sobre o que aconteceu há uns anos na Praça Tiananmen. Os frutos dessa aprendizagem já se notam, e notam-se não apenas na sentença do comediante Léo Lins, como nas várias perseguições movidas nos últimos anos a personalidades públicas que não prestavam vassalagem ao senhor Lula e aos seus companheiros de poder. São diversos os casos de pessoas nos últimos três, quatro anos que após criticarem o governo, foram privadas de acesso às redes sociais e tiveram, algumas delas, que se exilar no exterior, sobretudo nos Estados Unidos. E a propósito dos Estados Unidos, é interessante como tanta gente fala dos perigos imaginários que a liberdade de expressão sofre por lá por causa do senhor Trump, mas pouquíssima gente fala dos ataques reais à liberdade de expressão desferidos pelo senhor Lula e pelos seus serviçais, no poder político, na justiça e, evidentemente, na chamada classe artística. Por falar na classe artística e em perigos imaginários, inúmeros artistas brasileiros, entre eles os popularíssimos Chico Buarque e Caetano Veloso, aliás, artistas com talento, que eu reconheço, protestaram em tempos contra a censura exercida sobre a cultura na altura do governo Bolsonaro. Ora, convinha apurar, e eu fui apurar, quantos artistas, cancionistas, comediantes, etc., foram censurados, perseguidos e condenados por exercerem a liberdade de expressão durante o governo Bolsonaro. Zero. Quantos desses artistas, então muito indignados, vieram agora criticar a prisão de Léo Lins? Zero também. Fora meia dúzia de colegas de comédia que realmente apareceram a achar isto a vergonha que é, é uma vergonha que devia ser intolerável, mas fora meia dúzia de comediantes, quase nenhum dos valentes lutadores pela liberdade lá no Brasil ousou defender a liberdade quando esta está a ser, de fato, atacada. E para concluir, Vanessa, uma ditadura precisa de um poder forte para mandar calar, mas também precisa ou convém que haja um povo fraco que se resigne a ser calado. Isto vale para o Brasil e vale para outros países. E vale também, já que aqui estamos, vale para Portugal, onde o futuro já foi mais promissor nesta matéria de liberdade de expressão. Há sombras que começam a pairar e essas sombras, às vezes, podem escurecer o céu. Vamos ver.
"Piada é a Liberdade Neste Brasil", título do Ideias Feitas, sempre com a assinatura do Alberto Gonçalves, fica disponível em podcast. Até amanhã, Alberto.
Até amanhã, Vanessa.
O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã