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Percebeu que havia um problema ainda com 15 anos, depois de um episódio que o deixou irreconhecível. Mais tarde, acabou por ser diagnosticado com transtorno obsessivo depressivo, por causa de pensamentos repetitivos que o magoavam e que não conseguia travar. Seguiu-se uma depressão e uma longa fase de desespero em Portugal e nos Estados Unidos, onde o sonho se tornou um pesadelo. Numa entrevista gravada no Palácio do Visconde, em Lisboa, conta que o caminho da recuperação foi difícil e que a família teve um papel fundamental. O ator Tiago Castro é o convidado de Sara Antunes de Oliveira no "Labirinto: Conversas sobre saúde mental".

Provavelmente até tem esta ideia melhor agora do que na altura, mas quando é que acha que surgiram os primeiros sinais de coisas que lhe estavam a acontecer e que estavam relacionados com a sua saúde mental? Foi ainda numa fase ótima como a dos Morangos com Açúcar?

Até antes. Foi antes. Começou aos 15 anos, num episódio que ocorreu da minha vida pessoal, onde eu estava num lugar do qual não podia sair sem os meus pais. E desse episódio resultou uma mudança drástica, mesmo fisicamente. Num período de cinco, seis dias, eu perdi à volta de quatro quilos, ou mais até. As pessoas podem pensar que eu estou a exagerar, mas a verdade é que eu estava mesmo fisicamente alterado e assim que os meus pais me viram, perceberam que algo de muito grave tinha acontecido e logo de imediato perceberam que eu precisava de ajuda. Foi a primeira vez que eu tive terapia, por assim dizer.

Mas que sinais foram esses? Deixou de dormir, deixou de comer?

Não, na altura eu tive mesmo quase um surto, de certa forma, porque foi um choque pra mim aquilo que aconteceu e tive um comportamento atípico para os meus pais. Os meus pais perceberam que eu estava diferente a nível de personalidade e foi o suficiente para eles perceberem que eu precisava de ajuda. Eles estavam completamente apáticos, não conseguiam de forma alguma entrar, mas foi a melhor coisa que puderam fazer.

Que foi procurar ajuda fora, ajuda que eles não poderiam dar.

Exato. Na altura, os recursos que eles tinham e aquilo que encontraram pode não ter sido o ideal, no meu parecer. Era chamado psicodrama. Isto em 98. Se calhar poderia ter tido uma consulta com um psicólogo individualmente, mas fui para um grupo de psicodrama em que havia uma série de outros problemas à minha volta que nada a ver tinham com o meu. Não sei se acabou por ajudar, mas acabei por começar a tomar medicação no sentido de me acalmar. Não ainda nada que tivesse a ver com depressão, mas só de me acalmar. E eu fiz essa própria gestão desse acontecimento durante um ano, de uma forma muito individual, e penso que isso marcou e delineou todo o meu futuro e tudo o que foi acontecer depois ao nível da saúde mental, mais tarde.

E sente que esse ano de que fala com a terapia, mesmo que nesses moldes de psicodrama e a medicação para controlar, presumo que a ansiedade, o ajudaram a voltar ao caminho em que estava ou que houve ali alguma pedra que ficou no sapato?

Não, acho que ficou uma pedra no sapato. Ainda por cima eu tinha acabado de entrar no primeiro ano da Escola Profissional de Teatro, onde estamos a desenvolver e a trabalhar as nossas emoções de uma forma, às vezes, certa forma selvagem e não tão bem guiada como poderia ser. E tudo isso, toda essa amálgama de sentimentos, tudo que eu poderia estar a desenvolver enquanto adolescente, a desenvolver a minha vida sexual.

15 anos.

Pela primeira vez, tudo isso acabou por ser overwhelming. E penso que não foi gerido da melhor maneira e ficou, sem dúvida, essa pedra no sapato.

E sente-a no sapato outra vez quando?

Diga?

Sente-a no sapato outra vez quando?

Sinto.

Se sente a pedra no sapato, ela ficou lá.

Sim, sinto.

Quando é que voltou a sentir que havia ali um problema?

Penso que esteve a ver, nomeadamente, com uma relação que eu tinha na altura.

Muito tempo depois?

Sim, cada relação que eu tinha depois desta refletia aquilo que eu senti naquele momento. E todos os meus medos, defesas e expectativas nasciam com base naquilo que eu sofri naquele momento específico.

E depois a vida vai avançando.

Sim.

Acontecem os Morangos com Açúcar.

Sim.

O seu personagem transforma-se muito rapidamente num personagem incontornável, eu creio que foi a segunda e a terceira série.

Foi.

Visto de fora, a pessoa que está a fazer o Crómio, que é super amado em Portugal, só pode estar bem.

Pois, acho que essa é a ideia típica que as pessoas têm dos comediantes e de quem faz rir e que surpreendem. Hoje, se calhar, já não surpreendem, porque já estão habituados. Mas infelizmente não é essa a verdade. Muitas vezes aquilo que se está a passar por trás. Aliás, eu lembro-me especificamente de um dia em que eu estava a gravar, em que tive também um episódio que me marcou de uma forma muito intensa e eu senti que estava, de certa forma, a violar-me, a ir gravar.

Porque não queria estar a fazer aquilo que estava a fazer?

