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Bem-vindo ao "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola", com Bruno Roseiro, Mariana Fernandes e comigo, Aníbal Rebelo. Na segunda parte vamos estar aqui à conversa com José Poeira, o selecionador nacional de ciclismo. Mas antes vamos aos destaques de hoje. Bruno, começamos pela Seleção Nacional, que ontem teve mais um empate. Isto é uma espécie de empate a empate até à vitória final, não?

Foi como se começar. Ou seja, é um empate que acaba por ser positivo. Percebemos pelo resultado da Croácia, e havendo também um Croácia-França na próxima quarta-feira, que uma vitória praticamente acabava com as contas do grupo. Não foi propriamente o jogo mais interessante de seguir. Aliás, pegando no Olivier Bonamici e na sua grande performance ontem na SIC Notícias, a tirar a camisa e a mostrar a camisola rosa em homenagem ao João Almeida e também ao Rúben Guerreiro. Foi um jogo chato, acho que é a melhor maneira de descrever, mas é um jogo que, na minha ótica, mostra algo que o gol de Éder trouxe, além daquela taça que estava guardada no centro de estágio da Federação na Cidade do Futebol. Hoje, Portugal é visto com o respeito que não tinha antes desta grande conquista. E percebe-se isso por duas coisas muito simples que aconteceram na segunda parte. A França precisava de ganhar e nunca abdicou dos três médios para ganhar, ou seja, abdicou mesmo do Mbappé para fazer entrar o Coman, mas nunca abdicou dos três médios por receio que Portugal pudesse ganhar o jogo. Por sua vez, Portugal, neste caso Fernando Santos, podendo colocar ou Renato Sanches ou Bruno Fernandes como um ala, um falso ala, e deixar só dois avançados, nunca abdicou de ter três jogadores na frente. Portanto, eu diria que aquilo que ficou ali bem espelhado foi a mudança de paradigma que existe hoje. Conseguindo aquele empate, Portugal agora vai ter mesmo de ganhar à Suécia e esperar o que é que vem de Zagreb, de Croácia-França, porque é a partir daí que vai perceber quem é o seu adversário, se é a França, se é a França e a Croácia também.

Muito bem, vamos agora olhar para o futebol da liga. Depois desta paragem, Mariana, devido aos compromissos com as seleções, a próxima jornada adoça-nos a boca, traz-nos já um clássico em Alvalade, Sporting Futebol Clube do Porto. É o primeiro da temporada, um clássico que vai obrigar algumas alterações no 11 do Futebol Clube do Porto, devido ao mercado de verão.

Sim, a próxima jornada, que será a quarta deste novo campeonato, traz o primeiro clássico da temporada, como disseste, entre o Porto e o Sporting no Dragão, e é também esse primeiro teste à equipe a Sérgio Conceição, já sem Danilo e já sem Alex Telles. Portanto, será a primeira vez que se vai perceber o que é que Sérgio Conceição quer fazer, o que é que vai tentar fazer, também com os reforços que conseguiu naquela reta final do mercado de transferências e quando ficaram fechadas as saídas, tanto de Danilo como Alex Telles. E será a primeira vez que se vai ver este novo Futebol Clube do Porto. Um Futebol Clube do Porto que, é preciso recordar, jogou estas três primeiras jornadas do campeonato sempre com um 11 inicial que já estava na equipa na temporada passada, portanto, sem reforços no 11. Será a primeira vez que vamos ver este novo Porto, este novo campeão nacional, com as obrigatórias alterações no 11. Certo é que em caso de vitória, o Sporting iguala o Porto e com menos um jogo, e os Dragões atrasam-se na perseguição ao Benfica, que é líder isolado com nove pontos. Portanto, é um jogo, mesmo sendo a quarta jornada, que já vale alguma coisa e que, como sabemos, o campeonato tem sido discutido, pelo menos nos últimos dois, três anos, nas últimas jornadas, com pouca diferença de pontos entre Porto e Benfica. Portanto, podem começar a ser pontos e contas que já interessam e que vão interessar daqui a alguns meses. O Benfica que joga em Vila do Conde contra um Rio Ave, que ainda não perdeu, mas também ainda não ganhou, leva três empates em três jogos, mas que já mostrou, principalmente na Liga Europa, contra o Borac, mas também contra o Milan, o futebol que sabe jogar e que é capaz de jogar. Pelo meio, é também importante falar, obviamente, do Santa Clara, que está em segundo com sete pontos, que ainda não perdeu e que vai jogar a Passos Ferreira, e do Marítimo, que tem seis pontos, que venceu o Porto na jornada anterior e que recebe o Portimonense na Madeira.

