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Quando eu era pequeno, isto há muito tempo, era normal aparecerem no telejornal imagens de manifestações e revoltas, quase sempre na América do Sul, que a polícia reprimia com os célebres canhões de água e com gás lacrimogéneo.
Do outro lado, se bem me lembro, estavam estudantes ou sindicalistas de rosto tapado a atirar pedras e cocktails Molotov.
Dá até a sensação que as imagens até podiam ser sempre as mesmas que ninguém iria dar pela diferença.
Eu também acho o mesmo. Protestos em Quito, La Paz, Santiago do Chile, Buenos Aires, sempre as mesmas imagens e sempre os mesmos métodos.
Mas isso agora parece que está a mudar, não é?
O quê? Os protestos ou a repressão?
As duas coisas, mas estava mais a pensar nos métodos utilizados pela polícia.
Sim, pode dizer-se que sim, ainda que este exemplo que eu vou dar não venha de nenhum país da América do Sul, mas da Nova Zelândia.
Na Nova Zelândia também há violência? Eu pensava que aquilo servia basicamente de cenário para os filmes do Senhor dos Anéis e que não havia muito mais.
Bom, é um dos países que está sempre no topo daquelas listas: o melhor lugar para viver, o país mais pacífico do mundo, o país mais seguro, etc.
E talvez com essas coisas todas seja o país mais aborrecido.
A par do Canadá, talvez.
Mas não pensem que aquilo não anima de vez em quando. Nos últimos tempos tem havido muitas manifestações, como um pouco por todo o mundo, de pessoas que estão fartas das restrições por causa da Covid, das máscaras, dos certificados. Em geral, as manifestações não são violentas, mas ao fim de algum tempo a polícia tem de pôr ordem naquilo, não é verdade?
É, e eu não sei o que é que farão. Sendo a Nova Zelândia um dos países mais pacíficos do mundo, calculo que o recurso à violência não esteja em cima da mesa.
Há muitas formas de violência, Vicente, a violência psicológica e o método a que a polícia recorreu para dispersar os manifestantes anda lá perto.
Os polícias começaram a chamar nomes aos manifestantes, a dizer-lhes que não servem para nada, a dizer-lhes que nunca vão ser ninguém na vida?
Não, muito pior, Judite. A polícia submeteu os manifestantes à audição de músicas de James Blunt.
Eu ouvi dizer até que tinha sido o próprio James Blunt a sugerir que as autoridades fizessem isso.
Pois, o humor autodepreciativo tem os seus limites, mas ele lá sabe a música que faz. Mas a polícia nem começou por aí. Primeiro pôs a tocar nos alto-falantes do parlamento, onde os manifestantes se juntaram, os grandes êxitos de Barry Manilow.
Quem?
Ouve isto. Meu Deus, eu dispersava imediatamente. Mas, além disso, os manifestantes foram bombardeados com doses consecutivas da Macarena.
Bom, aí pobres manifestantes, imagino que tenham dispersado logo.
Não, aqueles não. Aqueles são rijos. E além da Macarena, levaram ainda com a Céline Dion e a música do Titanic e o Baby Shark vezes sem conta.
Que horror! Mas como é que se aguenta tamanha tortura, Bruno?
Simples, eles começaram a cantar por cima das canções e a dançar em grupo. Aquilo não são pessoas para desistirem à primeira música horrível que ouvem.
Bom, e afinal de contas, há aqui uma moral da história?
Eu acho que sim. Eu acho que às vezes temos de olhar para o passado e procurar métodos mais convencionais de dispersar manifestantes. Canhões de água, gás lacrimogéneo, são métodos que o tempo já provou que funcionam. Ouvir James Blunt também custa, mas levar uma bastonada no lombo...
Vamos fazer o teste.
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