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Ó João, e se voltássemos?
Como assim, Maria? Dizes invadir a rádio?
Sim, por que não? Não tens saudades?
Tenho, mas tinha que ser algo em grande.
Maior que os vencedores da Liga MEO Surf 2024?
Se calhar tens razão. Se calhar vale mesmo a pena.
Vamos a isso.
Teresa Bonvalot, Guilherme Ribeiro, os grandes vencedores da Liga MEO Surf. Muitos parabéns por esta vitória. Nesta conversa, para lá da vitória neste campeonato, vamos querer conhecer estes campeões que temos aqui à nossa frente, tanto eu, João Costa e Silva, como a Maria, Maria Ribeiro Nunes. E vamos começar pela Teresa, campeã nacional da Liga MEO Surf. Teresa, tens 25 anos, já com uma larga experiência e sabes muito bem aquilo que significam estas competições. Também tens tido certamente contacto com surfistas que estão a começar a aparecer, surfistas mais novas. Sentes aqui uma espécie de pressão adicional no sentido de ser um role model ou uma inspiração para muitas delas, já nesta fase da tua carreira?
Acho que na vida iremos ter sempre certo tipos de pressões, e acho que depois cabe a nós usá-los como um meio extra de motivação. É verdade, acho que eu apareci numa transição, especialmente no surf feminino, e tenho sido, não só eu, mas se calhar foi ali na minha fase, um shift, e que acabou por ser incrível para Portugal, porque realmente estávamos a precisar, e a demonstração, a motivação e o trabalho para o surf feminino crescer e chegar a um patamar mais alto. E é engraçado e é giro ver as novas gerações, as gerações mais novas olharem para mim como um minino. Eu, para mim, acho isso estranhíssimo, porque normalmente sou mega reservada, bem envergonhada e estou sempre ali na minha zona. Então quando tenho pessoas a vir ter comigo e a dizer que adoram o que eu faço e que acabo por as incentivar, acho incrível, mas ao mesmo tempo fico com vergonha. Mas é giro. É giro de ver e é giro porque acaba por demonstrar realmente o nosso trabalho.
É o retorno daquilo que vocês fazem, não é?
Exatamente.
E tu, Guilherme, já tiveste surfistas mais novos a virem ter contigo e fazerem-te perguntas: "Olha, como é que tu fazes isto?" Ou: "Podes me ensinar a fazer aquilo?"
Já tive, provavelmente não tanto como a Teresa, porque a Teresa já teve umas conquistas mais acima que eu, mas já aconteceu, principalmente mais na zona da Caparica, que é de onde eu sou.
A tua praia.
Da minha praia, ou seja, os miúdos dali olham mais para mim, como eu sou de lá, como surfo lá a maioria das minhas vezes. Sinto-me mais uma referência para a Caparica e ainda não para o resto.
Para o mundo. Mas hás de lá chegar. Até porque tiveste uma prestação exímia neste campeonato e ainda tiveste que conciliar isso com as provas da Challenger Series, a segunda divisão do surf mundial. Como é que foi esta adaptação?
Sim, para mim foi um ano completamente novo. Para a Teresa já foi o décimo dela que ela faz assim. Por acaso tive a sorte de passar todo este ano com a Teresa, porque fomos treinados pela mesma pessoa, pelo Manuel Gama.
Andaram sempre de mãos dadas.
Sim, andámos os três de mãos dadas o ano todo.
Foi uma dobradinha para o treinador. Dois campeões de uma vez.
É verdade. E foi difícil, não posso dizer que não foi difícil, mas quero voltar a repetir esta competição em simultâneo com os Challenger Series, com o WQS e com o Nacional, e espero para o ano fazê-lo mais uma vez com a Teresa e com o Manuel de mãos dadas.
Vamos lá estar para ver, certamente.
A Teresa, como está aqui a dizer o Guilherme, já anda muito habituada a estas andanças, mas nós aqui nesta conversa queremos também perceber como é que se prepara e como é que é um dia de competição. Imaginemos, temos uma prova amanhã. O que é que vocês fazem no dia antes que vos prepare para esse dia? Há uma espécie de ritual? Há uma coisa que vocês têm quase sempre de fazer? Como é que são esses dias que antecedem uma grande prova, uma grande competição? Começando pela Teresa.
