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Bem-vindos ao Imperdíveis. Hoje com Luís Alves Monteiro, licenciado em Direito, gestor e consultor. Foi aos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984 na modalidade pentatlo moderno, ou seja, a competir simultaneamente em cinco categorias: equitação, natação, corrida, esgrima e tiro. Na prova de hipismo ficou em quarto lugar e foi o português melhor classificado e, na altura, a imprensa achou que ele tinha ficado a um lugar do pódio. Mas no pentatlo moderno, a soma faz-se a partir dos pontos das cinco modalidades e, de facto, não ficou no todo, mas foi uma grande proeza. Tinha 22 anos e foi certamente uma experiência gloriosa. Depois voltou, focou-se no mundo corporativo, trabalhou em multinacionais e sempre também muito orientado para os resultados. Foi agora eleito presidente da Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal e é isso que o traz aqui hoje, neste ano excecional, neste ano ímpar, no sentido literal e metafórico, já que os Jogos Olímpicos são sempre em anos pares, mas agora por causa da pandemia, haverá Jogos Olímpicos em Tóquio num ano ímpar. O foco do Luís Alves Monteiro são os atletas pós-carreira e não aqueles que estão agora nos ciclos olímpicos. Bem-vindo, Luís, muito obrigada por ter aceite o convite.
Obrigado, Laurinda. É um prazer e, de facto, para nós, enquanto associação, é uma excelente oportunidade de falarmos um pouco sobre aquilo que nos move e sobre a nossa causa.
É importante. E sobretudo, Luís, aqui temos sempre uma dupla, múltipla possibilidade de falar da biografia e das causas. E da experiência e da ciência, mas neste caso, a sua biografia é interessante, porque nasceu em Lourenço Marques, quando Maputo ainda se chamava Lourenço Marques.
Exatamente.
Viveu lá alguns anos. Como é que chegou ao pentatlo moderno, quando eu penso que, nessa altura, em Lourenço Marques, treinar cinco modalidades não era assim óbvio.
Não. A passagem por África tem outros requisitos e deu outro tipo de experiência e outra abordagem de vida, porque, de facto, África, só quem lá esteve. Eu agora estou a me levar no tempo e aquele cheiro da terra molhada quando se aterra em África é tudo. E nós tínhamos uma vida, uma liberdade enorme. O desporto fazia parte da nossa vida. A parte escolar e o desporto estavam intimamente ligados, mas, de facto, nessa altura nem sequer imaginava que pudesse um dia estar a praticar o pentatlo moderno. Tive 14 anos em África, como disse, eu nasci em Lourenço Marques, agora Maputo. E depois quando cheguei a Portugal, como já fazia natação em África, comecei a nadar também. E depois foi uma coincidência feliz, encontrei uma pessoa que praticava a modalidade, que sabia que eu montava a cavalo, que é uma das disciplinas, uma das modalidades do pentatlo moderno, e é muito difícil encontrar esta coincidência. Uma pessoa que nade e que monta a cavalo. E foi o ponto de partida para começar a treinar o pentatlo moderno.
Luís, mas em todo caso, isso também envolve corrida, esgrima e tiro, portanto, é verdadeiramente preciso ter pontaria para encontrar uma pessoa que seja boa nestas cinco modalidades, ou não?
Não, há uma base, e a base é a natação e, como disse, saber montar a cavalo é um valor acrescentado muito grande. Depois, é uma questão de treino, como em tudo na vida, começamos a treinar e a componente física é muito importante. Tanto assim que os atletas do pentatlo moderno normalmente eram bons esgrimistas porque suplantavam esse handicap de não ser um esgrimista natural com a capacidade física. Agora, a modalidade em si, como diz, Laurinda.
É um multitasking, não é?
É um multitasking. É. E não se pode treinar tudo ao mesmo tempo. Como deve calcular.
Como é que se treina?
A componente física, obviamente, que exige a natação e a corrida, exige outro tipo de abordagem e método de treino. O hipismo, eu posso lhe dizer que a maior parte dos atletas não dedica muito tempo ao hipismo, até porque, não sei se vou surpreender ou não, mas o hipismo é uma prova que nós não temos cavalo, as organizações é que fornecem os cavalos, e é um sorteio. Claro que os cavalos, à partida, farão uma prova de obstáculos, portanto, trata-se de uma prova de obstáculos, mas é um sorteio e nós só temos 15 minutos para aquecer e dar três saltos antes de entrar em prova.