E agora, tempo de cartas com o Ás, o Joker e a carta fora. Olhe, nada melhor do que um ás. Vai para o tênis, Bruno Roseiri, para Rafael Nadal.

Ontem houvesse baralho para isso, era ases por tudo que era sítio, sobretudo à tarde, e a atropelarem-se uns aos outros, o que para nós, em termos de trabalho, não foi propriamente a coisa mais fácil do mundo. O Nadal facilitou um bocadinho as coisas por uma razão, porque limpou Djokovic, é a palavra certa, em três sets. Houve uma ligeira reação do Djokovic no terceiro set, mas quando nós pensamos que dois dos melhores jogadores da atualidade e de sempre decidem uma final do Grand Slam com uma bicicleta do Nadal de 6x0 logo no primeiro set, está muito resumido o que é que se passou em jogo. Havia essa dúvida depois da derrota do Nadal com o Schwartzman em Roma, qual seria a sua condição física. O facto de ter ganho Roland-Garros sem perder um único set mostra que, de facto, estava a preparar-se para este grande momento. A terra batida é a terra de Nadal, ponto final, não vale a pena. Quando nós começamos a olhar para os registros, o Björn Borg tem seis títulos, o Nadal vai no 13º, acho que nem vale a pena. E se existe um recorde no tênis que não mais será superado nas próximas largas décadas, será este. Existe esse outro ponto interessante, que é Nadal igualar os 20 Grand Slams de Federer. E mostra também uma situação que seja ela justa ou injusta, parece-me que é cada vez mais definida. E Federer, além de uma relação grande de amizade, têm também um respeito enorme em termos competitivos, de competição. E eu acredito piamente que Nadal quer mesmo que Federer recupere o mais breve possível para poderem jogar o Open da Austrália em 2021. E quando falam isso, quase que tentam minorizar aquilo que é Novak Djokovic. E a verdade é que olhando para a idade deles todos e olhando para o facto de Djokovic ser cada vez mais um jogador mais completo, ou seja, tão depressa pode estar numa final de terra batida, como na relva de Wimbledon, como num piso rápido. Tenho muita curiosidade em perceber se vai ou não conseguir chegar aos 20 Grand Slams de Nadal e Federer, o que acabaria também por ser uma surpresa, porque se percebe que para eles existem só dois reis e tudo o resto são grandes jogadores. E isso cada vez mais está a ficar marcado nas declarações de Nadal e Federer.

Muito bem. E já que falamos aqui em igualdades, vamos até à Fórmula 1, Mariana, porque também aqui houve um igualar de vitórias por parte de Lewis Hamilton. 91 vitórias a igualar o feito de Michael Schumacher.

Sim, e é mais um daqueles ases que o Bruno falava há pouco e realmente foi um domingo extraordinário no que toca ao desporto e no que toca principalmente àqueles que são os melhores nas suas respetivas modalidades. A verdade é que Hamilton e Schumacher têm uma coisa em comum, que é o facto de não serem propriamente consensuais. São um bocadinho arrogantes, têm toda a confiança do mundo nas próprias capacidades e por isso não conseguem agradar a toda a gente. E mesmo assim têm outra coisa em comum, que é o facto de serem totalmente consensuais na ideia de que são os melhores pilotos assim que entram ou que entravam em pista. Portanto, podem não ser consensuais e unânimes num trato um bocadinho mais pessoal, mas acho que é um bocadinho consensual que são os melhores naquilo que fazem. Schumacher no seu tempo, Hamilton atualmente. E ontem Hamilton igualou então as 91 vitórias de Schumacher. Um recorde que vai ser ultrapassado com certeza, porque a temporada ainda não acabou e porque a verdade também é que o piloto inglês não deve acabar a carreira para já. No pódio recebeu um capacete de Schumacher por parte do filho de Schumacher, precisamente, Mick, ele que está muito perto, Hamilton, deste ano igualar também os sete mundiais que o alemão tem no palmarés. E percebe-se cada vez mais que Hamilton vai superar os números de Schumacher para se tornar oficialmente o melhor de sempre, algo que há 15, 20 anos, quando o alemão ainda corria, parecia ser absolutamente impensável, pelo menos num espaço tão curto de tempo. Portanto, eu creio que todos nós, quando Schumacher ganhou os cinco campeonatos seguidos, quando Schumacher foi campeão pela sétima vez, achámos que dificilmente nas próximas décadas apareceria alguém com uma hegemonia tão grande e alguém capaz de amealhar todos estes números. A verdade é que Hamilton está a consegui-lo, está a conseguir igualar, vai provavelmente conseguir superá-lo naquilo que é o próximo futuro, daqui a um a dois anos. E é realmente extraordinário conseguirmos assistir em tão pouco tempo daqueles que são dois dos melhores pilotos, pelo menos numa história um bocadinho mais moderna da Fórmula 1.