Eu acho que isto varia sempre de atleta para atleta. Acho que cada um tem as suas certas superstições.
Quais são as tuas, Teresa?
As minhas: eu gosto de escrever um bocadinho antes.
Escrever?
Escrever um bocadinho o que se vai na minha cabeça, o que eu quero implementar no dia, dentro d'água.
Quase uma manifestação.
É tentar expor o que eu sinto e tentar encaminhar para onde eu quero ir. E eu acho que isso acaba por ajudar imenso a entrar no mindset certo e modo ataque, que é o que eu quero acabar por fazer sempre que eu visto a lycra, quero meter nos 20 ou 30 minutos tudo o que eu tenho, quer seja naquele dia, os meus 100% hoje podem ser os 60% amanhã.
Sim.
Mas dar sempre o meu máximo e acabar, como é óbvio, quando temos companhia, treinador connosco, analisamos bastante as condições durante o dia de prova para tentar analisar tudo da melhor forma. Mas aí são coisas mais que acho que toda a gente faz.
Não estava à espera de ver alguém a escrever antes de um dia de prova. Acho que já é uma relação gira.
E tu, Guilherme, o que fazes?
Eu também escrevo, por acaso.
E o que escreves?
São mais parecidos do que pensava.
O treinador é o mesmo.
As filas estão todas lá.
É verdade. Eu escrevo, por exemplo, quando vou para a Austrália ou para sítios diferentes no mundo, escrevo durante toda a competição e toda a pré-competição, uns três, quatro dias antes. Mas especificamente o dia antes da competição, a parte da tarde gosto que seja um bocado mais livre. Ou seja, não vou para a água, não vou para o ginásio, vou estar na minha. Se calhar, vou à praia, mas não vou surfar. Faço essas coisas mais na parte da manhã para deixar a tarde mais livre.
E uma pergunta curiosa: o que comem antes das provas? Porque não podemos comer comidas muito pesadas e condimentadas e ir para o mar. Ou isto é um mito? O que vocês comem antes das provas?
Eles agora: hambúrguer e tudo mais.
Batatas fritas.
É um bocado mito.
Mas comem uma feijoada antes de ir surfar?
Não, mas eu gosto de ir cheio para dentro de água.
Eu gosto.
Isso eu não gosto. Mas há quem goste. No geral, como é óbvio, comidas muito pesadas às vezes podem não cair muito bem e não é o objetivo. Especialmente, diria que também eu, pelo menos para campeonatos e para os hits, normalmente não vou de todo com imensa comida no estômago. Mas nos dias anteriores, comida normal. Eu gosto de ser saudável e acho que nós todos aqui tentamos ser saudáveis, por isso comida equilibrada e acaba por nos dar a energia certa para o dia de competição.
E depois do dia da competição já podem comer o chocolatinho.
Eu também gosto. Claro. Isso é energia. É isso que nós queremos.
E naqueles dias que não vos apetece fazer nada e que sabem que têm um treino ou que tinham estar no mar, já deram uma desculpa muito criativa ao vosso treinador, que é o mesmo, não é? Para não ir para o mar. Há alguma história engraçada que possam partilhar connosco? Sem se comprometerem, como é óbvio.
Não, por favor, comprometam-se. Este é o sítio certo para se comprometerem.
Eu costumo ser muito direto, sinceramente. Não é que não me apeteça.
Nunca disseste que o cão comeu a lycra?
Não. Isso era uma boa. Comeu a prancha. Ou deu um cabo das pranchas todas. Não, isso nunca.
Têm essa abertura para serem honestos com o vosso treinador.
Claro. E há muitos desses dias? Porque sabemos que o surf é a vossa paixão e aquilo que vocês mais gostam de fazer, mas existem muitos desses dias em que simplesmente não sentem essa predisposição para ir para o mar, para estar lá e para dar o máximo de vocês? Sinto que às vezes os dias que sinto um bocadinho isso, são certos dias que estou muito cansada e isso acaba por ser o meu corpo a dar um alerta para eu recuperar.
Sim.