A sério?
É verdade.
Uma das imperdíveis recentes foi a Maria Caetano, que monta 10 cavalos por dia, que tem este binômio, o atleta e o cavalo, e agora ouvi-lo assim dizer que tinham 15 minutos para se fazerem um ao outro.
Exatamente.
Esse binômio do cavalo e do cavaleiro, isso é de uma adversidade total.
É, temos quase que arranjar ali uma empatia imediata, porque eu posso dizer que nesse dia, se eu me agora recordar das provas, é quando todos aqueles atletas de alta competição, alto gabarito, acompanhados por treinadores, etc., há ali um fator sorte impressionante, porque eles treinam pouco, de facto, para aquela prova e estão todos brancos e lívidos antes da prova, porque sortear um cavalo e ter só 15 minutos para o conhecer Não é fácil, mas é também outra da riqueza da modalidade.
Mas então, ainda por cima, foi a sua prova mais bem conseguida. Aquela em que realmente ficou em quarto lugar foi a prova de hipismo. Ou seja, esteve muita perícia, mérito seu, certamente, e também alguma sorte nessa loteria, ou não?
O cavalo era espetacular. Ainda me lembro do nome do cavalo, chamava-se Edge of Real. O que acontecia era que, como eu não era cavaleiro, recebia as indicações e durante toda a minha vida no pentatlo moderno, havia um comandante que eu tenho que recordar agora, ele está vivo, o comandante Martins Abrantes, que dizia que eu tinha uma facilidade em apanhar as indicações. Ele dizia-me: "Com este cavalo tens que fazer assim, assim e assim." E precisamente pela minha falta de conhecimento, não ser um cavaleiro de origem, eu não inventava, Lorinda. Basicamente, a solução era não inventar. E como não inventava e seguia à risca as indicações, eu normalmente era dos melhores. Acho que poucas vezes, aqui a nível nacional, colegas meus que eram cavaleiros me ganhavam, porque de facto eu cingia-me àquilo que me diziam, até porque não saberia fazer muito mais.
Ó Luís, mas a sua natureza é uma natureza competitiva, neste caso, altamente competitiva e de alto rendimento. Sempre foi essa a sua natureza ou também isso foi um conjunto de circunstâncias?
Não, eu acho que sempre foi essa a minha natureza. Mesmo quando eu nem sequer imaginava, em África, que ia fazer desporto de alto nível, eu tinha uma vontade enorme. Competia com o meu pai, porque o meu pai não era propriamente uma pessoa que tivesse muito vocacionado para o fenómeno desportivo. Portanto, a competição era ele a dizer para eu estudar e eu a querer treinar.
Ah, competiam nessa perspetiva.
É, nessa perspetiva éramos dois competidores muito aguerridos.
Ó Luís, então dando aqui um salto. Aliás, ainda antes de dar o salto, queria lhe perguntar: nos anos 80, imagino que em Lisboa não havia as facilidades que há agora para treinar e muito menos treinar cinco modalidades em simultâneo. Como é que eram os seus treinos? Eram no Jamor, era no meio da cidade, era o quê?
Dava para escrever um livro, Lorinda, porque nessa altura eu lembro-me perfeitamente quem andava de facto de treino a correr na Segunda Circular, passavam aqueles autocarros verdes e as pessoas, os trabalhadores, metiam a cabeça de fora e normalmente ouvia-se esta frase: "Vai trabalhar, malandro." Porque quem de facto treina a correr não estava propriamente a ter uma atitude.
A fazer nada.
A fazer nada. No fundo, era isso. Mas sim, para responder à sua pergunta, era dificílimo. Eu na altura lembro-me que tive que comprar uma mota porque os locais eram completamente afastados uns dos outros. Não havia, como já havia naquela altura em países estrangeiros, tudo localizado no mesmo sítio. Nós aqui tínhamos que, no fundo, fazer piscinas. Andar fazendo quilômetros para encontrar locais para treinar. E depois tem histórias maravilhoshas. Eu lembro-me que estava qualificado para os Jogos Olímpicos e na altura a piscina onde costumávamos treinar estava fechada. Então chegamos à piscina do Arieiro e pensávamos nós com esta qualidade de olímpico e qualificados, etc, podíamos entrar. E estava lá um senhor que disse: "Não entram nem por cima do meu cadáver." Foi basicamente assim.
