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"Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves. Bem-vindo, Alberto. Boa tarde. Hoje queres falar de um documentário anti-Israel aplaudido durante 24 minutos em Veneza e dos aplausos que Jerry Seinfeld merece.
Olá, Luís. Olá, boa tarde. Quero sim, porque esse documentário, que foi realizado por israelitas, recebeu a maior ovação de pé da história do Festival de Veneza, e o festival já é velhinho. O objetivo do documentário, e por isso teve os aplausos e a tal ovação muito prolongada, era provar que Israel está a cometer um genocídio em Gaza. Claro que o documentário, pelo que li, obviamente não vi, nem tenciono ver, recorre a fontes não identificadas e pouco ou nada credíveis, militares de baixa patente que não tinham acesso à informação que dizem ter. Claro que o documentário não faz alusões ao 7 de outubro e a outros atos de selvageria perpetrados pelo Hamas. Claro que não menciona o uso de civis pelo Hamas enquanto escudos humanos. Aliás, para os autores do documentário, parece que o Hamas nem existe, embora, curiosamente, eles reproduzam a propaganda do Hamas com bastante fidelidade. Desde logo, este aplauso longuíssimo faz lembrar o que acontece naqueles regimes totalitários em que ninguém quer ser o primeiro a parar de bater palmas, porque corre riscos de ser penalizado. Não é que em Veneza a primeira pessoa a parar de aplaudir fosse presa e torturada e eventualmente fuzilada, mas podia acontecer-lhe e era muito provável que acontecesse aquilo que acontece a quem não alinha nesta vaga de pensamento comum que se opõe à política de defesa de Israel e, afinal, à própria existência de Israel. Uma pessoa que não aplaudisse ou que aplaudisse muito brevemente o tal documentário, se calhar, com toda a probabilidade sofreria o tipo de retaliações que a dita classe artística sabe infligir. No fundo, o que levou aquela gente a aplaudir em Veneza durante os tais 24 minutos um panfleto do Hamas é o mesmo que levou aqueles comediantes portugueses a achar que boicotavam o festival de comédia por causa da participação do Jerry Seinfeld. Uns talvez saibam do que estão a falar e mesmo assim têm convicções sobre o assunto, e outros não fazem a mínima ideia. Não sabem as implicações da frase "Free Palestine", não sabem qual é o rio e qual é o mar do famoso slogan, mas repetem na mesma o slogan, porque o eventual desalinhamento com o pensamento em voga podia trazer-lhes, e traria certamente dissabores. Além disso, o cómico boicote ao festival e sobretudo o cómico boicote ao Jerry Seinfeld deu-lhes uma publicidade que é inegável que as suas atuações em palco naturalmente não dariam. E os pobres boicotadores já suscitaram por aí os risos que as suas rábulas nunca tinham suscitado. Eu nem conhecia nenhuma daquelas pessoas e das pessoas das minhas relações também não conhecia ninguém que conhecesse alguém daquelas pessoas. Mas enfim, o que eu queria destacar hoje é que muitos dos que criticaram o boicote, os tais comediantes portugueses que fizeram o boicote, muitos dos que criticaram esses comediantes fizeram também questão de dizer que as posições de Seinfeld são aberrantes. Um dos que adotou esta atitude usou esse termo. Ou seja, ficaram em cima do muro e fingem defender a tolerância, acham muito bem que o Jerry Seinfeld tenha direito a atuar, mas à cautela, não se esquecem de incluir a repulsa pelas posições de Seinfeld nessa suposta e, ao fim e ao cabo, duvidosa defesa da tolerância. E se a questão da tolerância e da intolerância merece ser discutida, que merece, é importante, hoje eu preferia trazer aqui, porque a mim importa-me mais lembrar que Jerry Seinfeld não está errado. Jerry Seinfeld está do lado certo, está do lado da civilização contra a barbárie e não precisa de ser defendido por quem acha que é errado defender a civilização contra a barbárie e por quem provavelmente teria aplaudido o documentário fake sobre Gaza. Porque para além das suas conhecidas posições óbvia e saudavelmente favoráveis a Israel, que Seinfeld sempre manteve e nunca mostrou qualquer hesitação nisso, felizmente, a meu ver. Mas para além disso, algumas das frases dele que têm sido mais dissecadas a propósito de toda esta questão são provocações em resposta a outras provocações que lhe fazem durante os espetáculos em que ele é o protagonista, durante eventos desportivos em que ele está presente como mero espectador. Ele é provocado e responde com provocações. E são provocações que, como é costume nele, têm graça. Noutros casos, são respostas factuais, como quando ele diz que esta gente do Free Palestine é menos sincera do que o Ku Klux Klan, já que estes ao menos odiavam assumidamente os judeus e não disfarçavam com aquela conversa fiada do antissionismo. Nesta matéria, Seinfeld merece, claro, poder expressar-se livremente. Aí concordo com aqueles que defenderam a sua expressão e a sua atuação no tal festival, porque a liberdade de opinião é fundamental, mas, por outro lado, também merece que se diga que a opinião dele, ainda por cima, é a opinião correta. Não me parece que possa haver grandes dúvidas. Há muitos assuntos sobre os quais é saudável, é lícito discutir. E entre o Hamas e Israel, podemos discutir pormenores das políticas militares de Israel, pormenores dos avanços, dos recuos. Agora, o direito de Israel a defender-se e a existir como país, que é aquilo que constitui, ao fim e ao cabo, o sionismo, acho que isso não devia ser posto em causa e, nessa medida, as posições de Seinfeld acho que são absolutamente inatacáveis por quem tem alguma vergonha na cara, pelo menos. Eu, por mim, já comprei bilhetes para o espetáculo de Seinfeld, nem tinha pensado comprar, acabei por comprar e se as minhas costas deixarem, tenciono aplaudir o Seinfeld de pé durante 25 ou 26 minutos só para bater mais um recorde.
Obrigado, Alberto. Até amanhã para mais uma crónica.
Até amanhã, Luís.