Por isso também hoje em dia já tenho noção e tento perceber estes sinais que o nosso corpo vai nos dando. E isto quer estejamos agora na Austrália durante um mês para competir em dois eventos. Às vezes é possível ter um ou outro dia desses que sentimos realmente muito mais cansaço. Por isso é tentar também perceber e ser também real com esses sentimentos.
Ou isso ou porque a água está muito fria nesse dia, não é?
Na Austrália temos sorte que é quente.
Não, nós olhamos para o surf como qualquer outro tipo de trabalho. Com certeza que vocês não vos apetece vir para aqui todos os dias de manhã.
Se calhar, e isto sente-se também em nós, que as pessoas no seu dia a dia acham que como é uma paixão e que vocês fazem isso com paixão, estão sempre com predisposição para ir, para estar e para viver. Mas não, há dias maus e há dias que não estamos tão inspirados como outros.
Há dias muito frios e a água muito fria. E custa entrar na água, é verdade? Inclusive queremos saber depois os truques que vocês utilizam para conseguirem entrar logo na água, que eu demoro uma hora só para molhar os joelhos. Falemos agora das vossas carreiras, porque sabemos que serem surfistas profissionais é uma coisa que não se estende muito no tempo, meio que há um prazo de validade na vossa profissão. Acham que é um percurso que começa e que inevitavelmente vos leva logo a pensar num plano B para um futuro próximo?
É assim, eu tenho um plano B, mas tento ao máximo não olhar para esse plano B.
Qual é o teu plano B?
Eu estou inscrito na faculdade. Ou seja, eu não fui estudar para a faculdade e estou inscrito na faculdade num curso no Monte da Caparica, no Nova.
E qual seria a área, já agora? Não tem nada a ver.
Vai assustar.
Vamos lá.
Medicina dentária.
Não, é matemática aplicada à gestão do risco.
Bem.
Uau! Ou seja, uma profissão com futuro.
Exatamente.
Mas estás a tentar adiar até ao surf dar.
Sim. Nunca se sabe o dia de amanhã e eu sei disso, mas quero manter esse plano B o mais longe possível por agora.
E sentes essa pressão do prazo de validade?
Não posso dizer que nunca pensei nesse prazo de validade, mas mais uma vez, eu tento afastá-lo o máximo possível no meu dia a dia para que não me atrapalhe no que faço.
E tu, Teresa? Porque é uma pressão psicológica muito forte em cima de vocês. Parece uma profissão muito bonita quando vemos surfistas no mar, mas há toda uma carga psicológica muito forte em cima de vocês. Como é que lidam com esta pressão?
Claro que sim. Hoje em dia, se virmos o percurso, por mais que o surf tenha crescido imenso nos últimos anos, há aqui imensas áreas em que o que aconteceu foi o oposto. Por isso, para a nossa geração e para as gerações mais novas, às vezes é um pouquinho assustador. Eu pelo menos tento me focar realmente no que eu mais gosto, que é o surf e a competição, por isso é nisso que tenho a minha mente e o dia de amanhã logo se vê. Gosto de estar em cada coisa que faço a 100%. Isso, na altura até acabar o 12º, foi a coisa que mais me enervou, que não conseguia nem estar a 100% na escola, nem estar a 100% no surf. Por isso, depois disso, o meu objetivo foi: "Quero meter as minhas fichas todas no surf. Isto é o que eu mais gosto, isto é o que eu mais amo e quero levar isso como profissão. Tenho objetivos e sonhos para atingir e quero estar completamente a 100% nisto." Para mim, isso é o que mais funciona e que eu acho que as pessoas também deviam focar um pouquinho mais e não estarmos a pensar no futuro, no dia de amanhã.
Deves ter uma pressão extra, não é?
Exato.
De terem sempre isso na cabeça. E falando dessa preparação física e também mental que vocês têm que ter para serem um atleta de alta competição, que mecanismos é que também vocês foram adquirindo ao longo do tempo, até com a ajuda do vosso treinador, para que esses nervos e para que essa pressão também não vos afetasse na performance, na dita prova que vocês têm no dia de amanhã, nas provas de qualificação, que acredito que sejam aquelas em que vocês sentem mais pressão, se calhar para mostrar mais resultados. Como é que vocês fazem essa gestão e que mecanismos é que foram adquirindo? Guilherme.