Vamos assistindo ao fazer da história também nesta modalidade. No joker, Mariana, trazemos aqui João Almeida e Rúben Guerreiro, porque falamos de ciclismo e de Giro, vamos falar sobre eles também na segunda parte, mas para já são os teus jokers de hoje.

Sim, acabam por ser um bocadinho os jokers de Portugal inteiro, pelo menos na última semana, nem que seja pela surpresa. E uma frase de João Almeida que depressa saltou para os títulos de quase todos os jornais e que acaba por ser também prova da juventude e da humildade do ciclista português, foi que disse depois da vitória de Rúben Guerreiro na etapa de ontem, que não sabia se Cristiano Ronaldo os conhecia, mas que esperava que estivesse orgulhoso. E a verdade é que orgulhosos terão de estar os dois, e estamos todos nós, porque o que está a acontecer no Giro é um passo em frente no ciclismo nacional, que é hoje destaque também na imprensa internacional, com o El País a escrever que Portugal está a dominar a competição. Rúben Guerreiro venceu uma etapa de montanha muito dura, com muita chuva. João Almeida vai no sexto dia com a camisola rosa, conseguiu segurar ontem a liderança na geral, apesar de ter chegado em 19º. Hoje é dia de folga, a competição recomeça amanhã e aconteça o que acontecer, a verdade é que João Almeida já é um dos destaques do desporto nacional em 2020, é uma das grandes promessas para o futuro e não deixa principalmente de ficar então essa nota e essa surpresa. Acho que ninguém estava à espera de que tanto se falasse no Giro em Portugal, de que tanto se acompanhasse o Giro em Portugal nestas semanas. E a responsabilidade é obviamente também de Rúben Guerreiro, mas principalmente João Almeida, que leva há seis dias esta camisola rosa e que de repente saltou para todas as nossas bocas, para as bocas de todos os jornais, de todas as televisões, de todas as rádios, de forma obviamente merecida.

E quem está também na boca do mundo é LeBron James. Bruno Roseiro, não é uma promessa para o futuro, mas de qualquer maneira é o campeão pelos Lakers, em grande destaque neste jogo e nesta vitória.

Não é de futuro, mas deixa-me dizer que está cada vez melhor e está quase a fazer 36 anos. E parece-me sinceramente que ele está cada vez melhor.

Está paradinho.

Não, está mesmo cada vez melhor. Ou seja, a NBA, de facto, mudou. Hoje não há nenhuma publicação, e o João Bonifácio também tem um texto sobre isso no Observador, que não fale sobre a comparação Michael Jordan, LeBron James. Eu fujo a sete pés desse tipo de comparações, até porque sempre achei uma coisa para mim NBA é o Dr. J, Julius Erving, para mim, mudou o jogo. O Bill Russell, para mim, vai ser sempre uma figura incontornável porque pensou o jogo, começou a pensar o jogo. E depois existe Michael Jordan, que marcou o jogo. Portanto A partir daí, existem grandes jogadores. Uns serão melhores para alguns, outros serão melhores para outros. O LeBron é um desses casos. É a terceira equipe que tem na carreira, é o quarto título que ganha. Portanto, ganhou em todas as equipes, pelo menos um título. Em Miami ganhou dois. Sobretudo, conseguiu resgatar o respeito dos Lakers, que andava perdido. Dez anos depois, os Lakers voltam a ser campeões e igualam os Celtics naquela que até poderia ser a final deste ano, e tudo apontava para isso. Os Miami acabaram por ser uma surpresa, não só por eliminar Milwaukee, mas também por eliminar depois os Boston. E nesta altura começa-se a tentar perceber o que é que falta a LeBron. Ele, em termos de números individuais, ontem bateu o recorde do número de jogos de playoff. Conseguiu ultrapassar o Magic, o Shaquille e o Tim Duncan como MVP da final. Portanto, é a quarta vez que ele é MVP da final. Está a dois dos seis do Michael Jordan. Agora, à parte dos números, uma pessoa pensa: o que ele precisa fazer mais? O que ele quer fazer mais? E como é que vai ser o próximo LeBron? E isso pra mim é a grande curiosidade para perceber numa equipe onde os fatores determinantes acabaram por ser novamente os veteranos, como o Rondo, por exemplo, que ontem voltou a fazer um jogo fantástico, perceber o que é que vão ser estes Lakers na próxima temporada.

