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Uma das coisas em que eu acho que o nosso país revela um grande atraso é nos criminosos.
Eu não diria isso, até com a vaga de ciberataques a que temos assistido.
Não devem ser portugueses, é o meu palpite.
Mas então e as burlas no MB Way? É preciso alguma sofisticação, algum convívio com as novas tecnologias para se conseguir enganar alguém com estes esquemas.
Sim, isso é verdade, Nelson, mas quando me referi ao atraso, não era propriamente ao atraso tecnológico, era mais às maneiras. As pessoas não têm educação nenhuma, não têm civismo, e isso também é válido para os ladrões. Ainda no outro dia, eu vi dois marmanjos assaltar uma velhinha no metro.
Isso é uma tristeza.
É uma tristeza. Antigamente, bastava um. Bem, o seu ao seu dono. Agora fui eu a roubar uma piada velhinha ao Woody Allen. Mas a ideia é esta: tantas aulas de cidadania e desenvolvimento pessoal e continuamos uns energúmenos quando se trata de roubar.
Mas o que tu achas que pode ser feito para corrigir essa situação?
Agora que vem aí a baçuca europeia, eu sugiro os cursos de formação para gatunos nos centros de emprego. Como roubar sem causar estragos. Furtos, roubos e assaltos: como distinguir uns dos outros. Crimes contra a propriedade: manual de etiqueta. Coisas assim.
Eu não sei se ia ter grande adesão. Não sei se sabes, mas os delinquentes são muito ciosos de privacidade e anonimato. É melhor pensar em alternativas para educar essa classe profissional.
Então é fazer como se faz noutras áreas de atividade e pôr os olhos nos exemplos que vêm de fora, dos Estados Unidos.
Mas tens a certeza que os Estados Unidos são um exemplo nesta matéria?
Em geral, não sei, mas alguns criminosos norte-americanos revelam um saber estar que é digno de todos os louvores. Ouve este caso: o senhor Terral Christensen, um homem de 34 anos, que estava armado, partiu uma janela para entrar numa casa no Novo México.
Começa mal, partir uma janela não me parece muito educado.
Temos de ver que o senhor estava muito cansado, deve ter tido um longo dia de trabalho, porque a primeira coisa que ele fez assim que entrou na casa, foi tomar um banho.
Um assaltante com cuidados de higiene, está a melhorar.
E depois, foi para o sofá comer camarão e beber cerveja.
Tirando a parte de partir a janela, diria que é um comportamento típico dos homens. Deixa-me adivinhar: ligou a televisão e ficou a ver a bola.
A ideia dele, se calhar, era essa, mas entretanto, o que aconteceu? Chegou o dono da casa.
E então, cena de violência americana?
Nada disso. Foi aqui que o senhor Christensen revelou todo o seu civismo e educação. Tratou logo de pedir desculpas ao proprietário, explicou-lhe que a família tinha sido assassinada e que ele, devido a essa infeliz ocorrência, estava em fuga e que só andava à procura de um lugar para dormir. Quer dizer, para aconchegar o estômago com cerveja e camarões.
De facto, é impressionante. Eu pensei que íamos ter um tiroteio, facadas, um dia normal na América.
Não, mas mais impressionante foi que o assaltante ainda deu 175 €, o equivalente em dólares, ao dono da casa para pagar os prejuízos causados.
Sim.
Guardou a arma na mochila e deu, como se costuma dizer no Novo México, às de Vilha Diego.
Tens toda a razão. Este assaltante, de facto, é um exemplo, até para as novas gerações.
Sim, depois é que teve menos sorte. Para prosseguir a fuga, teve de roubar um carro e acabou detido.
E corre o risco agora de passar uma temporada na prisão, sem direito a cerveja e camarões.
Lá está. A não ser que as autoridades considerem que pode ser mais útil como professor da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento Pessoal, porque afinal, o que todos nós desejamos é a reabilitação dos criminosos, não é assim?