É assim, eu acho que isso é uma questão muito pessoal, porque todos temos os nossos mecanismos, todos somos diferentes e em tom de cabeça ainda mais diferentes somos.
O que é que resulta para ti? O que é que te acalma?
O que é que me acalma? É assim, eu tenho uma série de técnicas diversas.
Pode não querer revelar.
Exatamente.
Não quer partilhar com a concorrência, muito bem.
Não, não é com a concorrência, mas sinto que é mesmo uma coisa extremamente pessoal e provavelmente, se uma câmera me estiver a filmar no momento desses, consegue-se perceber o que eu estou a fazer.
Ok. Não é ioga.
Não.
Ainda não vimos o Guilherme a fazer ioga na praia.
Mas por acaso faço ioga.
Não em público.
Não em público. Escondidinho. Mas sim, acho que todos temos as nossas técnicas. A Teresa com certeza que tem as suas técnicas. E a coisa boa é que ter um psicólogo já não é um tabu, ter um psicólogo no desporto já não é tabu e fico muito contente por isso. Fico contente, porque eu achava que era tabu até o ter e fico contente por agora conseguir dizer às outras pessoas: "Olha, por que não vais experimentar o psicólogo também?"
E dizeres que tu próprio já acedeste a esse tipo de ajuda.
Sim, partilhar a minha experiência também.
Partilhas da mesma opinião, Teresa?
Eu partilho. Sou totalmente de acordo. Hoje em dia, acho que a sociedade já olha para estes tipos de ajudas, psicólogo. A minha irmã mais nova está a tirar Psicologia. Se calhar um pouquinho também influenciada pela vida que eu levei, que sempre esteve no meio do desporto e é isso que ela quer mais tarde fazer. Mas realmente eu acho que é importante não só para atletas, como para toda a gente. É uma coisa importante. Hoje em dia estamos expostos a mais ecrãs, mais redes sociais, algo que antigamente os nossos pais não estavam tanto. E eu acho que isso também traz os seus problemas e não há mal nenhum procurarmos ajuda, não há mal nenhum tentarmos ser melhores todos os dias. Por isso, acho que é só preciso desmistificar isso na cabeça, eu acho que já está muito mais desmistificado e não há problema nenhum. Hoje em dia nas redes sociais vemos que toda a gente vive um sonho de vida e que se calhar às vezes ficamos: "Fogo, a minha vida não tem nada a ver com aquela." Mas nem tudo é real e nós às vezes é desmistificando isso que de repente conseguimos procurar certos tipos de ajudas em cada área que temos para tentar sermos melhores.
E essa é uma mensagem muito importante a passar à nova geração. E já passaram um desafio, passaram o campeonato, a Liga MEO Surf 2024, mas o derradeiro desafio, meus senhores, é agora.
Vamos a isso. Basicamente, vamos fazer uma série de perguntas aos nossos campeões da Liga MEO Surf. Caso não queiram responder, têm um trunfo, que é passar, neste caso, ao vosso adversário. Neste caso, a Teresa pode passar ao Guilherme, o Guilherme pode passar à Teresa, sendo que só podem fazer isso uma vez. Ok?
Ok.
É este o objetivo. E vamos começar com a Teresa. Pode ser?
Pode ser.
Teresa Bonvalot, com quem não querias, de todo, disputar uma final?
Com quem eu não queria disputar uma final?
Tic tac, tic tac.
Mas tem que me dar um pouquinho de ajuda, pessoas portuguesas ou estrangeiras?
Deixamos ao teu critério.
Exato. Já abrimos aqui possibilidades.
Pronto, pode ser o Gabriel Medina.
Por quê?
Porque ele é muito cão dentro d'água.
O que é um cão dentro d'água?
É muito agressivo. Mas ao mesmo tempo eu ia adorar partilhar uma final com ele, porque ele é também um dos meus surfistas preferidos. Mas pronto, vai o Gabriel Medina.
Está respondido. Guilherme Ribeiro.
Será que vai passar à Teresa?
Vamos ver.
Preferias perder o título de campeão por uma fração de ponto ou tornares-te campeão por um erro de avaliação do júri?
Ai!
Já é uma questão de ética e de honra, não é?
Não, eu perderia o título no último segundo.