E agora vamos à carta fora. Bruno, Vitória de Guimarães. Já se percebeu o que é que aconteceu com esta troca de treinadores?

Foi muito mais do que jogadores, que foi a primeira coisa que veio cá para fora. Claramente, esta foi uma experiência que não correu bem com o Tiago na liderança do Vitória de Guimarães. Percebe-se também que é um clube que, tendo contratado o Quaresma, tendo segurado o Marcus Edwards, e sabemos, podemos assegurar isso, houve uma proposta de 10 milhões por metade do passe e o Vitória recusou essa proposta pelo Marcus Edwards. Garantiu também o Bruno Varela e o Miguel Luís. Tem um jogador estrangeiro, Lyle Foster, que é um dos melhores jogadores, ou seja, tem tudo para ser a revelação do campeonato. E de repente, fica sem treinador, aposta no João Henriques depois de ter tentado o Bruno Lage, que declinou esse convite, e fica sobretudo uma incógnita sobre o que é que vai ser este Vitória, porque quando tu começas a montar uma época, tens uma pré-época e tens tudo assente numa ideia, num treinador e de repente, três jornadas depois, afinal já é outro, fica sempre a incógnita se esse treinador consegue ou não trabalhar com este plantel ou se terá dificuldades e terá de esperar até o mercado de janeiro para reajustar o mesmo às suas ideias. Portanto, vai ficar essa incógnita. Não deixa de ser ainda assim caricato despedir o treinador à terceira jornada.

Neste espaço da carta fora, Mariana, trazes um outro Vitória que é o de Setúbal.

Sim, o Vitória que tem eleições marcadas para dia 18, que tem três candidatos a estas eleições, Vítor Hugo Valente, Paulo Rodrigues e Nuno Soares, e que ainda não se estreou no Campeonato de Portugal. Portanto, depois do jogo da jornada inaugural contra o Moura ter sido adiado a pedido dos sadinos, agora também o da segunda jornada contra o Juventude foi adiado, porque o Vitória de Setúbal tem dois casos de Covid-19 no plantel e toda a equipa está nesta altura em isolamento. O próximo jogo está marcado para domingo, contra o Moncarapacense e no dia das eleições, no dia 18, sendo que ainda não é possível perceber nesta altura se vai mesmo acontecer e se o Vitória de Setúbal vai estrear-se mesmo na terceira jornada ou não. Certo é que o clube continua a ir de casa em casa no terceiro escalão. Ainda não conseguiu colocar uma equipa em campo esta temporada e parece que até Cristiano Ronaldo já demonstrou preocupação com um dos clubes históricos de Portugal, segundo José Semedo, lateral dos sadinos e amigo próximo do capitão da seleção nacional, como sabemos, que diz que Ronaldo está triste com tudo o que aconteceu. O clube provavelmente só vai começar a trabalhar normalmente depois de eleita a nova direção, portanto, a partir da próxima semana. Certo é que vamos a 12 de outubro, o Vitória de Setúbal ainda não entrou em campo e ainda não jogou neste Campeonato de Portugal.

E agora seguimos para o túnel. Bruno, o mercado acabou, mas já está a recomeçar.

Sim, já está a recomeçar por dois motivos. Motivo um: a forma como as grandes equipes montaram os seus plantéis, com um recurso mais acentuado a empréstimos e compras de percentagens de passes mais pequenas, mas também olhando para a sua situação financeira. E há aqui um ponto que é importante, que é: Futebol Clube do Porto, Benfica e Sporting fizeram os orçamentos a pensar que iriam ter pessoas nos estádios brevemente e muito provavelmente isso não vai acontecer. Aliás, quase que ponho as mãos no fogo que até o final do ano isso começa a ser cada vez mais complicado. E o que é que isso faz? Faz com que o Benfica, mesmo tentando compensar a não ida à Liga dos Campeões com a Liga Europa, muito provavelmente terá de fazer um balanço para perceber se as receitas no final da época conseguem ou não suprir as despesas e, caso contrário, poderá ter necessidade de vender. O Futebol Clube do Porto, pelas condicionantes de fair play financeiro, poderá ser obrigado a fazer algo, que é vender em janeiro, mesmo que o jogador só saia em junho, porque assim o encaixe entra neste exercício atual. E o Sporting, até mais a ver com a folha salarial, vai chegar a janeiro e vai perceber se existe ou não necessidade de vender jogadores para poder equilibrar a sua folha salarial. Portanto, não deixa de ser caricato. O mercado fechou na semana passada e os clubes grandes já estão a pensar no mercado de janeiro, como é que vai ser para reequilibrar, sobretudo em termos financeiros, as suas equipas.

