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"Ideias Feitas" com o Alberto Gonçalves. Alberto, em dia de Orçamento do Estado, que tema é que nos trazes hoje para a tua crónica? Olá.
Hoje não vou falar do orçamento, porque sinceramente o pouco que já falei acho que já foi demais. Vou falar do escândalo, entre muitas aspas, provocado pelo facto de Maria João Vilas ter feito uma entrevista, no caso ao primeiro-ministro, e pelos vistos não dispor de carteira profissional de jornalista há 16 anos ou 17 anos. Eu devo dizer, acho que já uma vez na altura falei no assunto aqui no "Ideias Feitas", que a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista me contactou uma vez porque eu me identificava no Twitter como jornalista. Não fazia ideia que tinha feito aquilo, era apenas aquilo que me parecia mais próximo do que eu fazia. Mas eles exigiram que eu retirasse aquela designação, a designação de jornalista, porque não tenho carteira de jornalista. E eu imediatamente retirei e respondi que não fazia nenhuma questão de ter. Devo acrescentar também, entre parêntesis, que os e-mails que troquei com alguém lá da carteira ligada à comissão estavam escritos, não os meus, os dele, os do outro lado estavam escritos num português absolutamente medonho. Se a pessoa em causa era jornalista, meu Deus. Mas eu retirei lá aquela identificação como jornalista, embora faça crónicas há mais de 20 anos, agora não tenho feito, mas já fiz muitas reportagens, até já cheguei a fazer entrevistas ao doutor Soares e ao professor Cavaco e mais umas pessoas por aí. Agora, como entrevistador, reconheço que sou muito fraquinho. Quem não é fraquinho como entrevistadora é Maria João Vilas. Maria João Vilas é muito provavelmente a entrevistadora do último meio século em Portugal. Talvez se não é ela sozinha, será ela e muitos poucos mais. É das pessoas que, sobretudo na arte de entrevista, melhor a pratica em Portugal. E já há décadas que o faz e está muito longe de se esgotar naquilo que tem chamado a sua área política, porque são lendárias as entrevistas dela, pelo menos à escala nacional, claro, com o doutor Cunhal, os livros que ela já fez e as entrevistas longuíssimas, praticamente biografias do doutor Soares, etc. Eu acho que o currículo da Maria João Vilas fala por ela e deveria dispensar a tal carteira de jornalista. Eu também entre parêntesis acrescento que conheço a Maria João Vilas. Não posso dizer que sou amigo dela, mas já conversamos algumas vezes, há alguns anos que não nos falamos, por nenhum motivo especial, apenas porque tem calhado assim. Isto é só um parêntesis. Mas se eu não a conhecesse, achá-la-ia na mesma uma excelente entrevistadora, além de, obviamente, uma excelente jornalista. A carteira não habilita ninguém a ser um bom entrevistador, um bom jornalista, um bom repórter. A competência, sim. Não tem mal nenhum ter a carteira de jornalista, mas também não tem mal nenhum não a ter. E as reações que aconteceram depois dessa entrevista dela ao doutor Montenegro, aconteceram porque a Maria João Vilas, de facto, não é conotada com certas áreas políticas e por isso não a pouparam. Foi só por isso. Agora, a situação que temos no momento é que a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista promete avaliar o assunto, ou prometeu avaliar o assunto, e pondera multar Maria João Vilas por ter entrevistado uma pessoa sem ter a carteira de jornalista. Isto é gravíssimo, alguém ter uma conversa com alguém, essa conversa é transmitida e a pessoa não ter um documentozinho que a habilite a confessar, a entrevistar, coisa que ela o faz, repito, muito bem. Pior do que isso ainda, pior do que o papel absolutamente ridículo dessa Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, é o papel ainda pior e mais ridículo, é o papel de certos jornalistas, pelos vistos com carteira, que criticam a Maria João Vilas por não ser jornalista, a desprezam só por não ser jornalista, quer dizer, por não ser jornalista formalmente. E estamos a falar, não vale a pena citar nomes, mas de pessoas que já fizeram toda a espécie de serviços aos políticos que entenderam servir. E aí não houve problema nenhum. E nem a carteira as obrigou a qualquer espécie de isenção. Se há coisa que eu noto na Maria João Vilas, e acho muito bem que ela proceda assim, é que não disfarça a área política, certas ideologias que lhe são mais simpáticas, certas ideologias que lhe são mais antipáticas. Isso não tem mal nenhum, nem tem mal nenhum que noutros lados do espectro ideológico se faça o mesmo. Agora, vir criticar a Maria João Vilas apenas por oportunismo, aproveitando o facto de ela não ter a tal carteira, é preciso lata. É preciso bastante lata. E houve pessoas que o fizeram, houve jornalistas com carteira que o fizeram e jornalistas que com carteira ou sem carteira não chegam aos pés da Maria João Vilas, nem na arte de entrevista, nem me parece noutra arte qualquer ligada ao jornalismo. A carteira não lhes deu propriamente grande coisa, não os abençoou com nenhum talento especial. A Maria João Vilas, mesmo depois que deixou de ter a carteira, não sei porque é que ela deixou de ter, sabe fazer o que faz muito bem. E isso acho que deveria ser o que conta. Mas em Portugal já sabemos que por um lado o viés ideológico é muito importante e, por outro lado, há sempre a velha questão do papelinho que habilita, da burocracia, do peso do corporativismo, etc. São aquelas coisas portuguesas que não vale a pena dar grande importância. Mas o assunto de hoje foi este e não o orçamento.
Maria João Vilas e os carteiristas do jornalismo, títulos do "Ideias Feitas", sempre com o Alberto Gonçalves, que amanhã está de volta à Rádio Observador. Até amanhã, Alberto.
Até amanhã, Vanessa.
O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.