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Bem-vindo ao "Nem tudo o que vai a rir é bola" com Bruno Roseiro, Mariana Fernandes e comigo, Aníbal Rebelo. Na segunda parte deste programa vamos falar de ciclismo. Vai juntar-se a nós João Almeida, uma das promessas, ou mesmo a certeza, do ciclismo nacional. Vamos estar à conversa com ele na segunda parte, mas antes vamos à atualidade, com destaque para a seleção de futebol portuguesa, que ontem, Bruno, complicou as contas de acesso ao Campeonato do Mundo de Futebol. E que complicação.
Complicou, não. Passou para outro patamar.
Mas parecia tão fácil.
Não, se fosse fácil não era para nós.
Não era para nós, exatamente.
Mas deixa-me desde já dizer, primeiro a Sérvia ganhou porque foi melhor. Ponto final. Parágrafo. E depois a partir daí podemos analisar aquilo que se passou com Portugal. Claramente regredimos àquela época em que andávamos sempre a fazer contas, andávamos sempre em playoffs de apuramento quando pensávamos que éramos uma seleção de primeira linha. Portanto, ontem ficou bem patente que não somos uma seleção de primeira linha. Portanto, quem achava que Portugal era como a Espanha ou como a Alemanha, Itália, Inglaterra, etc., ficou ontem a conhecer essa dura realidade que Portugal não é essa seleção de primeira linha. Mereceu perder. E eu diria que mais do que nesta altura falar da continuidade de Fernando Santos, porque ela não vai ser colocada em causa até ao playoff de apuramento para o Mundial. Eventualmente, se nós não formos para o Mundial, aí o cenário poderá ser diferente. Gostaria de focar aqui três pontos que sobram ainda em termos de análise em relação ao jogo de ontem. O primeiro é quando Fernando Santos ouve a pergunta por que Portugal tem tanto talento e joga tão pouco, o selecionador não pode encolher os ombros e dizer que Portugal não consegue funcionar como equipa, porque essa é exatamente a função de um selecionador, colocar uma equipa a funcionar, ainda para mais quando tem tanto talento. Depois, um segundo ponto que é: não se pode justificar uma derrota com a Sérvia dizendo que Portugal tem dificuldades em jogar contra equipas que apresentam uma linha de três defesas, porque já foi assim com uma série de adversários e isso também manifesta que Portugal não é capaz de, mais de um ano depois, adaptar-se a este tipo de estratégia dos adversários e se continuar assim o problema, pior será. E depois um terceiro ponto, que para mim também é importante análise, que tem a ver com aquilo que não mudou na segunda parte, porque uma coisa é partir-se de uma estratégia, que pode ser certa ou errada, e depois aproveitar o intervalo para corrigir tudo aquilo que estava mal. E aquilo que nós vimos foi Portugal cometer exatamente os mesmos erros que estava a cometer. Um exemplo prático, o Milinković-Savić e o Tadić colocavam sempre entre os centrais e o Danilo e o Moutinho. Quem estava no estádio e quem tinha o ângulo mais aberto conseguia claramente perceber isso e na segunda parte continuou tudo na mesma.
E essa informação nunca passou lá para dentro.
Nunca passou e ainda para mais não é propriamente uma coisa genial, era uma coisa óbvia que nos entrava pelos olhos. E, portanto, nós, Portugal, seleção, federação, tem muito para refletir sobre aquilo que se passou. Nós não passámos do oito para o 80, não passámos a ser a pior seleção do mundo. Agora, é bom que começamos a partir deste pressuposto: Portugal não é uma seleção de primeira linha como é a Espanha, a Itália, a Inglaterra, a França ou essas seleções.
Apesar de termos jogadores de primeira linha.
A começar logo pelo melhor do mundo.
Exatamente. Mariana, e depois dos compromissos das seleções, regressamos outra vez ao nosso futebol.