Tão despótico.
Nos anos 80, porque a piscina tinha um regulamento, tinha lá umas regras que era para determinado tipo. Nós não estávamos enquadrados nos utentes, e então os funcionários eram muito zelosos. Boas instalações havia, não podíamos era utilizá-las, basicamente era isso.
Ó Luís, quem o conhece diz que uma das suas marcas é o sentido de humor. E é engraçado porque eu ouço-o contar estas histórias e como nós falámos para preparar esta conversa, riu-me das outras histórias que ainda não contou. Mas enfim.
Tenho algumas.
Pode contar, sinta-se à vontade.
Estou me a lembrar de uma, basicamente que estivemos um mês em Fontainebleau a fazer um estágio para um campeonato do mundo, que era em Londres. E na altura, ao fim de um mês, já não estávamos propriamente a ter um comportamento normal, porque era treino incessante. E fomos a Paris, fomos ao Centro Georges Pompidou, ao Centro Beaubourg, e entrámos numa daquelas lojas que tinha de tudo um pouco e comprámos coisas para pintar o cabelo. Vestimo-nos, na altura eram os punks, portanto, e fomos para o campeonato do mundo, para o aeroporto, com uma aparência de punks. E no pentatlo há pistolas, há a componente do tiro e nós tínhamos que levar a pistola. E eu lembro-me, na altura, para ser rápido, passámos pelo um dos meus colegas, o Manuel Barroso, esqueceu-se de meter a pistola no porão, porque era essa uma das indicações. Nós não podíamos levar a pistola conosco no avião. E ele esqueceu-se de meter a pistola no porão e estávamos a passar no raio-X e estava lá um oficial a olhar para o raio-X. Nada se passava naquela altura, não se falava muito de terrorismo. E de repente o homem agarra, ele próprio, a pistola dele. Porque viu qualquer coisa no ecrã e era a pistola do Manuel. E ele então vira-se para mim e diz assim em francês: "Ouvre la valise." E eu, que estava com os nervos todos, atirei-me à mala do Manuel para abrir Para abrir para lhe demonstrar que aquilo era uma pistola de competição. E ele dizia assim: "Doce, mano." E depois encostaram-nos à parede. Foi uma cena mesmo de filme policial. Foi um episódio que guardo. Na altura, não achei piada nenhuma, mas agora já rio.
Isto era quando ainda era sub-20. Como é que conseguiu sempre compatibilizar isto com o estudo de Direito, ainda por cima logo esse curso?
Eu agora dizia que dava uma resposta rápida. Apesar de fazer o curso, não conseguia. Não, o que acontecia era que eu saía de casa, o meu pai fazia-me uma revista a um saco de desporto, porque propriamente para a universidade de Direito não se leva um saco de desporto, mas eu como dizia que os livros eram pesados e precisava de um saco, metia na parte de cima os livros e na parte de baixo o equipamento desportivo. Abria só o saco para o meu pai ver e dizia assim: "São os livros, pai. Tenho livros pesados de Direito." E o meu pai lá se deixava levar. Eu entrava no autocarro, saía na paragem seguinte para ir treinar.
Acha o Luís, que ele acreditava, não é?
Achava. Eu dizia-lhe: "São rosas, senhor." Tive quase para lhe dizer que são rosas, senhor.
Olha, Luís, fez o curso e depois fez a sua carreira no mundo corporativo.
O que prova que, só para este aparte, porque de facto não fui um aluno brilhante, mas isso não quer dizer nada, porque depois na capacidade de me enquadrar e de perceber o que era o mundo corporativo, prometeu-me uma carreira bastante interessante, porque trabalhei muitos anos no estrangeiro e a alto nível em posições de senior management.
Luís, isso é aquilo que todos nós sabemos hoje em dia, não é? Como é que se medem os talentos e o rendimento. E percebemos que se calhar quanto melhor for no desporto ou na música, mais rendimento tira, ainda que as notas não mostrem. Porque é impossível uma pessoa fazer seis cursos superiores ao mesmo tempo e cinco modalidades, mais um curso, no fundo, são seis categorias exigentes.