E Mariana, para 30 segundos, o Futebol Clube do Porto vai estrear um novo capitão em Alvalade no próximo sábado no clássico.

Sim, porque a saída de Danilo deixou uma vaga em aberto na liderança da equipa, que será ocupada de forma natural e evidente por Pepe, sendo que existe também Marcano, que já assumiu essa responsabilidade na temporada passada, mas que continua a recuperar de lesão. Mas esta também vai ser uma temporada para perceber se entre Diogo Leite, Sérgio Oliveira, Otávio ou Corona, portanto, quatro dos nomes que estão há mais tempo na equipa, quem é que pode ascender nesta hierarquia de capitães, jogando-se também com a possibilidade de continuidade de cada um desses elementos. Otávio, por exemplo, acaba contrato no final desta época. Se renovar, se ficar no Dragão, poderá numa perspectiva de se fixar como um dos símbolos da equipa, enquadrar então estas caras novas que vão chegando, ser uma figura da equipa e entrar também neste lote de capitães, que por agora começa a ser encabeçado por Pepe.

Na segunda parte deste programa vamos estar à conversa com José Poeiras, selecionador nacional de ciclismo, numa altura em que os ciclistas portugueses estão em destaque no Giro d'Italia. Bem-vindo à segunda parte do "Nem tudo o que vai a rede é bola". Vamos ter como convidado nos próximos minutos José Poeiras, selecionador nacional de ciclismo. Antes de mais, boa tarde. Obrigado por esta disponibilidade em estar conosco aqui na Rádio Observador para falarmos de ciclismo. Esta liderança do João Almeida no Giro foi e está a ser surpreendente para quem acompanha a modalidade e também para o resto do público em geral, mas também para a realidade do ciclismo nacional. O que podemos olhar para este ciclista português? O que pode acontecer daqui para frente?

Antes de mais, boa tarde a todos os ouvintes, a todas as pessoas. Está a acontecer uma situação que, de certa forma, as pessoas não estariam à espera que acontecesse como está a acontecer, mas estamos a falar de um corredor com muito talento, que já vinha a demonstrar há algum tempo, alguns anos. Aliás, desde a primeira vez que foi feito um teste progressivo para avaliar as suas capacidades e viu-se que era um atleta acima da média naquela altura, quando ainda era cadete. Depois esses dados foram-se confirmando ao longo do tempo das diferentes categorias onde ele correu, que realmente era um corredor acima da média. Claro que sendo jovem, com 22 anos e estar numa volta à Itália para seis semanas e estar a fazer o que está a fazer, claro que as pessoas estão rendidas à sua classe, à sua categoria, tudo o que está a conseguir fazer. Qualquer das maneiras, é uma corrida de três semanas, uma corrida bastante dura. Por vezes, há atletas que pela sua experiência e que já fizeram as três grandes voltas e consideram que a volta à Itália é uma das mais duras, senão a mais dura que a volta à França. Por vezes comenta-se isso. É claro que as voltas não são todas iguais, os percursos não são todos iguais, mas a Itália é um país bastante montanhoso, com muitas dificuldades e mais feito nesta altura do ano, com condições de clima já adversas em termos de chuva e neve, sobretudo neve, torna a corrida ainda mais dura. Mas pronto, vamos ver. Para já está a sair-se muito bem. Está aí se calhar para além daquilo que as pessoas esperavam, mas qualquer das maneiras, todo o talento dele está a vir ao de cima e a ter uma mentalidade de querer conseguir as coisas. Isso faz com que ele esteja a conseguir o que está a conseguir. Agora vamos ver até onde vai chegar e o que vai conseguir, porque como são muitos dias, são três semanas. A última semana torna-se muito dura e por vezes a volta à Itália é decidida na última semana, nas etapas difíceis de montanha. Vamos ver até onde ele pode chegar. Para já fez muita coisa, já fez uma mostra de displicência que enche todo o país de orgulho. Mas cada dia é um teste à resistência e à capacidade de superar mais um dia difícil, porque nestes dias difíceis há dias melhores que outros, logo à partida serão duros, mas não há dias fáceis. Nunca se sabe quando numa etapa que aparentemente pode ser mais calma e se torna uma guerra terrível de estar sempre atento. Embora ele tenha uma boa equipa atrás dele, uma equipa com muita experiência e que sabe correr muito bem, e ele integrou-se nessa equipa e está a aprender muito junto da equipa. Que também para ele é uma experiência estar junto da equipa a fazer o que está a fazer e também para a equipa é uma novidade ter o João a conseguir acompanhá-los e fazer aquele trabalho que todos sabem fazer com corredores com mais experiência. Mas pronto, neste caso é um jovem, mas ele está a superar todas as expectativas em relação a essa parte também. Estar junto com a equipa e conseguir fazer o trabalho que eles têm para fazer.