Por uma fração de ponto?
Sim. Eu detesto isso.
Eu acho que detestas perder. Não sei se seria isto que irias escolher.
Vamos à terceira pergunta. Teresa Bonvalot, tornavas-te campeã, mas a tua família e amigos não podiam assistir às tuas provas, nem pela MEO Beachcam. Aceitavas o título?
Título de campeã mundial?
Sim.
Aceitava.
Mas ia ser difícil, ou não?
Ia ser difícil.
O apoio da família e dos amigos.
É que nem vídeo, nada. Ias ser campeã.
Mas hoje em dia nós já fazemos isto e muitas vezes já é um desporto muito solitário, por isso diria que nós já levamos muito desse apoio no coração.
Sim, também se fazem tantas viagens e andam tanto de um lado para o outro.
E por isso eles teriam no meu coração, como é óbvio, que se me dessem as duas preferências, ser campeã do mundo com toda a gente que eu mais amo na praia a torcer, como é óbvio.
Claro.
Mas depende da perspectiva que olhamos e a minha perspectiva é que teria toda a gente no meu coração.
E tu, Guilherme, se fosses responder a esta, também era a mesma resposta?
Sim. Já me aconteceu estar em França e o primeiro WQS que ganhei, não havia Beachcam, não havia vídeo, não havia nada. Até teve que ser um espanhol a levantar-me, porque não havia mesmo lá ninguém.
E esse companheirismo, aliás, eu e a Maria podemos testemunhar muitas vezes.
O fair play, no fundo. O fair play de vocês.
É um desporto que vos une muito, porque vocês, no fundo, são adversários, mas vimos por diversas vezes. Aliás, estou-me a lembrar de uma das provas em que Francisca Vezel ficou em segundo lugar com a Teresa e foi ela que a levantou. Portanto, é claro, é um desporto que nos faz pensar que às vezes temos tantos desportos onde existe uma rivalidade tão intensa que às vezes acaba por ser desnecessário, porque vocês são mesmo companheiros uns dos outros.
Ó João, mas isto está a ficar muito fácil. Podemos dificultar um bocadinho aqui o desafio?
Vamos a isso.
Então vamos a isso. Guilherme Ribeiro.
Eu.
Já sabotaste uma onda a alguém?
Sabotar uma onda? Sabotar é dar a volta, não é?
Pode ser.
Já.
E a quem?
Mais que uma vez.
Não terminei de ler a pergunta. É a quem, onde e por quê?
A quem, onde e por quê? Nós temos uma etapa do WQS europeu, que é na costa.
Uma praia que tu conheces perfeitamente bem.
Perfeitamente. E normalmente as pessoas que são da zona têm prioridade por respeito à maioria das ondas. É o sítio que provavelmente eu faço mais isso por me sentir tão em casa e saber que os outros não são de lá.
Já sabotaste ondas. É concreto.
Teresa Bonvalot, esta não sei se é difícil ou não, mas vamos testar aqui. Já fizeste um heat chateada com algum dos teus adversários? Se sim, quem?
E onde?
Chateada com algum adversário?
O Guilherme está a ensinar.
Tu sabes quem é que é.
Não. Um adversário que não goste. Ou se calhar um adversário que não goste.
Pode ser, também.
Pode ser, também.
Ou então passas ao Guilherme.
Ainda tem esse trunfo, ainda não usaram.
Pronto, eu vou brincar e passo ao Guilherme o trunfo. É que eu não me lembro quem foi. Uma pessoa que não goste mesmo.
E foram disputar uma bateria juntos.
E que tu fiques mesmo: "Eu quero matar aquela pessoa".
Sim, já aconteceu.
Com quem e onde?
Com quem é preciso dizer o nome ou pode ser anônimo?
Não, com quem. Foi por isso que eu perguntei.
A Teresa já está a incorporar também.
Já pertences aqui à equipa da Rádio Observador, estás ótima.
É um surfista alemão. Sempre nos jogos.
Ai, ele não vai ouvir isto.
Ele não vai ouvir isto.
O Tim Elter. Detesto a atitude dele dentro e fora d'água. Já competi com ele.
E ganhaste.
E nessa bateria perdi com ele.
Agora quer a desforra.
