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Bem-vindo ao primeiro episódio do "Motor dos Sonhos", o podcast patrocinado pelo Google, que nos mostra o presente e o futuro de quem ousou apostar sem medo de arriscar. Era uma vez histórias que nos permitem sonhar. Hoje vamos conhecer Esperança Vitória, fundadora do ateliê Vitória Handmade, neta de Vitória Brites e filha de Toino da Vitória e Maria Manuela. Com 38 anos, despediu-se do emprego que tinha há 14 para trabalhar no ofício que conhecia desde os cinco anos, na cestaria de junco, arte e tradição da família desde 1952. E é assim que nasce o projeto Vitória Handmade. Esperança, olá, disse tudo bem?
Tudo bem, tudo ok.
Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite para ser uma das primeiras protagonistas neste Motor dos Sonhos. Esperança, quando a convidamos para uma entrevista na Rádio Observador, que como todas as rádios, vive do som, e se tem uma história como a sua, tenho obviamente e obrigatoriamente que começar pelas suas recordações. Do que se lembra do som e do barulho do pente a bater no tear? Para onde é que a remete esse som?
Remete-me para muitos anos atrás. São mesmo as minhas primeiras memórias, desde que me lembro de ser gente. Eu lembro-me de dormir a sesta e ver a minha mãe a tecer ao lado dela no tear. E são esses os primeiros flashes que me vêm à memória desde cedo. Ou seja, há aqui uma pretensa desde a pequena infância que nos faz recordar e ter esta nostalgia em relação a esta arte.
Portanto, os sons trazem-nos, de facto, memórias incríveis. Por acaso, alguma vez as usou para transmitir às gerações futuras e explicar o poder desta arte que é a cestaria de junco?
Esta nostalgia faz parte de muita família portuguesa. Fazem-nos chegar muitas vezes o feedback que fazem recordar a avó, a tia, alguém próximo que o faz sempre despertar memórias, que remetem sempre para alguém especial. Visto que há 30, 40, 50, 60 anos e mais atrás, com toda a certeza havia uma cesta de junco em qualquer casa portuguesa. E isso acaba por ser positivo do ponto de vista de nos fazer sempre ter memórias de alguém que já partiu ou que fazia parte da vida dessa pessoa e era importante para ela.
Mas vamos lá ao início da sua história. Aos 38, resolve despedir-se para pegar neste sonho que começou por ser dos seus pais, a arte da cestaria, e torná-lo numa forma possível de vida. Como é que foi deixar um emprego de 14 anos e transformar este desafio numa realidade boa?
Foi um desafio difícil.
É preciso coragem, não é?
Foi. Coincidiu com após o falecimento da minha mãe, mas já antes de ela ter falecido, eu já andava numa fase que não estava bem, não andava motivada no meu trabalho, e já tinha pensado em saltar e ir para algo diferente.
Mas não estava motivada, por quê? Era por ser o emprego das nove às seis? Era por se considerar mais uma?
Não, exatamente, porque quando as pessoas passam a ser numerosas, às vezes acaba por haver uma desmotivação e isso acaba por acontecer se calhar em qualquer área de trabalho. E foi numa fase em que isso aconteceu muito, havia um grande esforço, visto que a área também de trabalho implicava esse grande esforço físico e mental. Eu gostava daquilo que fazia, no entanto, há sempre uma fase da nossa vida que nos faz pensar se é esse o caminho que queremos seguir ou não. Entretanto, a minha mãe fica doente e eu entendi que tinha que deixar essa minha parte de lado e dar prioridade ao cuidar dela. E depois do falecimento dela, então entendi que tinha que dar o salto ou que me conformava como estava, ou então que dava o salto para um projeto meu. Não foi uma decisão fácil do ponto de vista em que nós chegamos ao fim do mês e sabemos que aquele valor é garantido. No entanto, também ao fim e ao cabo, a realidade das tantas casas acaba por haver ali um vencimento também muito mínimo, em que nós pensamos: "Vou dar o salto e eu ganho isto em qualquer lado". Ou seja, vamos então tornar isto um desafio e vamos tentar fazer algo por nós.
Como é que foram os primeiros anos do Vitória Handmade?
Tem sido um caminho. Há sete anos para cá, temos feito um caminho de dignificação e valorização desta arte. Ou seja, sempre foi feita por pessoas de faixa etária bastante avançada, como complemento à reforma, e foi sempre vendida a preços bastante baixos, tendo em conta que quem fazia não tinha os seus direitos assegurados. Ou seja, esta é uma ferida que eu tento aqui bater, porque esta é a realidade da cestaria e do artesanato na sua grande maioria. Ou seja, a insustentabilidade de vivermos de um trabalho artesanal, foi sempre o principal desafio desde o início. Tinha a noção que iria ser difícil. No entanto, os caminhos mais difíceis são os que nos levam aos melhores destinos. Por isso, nós temos que acreditar, e tem sido esse acreditar que tem feito percorrer este caminho de sete anos. Hoje, já percebemos que as pessoas têm outra consciencialização e temos que muitas das vezes insistir nessa mensagem, porque ainda há muita pessoa que tem que perceber o que é a diferença entre a sustentabilidade ou não de um projeto artesanal.
E a equipa? Dizia-me que este projeto, que a cestaria estava muito ligada a pessoas mais velhas. A sua equipa, qual é a faixa etária? E quantas pessoas fazem parte da sua equipa que planta este sonho diariamente?
Neste momento tenho a minha filha com 23 anos, eu com 45 e a minha irmã com 50 anos.