Eu ia lhe pedir uma ajuda, José Poira. Se podia aproximar-se um pouquinho mais do microfone do telemóvel para conseguirmos ouvir em melhores condições. Está muito baixo o seu som. Agora vamos tentar melhorar um pouco esse som. Olhando ainda para este Giro, é disso que estamos a falar, e olhando também para a prestação do Rúben Guerreiro. Isto é fruto de um trabalho de anos no ciclismo nacional ou estes são resultados expectáveis?

Nós temos feito um longo trabalho desde 1997, quando uma equipa que ainda hoje trabalha, que é o professor José Algarra, que nesses anos quando veio trabalhar conosco, trouxe um formato diferente, uma maneira diferente de trabalhar. E que nessa altura já fazíamos com testes, com avaliações. Tudo o que se faz hoje, nós naquele tempo já fazíamos. Trabalhamos, por exemplo, com o Paulo Lima como cadete e júnior, e ele agora já é veterano. Há 11 anos que foi. Nós nunca deixamos de fazer este trabalho. Isto tem sido feito ao longo dos anos, uma forma de captar novos valores, captar talentos, e depois trabalhar com eles nas seleções. E isso temos conseguido fazer. E depois há algumas camadas jovens, a partir de juniores, que chegam à alta competição, começar a trabalhar com eles e fazer o maior número de corridas possível, ou seja, as melhores corridas do mundo, como é a prova da Taça das Nações. E eles conseguem se desenvolver, conseguem aprender no terreno. Uma coisa é fazer aqui avaliações e fazer o trabalho aqui, mas depois é preciso competir. E na competição é que nós vamos avaliar e fazer com que eles consigam descobrir novas formas e conhecer-se eles próprios. E foi isso que aconteceu com todos, incluindo o João Almeida e o Rúben Guerreiro, depois até em determinadas provas de grande nível, como a Tour de La Amélie, que é a Volta à França do Futuro, onde é para corredores de 22 anos, e eles, tanto um como outro, fizeram e fizeram bem. O João fez há dois anos sétimo nessa volta, onde estavam os melhores do mundo, e ele conseguiu estar nos 10 primeiros. Isso também dá uma larga experiência, também dá alguma capacidade para ele perceber também as suas qualidades, as suas capacidades, a ele e também a nós. E quem fica nos 10 primeiros no Tour de La Amélie, que são 10 dias, depois de passado um tempo, já na equipe profissional, também consegue melhorar ou demonstrar aquilo que ele está a fazer agora. No fundo, é esse trabalho que nós temos feito ao longo dos anos com uns e com outros. Claro que há alguns que depois mostram mais aptidão e mais capacidade, mas temos feito isso com todos. Em 2008, por exemplo, 2007, 2008, fizemos com o Rui Costa, com o Tiago Machado, o Vítor Rodrigues, e ganhamos um ranking mundial da Taça das Nações em várias corridas de um dia e por etapas, incluindo também na Siena, Volta à França do Futuro. Em várias corridas por várias partes do mundo, nós ganhamos um ranking mundial. Fomos o primeiro país do mundo no ranking. Daí pode-se ver o trabalho que temos feito e o valor que eles têm. Já nessa altura, esses corredores da altura, que eram sub-23, mostraram que tinham valor e talento e hoje são profissionais das equipes ProTour e têm ganho muita coisa. Como é o caso do Rui Costa, que tem tido um palmarés incrível. E agora estes são os mais novos, mas que também têm demonstrado as mesmas capacidades e agora já a correr nas equipes profissionais ProTour, estão também a demonstrar que têm esse talento e têm esse valor. É isso que nós temos feito e vamos continuar a fazer, que é trabalhar aqui com eles, fazer avaliações, fazer o trabalho de casa e depois irem correr as melhores corridas do mundo para poderem aí melhorar a sua condição física e a forma como podem correr, a forma tática de corridas e a forma técnica também. E tem que ser a partir de júnior que esse trabalho tem que ser feito intensamente para que depois eles possam mostrar. E perante esse trabalho, as equipes que estão atentas, as equipes ProTour, veem que há talento daqui e vêm buscá-los.