Ao futebol de cá. Sim, depois desta dupla jornada, que acabou por correr um bocadinho pior do que aquilo que se estava à espera, os clubes regressam com a quarta ronda da Taça de Portugal esta semana. O Sporting é o primeiro a entrar em campo na quinta-feira, em Alvalade, contra o Varzim, o Benfica defronta o Paços de Ferreira na Luz na sexta-feira e o Porto recebe o Feirense no Dragão no sábado. Portanto, temos os três grandes a disputar esta quarta ronda da Taça de Portugal em casa. Na próxima semana volta a Liga dos Campeões com uma jornada que acaba por ser praticamente decisiva para as ambições das equipas portuguesas. O Sporting recebe o Borussia Dortmund em Alvalade e se ganhar nessa eventualidade, pode ficar desde logo apurado para os oitavos. O Porto vai a Anfield jogar com o Liverpool e se voltar a escorregar, pode ficar com o Atlético de Madrid à perna. E o Benfica visita o Barcelona em Camp Nou, sendo que precisa de ganhar para voltar ao segundo lugar do grupo e como Jorge Jesus já disse, tudo vai ficar decidido entre esta ida a Camp Nou e depois a receção ao Dynamo Kyiv na Luz, na última jornada da fase de grupos. No fim de semana seguinte, e porque nada disto para nesta altura do ano, volta o campeonato com o Belenenses x Benfica, o Sporting x Tondela e o Porto x Guimarães, sendo que, como se sabe, nesta altura Dragões e Leões estão na liderança da classificação com mais um ponto do que os encarnados.
E agora vamos às cartas com o ás, o joker e a carta fora. Bruno e Mariana, os vossos ases, neste caso aqui, são ases de despedida. Começamos contigo, Bruno, e com o Ricardinho.
Sim, e com uma idade também já avançada. Não que eu tenha grande moral para falar de idades avançadas, mas já com grande idade avançada. Faz hoje uma semana que o Ricardinho, que é e fica como o melhor jogador de futsal de todos os tempos, anunciou o final da carreira na seleção. Foi um caminho de 20 anos que, em resumo, acabou por engrandecer o próprio Ricardinho como jogador e como pessoa. Engrandeceu claramente Portugal, engrandeceu claramente também a modalidade, porque ele jogava pela e para a modalidade, e que culminou com aquela frase que nós ficámos do desconto tempo do Jorge Brás no jogo com a Espanha, no final do Campeonato do Mundo, que foi quando ele disse: "Há 20 anos que anda a dizer que nós somos melhores do que eles". E também foi por causa do Ricardinho que Portugal foi melhor do que todos os outros no Campeonato da Europa de 2018, foi melhor do que todos os outros no Campeonato do Mundo de 2021 e nesta altura conseguiu também ser grande como ele fez toda a carreira, que foi perceber que mesmo podendo ser uma mais-valia Ainda para a equipa, já não tinha as características que fizeram dele seis vezes o melhor do mundo e decidiu dar a vez, não diria a uma nova geração, mas a outros protagonistas que já andam na seleção. E até aí acabou por dar um exemplo daquilo que deve ser e aquilo que ele sempre foi enquanto embaixador, depois ter ganho três Ligas dos Campeões, ter ganho tudo que era campeonato em Portugal, Espanha, Rússia, Japão e França, fica a despedida daquele que será para sempre o melhor jogador de todos os tempos de futsal e que também deu um impulso grande para Portugal chegar onde chegou, seja a nível de Campeonato da Europa, seja a nível de Campeonato do Mundo.
Do futsal, vamos para o motociclismo. Mariana, vamos falar de Valentino Rossi. Eu para me juntar ao Bruno e a esta coisa das idades. Estava a tentar me lembrar ontem de MotoGP sem Valentino Rossi. Não me lembro. É daquelas coisas, tento ir lá atrás e já não me lembro.