Porque senti mesmo que eu não tinha condições para o fazer, mas não havia outra forma. Tinha que ir gravar, não ia uma equipa inteira parar para eu gerir isto que tinha acabado de acontecer. E, no fundo, aconteceu que muitas vezes aquilo é o reflexo do que acontece a muitos atores e que, se calhar, porventura, decidem continuar a trabalhar mesmo quando alguns episódios dramáticos acontecem, que ajudou-me a sair daquilo que eu estava a sentir. E foi provavelmente uma das melhores cenas que eu fiz nos "Morangos." Eu sei qual é a cena em específico, que até hoje torna-se uma cena memorável, de um beijo que o Crómio dá à Soraia, personagem interpretada pela Rita Pereira. Foi um momento muito engraçado e ninguém adivinhava que por trás daquele momento, que se tornou tão engraçado, estava uma pessoa a sofrer tanto. E ninguém sabia, ninguém fazia a mínima, a não ser as pessoas que estavam à frente do projeto com quem eu me vulnerabilizei e ficaram a perceber.

Estava a passar um momento difícil naquela altura. Ir trabalhar obrigou-o a pôr isso de lado, mas isso ajudou porque lhe permitiu continuar a ser funcional ou prejudicou porque estas coisas se não se resolvem ficam ali?

É complicado de conseguir perceber. Eu acho que, no fundo, muitas vezes, e isso também no futuro acabou por comprovar o facto de eu ter de ir, ter de fazer, continuar a trabalhar, deu-me uma rotina que me tirou, provavelmente, de uma situação apática e que me poderia destruir. Agora, sem dúvida que não é só isso que ajuda. Foi nessa altura que eu comecei mesmo a ter consultas de psicoterapia. Eu fui diagnosticado nessa altura com perturbação obsessiva compulsiva. Comecei a tomar medicação e tive as ferramentas que eu precisava para o resto da minha vida. Isto durou cerca de um ano e meio, estas consultas.

Que idade é que tinha na altura?

Eu tinha 23.

E quando dizem: "Tiago, vai ter de tomar aqui uns medicamentos." Foi tranquilo para si?

Foi, porque foi-me dito de uma forma. Eu confiava bastante neste psicoterapeuta e ele era advogado. Até hoje é, e hoje é uma pessoa muito conhecida na praça pública. E eu confiava plenamente nele e a verdade é que ajudou-me. Eu demorei algum tempo, penso que demorava cerca de três semanas a começar a sentir os efeitos. Nomeadamente, estava a tomar Prozac e ajudou bastante. Portanto, foi para mim fácil e não tive sintomas secundários. Foi muito que eu tivesse reparado.

Nem sentiu o estigma?

Não, porque eu não partilhei isto com ninguém. Senti.

Por opção, porque aconteceu ou porque não queria que as pessoas soubessem?

Porque era muito íntimo. Era muito íntimo, tinha a ver com pensamentos repetitivos que me magoavam e que eu não conseguia impedi-los. Cada vez que eu tentava impedi-los, eles vinham com mais força.

E esses pensamentos negativos também o empurravam para um estado depressivo?

Pois, isso com o tempo foi o que veio depois a acontecer e a medicação acabou por funcionar tanto para a perturbação obsessiva compulsiva como para a depressão. Mas esses pensamentos acabei por partilhá-los com o meu psicoterapeuta, que me fez sentir completamente normal, porque é uma pessoa que recebe tanta gente, que me disse: "Tiago, você não está sozinho, isto é mais normal do que pensa, não tenha vergonha daquilo que pensa, isto não faz de si quem o Tiago é ou o que o Tiago pensa." Isso ajudou-me muito a não me sentir culpa pelos pensamentos que tinha, porque percebi que não os controlava. E quando deixei de lhes dar essa força, eles acabaram por se perder, desvanecer, porque não andavam ali num círculo interminável. É quase como se eu falasse para eles ou como se fosse uma entidade fora, vinha dizer assim: "Não estás à vontade. Não sou eu." E ajudou-me bastante.

Quando tinha 15 anos, naquele primeiro episódio, naturalmente foram os seus pais que foram à procura de alguma ajuda. Nesta fase em que já tem mais de 20, como é que esta procura do psicoterapeuta, do psiquiatra, por causa da medicação, como é que tudo isto se processou? Falou com os seus pais outra vez? Falou com alguém? Ou já foi uma coisa muito mais individual?

Tenho muitas dificuldades em lembrar-me como é que foi o processo. Eu sei que houve alguém que me aconselhou este psicoterapeuta. Acho que até foi alguém que estava ligado, de certa forma, à parte médica e da saúde mental, que eu conhecia, que este psicoterapeuta era professor. Eu não me lembro quem é que foi esta pessoa. Lembro-me de me dizer que era professor. Esta é outra coisa, a minha memória ficou muito afetada.

Porque vivia num estado também, presumo eu, de ansiedade e de tumulto.

Sim.

É mais difícil guardar esses tipos de coisas.

Muito, mas mesmo até momentos que nada têm a ver com momentos positivos, que eu esqueci-me. Muitas vezes as pessoas vêm falar comigo: "Ei, Tiago, aquela vez que..." Aconteceu isto e eu: "Não faço a mínima ideia do que é que estás a falar." Isto assustou-me, mas já me habituei a isto. Mas na altura, eu penso que como as pessoas, nomeadamente a minha família, de quem eu sou muito próximo, é tão fácil, eu sou tão transparente, que acabam por perceber que eu não estou bem. E sim, acabam sendo o meu porto de abrigo e partilhei com eles esta necessidade que eu tinha de precisar de ajuda. E sim, sempre foram parte deste ombro que me ajudou, percebendo das suas limitações, sendo muitas vezes só aqueles que ouvem ou que consolam e que apoiam, sem tentar mudar nada, só mesmo sendo aquele: "Olha, eu estou aqui para o que tu precisares."

Entretanto, consegue controlar um bocadinho a forma como lida com esses pensamentos.

Sim.

Isso suponho que também tenha ajudado a sair um bocadinho do estado depressivo. A sua vida vai avançando e muda de uma forma muito grande quando vai viver para fora, não é?

Certo. Muito. A minha vida deu uma volta de 180°.

Acaba os Morangos e vai para os Estados Unidos logo a seguir?