E olhando agora especificamente para este Giro e aquilo que está a acontecer com o João Almeida, ele passou esta primeira semana, ontem teve algumas dificuldades, mas mesmo assim perdeu só alguns segundos. Aquilo que eu lhe perguntava era uma pergunta que já se começa a levantar também na imprensa internacional. O João tem capacidade para segurar a camisola rosa até ao final ou falta-lhe, por exemplo, uma equipa e a experiência também, como tem o Nibali, por exemplo, ontem percebeu-se que a Trek estava forte, o Fuglsang, o Kruijswijk. Acha que o João consegue ter capacidade para ir pelo menos até à terceira semana, olhando até para esta segunda semana de Giro, onde vai ter pelo meio também um contrarrelógio onde pode dar cartas como deu no início. É possível continuar este sonho até quando?

Não se sabe. Isto, sinceramente, não se sabe. Nós sabemos o que ele conseguiu até aqui, que já superou algumas expectativas. Uma corrida destas são muitos dias. É preciso estar bem todos os dias. Por exemplo, etapa de ontem. Pode ter dado algum sinal, mas também estava frio, estava chuva, por vezes a corrida se adapta melhor com o tempo mais quente, outras com a chuva já não se adaptam tão bem. Pode ser situação de um dia, mas também já passaram muitos dias desta edição. Tem que estar bem. Agora, ele é um miúdo, ele tem 22 anos. Até onde é que ele chega pela resistência, pela recuperação de tantos dias de corrida? Vamos ver. Mas há corredores que estão um pouco escondidos, porque o percurso daqui ainda não era o que eles queriam, e por vezes estão à espera da última semana para fazer ataques mais massivos, mais fortes, e resolver a situação da geral. Isso geralmente acontece porque o Giro é muito duro, é muito difícil. Depois, a última semana tem alta montanha, então todos os dias tem que se recuperar daquele esforço. Não se sabe até onde ele pode ir, mas também o que ele já fez, já fez muito. Mas eu creio que ele vai conseguir fazer muito mais. Agora, até onde é que pode chegar? A expectativa que todos têm é se ele consegue chegar ao fim, digamos, da La Rosa. Não se sabe. Mas se este ano não conseguir, passado um ano ou dois, com mais experiência e mais resistência, que também a idade traz. No fundo, é só a primeira grande volta que ele fez. Ele não tinha feito uma volta de três semanas, nem de duas. Só fez corridas de cinco dias, como a Volta ao Algarve, outras provas desse género. É preciso passar pelas situações várias vezes para depois ele se conhecer melhor e criar uma certa resistência para poder superar os dias difíceis. Porque toda a gente vai ter, numa grande volta, dias menos bons. Todos. Até aqueles que por vezes acabam por lá ganhar.

A verdade é que paralelamente também ao João Almeida e anteriormente, o currículo do Rui Costa é conhecido e já foi campeão do mundo. O Nelson Oliveira também costuma ser apontado como uma possível surpresa nos Mundiais em contra relógio. Portugal já vai ser visto de uma forma diferente nos Jogos Olímpicos de 2021. Isso acaba por ser bom ou mau para a modalidade em Portugal?