É verdade.
Mas dando aqui um salto temporal, gostava de saber como é que foi este processo também de passados estes anos todos. Estávamos a falar de 84 e dos anos 80 e agora em 2021, neste ano da pandemia, neste confinamento e nestas condicionantes tão grandes e tão graves para desportistas e para atletas de alto rendimento. Como é que surgiu esta sua nomeação? Não sei se é por candidatura, se foi nomeado, à Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal e qual é o foco?
De facto, nós chegamos a uma fase da vida que já conseguimos olhar para trás e fazer alguma história e perceber as dinâmicas e os ciclos. E eu estou lhe a falar nisto porque, de facto, comigo acontece, eu tenho ciclos, não sou diferente de muita gente, tenho ciclos de vida em que há mudanças, porque eu procuro muito a mudança. E depois há coisas coincidentes. Eu há cinco anos, numa fase em que vim de Londres e que estive num período sem trabalho de dois ou três meses, num período sabático, como se chama, estive ali a dar uma colaboração à Associação dos Atletas Olímpicos. E na altura fiz um projeto, e o projeto chamava-se "Unleash the Olympic Potential", porque era um projeto que tinha que ser apresentado a uma entidade internacional, "Libertar o Potencial Olímpico". Basicamente, há quatro anos e meio, eu estava a falar nisto, era precisamente libertar o potencial olímpico. Na altura dizia que a associação tinha ouro nas mãos. Olhe, e cinco anos depois, a vida deu esta volta. Eu fui contactado, muito também em função pelo trabalho que fiz na altura, fui contactado pelo professor Gentil Martins, que era o presidente da associação. Curiosamente, o professor Gentil Martins, médico pediatra e famosíssimo, foi olímpico no tiro. E era presidente da associação e convidou-me, entre aspas, porque isto depois é sujeito a uma eleição, a criar uma lista. Basicamente foi isso que aconteceu. Eu achei o projeto interessantíssimo. Criei uma lista de atletas olímpicos que estivessem interessados no projeto que eu queria desenvolver. E neste caso, agora é uma equipa a desenvolver o projeto. E depois começámos a pensar que isto podia ser levado de uma forma, porque é um quadriénio, são quatro anos. Obviamente, fizemos um programa com metas e objetivos, mas depois, pensando melhor e pensando no lema que nos motivava, que era: "Para os atletas, pelos atletas, para a sociedade", achámos que, de facto, há aqui uma componente social enorme, quer para os atletas, porque agora falando um bocadinho contra aquilo que disse há bocado, a inserção profissional destes atletas de alto rendimento é um problema que tem que ser solucionado e tem que ser combatido, porque de facto esse problema existe. Nós não criámos um facto, esse problema existe.
Luís, desculpa, existe e percebe-se, porque é impossível ter alto rendimento simultaneamente a tudo. Nos estudos, nas categorias olímpicas e mais as viagens, mais as ausências.
É verdade.
Toda essa disciplina férrea e essa competição feroz.
Ó Laurinda, só para acabar este raciocínio, porque de facto, esta componente da inserção profissional e o que acabou de dizer, exatamente a disciplina férrea e a competitividade, o mundo profissional não está preparado para receber estas pessoas com estas características, nem estas pessoas estão preparadas para se integrarem e inserirem no mundo profissional. Parece que a competitividade pode ser uma característica positiva, mas quando é exagerada, não funciona nestes ambientes. E de facto, há uma percentagem muito grande destes atletas que têm problemas até de saúde mental e de inserção profissional, de adaptação. Nós aqui, basicamente, o que estamos a tentar também é resolver um problema quando estamos muito focados no pós-carreira, que é perceber onde é que estão estes atletas e como é que os podemos ajudar.
Luís, temos aqui um minuto e meio, mas eu gostava só de reforçar isto porque me parece de fato um ponto absolutamente essencial e que tocou, que tem a ver com essa competição. Essa competição e às vezes até em categorias ou em modalidades que são de esportes que não são de esportes em equipe. E portanto, se calhar, isto trabalha o ego de tal maneira que não é transponível para o mundo das empresas e das organizações, onde o trabalho é por definição em equipe e onde os egos às vezes se chocam. É por isso, é por aí também?