Não, foi mais ou menos um ano e meio. Ainda estive cerca de um ano e meio em Portugal com outros projetos. Entretanto, fui para os Estados Unidos e fui estudar para uma escola de representação onde eu acabei por depositar todas as poupanças que eu tinha tido até então. Portanto, foi um all in. Tudo apostado.

Aposta total.

Aposta total. Quase mesmo numa mudança não só de carreira, como de vida. Um American Dream. Um miúdo de 25 anos que ainda sonhava com isso.

E foi sozinho?

Não, na altura fui com mais três pessoas, duas delas mais próximas, com quem nós dividimos casa. Mas foi uma aventura mesmo. Eu acho que me habituei até, de certa forma, até certa altura eu consegui gerir muito bem esta mudança, porque eu estava muito entusiasmado com a escola. Enquanto eu estava, claro que aconteceu um período inicial muito complicado de gerir nestes primeiros dois anos, mas a pior parte, apesar de tudo. Esta viagem de seis anos pelos Estados Unidos teve vários episódios onde eu precisei de acompanhamento via internet, Skype, na altura era o Skype com o meu psicoterapeuta.

Portanto, manteve essa ligação apesar da distância.

Mantive, em períodos muito difíceis, era mesmo importante.

Quando é que o procurava? Quando estava mais cansado, quando estava mais ansioso, quando estava mais triste? O que o levava a dizer: "Eu preciso aqui."

Quando estava desesperado. Porque de certa forma, apesar de eu ter ido com pessoas que me conheciam, eu sentia-me muito sozinho, porque a própria cultura é muito diferente e assustava-me. Assustava-me eu não ter capacidade para gerir aquilo tudo sozinho, por estar por conta própria e estar tão longe de Portugal.

Não é como o norte e como a

O meu dinheiro acabou por se esgotar muito rapidamente e ainda estava a estudar, já estava a mandar currículos falsos, porque eu nunca tinha trabalhado na restauração.

Portanto, inventou um currículo com raríssima experiência.

Sim, um currículo de empregado de mesa e depois puseram-me a trabalhar como busboy. Eu nem dois pratos conseguia pôr num braço.

Mas conseguiu enganar algumas pessoas durante algum tempo.

A sorte foi que um colega de turma da escola de representação era manager de um restaurante que recebeu o meu currículo. Sem saber, ele viu o currículo e disse: "Tiago, anda cá trabalhar." Ele viu que eu não sabia fazer nada. Mas deu-me aquele tempo para eu conseguir aprender. Então comecei a desenvolver estas aptidões, capacidades. Depois trabalhei o resto dos seis anos sempre na restauração e tendo essas oportunidades pontuais, mas de certa forma atípicas. Da minha turma, 1% acaba por conseguir ter algumas oportunidades no meio. Já não estou a ir para o outro lado, mas só para lhe dizer que eu vim embora foi quando eu estava a ter o melhor da minha carreira profissional, quando eu estava a ter as maiores oportunidades.

Então vamos a esse momento, porque já explicou que foi tendo uns picos. Foram acontecendo uns episódios. O que eu intuo é que a cada novo restaurante encontrava uma nova família que lhe dava algum conforto, e quando as coisas não corriam bem, havia a descida na montanha-russa. Quando é que tudo se torna tão difícil de suportar que é preciso tomar uma decisão mais dramática do que só pedir uma consulta via Skype e pedir ajuda?

Eu trabalhava num restaurante que eu adorava. Era um restaurante português, onde eu sentia que era mais do que um simples empregado em Nova York, quando eu transmitia um pouco da cultura portuguesa aos clientes que não conheciam Portugal ou que já lá tinham estado e queriam ouvir falar mais um pouco sobre o nosso país. E infelizmente, esse restaurante fechou a deverem-me 12 mil dólares. E eu nessa altura tinha uma relação com uma pessoa que lá trabalhava e correu muito mal tudo. Foi algo que me fez sentir completamente devastado.

Juntou várias coisas.

Todas estas áreas acabaram por colapsar. E eu senti-me absolutamente sozinho e na altura eu tinha muito poucos amigos. Um deles estava em Filadélfia na altura e tinha tido um acidente, tinha se lesionado. Jogava futebol e estava de baixa, e eu fui umas semanas para casa dele. E quando lá cheguei, num estado totalmente apático, de pura desistência, estava a sobreviver. Ele recebeu-me, e engraçado porque ele estava a tomar uma medicação muito forte, que eu nem conhecia na altura. Hoje vê-se muitos documentários sobre isto, que é a oxycodone.

E víamos no Dr. House, não é?

Exato.

É uma medicação para dores muito fortes.

Sim, o que não se justificava até para o problema que ele tinha.

Era demasiado forte?

Era demasiado forte. Ele disse: "Eu não vou tomar isto."

Mas há uma epidemia nos Estados Unidos por alguma razão.

Exato. E eu pedi-lhe para tomar, porque eu queria mesmo sentir essa apatia, esse adormecimento que ele sentia.

Portanto, ele não queria tomar aquilo porque sentia que aquilo o adormecia.

E eu queria.

E era precisamente o que o Tiago queria.

Sim, eu quase que o obriguei a dar-me e foi incrível o que eu senti. Assustadoramente incrível, como de repente eu deixei de sentir toda a tristeza que me esmagava. Assustadoramente, porque eu comecei a perceber que tinha que tomar cada vez mais, num curto espaço de tempo, cada vez a tomar mais medicação, e percebi que se estava a tornar num vício. Atenção que isto foi num espaço, mais ou menos, de semanas. Foi uma caixa que ele tinha.

Então foi muito rapidamente em que esse medicamento tomou conta basicamente da sua vida, e tudo para permanecer num estado de anestesia?