É isso. Acho que a melhor maneira de percebermos é explicar que o ano em que Valentino Rossi se estreou no MotoGP, Miguel Oliveira tinha um ano. Portanto, esse claque de gerações explica também a forma como ele foi tão abrangente e tão importante para a modalidade. Ele acabou a carreira, como dizias, este fim de semana, no domingo, neste grande prémio de Valência, e antes até da corrida, ele tinha dito que não queria chorar, porque não fazia propriamente parte da personalidade dele. A verdade é que o sorriso de Valentino Rossi é uma das coisas que nos faz automaticamente lembrar dele. Mas não só chorou, como riu às gargalhadas, sorriu, abraçou, foi abraçado e recebeu uma homenagem por parte do MotoGP, de todas as equipas, de todos os pilotos e de todos os adeptos que estavam nas bancadas do circuito de Valência, como raramente se viu no desporto internacional e que acabou por confirmar aquela ideia que eu acho que todos temos, que é Valentino Rossi é uma das pessoas do desporto que é completamente unânime. Eu acho que não existe ninguém que não goste dele. Rossi deixou o MotoGP aos 42 anos, ao fim de mais de duas décadas em pista e com nove títulos mundiais, mas deixou um legado muito maior do que esse, que é o facto de ser o grande ídolo de praticamente todos os pilotos que estão agora na grelha. Portanto, incluindo Miguel Oliveira, obviamente, ele conseguiu ainda cruzar-se em pista com todos aqueles que inspirou ao longo de todos estes anos. Ele disse que a seguir a um papa vem sempre o outro, um bocadinho a dizer que vai aparecer outra figura do gênero no futuro, mas a verdade é que Valentino Rossi só há um e dificilmente vai aparecer um piloto que reúna esta capacidade tripla de ser campeão, de ter este nível de carisma e de ser adorado por praticamente toda a gente. E deixa aqui ao MotoGP também um grande problema de marketing, porque a verdade é que Rossi promoveu a modalidade praticamente sozinho nos últimos 20 anos e agora vai ser preciso readaptar a estratégia e perceber quem é que vai ser a nova figura, a nova cara desta modalidade, pelo menos a longo prazo.
Em princípio, vamos continuar a vê-lo no paddock.
Sim, eu acho que sim, até porque ele vai ter a equipa dele com o nome dele, ou pelo menos as iniciais para o ano. É uma pessoa que vai continuar, vai ter o irmão. É uma pessoa que vai continuar muito presente, mas acho que só o facto de não termos o número 46 em pista já vai fazer uma grande diferença.
E agora vamos ao joker. Mariana, falas aqui do novo treinador do Barcelona.
Sim, na semana passada também aqui falámos sobre o fato de Xavi ter tido este mérito de aceitar o desafio do Barcelona nesta fase crítica, quando já tinha tido a oportunidade de voltar a Camp Nou em períodos mais positivos. Mas a verdade é que o treinador mostrou logo nos primeiros dias que tem noção da montanha que tem para escalar. Xavi saiu do Qatar e foi para Barcelona, não foi propriamente, não foi de todo um capricho que ele teve para regressar a Camp Nou, foi uma decisão que ele tomou para ir tentar resgatar a equipa onde se tornou tudo aquilo que é hoje. Ele entrou em plena pausa para as seleções, portanto só vai estrear-se no dia 20 contra o Espanyol, logo num dérbi da Catalunha, mas já está a trabalhar com os jogadores que ficaram e já deixou claro que não existe tempo propriamente para fazer testes, ou seja, o Barcelona tem de começar a ter resultados agora para ainda lutar pelos objetivos da temporada. E para isso, este treinador delineou desde logo uma lista de 10 regras, quase 10 mandamentos, que indicam que os jogadores têm de chegar 90 minutos antes do treino, que têm de comer no centro de treinos, que têm de se deitar a uma certa hora nos dois dias anteriores aos jogos e que estão proibidos de entrar em atividades perigosas, entre outras coisas. É um regime claramente rígido e exigente, algo de que o Barcelona precisa depois desta quase rebeldaria, digamos assim, institucional e desportiva do último ano e meio, e já se percebeu que Xavi vai ensinar pelo exemplo. Dembélé chegou três minutos atrasado ao treino, já foi o primeiro multado do plantel e a partir daqui percebe-se que estas 10 regras não são propriamente só para fazer show off, são mesmo para cumprir.