Também esse ponto do ego é importante, porque o ego pode ser uma coisa positiva, bem aproveitada em cada um de nós. Portanto, eu costumo dizer que há o mau ego e o bom ego. E de fato, passar por uma vida de um atleta de alta competição e habituado a um determinado tipo de abordagem, de atenção, depois também tem dificuldades no mundo corporativo, também pode passar por aí. Mas basicamente o que se tem que perceber é que este fenômeno existe e tem que ser tratado. E o ego pode ser aproveitado numa perspectiva positiva. E é isso que nós também estamos a fazer na AOP, é utilizar os egos destes-
Vou ter que interromper, porque esgotamos aqui o nosso tempo, temos que fazer uma pausa. Voltamos já a seguir. Luís Alves Monteiro foi atleta olímpico, esteve em Los Angeles em 1984 na modalidade pentatlo moderno. Agora é o atual presidente da Associação de Atletas Olímpicos Portugueses e estávamos a falar exatamente de como é que estes atletas ou ex-atletas olímpicos, não sei qual é a terminologia, como é que se integram no mundo, no mercado de trabalho. E isso é, de fato, um dos focos e uma das suas missões enquanto presidente da associação, certo?
É. Só fazer uma correção, Laurinda, são atletas olímpicos, nunca são ex. Portanto, a partir do momento que são atleta olímpico, é um atleta olímpico para a vida. E de fato, esse é um dos focos, é ajudar nessa integração, dando-lhes as valências, as ferramentas. E esse é o segundo foco, que eu acho que tem uma importância enorme, que é utilizar a capacidade destes atletas, a resiliência, o espírito de luta, espírito de sacrifício, etc. E como são pessoas carregadas de valores, valores da amizade, da excelência, que no fundo são os valores olímpicos, utilizá-los como role models, como modelos para intervirem na sociedade e passarem mensagens que são mensagens fortes, como a não violência no desporto, a ética, a igualdade. E é por aí que nós temos este processo, que é transformar este quadriênio num projeto de vocação eminentemente social.
Luís, então ainda bem que disse que não há ex-atletas, há atletas, mas, em todo caso, também para se perceber, esta associação só trabalha com os atletas que já estiveram no ciclo olímpico, mas não com aqueles que estão agora. Ou seja, aqueles que estão qualificados e que vão a Tóquio, não estão nesta esfera da ação.
Sim, eu diria que o âmbito são todos os atletas olímpicos, mas mais focados no pós-carreira, porque os atletas olímpicos do ciclo olímpico, os que estão agora a competir, vão ser necessariamente pós-carreira, portanto eles vão lá chegar. Nós estamos numa posição de esperar que eles entrem neste radar, mas o âmbito são todos atletas olímpicos, sim.
Muito bem. Eu estava a ouvi-lo e estava a pensar que há várias associações internacionais, e lembro-me agora de uma que conheço particularmente, que é uma associação de veteranos de guerra, jovens veteranos de guerra, que foi criada há uns anos, há uma década, e que recupera e que faz isto que estão a fazer com os atletas, faz com os veteranos de guerra que voltam de guerras, como no Iraque ou Afeganistão, onde quer que seja, miúdos, digamos assim, de 20 e poucos anos, e que voltam e depois não têm um lugar no mercado de trabalho. Quer dizer, ali num cenário dramático, aqui num cenário de alto rendimento e de altíssima competição, mas no fundo é como se não tivesse um espaço para eles. E estas associações o que fazem é pegam neles e põem-nos como heróis, heróis de guerra ou role model, em escolas para jovens, ou porque sabem cartografia, ou porque sabem estratégia, ou o que for. E no fundo, o que está a pensar também é isto, é fazer qualquer coisa e também junto das escolas, junto das universidades.
É muito parecido. Ainda há pouco tempo tivemos uma reunião com uma associação de cariz social, Corações com Coroa, precisamente para criarmos aqui uma sinergia e utilizar os atletas olímpicos como mensageiros de temas tão importantes como o bullying nas escolas, a violência no namoro, etc. O mais natural seria o atleta olímpico chegar como exemplo e falar dele. Aquilo que nós queremos, não, é precisamente a intervenção do atleta olímpico na sociedade enquanto role model. Portanto, muito de encontro àquilo que acabou de dizer, Laurinda. É essa a perspectiva.