Anestesia, sim. E depois aconteceu um episódio em que eu misturei com álcool, sem saber que o poderia fazer.

Não foi de propósito. Não tinha noção. Bebeu.

Sim.

E só percebeu as consequências depois.

Sim. Adormeci na rua e levaram-me as coisas. E quando eu acordei, andei perdido pela cidade de Filadélfia. Não sei como é que eu, naquele estado, nós depois vimos onde é que era o sítio, porque eu estava num bar com o meu amigo. E ele assim: "Como é que tu, sem conheceres a cidade, sem telemóvel, vieste ter a minha casa?" Eram 40 minutos a pé. E eu sem saber, sem ter nada, consegui lá ir. Não faço a mínima ideia.

E tem noção de quanto tempo é que esteve nesse estado?

Não, foi uma noite. E foi aí que eu percebi que não poderia mesmo continuar a tomar aquilo. Decidi terminar. E esta história eu conto no meu espetáculo do "Daqui Debaixo", que é, de certa forma, uma reflexão humorística também sobre esta fase muito difícil que eu vivi. Mas, na altura, estando eu em Filadélfia, lembrei-me várias vezes de dois personagens icônicos. Um que era o personagem interpretado pelo Tom Hanks no filme "Filadélfia", e outro, Rocky E eu sinceramente sentia que poderia me tornar num ou noutro. Era isso que eu queria acreditar, que poderia não sucumbir. E esta história eu já contei, mas acho que é mesmo muito bonita, porque aqui completamente consciente, andei a deambular pela cidade e parei à frente do mosteiro budista em plena Filadélfia. E naquela altura aconteceu uma espécie de um milagre do sol, porque as nuvens afastaram-se e o sol, quando eu estou à frente daquele mosteiro budista, o sol cai mesmo sobre o mosteiro e eu senti um ímpeto para ir bater à porta. E aparece-me um monge que parecia mesmo completamente, parecia tal e qual o Dalai Lama e eu a chorar. Eu gostava mesmo muito de entrar e falar consigo e desabafar. Estou muito triste. E ele disse: "Não, fechamos às 14h". Pumba! E fecha-me a porta na cara.

Não estava a contar com isso do Dalai Lama.

E eu naquele momento percebi que tinha acabado ali a minha trajetória nos Estados Unidos, que eu tinha que ir embora. E aguentei mais uns tempos. Voltei para Nova Iorque, ainda tive mais uns meses muito difíceis, porque eu percebi que estava a terminar. Foi muito interessante, porque este foi realmente o pico daquilo que foi este período depressivo.

A sua família cá tinha noção do que estava acontecendo?

Eu acho que não tinham noção mesmo de como as coisas estavam. Não, acho que não tinham mesmo. Nem eu. Eu muitas vezes também protegia-os e tentava que eles não percebessem bem o que estava acontecendo, porque estavam tão longe. E eu próprio acho que também tentava não verbalizar isso para que as coisas não fossem piores do que já eram. Eu levei uma mala grande, daquelas de 23 quilos, completamente vazia para Portugal, porque levar as minhas coisas significava pôr um fim, um ponto final. E a minha mãe: "E o edredom que eu te dei?"

Deixou coisas para trás para não ter essa sensação de que estava mesmo a desistir.

Sim.

Mas enquanto ainda lá está, há um episódio em que a família se chega à frente.

Sim.

Naquilo que podia ajudar, que é uma noite em que a sua mãe percebe que não o pode deixar sozinho, mas tem um oceano pelo meio.

Sim.

Que importância é que teve aquilo que aconteceu, que a sua mãe fez por si?

Muito. Foi um colo, foi o bendito Skype, que ainda dava com muita interferência, mas o suficiente para a minha mãe estar ao frio no sótão da nossa casa, ao longo da madrugada, a acompanhar uma das piores noites da minha vida.

O que acha que lhe disse ou que não disse, para ela ter a noção de: "Eu não posso deixar o meu filho sozinho esta noite, eu vou fazer aqui uma videochamada e vou ficar a olhar para ele a noite toda, só para ele saber que eu estou aqui."

Eu estava completamente descontrolado emocionalmente. Ela provavelmente nunca me tinha visto assim ou já não me via há muito tempo, mas acho que nunca me tinha visto assim e percebeu mesmo que era grave.

Era tristeza? Qual era o sentimento que tinha mais? Fala muito de desespero, não é?

Sim.

É tristeza misturada com ansiedade, com dor, é o quê? O que uma pessoa que está a passar aquilo pelo qual o Tiago passou, o que é que sente? Que mistura de coisas é que sente?

Foi quase como se de repente fosse a gota final, como se tudo aquilo que eu estava a tentar gerir neste processo. Eu estava nessa altura há cerca de um ano e meio nos Estados Unidos e já há cerca de meio ano que as coisas estavam muito difíceis. Estava a gerir de uma forma quase a pinças o que estava a acontecer, a lidar com a minha saúde mental e com as minhas emoções. E aquilo foi o descalabro, foi quase como que rebentou o último fio. Então foi o descontrole, foi o que eu faço agora? Perdi todos os filtros. Foi a vulnerabilidade total, assustadoramente vulnerável. E o que fez a minha mãe estar ao longo da madrugada toda, enquanto eu adormecia, acordava, olhava para o ecrã, ainda via a minha mãe lá, com os seus cobertores.

Chamava por ela.

