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Estamos sem Bruno Vieira Amaral, mas ele deixou-nos este jornal para esta quinta-feira e hoje vamos falar sobre os avós.
Acho que te enganaste na rubrica. O programa com o Eduardo só foi há bocado.
Se me permites, eu sei o que estou a dizer. O tema dos avós é tão importante que não deve estar limitado a uma só rubrica.
Isso aí concordo inteiramente.
Isso alegra-me. Todos sabemos da importância dos avós na educação dos netos.
São os pais com açúcar.
Isso mesmo. Têm mais paciência, são mais tolerantes com as diabruras dos netos e não poupam nos mimos.
E têm uma sabedoria acumulada que enriquece os netos e às vezes ajudam a pagar os colégios, a equitação, o piano, o que também é de valor.
Sem dúvida. Mas o que nós guardamos não são os cheques e as notas, os presentes caros, são as memórias, o sabor da aletria de avó.
As batatas fritas ensopadas em óleo.
Até o arroz de bacalhau. E não só. O avô que nos ensinou também a andar de bicicleta, que nos ajudou nas contas de dividir.
Que nos levava aos jogos do Sporting, não era o meu caso.
Ou nos ensinou, por exemplo, a abrir as portas com radiografias. Que nos explicou como fazer uma ligação direta num carro, que nos introduziu ao maravilhoso mundo da receptação e da vigarice.
Onde isso já vai. Isso não me parece que são bons exemplos.
Nem eu estou a dizer que sejam. É como o arroz de bacalhau da minha avó, agoniava-me, mas agora recordo-o com saudade.
Mas que conversa é essa de vigarices e furtos?
Judite, todos nós sabemos que hoje os avós trabalham até mais tarde, têm os seus interesses, a sua vida, as suas atividades e, como é normal, algumas dessas atividades são ilícitas. Os avós não são todos iguais.
Mas estás a falar de um caso em concreto, parece.
Estou a falar de um caso ocorrido em São Pedro do Sul.
Em Portugal?
Sim, para as pessoas não pensarem que estas coisas incríveis só acontecem no estrangeiro. Uma senhora de formosos e viçosos 84 anos, que foi detida na posse de três armas ilegais: uma caçadeira, uma pistola e uma faca.
Uma faca de cozinha, não?
Uma faca dissimulada numa bengala.
Fantástico!
Um artefato digno de James Bond. Portanto, antes de pensarmos em ajudar uma velhinha a atravessar a rua, lembrem-se que podem acabar assaltados com uma bengala de ponta em mola apontada ao pescoço.
Mas o que é que aconteceu para a senhora ser apanhada? Tinha agredido alguém?
A senhora, chamada pelos jornais de forma divertida de Avó Metralha, tentou dar o golpe a uma seguradora. Alegou que a casa tinha sido assaltada, que os ladrões tinham levado objetos valiosos e esperava receber uma indemnização de €25 mil. A GNR foi lá a casa, começou a desconfiar desta história, até porque numa segunda visita encontrou os tais objetos que a avozinha gangster dizia terem sido roubados.
E foi então que encontraram as armas.
Precisamente. Para além de dois carregadores, 118 munições de diversos calibres e 44 cartuchos.
Mas isso é um autêntico arsenal. Com menos munições, o Rambo deu cabo de uma vila inteira.
Podia fundar um movimento separatista esta avozinha. Declarou guerra ao concelho vizinho de Castro Daire.
Esqueçam lá as receitas de pão de ló, as camisolinhas de lã ou: "Ó filho, vais muito esbragalhado". Com avós como esta, os netos podem aprender matérias muito mais interessantes, como arrombar fechaduras, as vantagens da navalha sobre a faca do mato, no pequeno liturbano, claro, e porque é que o 28 é o paraíso dos carteiristas.
Ficamos todos a ganhar, desde que a avó não vá para o cilindró.
Com os teus cabelos brancos, na tua cadeira sentada. Teus 80 e tantos anos e o teu olhar de cansada. Ó minha querida velhinha, és aquela que eu mais amo. Minha amiga avozinha, eu peço sempre mais um ano. Tu és a mais carinhosa, ó minha querida avozinha, és a mais bela e formosa.