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Temos que acordar cedo, vestir os miúdos, vestirmo-nos, picarmos o ponto, metermo-nos no trânsito, relatórios para apresentar, contas para pagar, o IRS para preencher. Nós estamos permanentemente a sofrer.
É um tema de que falamos muito quando falamos de saúde mental, muito por causa da maneira como vivemos o nosso dia a dia, que é o estresse. Nós sabemos que o estresse pode contribuir para a doença mental, a existência de estresse ou a forma como nós lidamos com o estresse, mas o estresse também pode contribuir para a existência de outras doenças ou pode fazer-nos envelhecer?
A resposta a essa pergunta é: depende. Nós estamos preparados para lidar com o estresse, ou seja, nós, como qualquer mamífero, temos estratégias psicológicas e físicas para lidar com o estresse. Isso tem a ver também com o facto como a seleção natural nos moldou ao longo dos 300 mil anos em que nós estamos neste planeta. Portanto, na verdade, o nosso estilo de vida é recente. Esta forma de viver tem 200 anos e com muitas evoluções, nomeadamente tecnológicas, nas últimas décadas. Mas a nossa espécie existe há 300 mil anos e durante estes 300 mil anos o que nós fazíamos era ser caçadores-recolectores e tínhamos basicamente que arranjar comida para sobreviver, procriar para deixar os nossos genes para a descendência e, no entretanto, sobreviver ao estresse. E esse estresse era agudo, era um predador, uma derrocada e nós tínhamos que estar preparados para isso. Por isso, ficou gravado no nosso código genético e na nossa característica biológica, uma resposta ao estresse agudo. Essa resposta, transporta para os dias de hoje, dá origem a sintomas quando nós estamos estressados. Por exemplo, temos uma ativação do sistema nervoso simpático com aceleração cardíaca, aceleração respiratória. Para quê? Para termos o sangue a circular por todo o corpo e estarmos preparados para a ação, para combater o tal predador hipotético, termos mais oxigénio a chegar às nossas células, nomeadamente ao nosso cérebro, para podermos ter também um alerta superior, estarmos capazes de reagir à situação. Agora, isto transposto para a situação atual, também se verifica. Nós quando temos um exame, vamos ser pais pela primeira vez, uma entrevista de trabalho, nós estamos estressados, temos um estresse agudo e lidamos com aquilo, sentimos alterações físicas e psicológicas transitórias e depois vamos à nossa vida. Até porque depois há outras ativações que acontecem e que fazem cessar esse estresse. O problema é que nós vivemos em estresse crónico. O estresse crónico tem consequências muito nefastas para o nosso corpo e para o nosso cérebro. Por quê? Porque nós biologicamente não estamos preparados para ele. Nesta situação de vida caçador-recolector e de predadores de quando em vez, não havia estresse crónico. E hoje em dia nós vivemos em estresse crónico, nomeadamente temos que acordar cedo, vestir os miúdos, vestirmo-nos, picarmos o ponto, metermo-nos no trânsito, relatórios para apresentar, contas para pagar, o IRS para preencher. Nós estamos permanentemente a sofrer. E este estresse psicológico também tem a ver com o facto de o nosso cérebro ter evoluído tanto. Um cérebro muito evoluído tem capacidade de memorizar o que é que me aconteceu no passado e será que isto se vai repetir no futuro. Estas preocupações fazem com que o ser humano tenha muita tendência para o estresse crónico. E o estresse crónico leva a ativações, mais uma vez, do sistema nervoso simpático, mas também a ativações metabólicas que não são adequadas para estarem sempre ativas. Por exemplo, nós já falámos, penso eu, anteriormente, no facto de o estresse crónico levar à inflamação, porque nós temos uma ativação de uma série de coisas. Já agora, um parêntesis, se o leão nos mordesse, tínhamos que montar uma resposta imunitária para combater a infecção e inflamatória para debelar a ferida. Não há leões a morder-nos agora, mas estamos permanentemente a ser vítimas de pequenos estresses que ativam estas respostas. Nós não precisamos, nesse momento, de imunologia, não precisamos de combater uma ferida, nem de combater uma infecção, mas o nosso corpo pensa que sim. Nós montamos uma resposta inflamatória e imunológica quando há estresse. Se esse estresse é crónico, estamos sempre a montar. Isso leva à desregulação imune e metabólica. Depois, há a famosa hormona do estresse, o cortisol. Quando nós temos uma ferida, uma coisa para debelar, levamos a uma resposta inflamatória, curamos a ferida, a seguir vem o cortisol e o cortisol é anti-inflamatório, diminui a inflamação, estamos safos. Mas se estivermos permanentemente a segregar cortisol e outras hormonas, vamos estar também a alterar o nosso metabolismo. Vamos ter uma ativação metabólica, vamos ter produção de radicais livres de oxigénio, com dano às nossas células, dano ao DNA. Há um estudo muito engraçado que mostra que o próprio estresse envelhece os nossos genes. Os nossos cromossomas têm nas pontas umas coisas que se chamam telómeros, não sei se já ouviram falar. Imaginem os atacadores dos ténis. Na ponta têm umas coisinhas de plástico para não se desfazerem. Os telómeros são mais ou menos isso para os cromossomas. E o estresse degrada os telómeros, o próprio envelhecimento degrada os telómeros naturalmente, mas o estresse acelera essa degradação dos telómeros, portanto, os cromossomas ficam mais sensíveis ao dano. E é curioso que há um estudo que mostra, por exemplo, que em mulheres pós-menopausa, a aquisição de estilos de vida saudáveis e diminuição do estresse psicológico preserva os telómeros. Nós temos aqui uma tempestade perfeita quando estamos a viver em estresse crónico para que haja dano celular, envelhecimento celular, envelhecimento do próprio ADN e um envelhecimento precoce. Há estudos que mostram, estudos com gêmeos, que vão avaliar até o próprio aspecto facial de pessoas que têm um código genético igual porque são gêmeos homozigóticos, e uns tiveram uma vida mais estressante por motivos vários e outros menos. E as pessoas que têm uma vida mais estressante estão visualmente mais velhas. Tudo isto é verdade. Além disso, metabolismo alterado, inflamação, desregulação imunológica é fator de risco para doenças. Por isso, sim, pode aumentar o risco de doença autoimune, o risco de doença cardiovascular está nitidamente aumentado quando há estresse crónico e se há uma mensagem a passar aqui é: não devemos viver em estresse crónico e se estamos a viver em estresse crónico, das duas uma, mudamos a nossa vida ou se não pudermos, mudamos a nossa forma de lidar com a nossa vida. E isso é feito utilizando a psicoterapia.
Obrigada.
Obrigado.
O Mental é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine. Conta ainda com o apoio científico do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.