Sim. "Olá, mãe, estás aí?" E muitas vezes ficávamos em silêncio. Muitas vezes não falávamos, era só mesmo saber que ela estava ali. E foi muito importante. Do outro lado do mundo, eu sentir-me tão sozinho, que tinha ali este conforto, que foram novamente eles que me acolheram. Eu já tinha saído de casa aos 18 anos. Portanto, eu saí muito cedo de casa. Vim para Lisboa com 18 anos estudar para o Conservatório de Teatro. E portanto, já estava habituado a viver sozinho, mas quando isto aconteceu e eu voltei para Portugal, voltei para casa. Tinha que voltar, não tinha capacidade de estar sozinho. Então voltei para a casa dos meus pais e acolheram-me eles também da forma que eles sabem, da melhor forma que eles sabem, recebendo-me, imando-me, fazendo cafuné, que acalma tanto.

Ou só ficando, não é?

Sim.

Às vezes há um bocadinho a ideia de que não se sabe muito bem o que dizer Aquilo que os seus pais fizeram por si mostra que às vezes não é preciso dizer nada?

A minha forma de amor está sem dúvida no afeto, porque nós não queremos nem somos obrigados a saber como lidar com isto. As pessoas fazem com aquilo que podem. Isto também é um ensinamento, é algo que nós vamos aprendendo com a vida. Apesar de eu ter uns pais extraordinários, muitas vezes eu gostava: "Gostava que vocês me dissessem alguma coisa que me ajudasse a sair disto."

Apontassem o caminho, que resolvessem.

Sim. "Ajudem-me, digam-me alguma coisa." Isto voltando atrás um bocadinho, com questões de autoestima em relação ao meu corpo, por ser pequeno, quando eu era novo. Os meus pais sofreram tanto por não me conseguir ajudar, por não saber dizer que palavras utilizar. Tinham sempre lá o afeto e o carinho, o ombro. E eu percebi e acabei por entender que eu tenho é que estar é muito grato com aquilo que eu tenho, que a tanta gente falta. Continuam a ser uns pais extraordinários e hoje, felizmente, de há cerca de oito, nove anos para cá, veem um Tiago que já não viam há muito tempo, que já se tinham esquecido. Um Tiago que canta, que dança, que brinca, que é uma luz.

Então vamos a caminho para esse Tiago.

Sim.

Tiago vem dos Estados Unidos com uma mala vazia, até para nem ter de simbolicamente aceitar um fracasso nos Estados Unidos, era isso?

É.

E chega cá no pior que alguma vez já se sentiu?

Sim.

O que acontece quando chega cá?

Eu tive uma justificação que me levou quase a sentir que não era o fim. E é interessante porque muitas das emoções são mascaradas. Às vezes parece que aparentemente até estamos melhor. Porque eu tive um projeto de teatro que me levou também a dizer: "Não, OK, é a altura certa para ir embora, porque eu vou ter um projeto." Fui convidado para fazer um espetáculo de teatro no Porto, no Teatro Carlos Alberto, o que me levou de certa forma, durante uns tempos, uns três meses, a pensar-

"Não estou a desistir, vou só fazer uma coisa a Portugal."

"Estou bem, estou aqui a trabalhar." Só que claro que tudo estava ainda muito por resolver. E as pedras caem todas no fim desse projeto e aí foi realmente avassalador. Há aqui uma pessoa de quem eu ainda não falei, mas que foi muito importante para mim. A minha cunhada é psicóloga e acabou por ser uma ajuda muito importante e ela estava ainda no início da relação com o meu irmão, mas foi uma peça importantíssima para mim, quase como se eu sentisse que podia ter aqui umas consultas privadas com alguém que estava muito mais disponível do que a maior parte das pessoas.

Quem é que procurou quem? Foi o Tiago que a procurou ela ou ela que lhe estendeu a mão porque percebeu que podia ajudar?

Ela era tão empática. Acho que eu sou muito fácil a julgar a personalidade das pessoas e a vontade de ajudar das pessoas e de onde é que isso vem. E percebi que do lado dela vinha mesmo num sítio que eu achei que me iria fazer bem. Então muito facilmente, eu senti que ela poderia ser a pessoa que me poderia ajudar. E foi, sem dúvida, ela própria, e foi também uma ponte, se calhar, entre o meu irmão, a minha família e aquilo que eu estava a sentir. Ajudou-me bastante, mas é interessante como passado uns tempos, uns anos, ela a falar sobre aquilo que eu vivi. A pessoa não tem mesmo noção de como o nosso estado afeta as pessoas que estão à nossa volta e entristece as pessoas que estão à nossa volta, porque eu ficava horas sem falar. Horas. Era capaz de ficar assim apático. Eu não me lembro disto. Eu sabia que estava mal, mas não me lembro especificamente de mostrar estes comportamentos, serem tão visíveis. Eu pensava que os disfarçava, pensava que era bom a disfarçar. Só que se calhar era de duas em duas horas, dizia uma piada. E achava que era o suficiente para as pessoas acharem que eu estava melhor, mas não.

Então regressa e o que faz depois desse projeto, que depois também é efémero e, portanto, esse balão de oxigênio também acaba? Vai procurar ajuda, vai a um psiquiatra, vai a um psicoterapeuta, o que acontece nessa altura?

Eu estive meses, sem ir a um psicoterapeuta.

Já cá?

Já cá, sim.

Por quê?

Eu pensei que se calhar conseguiria resolver as coisas sozinho.

Mesmo já tendo tido a experiência para trás?

Porque achei que era suficiente o que eu tinha tido, o que eu tinha aprendido.

E quando é que percebe que não?

Quando eu já estou em Lisboa, porque depois surge uma oportunidade de trabalho, depois de eu já ter rejeitado algumas que me poderiam ter até mesmo mudado a minha vida profissional e que eu não tive capacidade de aceitar.

Por quê? Por que rejeitou?

Porque era demasiado arriscado eu vir para Lisboa naquela altura.

E, portanto, continuava a ter uma noção muito clara da sua fragilidade na altura.

Sim. Eu lembro-me que qualquer coisa que eu fizesse enchia tudo aquilo que era a minha capacidade de gerir. Eu tinha muita dificuldade.