Muito interessante e também sei que já foi desafiado por uma associação que é a Novamente, que é uma associação de pessoas vítimas de AVCs ou de acidentes de viação, que foi também desafiado a ir falar com estas pessoas, porque no fundo são pessoas que têm uma segunda vida e que também de certa forma se sentem peixe fora d'água. Muito interessante essa vossa vocação e estas causas. Gostava de lhe perguntar quem é que o inspira, onde é que foi buscar esta inspiração, quem é que o marcou em termos de valores. Se calhar voltamos à sua própria
Isso é interessante, porque esta questão de sonhar e de criar altas expectativas, com o sentido da realidade, mas ter sempre altas expectativas, vou buscar à minha mãe, porque a minha mãe é poetisa, escreve livros e eu tenho uma grande admiração por aquilo que faz. O meu pai, o gosto da aventura. Eu vivi muitos anos fora, vivi em Londres, trabalhei em Espanha e Itália. E tenho uma referência, essa é a referência, o pilar, eu chamava-lhe o pilar, que é o meu avô. O meu avô foi um juiz conselheiro, o José Alves Monteiro. Aliás, uma pessoa conhecida.
Um personagem de uma novela recente ou de um filme, de uma série.
É, de uma série da vida real, que foi o atentado ao Salazar, e que foi o meu avô que investigou. E na altura investigou até contra a vontade do regime, porque ele no fundo queria apurar a verdade, independentemente das políticas e de quem estivesse em causa, o que lhe interessava era apurar a verdade dos factos. E de facto, esse relatório existe e foi graças a esse relatório que pessoas inocentes não foram condenadas. Aliás, a imprensa da altura é unânime em destacar e louvar a capacidade, a ética e a verticalidade do meu avô. E isso, de facto, é uma inspiração e este projeto inspira-me tanto, é um projeto de paixão, porque de facto vamos acrescentar valor quer aos atletas, quer à sociedade. Daí o tal lema que nós estamos sempre a repetir: "Para os atletas, pelos atletas, para a sociedade".
Luís, então fale-me de alguns atletas que estejam já neste radar e que já estejam prontos para atuar ou para dar não só o testemunho pessoal, como também o dos valores.
Nós temos duas classes de atletas. Uma das missões da Associação dos Atletas Olímpicos é dar rosto aos atletas olímpicos. Parece um bocado estranho, mas eles de facto passam por uma fase de mediatismo e depois são completamente esquecidos, votados ao ostracismo e esquecidos. Há atletas brilhantes, com carreiras brilhantes e com capacidades inimagináveis, que não têm rosto. Portanto, a primeira fase é darmos rosto, envolvê-los com a associação e darmos rosto a estes atletas que merecem. É uma vida inteira dedicada. Uma parte da vida dedicada ao desporto.
Isso aconteceu consigo?
Sim, no meu caso e no caso de tantos outros que pensavam, eu na altura pensava que o fato de ter ido aos Jogos Olímpicos me ia abrir portas. O que acontece em N países, aqui ao lado, por exemplo, na vizinha Espanha, só para lhe dar um exemplo, os atletas, os anos que dedicam à vida desportiva são contados para efeitos de reforma. Nos Estados Unidos, um atleta olímpico é um deus, porque de facto há essa cultura, é um super-herói. Aqui não, aqui as pessoas de facto são votadas ao ostracismo, são esquecidas. Eu acho que isto tem que haver ressonância na memória das pessoas. Um Carlos Lopes, por exemplo, ir a uma escola e os alunos não o conhecerem, é uma coisa inimaginável. E isso já aconteceu. E estas pessoas que deram tanto ao país, são medalhas de ouro, são pessoas que dedicaram uma vida inteira, têm que ser reconhecidos.
Luís, aí eu não resisto também a perguntar: e os paralímpicos? Porque eu sou daquelas pessoas que acha que se um atleta olímpico é, de facto, uma pessoa com uma capacidade, um rendimento, um nível de superação extraordinário, para mim, um atleta paralímpico é tudo isso, vezes pelo menos o dobro, mas eu diria ao cubo. E eu acho que aí o esquecimento é ainda maior. Acho que aí, estas pessoas que se superam a níveis sobre-humanos e depois voltam e às vezes nem ninguém fala deles.