Portanto, não foi preciso ter de investir na formação dos seus colaboradores, é uma coisa familiar.
Exatamente. Há aqui um saber fazer, que neste caso da minha irmã, que também já vem desde o início da minha vida. E neste caso, a minha filha está mais na parte do design gráfico, comunicação, marketing digital, lá está, as ferramentas digitais que nós temos aqui disponíveis e que hoje em dia são tão importantes também num projeto artesanal.
Sem dúvida. Essa era uma das perguntas que eu tinha para si, Esperança. A digitalização do negócio foi, de facto, essencial. O Google disponibiliza variadíssimas ferramentas, quais são aquelas que usa com mais frequência e quais as que lhe trazem maiores vantagens? Consegue listar?
Nós já tínhamos percebido que não devíamos estar dependentes de uma só rede, ou seja, temos que unir aqui todas as ferramentas. O Google é fundamental, mas temos que unir todas as ferramentas que temos disponíveis e torná-las como que única, para podermos ter uma ferramenta que nos permita estar para além das portas físicas. Isso é fundamental. A grande dificuldade do artesanato, de há muitos anos até recentemente, era essa dificuldade. O artesão não tinha como expor o seu trabalho, ele estava sempre refém de alguém que iria depois ganhar em cima do seu trabalho. E essa também foi a grande revolução que nós fizemos aqui neste projeto, usando também as ferramentas digitais como nossa principal arma, digamos assim, de forma que nós, artesãos, consigamos vender o nosso produto para os quatro cantos do mundo.
E como é que é exportar uma arte tão portuguesa para o mercado internacional?
Nós temos dois públicos distintos. Temos o público nostálgico, que não só propriamente é português, como pode ser lusodescendente em qualquer parte do mundo, que remete as memórias e acabam por se orgulhar e rever a usar as nossas peças, como também há cada vez mais um público do slow fashion. Aquele público que menos é mais e que consegue referenciar um produto feito à mão como algo que se valoriza e que é de importância apoiar as artes e ofícios. Ou seja, temos aqui dois públicos bastante abrangentes e que acabam por ser abrangentes a nível mundial.
Falamos aqui das vantagens que encontra na exportação, mas qual é aqui os maiores obstáculos?
Os obstáculos existem sempre e temos de ter criatividade para também os ultrapassar. Mas a partir do momento em que as ferramentas digitais nos permitem ter uma montra para o mundo, acabamos por também ter a vida facilitada, entre aspas.
E acompanhar também as tendências e aquilo que o público quer, não é?
Nós mostramo-nos ao mundo, mas o mundo também se mostra a nós.
E vão acompanhando, não é?
De experiências, de desafios, acabamos também por nos inspirarmos uns aos outros, e isso acaba também por ser positivo a todos os níveis.
E o que é que nos pode contar sobre o futuro do Victória Handmade? Alguma novidade que já possa ser desvendada?
O nosso futuro passa por também apresentarmos produtos cada vez mais sustentáveis, eco-friendly, sempre com essa base.
E como é que um produto, uma cesta de junco, pode ser eco-friendly? Para os mais leigos perceberem.
Exatamente. Neste momento já usamos pele livre de tóxicos e com a maior pegada verde possível, ou seja, que é a pele que é de alimentação, que em vez de ir para aterros, acaba por ser reaproveitada para a finalidade de tratamento de malas, calçado e tudo mais. No entanto, também é nossa preocupação continuar esta pegada verde no sentido também de usarmos outro tipo de materiais que tenham toda esta consciencialização. Nomeadamente, neste momento estamos a trabalhar produto que seja feito a partir de folhas de ananás, ou seja, há aqui uma preocupação também em acompanharmos a tendência de sermos amigos do ambiente a todos os níveis, a sustentabilidade a todos os níveis. E depois também temos aqui, num futuro próximo, como missão enaltecer e homenagear o artesanato em si, português, que achamos que faz todo sentido.
Que merece, sim. Esperança, e será que tem, para terminar, uma história inédita ao longo destes anos todos que nos possa contar, sua ou da família, da sua família, que deu início a todo este sonho que a Esperança agora perpetua?
Há sempre histórias interessantes e há sempre episódios que nos ficam. Relembro-me logo do primeiro episódio, quando o meu pai me estava a ajudar ainda antes de expormos o nosso projeto, que o meu pai me disse que iríamos surpreender muita gente com o nosso trabalho. E realmente, ele falou bem. Surpreendemos muitas pessoas, surpreendemos muitos artesãos com a nossa reinvenção do nosso trabalho e orgulha-nos imenso as pessoas sentirem exatamente isso e unificando tantas histórias que vamos sentindo das pessoas numa só. Exatamente, é o orgulho que nós sentimos ao fazer as peças, é repassado às pessoas que têm as nossas peças e elas sentem também imensamente esse orgulho, e isso é o que ao fim ao cabo também nos transmite motivação para continuar.
E é muito bom assistir de perto à evolução consciente e pedagógica do legado que herdaram.
Exatamente.
Esperança Victória, fundadora do ateliê Victória Handmade, a nossa primeira protagonista do Motor dos Sonhos, podcast patrocinado pelo Google, que nos mostra o presente e o futuro de quem ousou apostar sem medo de arriscar. Esperança, muito obrigada por este bocadinho. Foi muito bom, as maiores felicidades.
Muito obrigada.
Muito obrigada. Eu sou a Maria João Simões, obrigada pela sua companhia. Fique atento ao próximo episódio. Temos muitas mais histórias que nos permitem a todos sonhar. Beijinhos e abraços. Até breve.