Estava sempre em esforço?

Sim, senti muitas vezes. Por isso é que eu precisei de ter um trabalho quando surgiu a oportunidade em que me dissessem: "Tu vais para aqui, tu fazes isto, tu vens de lá." É como se quase não tivesse que pensar. Eu entrei para uma companhia de teatro que fazia peças de teatro pelas escolas de todo o país. Trabalhava muito. Nós saíamos muitas vezes às 04:00, 05:00 da manhã de casa para ir para o norte, para o sul. Fazíamos muitas vezes quatro espetáculos por dia, só que não era isso que me consumia. Ajudava-me eu não pensar. Eu estar acompanhado por alguém, que eram pessoas que, de certa forma, cuidavam de mim.

Porque sabiam?

Eu acho porque acabavam por perceber. Eu não tinha uma noção mesmo daquilo que eu tinha vivido e passado, mas acabavam por perceber. E acolheram-me. E foi o suficiente para eu sentir: "Ok, posso estar aqui, posso andar de lá." Não foi fácil, obviamente, mas foram três anos que esse automatismo, essa dinâmica, acabou por ajudar. Longe de ter sido isto a principal ferramenta que me ajudou a sair deste estado. Depois, se quiser, eu posso já te dizer qual foi. Foi eu ter conhecido a minha mulher. A minha mulher foi, sem dúvida, a alavanca. Foi já depois de eu conhecer a minha mulher que eu tive uma consulta de psicoterapia com aquele que tinha sido o meu psicoterapeuta na altura, e ele disse-me uma coisa que mexeu muito comigo. Até hoje não sei se ele tentou mesmo fazer aqui um jogo psicológico, mas ele disse que eu era um doente crónico e que nunca poderia deixar a medicação.

Nessa primeira consulta, quando retoma a psicoterapia.

Sim.

Mas vai a essa consulta impulsionado pela sua namorada, na altura, que é agora sua mulher?

Sim. O meu irmão disse: "Eu pago-te a consulta", porque eu também financeiramente não tinha os meios.

Mas antes disso, já alguém tinha tido essa conversa consigo? O seu irmão, por exemplo, já lhe tinha dito: "Não era melhor teres uma consulta?" E o Tiago tinha recusado.

Sim, já tínhamos falado algumas vezes daquilo que eu me lembro, e eu sempre tinha dito que não, não é preciso. Como eu sempre geri a minha vida financeira, eu tinha dificuldade em pedir ajuda aos outros. E na altura, realmente, havia muitas dificuldades a esse nível. E uma consulta era uma coisa muito cara, mesmo. E o meu irmão disse: "Não, eu pago. Eu pago-te a consulta." E eu fui à consulta e ele disse-me isto, o psicoterapeuta, como uma revolta.

Mas estava a tomar alguma medicação, na altura?

Estava, continuava sempre a tomar.

Portanto, continuou sempre.

Sim, eu estava a tomar ansiolíticos e antidepressivos, mas em doses muito elevadas. Eu muitas vezes sentia-me completamente adormecido. Isto foi algo que, coitada, a minha mulher, na altura namorada, teve mesmo uma empatia gigante a entender e compreender este meu estado, em perceber que por trás desta dor, existia um ser humano que queria sair cá para fora. Mas sim, continuei com a medicação e foi por este psicoterapeuta me ter dito isto e por eu ter conhecido a minha mulher.

Porque pensou o quê? "Eu não vou tomar isto para o resto da minha vida?"

Afetava-me muito.

E tinha noção disso?

No dia a dia. Tinha noção.

Disso tinha noção?

Sim, tinha noção. Na minha rotina, no meu estado anímico. Eu senti que muitas vezes ficava completamente adormecido. E de certa forma, eu estava a ser medicado na altura por uma médica de clínica geral, que sabia que eu poderia tomar aquela medicação porque já me tinha sido receitada. Então era ela que me continuava a receitar aqueles medicamentos. Eu acho que era demasiado para mim.

Portanto, não estava a ir a um psiquiatra, na altura.

Na altura, não. Foi uma vez.

Era só repetir prescrições atrás de prescrições.

Sim. E conheço a minha mulher, sobrevivente oncológica, que tinha sido cuidadora de uma pessoa antes de mim, que tinha morrido com cancro. E conheço uma pessoa, uma sobrevivente a todos os níveis, que fazia de tudo para que isso não a deitasse abaixo. E eu olhava para ela e pensava: "Isto é o que eu preciso para a minha vida." E foi interessante, porque eu senti mesmo que eu precisava de alguém que tivesse passado tão perto da morte, porque eu acreditava piamente que só se vive verdadeiramente, só se tem noção do valor da vida quando se passa por isso. E eu via isso no olhar dela. E foi muito importante eu perceber: "Ok, eu não passei por isso, mas eu tenho aqui alguém que passou e que está disposta a estar comigo e a ajudar-me." E eu percebi, sinceramente, aquela história dela e a forma de ela viver, nós os dois juntos, por mais difícil que fossem as nossas circunstâncias, porque ela também tinha vindo desse luto, eu percebi que poderia haver ali uma equação química que no meio de todas as improbabilidades, poderia resultar. E foi preciso muita fé, muita vontade, mudanças de padrões. Foi aí que eu percebi. A verdadeira mudança vem com pequeninas coisas. Às vezes eu pensava assim: "Preciso daquilo que me aconteça para que de repente eu sinta que tudo está melhor. Preciso ter este trabalho, preciso de haver esta mudança gigante." Foi com ela que eu percebi que tinha que ser diariamente. Coisas muito simples, a dar valor às coisas que até hoje eu dou, que posso Tê-las independentemente do que me acontecer.

