4 Outubro 2015. Esta será, definitivamente, uma das datas que moldará o futuro político do país nas próximas décadas. A outra é 26 de Novembro do mesmo ano. A 4 outubro realizaram-se eleições legislativas ganhas pela coligação Portugal à Frente liderada por Pedro Passos Coelho; a 26 de Novembro António Costa toma posse como primeiro-ministro depois de ter assinado acordos escritos com BE e PCP. Estes dois acontecimentos explicam, em parte, como chegamos até aqui, ou seja, como é que temos em 2026 uma esquerda à esquerda do PS reduzida à insignificância, e como temos uma direita à direita do PSD em ascensão. Se Costa foi o coveiro da extrema-esquerda, Rui Rio foi um enorme facilitador do crescimento do Chega quando tentou, infantilmente, não combater o PS e a sua política, mas substituir os seus aliados PC e BE, alienando todo o espaço à sua direita, espaço esse aproveitado sabiamente por André Ventura.
Este parágrafo explica resumidamente como chegamos até aqui, mas não diz uma coisa importante, a que se dedicou o que ganhou mas não governou, se os políticos se definem nas vitórias e nas derrotas, então a circunstância extraordinária que tocou a Passos Coelho, ou seja, uma vitória eleitoral sem possibilidade de governar poderia ter gerado uma tal revolta que o levasse imediatamente a minar o governo em funções e a posterior liderança de Rio que não protegeu o seu legado. Foi isso que Passos Coelho fez? Não foi. Pedro Passos Coelho assistiu a tudo serenamente mas sem deixar de indicar o erro grosseiro que estava ali a ser cometido e que custaria caro no futuro, como aliás hoje se confirma.
É por tudo isto que hoje quando PPC fala é ouvido, porque todos os que hoje o criticam sabem, ou deveriam saber, que Passos Coelho não diz o que diz por ressabiamento ou desejo de vingança, se fosse por isso não teria ficado calado este tempo todo. Passos fala hoje desta maneira, com convicção e desprendimento porque sabe que o tempo está a esgotar-se, ou seja, Passos sabe que a 8 anos perdidos por Costa deveriam corresponder 8 anos dinâmicos e reformadores da AD, ainda para mais com a competição evidente à sua direita.
Ora é por demais evidente que, não estando morto nem intelectualmente incapaz, Passos Coelho não poderia ficar eternamente calado e constatar que o seu governo foi o último a ter um cunho reformista mesmo numa conjuntura tão difícil para o país. Não é possível pedir a quem liderou o país numa altura tão complexa que assista impávido ao desbaratar do legado reformador que imprimiu ao PSD, e nem que perceba que os sacrifícios que pediu aos portugueses tenham sido, afinal, em vão. Se não é possível exigir reformas e mudanças na boa direcção ao PS, porque não é esse o seu legado, essas reformas podem e devem ser exigidas ao PSD porque foi esse o legado que o último governo do PSD deixou. Luís Montenegro tem o direito de renegar a herança do último governo do PSD mas não pode ficar admirado se lhe lembrarem que resultados obteve e o que foi feito nesse governo.
Post Scriptum: No dia 30 de Dezembro de 2023 publiquei aqui no Observador um artigo que chamava a atenção para o erro monumental que eram as “linhas vermelhas”. Hoje apenas por manifesta má-fé ou deficit cognitivo alguém poderá dizer que estas foram benéficas para o país ou até mesmo para quem as traçou.
Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.