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"O mundo está perdido", já dizia a minha avó, e mal ela sabia. No tempo da minha avó, em muitos sítios não havia eletricidade, mas a vantagem é que também ninguém morria ao ver a conta da luz. Essa é que é essa. Mas o mundo está perdido por uma série de razões, meus amigos.
Então, o que foi desta vez?
Ouvi dizer que já crescem flores no Ártico, que é sinal que as coisas não podem estar no bom caminho.
E no México, há pássaros a cair misteriosamente do céu.
Serão pássaros kamikaze.
Devem ser parentes daquelas iguanas congeladas que caíram das árvores na Flórida.
Mas é por causa disso que o mundo está perdido?
Não, Judite, antes fosse. As pessoas, o problema são as pessoas. Andam muito nervosas, fervem em pouca água, irritam-se por tudo e por nada. É as vacinas, é as máscaras, é o estacionamento em L, sei lá, redes sociais.
Sabes como é, isso são bocas que se mandam nas redes sociais. Cão que ladra não morde.
Não morde, mas se tiver uma arma ou uma faca à mão, já não tenho tanta certeza. Eu lembrei-me de uma notícia que li há uns tempos de um tipo que matou um amigo por causa de uma discordância literária. Não tinham a mesma opinião sobre um livro. Conversa, busca conversa, saca da arma e pronto, lá resolveu diferente.
Já agora, fiquei curioso, qual era o livro?
Acho que se chamava "Como manter a calma em situações difíceis". Já esta semana nos Estados Unidos, um homem foi condenado à prisão perpétua por ter matado outro homem por causa, imaginem, de uma discussão sobre maionese.
Há pessoas que dão mesmo muito valor à maionese caseira.
Se ainda fosse uma discussão sobre mostarda.
Mostarda Dijon.
Mas qual foi mesmo a causa da discussão? O outro gostava de mergulhar as batatas fritas na maionese? Não me digas.
Foi mais sério do que isso. O outro deixou cair maionese em cima dele.
Parece-me uma justificação razoável para se matar alguém. A roupa dá muito trabalho a lavar.
Pois, no fundo, isto anda tudo é a viajar na maionese.
Sim, mas olha, há mais. Também esta semana, nos Estados Unidos, outro homem vai a tribunal por ter assassinado outro homem no cinema.
Outro caso de divergência de gosto?
Pode dizer-se que sim. O homicida, que agora tem 79 anos, não gostou que o outro estivesse a mandar mensagens durante o filme.
Bom, enfim, se há coisa que me irrita é estar no cinema e ouvir o barulho das pipocas e dos refrigerantes e gente ao telemóvel, mas daí até matar alguém...
São os chamados motivos fúteis.
É por isso que eu agora só vejo filmes em casa.
Faz muito bem. Anda tudo muito nervoso, então agora com a pandemia estamos todos com os nervos à flor da pele.
Precisamos de amor, tranquilidade e paz.
Rádio Observador.