Agora quero a desforra. Estou à espera da desforra.
Vais com mais motivação pra próxima.
É verdade.
Assim sendo, voltamos a ti, Teresa Bonvalot. Já usaste o teu trunfo, vais ter de responder. Já sentiste que a rivalidade com algum surfista desta liga, da Liga MEO Surf, passou para fora d'água?
Para a vida pessoal. Ai, este suspiro.
Não devia ter usado o trunfo.
É suspiro de quem não tem trunfo.
Eu acho que não tanto da minha parte, mas acho que especialmente nós, miúdas, não somos muitas. E mulheres às vezes são mais lixadas que os homens e às vezes misturam certas coisas e esquecem-se um bocadinho aquela coisa de amigos, amigos, ondas à parte. Um objetivo, como é óbvio, é dar o meu máximo. Não estou aqui a tentar fazer nada injusto. Estou a ser julgada por cinco pessoas que estão no painel. Às vezes podemos sentir que somos injustiçados ou o oposto, mas nós não temos mão nisso. E eu acho que às vezes nós, mulheres, esquecemo-nos um bocadinho disso e acabamos por trazer um pouquinho dessa raiva pra fora. Mas já senti de outras miúdas comigo.
Quem, onde e por quê?
Não, vamos deixar.
Um onde, porque acho que no geral, como somos tão poucas, existe esta rivalidade maior. Acho que as miúdas são mais lixadas nisso que os homens. Os homens acabam por mais coisas conseguem estar muito mais juntos e as miúdas, se calhar, porque a outra ganhou, já não nos damos com ela.
Muito bem. Maria, vamos à próxima?
Vamos à próxima. Guilherme Ribeiro, houve alguma situação em que tenhas tido de escolher entre ser simpático ou ter uma postura mais agressiva para ganhares alguma vantagem na competição?
Ainda tens o teu trunfo, Guilherme, não te esqueças.
Sim. A pergunta é?
Tiveste de escolher entre ser simpático ou ser mais agressivo para teres alguma vantagem.
Certo. Já aconteceu dos dois.
Já?
Não é ser simpático, é não me impor em relação à outra pessoa e já houve situações que me tive que impor em relação à pessoa com quem estou a competir.
E correu bem? Correu como esperavas?
Correu bem, mas é desconfortável com certas pessoas fazê-lo, com pessoas mais próximas.
Porque no fundo é sempre uma competição, não é?
Sim, por exemplo, eu já tive que competir contra o meu irmão e fazer uma coisa dessas com ele é complicado. Mas fazia.
É uma competição, lá está, e vale tudo.
Vamos à última pergunta. Teresa Bonvalot, quem foi a pessoa que mais te tentou intimidar antes de entrar para o mar? Silêncio dramático.
E já não tem trunfo.
Quem foi a pessoa que mais me tentou intimidar?
E pode tê-lo feito involuntariamente. Atenção, pode ser alguém que te dê uma pressãozinha extra. Eu estou a ajudar, não devia estar a ajudar.
Estás a facilitar muito.
Estou a facilitar a vida da Teresa.
Eu posso dizer que já fui há muitos anos num campeonato Rip Curl Gromsearch. Era a final europeia e já estávamos na final e outros já tinham nove e precisavam de um, dois para ganhar. E só quem ganhava é que ia pra etapa mundial. E um, dois naquele mar era fácil, só que não vi muitas ondas. Não havia prioridades nessa altura, era quem estivesse mais perto da espuma tinha prioridade. E há lá uma parte que esta que estava a ganhar, esta basca, estava de repente a pedir às outras para marcarem, porque ela queria ganhar e as outras estavam mega longe de nós, em termos de pontuação. E lá eu no final, mais perto do fim, consegui dar a volta a elas pra pegar a onda, estou a meter-me de pé e ela agarra-me o short propositadamente.
Isso é legal?
Supostamente não. Caio. O heat acabou, passado um bocadinho, fomos ainda lá reclamar. "Não vimos nada". Nessa altura estive durante imenso tempo sem lhe falar, disse mesmo: "What a shame." Era basca, estávamos no País Basco também. E estive imenso tempo sem conseguir olhar-lhe na cara, por amor de Deus, como é que é possível?
Claro.