É completamente verdade. Eu não podia dizer melhor que a Laurinda. É ao cubo e muito mais. De facto, são exemplos de dupla superação, porque estão a superar-se enquanto atletas e também com as limitações. É evidente que têm que ter, por exemplo, no nosso caso, e não querendo esquecer os paralímpicos, nós, através deste projeto de vocação social, que tem o mérito e tem um objeto de trabalho e é um problema que tem que ser resolvido, nós convidámos o secretário de Estado da Juventude e Desportos para ser embaixador do projeto, que aceitou, porque no fundo vai de encontro aos valores da Secretaria de Estado e àquilo que a Secretaria de Estado pretende. E inclusive o secretário de Estado, doutor João Paulo Rebelo, lançou esse repto à sociedade, para que entidades como a nossa avançassem e também produzissem o seu trabalho e ajudassem a promover, por exemplo, coisas como a não violência no desporto. Portanto, eu acho que isto passa pela sensibilização da sociedade, porque de facto os atletas olímpicos ou paralímpicos têm aquela altura de mediatismo e depois caem no esquecimento e eles, de facto, carregam neles valores impressionantes que podem ser utilizados de uma forma tão efetiva.
Que é poderosa e agregadora.
Que é poderosa. É. E é agregadora.
O que é que levou daquilo que há bocadinho disse que ser atleta olímpico é uma escola de ética, de valores humanos e de amizade? Eu acho que ouvi esta palavra, amizade.
Sim, amizade Esses são os valores intrínsecos. Amizade, excelência e respeito são os valores olímpicos. O fato de termos tido acesso aos jogos e termos participado de toda aquela dinâmica que são os Jogos Olímpicos e termos estes valores intrínsecos, faz de nós embaixadores de tanta coisa e com uma responsabilidade muito grande de intervenção na sociedade. Agora, é preciso alguém que, de facto, consiga, no nosso caso, a associação, congregar, envolver e lembrar também os atletas olímpicos que têm esse papel, porque não é só a sociedade. Os próprios atletas têm que ter essa consciência que têm um papel importantíssimo.
De tudo aquilo que aprendeu nos seus anos de atleta olímpico, o que transpôs para o universo das organizações, para as multinacionais, para esse mundo corporativo onde teve posições estratégicas? O que levou para a gestão das pessoas, para a sua gestão humana? O que a motiva todos os dias?
Essa é uma excelente pergunta, Laurinda, porque eu quase que diria que há três arcos da vida. Quando somos miúdos e que praticamente não tomamos decisões, apesar disso agora estar a mudar ligeiro. Espero que mude, que as pessoas tenham autodeterminação e os miúdos comecem a perceber como é que podem ser felizes. Depois, há aquela fase da vida em que trabalhamos e que dependemos uns dos outros para ter sucesso e começamos a ter que trabalhar com pessoas. E depois há outra fase em que já somos livres de decidir, temos a liberdade de decidir aquilo que queremos fazer, o que queremos fazer e como é que podemos partilhar aquilo que aprendemos. Eu no outro dia vi uma frase do Simon Sinek que diz que os líderes não cuidam de resultados, os líderes cuidam de pessoas e as pessoas geram resultados. Basicamente, esta é a grande diferença. É quando estamos no mundo corporativo, ensinam-nos a ter resultados, mas não nos ensinam a liderar pessoas para essas pessoas apresentarem seus resultados. E eu, a partir de determinada altura na minha vida, comecei a perceber que eu era apenas um instrumental para que as pessoas pudessem, de facto, ir ao palco e serem elas a apresentar os resultados, porque indiretamente, obviamente, eu também teria o mérito de conseguir fazer esse caminho. E essa é a grande diferença, é que eu, neste momento da minha vida, estou muito mais-
No fundo, também foi dar o palco aos outros
Dar o palco aos outros. Exatamente.
E agora está no terceiro ciclo da sua vida, não é? Quando se dá o luxo de decidir o que quer fazer e o que já não quer fazer.
