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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo. Hoje queres falar do encontro, ainda não o vimos a esta hora, são 18h50, mas o encontro entre Trump e Ronaldo.
Olá, Ricardo. O suspense corrói-nos. De qualquer maneira, Ricardo, hoje prometo que não vou voltar a falar da BBC, mas vou voltar a falar do Trump. E falando do Trump, hoje é inevitável que fale do Cristiano Ronaldo. Vou começar por fazer uma declaração de interesses, porque para aí há 20 anos que não acompanho o futebol. Era uma coisa que eu gostava dantes e hoje não ligo. Acho que a última prova internacional de que vi vários jogos foi o Euro 2004, que se realizou em Portugal. Ou seja, digo isto para dizer que não sou um conhecedor profundo da carreira do Cristiano Ronaldo, o que para ele deve ser um desgosto incomensurável. Mas vivo no planeta Terra e portanto sei, obviamente, quem é o Ronaldo. Sei que é um dos grandes futebolistas deste século, se calhar um dos grandes atletas deste século, e mesmo que eu não quisesse saber, ao longo destes 20 anos, acho que ele tem para aí uns 23, 24 anos de carreira, os meus compatriotas fartaram-se de mo lembrar. Nesse período, nestes 20 e tal anos, a esmagadora maioria dos portugueses devotou uma veneração ilimitada, barulhenta, ruidosa e bastante expressiva face ao Cristiano Ronaldo, o que é até normal. Às vezes a seguir a um jogo da seleção que corria menos bem, acho que aconteceu isso agora recentemente, parece que a veneração se atenuou um bocadinho. Mas depois no jogo seguinte, o Ronaldo volta a marcar dois ou três gols e as coisas regressam ao normal. O Ronaldo é sempre apresentado, ou quase sempre apresentado, ou mencionado em Portugal enquanto o melhor do mundo. E cada português tem-se sentido um bocadinho o melhor do mundo por interposta pessoa. E pelos vistos, essa veneração longa e incondicional, pelo menos de forma consensual, acabou nos últimos dias. Porque a mudança de humor tem muito pouco a ver com o futebol, acho que tem quase tudo a ver, ou tudo a ver com o senhor Trump. Porque primeiro, há menos de duas semanas, o Ronaldo deu uma entrevista ao Piers Morgan em que confessava admirar Trump, vocês estavam agora mesmo a falar disso, e que tinha interesse em conhecê-lo e tudo mais. Dez dias depois, o conhecimento, a apresentação dá-se. Portanto, os desejos do Ronaldo, mais ou menos, não são ordens, porque o Trump não será muito suscetível a acatar ordens, mas são desejos concretizáveis, sejam eles quais forem. Esta admiração por Trump que Ronaldo confessou nessa entrevista ao Piers Morgan já foi bastante grave para os padrões do pensamento em vigor, da ortodoxia em vigor, porque se ainda não está na Constituição da República, deve estar quase a ser lá enfiado um artigo em que se proíbem quaisquer manifestações de simpatia por Trump. E agora, há esta receção do Ronaldo na Casa Branca, que ainda não se concretizou, mas tudo indica que se vai concretizar. E em condições normais, eu se calhar devo dizer, em condições normais de saúde pública na área da psiquiatria, o facto de uma das pessoas mais célebres do mundo, que por acaso é portuguesa, ser recebida na Sala Oval por outra das pessoas mais célebres do mundo, não digo que deveria dar direito a festejo nas ruas e feriado nacional, mas deveria ser encarada com alguma curiosidade e com nenhuma polêmica, sobretudo. Infelizmente, estes transtornos emocionais que o Trump provoca voltaram a fazer das suas e o que eu hoje pude ver por aí, não é absoluto, não é unânime, mas pude ver nas redes sociais e nas televisões uma vaga considerável, uma vaga imensa de fúria, de azedume, de rancor, de desilusão, mais uma série de sentimentos que o encontro do Ronaldo com Trump desperta em tanta gente. Ronaldo poderia encontrar-se com o Lula, com o senhor Maduro, com o senhor Xi Jinping, com o fantasma de Fidel Castro ou com quem muito bem entendesse, sem que houvesse sequer um pio sobre o assunto, um murmúrio sobre o assunto. Como o encontro é com Trump, que por acaso é um presidente eleito democraticamente de um país aliado de Portugal, mas é americano, ainda por cima é republicano e acima de tudo é Trump. E isso, nos tempos que correm, não tem perdão. E só para terminar, eu volto a avisar, aquela coisa do Trump Derangement Syndrome tem que ser reconhecido com urgência como uma doença mental, porque já há artigos a propósito, não estou a brincar, já há artigos a propósito na "Psychology Today", que é uma revista conceituada na área da psicologia. Já há psicanalistas a relatarem que uma boa parte dos seus pacientes sofre dessa doença e vive transtornado, vive perturbado com essa doença. E agora até já há um país que, em boa parte, se zangou com o seu cidadão mais popular de sempre, apenas porque este gosta de Trump. Se o SNS não fizer nada para combater isto, eu acho que mais vale fechar o SNS de uma vez.
Tem de se propor para ser incluído no DSM. Obrigado, Alberto Gonçalves, e até amanhã. Um abraço.
Até amanhã, Ricardo. Um grande abraço.
O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.