É bom, porque nós sempre fomos vistos, por exemplo, nos Mundiais e nos Jogos Olímpicos, como um país a ter em conta, porque entramos sempre na discussão dos 10 primeiros. E quem faz 10º sempre pode fazer primeiro, porque o Rui, em quase todos os Mundiais fica nos 10 primeiros, 10º, nono, oitavo, por aí fora, mas também já fez primeiro. Por isso, quem tem essa capacidade de regularmente ficar nos 10, também pode discutir o primeiro lugar. No caso do Nelson Oliveira, que já foi vice-campeão do mundo sub-23, depois teve um período de tempo que estava fora dos 10, com idade sub-23, mas a corrida não é para o Tour, já não podia correr no sub-23, tinha que correr nos profissionais, na escala máxima. E o lugar dele era 17º, 15º, 14º. E nós não estávamos preocupados com o lugar, estávamos preocupados com o tempo é que ele ficava do 10º lugar, em termos de tempo. E foi superar essa barreira, e depois quando entrou para os 10, entrou para sétimo, foi em Ponferrada. E depois tem ficado sempre a melhorar. Sétimo, oitavo, quarto, quinto. E já esteve só a sete segundos do pódio, quando fez quarto, em Iserbrook. Depois leva um tempo a chegar, a entrar para aquele lugar, como o Rui, que decidiu voltar à França do futuro e fez quase todas as corridas a fazer nos três primeiros, sub-23, e depois levou um tempo que marcou: "Quando tiver 26 ou 27 anos, vou estar na discussão do Campeonato do Mundo." E foi mais ou menos com essa idade que foi campeão do mundo. E o Nelson, para entrar para os 10 primeiros, também levou um tempo. Foi a resistência, os anos e a experiência. E agora aqui também. Neste caso, é uma corrida de três semanas, muito dura, muito complicada, e estamos a falar de um corredor muito jovem. Mas isto é ficar a experiência, fica o sinal, e ele depois poderá, daqui a um ano ou dois, se calhar, estar mesmo na discussão de uma grande volta.

Deixe-me só fazer esta questão. É inevitável eles irem tão cedo lá para fora para começarem a criar essas condições para ganharem mais vezes, ou em Portugal começamos a ter mais condições, ou pelo menos estamos a projetar isso a médio prazo, para ficarem cá mais um, dois anos e irem já mais feitos, digamos assim, para as equipes estrangeiras que participam nas grandes voltas?

Eu tenho uma visão das coisas que é: a alta competição começa a partir de júnior. Júnior primeiro ano e júnior segundo ano. Eles estão cá. Depois do primeiro ano, poderão passar a estar cá também, para fazer este nível de competição, e depois, se tiver a possibilidade de ser um corredor com essas características, de ir para uma equipe de nível. Se calhar, o melhor é sair logo, porque o ciclismo cá é diferente. Não é o ciclismo que nós temos, estamos aqui mais fechados, né, que é o ciclismo periférico. Temos menos contato internacional, se bem que temos cá bons corredores, por vezes ficam por cá, mas não deixam de ser bons corredores Mas o nosso nível de competição é um pouco diferente. Enquanto se eles logo no início começarem a ter esses contactos, rapidamente aprendem mais depressa. A colocação, a conhecer os outros corredores, a forma como se corre, que é outra mentalidade e está ali dois, três anos que eles estão a aprender essa parte lá e depois quando integrarem o pelotão internacional já numa equipa ProTour, já estão muito mais à vontade e já têm uma base de trabalho feita. É importante que eles saiam mais cedo. Por exemplo, o João passou pela Axeon, equipa americana, mas que tem um calendário internacional muito bom. Como passou o Rúben Guerreiro, como está o André Carvalho e como passaram outros. Como passou também o Rui e o Ivo Oliveira. Por essa equipa. Essa equipa tem um calendário de excelência e faz um excelente trabalho e é um trampolim para as equipas ProTour, porque ir buscar um corredor àquela equipa que faz um bom trabalho, é reconhecido pelas equipas ProTour, logo é mais fácil sair dali para uma grande equipa.

E depois fazer bons resultados.

E depois fazer bons resultados. Porque essa base, por exemplo, do João e do Rúben e dos outros que já frisei, foi que estando nessa equipa, fazendo um excelente calendário e por vezes já correr também junto com os corredores do ProTour, já estão a aprender, já estão a ter uma formação, que depois quando passam é muito mais fácil, já estão mais ou menos integrados. Ao passo que se não dessem esses passos, aquilo que eu frisei, depois era mais complicado, era mais difícil e se calhar a visibilidade deles em relação às equipas ProTour não era feita da mesma forma.

Obrigado, José Poeira, selecionador nacional de ciclismo neste Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola, aqui a comentar a prestação também dos atletas portugueses no Giro d'Italia. É uma notícia, uma prova que nós aqui na Rádio Observador e também em observador.pt iremos continuar a acompanhar. Apito final neste programa, Nem Tudo o Que Vai a Rede é Bola. Daqui a pouco em observador.pt já pode ouvi-lo em podcast. Até já.