E diria que o momento mais gratificante que eu alguma vez tive, mas que eu acabei por meter a pressão toda, que foi quando eu me sagrei a primeira vez campeã europeia júnior. Estava em Soplana e se eu passasse aquele heat contra essa tal miúda, era campeã automaticamente, ela também perdia a chance. Bem, nos primeiros cinco minutos faço dois sets e mais dois oitos, o mar estava bacaninha e estive o resto do tempo todo em cima dela, como ela já me fez inúmeras vezes. Em cima dela, a respirar-lhe em cima, a dizer: "Do you like it? Do you like it? You wanna feel so..."
O pau falou é do retorno, não é?
Disse tudo e mais alguma coisa a dizer. Eu não preciso de jogar sujo, como tu já me jogaste sujo. Mas gostas? Acabei por trocar um pouquinho a pergunta, mas diria que foi um momento que ao mesmo tempo também estava toda com a adrenalina ao máximo, mas foi possivelmente através do desconforto que já me criou, virei aquilo e também foi dos momentos mais incríveis que eu alguma vez tive na vida.
E foi uma vitória que teve outro sabor, não é?
E foi uma vitória que teve outro sabor.
E tendo em conta que já têm também esta vitória, que inclusive já escreveu o vosso nome na história do surf português, que legado querem deixar no surf nacional?
Que legado? Não sei.
Queres pensar e já voltamos a ti?
Pode ser.
Vamos à Teresa.
A Teresa tem essa na ponta da língua.
Mais ou menos. Não.
Ele está a usar o trunfo dele agora.
Exato. Passa pra Teresa.
Isso é uma pergunta que eu faço muitas vezes a mim própria, o que é que eu quero ser, o que é que eu quero deixar. E eu acho que além dos nossos objetivos pessoais, nós temos muito a ensinar às pessoas. E claramente que um dos meus objetivos principais é sentir que consigo dar aquilo que fui criando, que vou criando e que vou lutando para ajudar futuras gerações. Como é óbvio, no bom sentido. Acho que os meus valores também vão de acordo com isso. Um dos meus objetivos principais, sonhos, objetivos, é qualificar mesmo pro CT, já lá estive perto, e um dia depois mais tarde lutar por um título mundial. E em relação Se vou conquistar ou não, nunca saberei. Sei o que consigo fazer no dia de hoje e trabalhar para lá chegar. Acho que isso acaba por demonstrar muito a toda a gente e é um pouco também esse mindset e essa forma de ser que eu quero transpor para toda a gente. E ao longo desse meu próprio percurso, tentar ter um impacto maior e mexer mais com estas futuras gerações para ajudar a prevenir certas coisas que podem fazer de uma forma diferente, pela experiência toda que já tive e coisas que já passei, e que acho que há certas coisas que pode-se evitar.
E pode sempre fazer melhor.
Exatamente.
E se houver aqui alguém que já tenha passado pelo que tu passaste, pelo que o Guilherme passou, sem dúvida que é importante ter os vossos testemunhos para também ajudar futuras gerações. E aqui falamos da questão também da saúde mental, que acho que é uma questão muito importante e que vocês de certeza que lidam com isso. Aliás, estivemos aqui a falar de questões importantes até a nível de competição, portanto acho que o vosso testemunho é muito importante nesse sentido. Guilherme, já tens aqui uma resposta para nós?
Acho que sim. Eu essencialmente quero mostrar às próximas gerações, não quero que os meus resultados ou a minha chegada ao WCT, quando chegar um dia, definam quem eu sou e como as pessoas olham para mim. Eu quero tentar fazer de uma forma mais pessoal e que as pessoas me vejam, não porque ganhei aquele campeonato, mas sim por quem eu sou e pelo atleta que sou.
E pelo trabalho que vai tendo todos os dias.
Exatamente. E que me reconheçam dessa forma e não a partir do meu currículo.
Tão bonito, já vi isto.
É que para além de serem bons surfistas, bons profissionais, são boas pessoas e têm os valores.
E o coração no sítio certo. Obrigada aos dois.
E muito obrigado por terem estado aqui conosco na Rádio Observador. Muito obrigado e até uma próxima.
Obrigada.
Vemo-nos para o ano?
É verdade.