É verdade. Basicamente, a componente material é muito menos importante na minha vida, a felicidade é muito mais importante. E acrescentar valor, praticar o bem. Eu estou sempre a repetir isto, isto não é uma frase bonita. Eu acho que nós temos esta missão e esta responsabilidade de acrescentar valor e praticar o bem. E quando temos na mão uma base de dados de pessoas que eu considero ouro, como eu já lhe disse, que podem proporcionar e contribuir, eu acho que não há outro caminho. Portanto, isto é um projeto de paixão.
Já percebi. Queria aproveitar aqui os últimos minutos e agora nós, de certa forma, replicamos a audiência. As pessoas que nos ouvem não sabem, mas nós também não nos vemos, estamos em sítios distantes e não nos estamos a ver. Portanto, de certa forma, estamos exatamente no mesmo pé de igualdade com os nossos ouvintes e por isso eu interrompo mais. Mas gostava de aproveitar estes últimos minutos da nossa conversa para falar também do facto de eu sei que tem um filho muito brilhante, que tem uma carreira muito brilhante, eu acho que nos Estados Unidos, não é?
Exatamente.
Tem uma filha, tem um neto. Gostava só também, sem devassar a sua vida privada, mas gostava também que me falasse do seu filho e destas conquistas também.
Eu tenho dois filhos brilhantes, a minha filha que se interessa muito pelas causas sociais e que vai ter um futuro brilhante, e o meu filho que está nos Estados Unidos. Ele está a fazer o doutoramento em economia, portanto, vai estar cinco anos nos Estados Unidos. Tenho um neto que nasceu no meio do Covid e que já apanhou Covid, os meus filhos já apanharam Covid, mas ele é um miúdo brilhante. Ele tirou o curso na Católica, sempre teve bolsas de mérito e agora nos Estados Unidos já está a trabalhar no Federal Reserve Bank e auguro-lhe uma carreira promissora. Eu queria só deixar aqui uma frase que para mim acho que é fundamental naquilo que representa esta minha dedicação e também transposta nos meus filhos, que é: "O amor diz-me que sou tudo, a sabedoria diz-me que sou nada, e a minha vida caminha entre estas duas margens". Portanto, basicamente é este o meu momento de vida.
Isso também, esse seu lado poético vem da sua mãe, que é poeta, e gostava também que falasse o que sente que deve à sua mãe.
A minha mãe deu uma capacidade de sonhar, deu uma capacidade de ver as coisas sob outro prisma. O mundo obviamente não é cor-de-rosa, mas deu uma capacidade e a criatividade, acima de tudo, uma grande criatividade. E não quero esquecer o meu pai, que é uma referência. O meu pai quando era novo já era médico da frota bacalhoeira na Gronelândia. Com 29 anos foi para África, esteve lá 19 anos. Portanto, também com um espírito aventureiro, penso que esta mistura me deu esta capacidade de resiliência, de atingir os objetivos. E os objetivos, mais uma vez, é este projeto, que é um projeto fabuloso.
Luís, e como a sua mãe tem uma exposição pública e eu já vi fotografias da sua mãe e do seu pai, e sempre muito apaixonados, a ideia que tenho é que era um casal que se amava muito, que se acompanhava muito e que se apoiava mutuamente muito. Isso certamente também é uma grande referência para si.
É. De facto, o meu pai e a minha mãe nutriam um amor profundo um pelo outro e é uma coisa de respeito, porque quando penso nisso, faz-nos pensar e acreditar que o amor existe. E tem toda a razão, os meus pais eram profundamente apaixonados e isso obviamente tem influência nas nossas vidas, naquilo que nós podemos transmitir.
Trinta segundos para dizer quem é que foi a pessoa, para além da sua família, dos seus pais, do seu avô, uma pessoa que não é bem um ídolo, mas alguém de quem goste particularmente ou que siga.
Martin Luther King é um inspirador e é uma pessoa que sempre me inspirou.
Luís, temos que acabar. Queria agradecer, queria desejar as maiores felicidades por este projeto, que é como diz, vale ouro, e que é um projeto em que põe todos os atletas no pódio, mas todos eles no primeiro lugar. Muito obrigada, muitas felicidades.
Obrigado, Laurinda. Obrigado, foi um prazer.