Porque o Tiago fazia depender a sua melhoria, o seu bem-estar de objetivos difíceis de alcançar, era isso? Criava uma expectativa em relação às coisas e depois elas não se cumpriam e piorava, e depois criava outra expectativa e ela não se cumpria e piorava, era isso?

Acho que faz parte da nossa sociedade. Sinceramente, acho que todos nós, ou a maior parte das pessoas, vai atrás daquilo que a sociedade dita que nós devemos ter e ser. E isso é incomportável. Muitas vezes estamos à mercê daquilo que os outros querem que nós sejamos. E mesmo na minha área, como em muitas outras áreas, andamos um bocado por arrasto daquilo que os outros querem que nós sejamos. E eu percebi isso. Eu sacrifiquei toda a minha vida pessoal por causa de uma carreira. E eu percebi que tinha que acabar com isso imediatamente.

Percebeu isso na altura ou percebe isso agora?

Eu comecei a perceber isso na altura. Eu comecei a perceber que eu tinha que me focar no dia a dia, na família, na minha namorada, num passeio pela natureza, o estar grato, na contemplação da natureza, coisas que constantemente e feitas de uma forma repetida, que me iriam mudar internamente.

Também com a ajuda da psicoterapia, para mudar a forma, um bocadinho como os pensamentos obsessivos compulsivos.

Exato.

Criar estratégias para reagir de forma diferente às coisas que lhe acontecem.

Certo. E com o tempo realmente fui sentindo essa mudança. Até hoje tenho esses hábitos. Fui adotando estratégias, claro, fui usando muitas formas, fui utilizando a meditação. E foi muito útil. Ainda hoje medito quase todos os dias.

Porque lhe permite afastar totalmente qualquer tipo de pensamentos e ter um momento de paz?

Permite-me aquilo que eu mais amo, que é estar no presente, sair do futuro e do passado. Não há mais nada do que isto que nós estamos a viver agora, neste momento. É o que é. É tão difícil de perceber, porque já temos tantas coisas para fazer daqui a bocado e viemos de não sei onde, mas neste momento é o que temos. E eu gosto desta sensação de paz que me traz, da imprevisibilidade das coisas, de é o que é. Neste momento somos nós que estamos aqui, mais ninguém. É a nossa vida agora, por mais estranho que isto possa parecer, porque temos tudo o resto lá fora. Mas eu gosto desta tranquilidade do eu sou tão pequenino e tão grande, ao mesmo tempo.

Porque aquilo que sentia era uma espécie de ansiedade para trás e para a frente, ansiedade criada por não ter conseguido chegar a objetivos que tinha no passado e ansiedade porque tinha medo de não conseguir ter os mesmos objetivos no futuro.

Exato. Exatamente isso que está a dizer. E foi muito importante eu tirar essas expectativas e perdoar-me por aquilo que eu não tinha querido e não tinha conseguido.

Perdoar?

Sim, perdoar-me, porque sacrifiquei tanto. E é interessante. O exercício maior que eu tenho é de não sofrer de arrependimento, porque tudo aquilo que eu fiz, eu fiz com a melhor das intenções. Mas perdoar-me, porque eu tinha uma ideia, tinha um sonho e sacrifiquei tudo. E agora tenho que me perdoar, porque quero estar bem e feliz onde eu estou. E ainda bem que tudo aconteceu, porque hoje estou melhor do que nunca.

Já não sente culpa, hoje, pelas decisões que tomou?

Não. Não sinto culpa, porque levaram-me até onde eu estou hoje, que é a melhor fase da minha vida. Portanto, se eu tive que as viver e tive que tomar as decisões que eu tomei e trouxeram-me até aqui, ainda bem que as tomei. Não existe esta questão de se voltasse atrás faria o mesmo, porque seria outra coisa.

Claro.

Mas aquilo que eu fiz, fiz com a melhor das intenções e com o melhor que sabia, sempre com o maior dos meus valores, que acho que é a verdade e a honestidade.

Mas quando decide fazer isto, portanto, ouve aquela frase: "Olhe, a sua vida vai ser assim até o resto dos seus dias. Vai viver nesse estado e vai ficar assim." Eu cá acho que foi de propósito, mas como saberá o seu psicoterapeuta melhor do que eu. Decide que não vai deixar isso acontecer. Que processo é que começa nessa altura? Um processo de desmame dos medicamentos, também?

De desmame, acompanhado pela médica de família.

A quem vai dizer: "Eu preciso de acabar com isto."

Sim.

Ela concordou consigo?

Sim, ela percebeu. "Ok, isto tem que ser feito com muita calma." E foi. Foram seis meses de desmame, porque realmente é algo que pode mesmo, se feito mal, pode ser fatal.

Não dá para parar de um momento para o outro.

Não dá para parar de um momento. Especialmente com as doses elevadas que eu estava a tomar. Tem que ser mesmo feito de uma forma acompanhada e ponderada. E decidimos os dois, eu e a Marine. Foi muito complicado. Eu mesmo fisicamente perdia muitas vezes o equilíbrio, não só os períodos de apatia, mas o equilíbrio animicamente, como eu me sentia. Foi muito difícil, mas ela esteve sempre lá e eu percebi que era um Um período transicional e consegui suportar aquela fase. Daí em diante, as coisas foram consecutivamente melhorando.

E estava a fazer psicoterapia na mesma altura?

Na altura não estava.

E não voltou a fazer?

E não voltei a fazer.

Por quê?

Meu Deus, não sei. Eu senti que aquilo que eu estava-- isto é muito complicado de se dizer, porque eu não quero que alguém que esteja em casa sinta que isto é a sua resposta, porque isto foi a minha.

Mas cada experiência é uma experiência.

Exato.

Se funcionou para si, vá sim.

Sim, mas eu na altura senti que tinha a melhor pessoa ao meu lado, melhor do que qualquer psicoterapeuta. Porque eu já tinha tido experiência de psicoterapia.

