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Quando foram à minha consulta, já ultrapassaram a barreira e o estigma daqueles que nem sequer lá chegam. E mesmo esses, que já optaram por ir, dizem: "Doutor, mas eu vim aqui com alguma relutância, porque eu não sou maluco, não é?"

De onde é que nasceu esta ideia, este rótulo de que um psiquiatra é o médico dos malucos?

Para isso temos que ir à origem da palavra maluco. Quando nós pesquisamos, há duas explicações possíveis. A primeira é a origem latina, que vem de "malu", que significa mau, e "locuS", que quer dizer lugar. Portanto, originalmente, maluco quereria significar um lugar perigoso, um lugar estranho. E há uma outra explicação que se refere aos nativos das ilhas Molucas, na Indonésia, onde Portugal ia buscar, no século XVI, noz-moscada e cravinho, que eram especiarias muito caras, e os nativos das ilhas Molucas, os malucos, defenderam de forma tão violenta as suas especiarias que os portugueses consideraram que eles tinham um comportamento bizarro, um comportamento estranho, e, portanto, eram os malucos. Ou seja, em qualquer das circunstâncias, a palavra maluco não tem uma conotação positiva. Mas a verdade é que a maior parte das doenças mentais não tem comportamentos bizarros ou imprevisíveis. Há um grupo de doenças mentais em que parte dos sintomas são sintomas psicóticos, ou seja, sintomas em que as pessoas têm, por exemplo, alucinações, ouvem vozes que não estão realmente a acontecer, ou delírios, têm ideias de coisas que não são verdade, como por exemplo, acreditar que se é o filho do Napoleão ou que se vai ser abduzido por um OVNI. E estas ideias, e estas alucinações, e outras alterações psicóticas do nosso funcionamento mental, podem levar a que tenhamos comportamentos imprevisíveis e estranhos, aparentemente. Embora, se como psiquiatras, apurarmos aquilo que a pessoa está de facto a pensar e a sentir, o comportamento não passa a ser assim tão estranho, até tem alguma compreensibilidade.

Neste programa, vamos sempre perguntar se os mitos têm algum fundo de verdade. Há algum fundo de verdade nesta ideia de que um psiquiatra como o doutor Gustavo Jesus é o médico dos malucos?

Pegando nesta ideia de que alguns doentes mentais com patologia mental, com sintomatologia psicótica ou com sintomatologia de desorganização mental, em síndromes confusionais, por exemplo, em doentes mais velhos, ou seja, quando o comportamento se torna imprevisível, eu acredito que seja essa a conotação que é dada à palavra maluco. Agora, o que nós temos que considerar, primeiro, é que é altamente injusto para as pessoas com sintomas psicóticos serem apelidadas de malucos, se considerarmos que maluco é mau, é bizarro, é excêntrico, porque, na verdade, o comportamento resulta de um sintoma, e esse sintoma, felizmente, pode ser diagnosticado numa síndrome e pode ser tratado. E além disso, sabemos também que a maior parte das pessoas com doença mental não tem sequer nenhum tipo de comportamento estranho, ou bizarro, ou excêntrico, porque, como sabemos, existem muitas doenças mentais e a grande generalidade das pessoas com doença mental sofre de doenças mentais comuns. A depressão, a ansiedade, as perturbações da ansiedade, e essas perturbações não têm nenhum comportamento particularmente excêntrico.

Este rótulo, que também vem do estigma associado à saúde mental, leva muitas vezes as pessoas que precisam, de facto, de procurar um psiquiatra, a ter alguma resistência a essa ideia, com medo de ficarem com o tal rótulo de serem o maluco que procurou o médico. O que é afinal um psiquiatra?

Primeiro que tudo, é médico. Nós fazemos o curso de Medicina, como todas as outras especialidades. Isso quer dizer que lhe dá uma base de conhecimento técnico, teórico e prático, que é muito importante no diagnóstico diferencial. O que isto quer dizer? Quando uma pessoa se apresenta à consulta com determinado quadro clínico, por exemplo, um quadro de depressão. Nós sabemos que o diagnóstico de depressão, qualquer diagnóstico psiquiátrico, aliás, é um diagnóstico de exclusão. Ou seja, como as doenças mentais não se veem nos exames complementares, não se veem no raio-X, não se veem na TAC, não se veem nas análises.

Tem essa chatice.

Nesse sentido, também aumenta um bocadinho a desconfiança das pessoas. "Mas se eu não sei exatamente, se eu não vi na TAC ou na ressonância magnética que lá está a doença, como é que eu tenho a certeza?" Porque a psiquiatria faz diagnósticos de exclusão. Por exemplo, um quadro clínico de depressão. Será que tem hipotiroidismo, alterações das hormonas tireoideias? Será que tem anemia? Será que tem uma alteração cerebral qualquer? Um estado hormonal alterado? E só depois de percebermos que isso não acontece é que chegamos ao diagnóstico. E portanto, o médico psiquiatra existe e deve existir, porque tem um conhecimento abrangente das doenças físicas e mentais, de forma a poder distingui-las e também estar alerta para sintomas que lhe chamem a atenção de uma coisa potencialmente grave. E depois, feito o diagnóstico da doença mental, o próprio termo doença mental ainda tem muito estigma associado, mas felizmente bastante menos do que a palavra maluco. E quando nós fazemos o diagnóstico da doença, felizmente, na grande maioria dos casos, existem já, neste momento, tratamentos eficazes e muito bem tolerados. E portanto, devemos eliminar esta ideia de que o psiquiatra é o médico dos malucos, porque o médico psiquiatra trata uma grande diversidade de doenças, muitas delas sem alterações comportamentais, e mesmo as que têm alterações comportamentais, podem deixar de as ter.

Obrigada.

O Mental é uma parceria do Observador com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e com o Hospital da Luz. Conta com o apoio científico do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.