Já tinhas as ferramentas.

Eu já tinha as ferramentas, eu já sabia até onde é que eu podia ir para perceber que estava a atingir um limite. Eu sabia que se perdesse a capacidade de gerir o que eu estava a tentar fazer, que então aí não havia fora voltar à arte, teria que voltar à psicoterapia. Mas enquanto eu fosse capaz de gerir isto tudo, e se me fosse sentindo gradualmente melhor, que estava num caminho bom. E foi o que foi acontecendo.

Porque houve uma fase na sua vida em que precisou dessa ajuda da psicoterapia e nesta fase sentia de alguma forma que também precisava de ser o Tiago a tomar as rédeas e levar a situação para frente para sentir que estava a avançar?

Obrigado por me dizer isso, porque acho que foi mesmo isso que aconteceu. Não, mas acho que foi mesmo isso que aconteceu. E isso dá-nos uma autoestima, que se calhar não conseguimos de outra forma. De eu perceber: "Ok, eu já tenho as ferramentas, vamos embora." Encontrei a pessoa que eu acredito mesmo que seja a pessoa que eu quero ter ao meu lado. Portanto, as coisas são difíceis? São. Será que estou a tomar as decisões corretas? Não sei. Aquilo era quase feito como se estivesse cego a tentar atravessar uma rua no Vietnã.

Pior sítio possível. Quando é que pensou a primeira vez, se é que tem essa noção: "Eu acho que isto está a resultar"?

Quando eu comecei-

Teve algum momento de: "Eu acho que..."

É mesmo uma sensação física. Eu adoro o filme o "Interstellar", do Christopher Nolan. Quando a ciência já não tem ferramentas, quando já não se percebe o que está a acontecer, quando todos os conhecimentos que os humanos construíram até agora deixam de ser úteis porque já não se entende o que está à nossa volta, o que é que o guia? O amor. É assim que ele consegue encontrar a filha e eu acho que, no fundo, foi o amor que me guiou, foi esta sensação inexplicável de conforto que nascia, nomeadamente, mesmo no peito e que se espalhava para o resto do corpo de um bem-estar, de só estar bem. E começou a acontecer mais vezes isso, a sentir esse bem-estar que já me era tão raro, já não me lembrava disso. Então, meu Deus, é isto que eu quero. Ok, estou a fazer alguma coisa de bem. Continuar a repetir estes padrões, se calhar vou ter mais disto.

Tiago, há bocadinho explicava que as pessoas à sua volta viam coisas que o Tiago achava que as pessoas não viam. Que o viam silencioso e apático. Nesta fase, também foi assim, as pessoas à volta perceberam primeiro que o Tiago estava a melhorar do que o Tiago?

Não sei. Não lhe sei dizer isso. Sei que os meus pais verbalizaram mesmo: "Já não via este filho há muito tempo". Isso deixou-me muito feliz, poder trazer alegria, porque a minha mãe disse-me quão bom era antes de tu ires para Lisboa, ouvir-te a cantar em nossa casa e quão tristes nós ficamos de termos perdido isso. E passado tantos anos voltar a sentir essa alegria, foi muito especial para os meus pais e especial para mim de perceber que eu era um acrescento e não um peso.

E teve recaídas? Ou seja, nesse processo de recuperação, houve alguns momentos em que sentiu que foi um bocadinho para trás, desceu uns degraus, para depois poder avançar?

Várias vezes. Eu estou sempre atento, a tentar perceber o quão grave é aquilo que eu estou a sentir e dou alguns dias para perceber como é que isto evolui. Felizmente, até hoje, acho que faz parte da condição de qualquer ser humano ter dias maus e de respeitar. Aprendi a respeitar e a não passar por cima, a não tentar negar, ignorar, a deixar-me sentir tristeza, mas não adormecer lá. Não ignorar, mas também não adormecer lá. E também com a pessoa que eu tenho em casa, que é alegria pura, criadora do projeto Cancro com Humor.

É preciso muita alegria para olhar assim para o cancro.

Não é? Era uma ajuda gigante. Claro que se eu não quisesse, nunca seria possível, mas estava ali tudo pronto para que pudesse ser um sucesso.

Qual é que acha que foi a ferramenta mais importante que aprendeu a contrariar os pensamentos que o deitam abaixo, a conseguir encontrar uma forma de estar no presente? Foi o quê?

Estar no presente. Estar no presente e o viver ao lado do mar ajudou-me muito. Eu vivo há nove anos ao lado do mar. Estou a cinco minutos a pé do Pardão, ali de Paço de Arcos, que é o maior luxo que eu poderia ter. As pessoas que não fazem, eu não consigo entender como é que tenho vizinhos que nunca os vi naquele Pardão. Porque é um luxo.

Vizinhos de Paço de Arcos, por favor.

Vão lá, quero-vos ver lá. Fico feliz quando vos vejo. Porque é tão bom como qualquer terapia, como qualquer medicação. É essencial. Faço caminhadas de uma hora, uma hora e meia, duas horas. Às vezes vou só lá por cinco minutos. Muitas vezes vou só dar um mergulho. E é só olhar, estar. Muitas vezes vamos a caminhar os dois e a minha mulher gosta de falar muito.

Faz esse trabalho por si.

Sim. E eu com muito carinho digo assim: "Vamos só estar?" E ajuda-me bastante e a ela também, a gerir e a trabalhar também as questões dela. Temo-nos ajudado muito um ao outro, não tem sido só para um lado, tem sido para o outro também. Temos potenciado, penso que o melhor que há em nós e com muita compaixão, gerir também as dificuldades de cada um. Tem sido uma jornada incrível, a melhor da minha vida.

Obrigada.

Obrigado.