Eu pensava que estas regras eram normais no futebol profissional. Bruno, os teus jokers são o Martim e o Kiko Costa. Por quê?
Sim, porque eles acabam por chegar ao Sporting e ao andebol do Sporting, quase como uma espécie de retaliação do Sporting depois do Pedro Valdez ter ido para o futebol clube do Porto. Inclusivamente, envolver o pagamento de cláusulas de rescisão. E aquilo que nós temos estado a ver é, de facto, a evolução brutal, sobretudo do Martim Costa, que é o irmão mais velho, tem 18, o Kiko tem 16, uma evolução brutal. Eles não fizeram todos os jogos da equipa principal. Ainda assim, no caso do Martim e também o Kiko, que entrou na segunda parte, acabou por ser determinante na vitória do Sporting na Luz, no primeiro grande dérbi da temporada para o campeonato. O pai, que é também treinador, o Ricardo Costa, teve muita influência também nesse triunfo, mas por um lado, existe aqui uma boa notícia para o Sporting, que é perceber que começa aqui criar uma base nova e que de facto tem muito valor, mas sobretudo é uma grande notícia para a seleção, que mostra que depois do sexto lugar no Europeu, do décimo lugar no Mundial e de uma presença inédita nos Jogos Olímpicos, tem todas as condições para prolongar este momento a médio e longo prazo, porque de facto existem mais-valias na formação que começam a aparecer e o Martim e o Kiko Costa são dois exemplos disso mesmo.
E agora vamos às vossas cartas fora Bruno, deitas fora Aminata Diallo. Esta história vai virar filme daqui a uns tempos, imagino eu. Ou pelo menos uma série.
Eu queria era contar essa história, que vale muito pena. Não é bem ela que deito fora, até porque, de acordo com a investigação, ela já começa a ser uma espécie de figura secundária perante um ex-namorado da agredida. E de facto, isto é uma história completamente macabra, que faz lembrar muito aquilo que se passou nos Estados Unidos com a Nancy Kerrigan e a Tonya Harding, sendo que correu mal também à Tonya Harding essa questão. Em resumo, houve um jantar da equipa de futebol feminino do Paris Saint-Germain. Posteriormente, quando a Diallo estava a levar a sua companheira, a Amraoui, a casa, que elas vivem relativamente perto, dois homens encapuzados acabaram por tirá-la do carro e agredi-la com uma barra de ferro nas pernas e nas mãos. Ela teve de ser suturada e teve de ir para o hospital. Numa fase inicial, foi a Diallo que foi colocada pelas autoridades como a principal pensadora de todo este ataque e de toda esta história macabra. Aparentemente, agora já existe uma outra linha de raciocínio em termos de investigação. Fica ainda assim a história e o peso que teve também nesta equipa feminina do Paris Saint-Germain, que quer ganhar o Campeonato Francês e a Liga dos Campeões e que acaba de ser goleada pelo Lyon por 6-1 para o campeonato. Sinal de que isto está a mexer, e muito, com aquela equipa.
E por falar em novelas, Mariana, tu dás-me a da Peng Shuai.
Sim, foi uma semana de novelas. Se a história Diallo e de Amraoui já vai dar um filme de Hollywood, então o que dizer também desta história da Peng Shuai? A tenista de 35 anos está desaparecida há mais de 10 dias depois de ter acusado Zhang Gaoli, antigo vice-presidente chinês, de assédio e de agressão sexual. Estas acusações surgiram na rede social Weibo no início do mês e segundo a imprensa internacional, terá sido o mecanismo de censura chinesa a apagar a longa publicação, onde Peng Shuai reconhecia que estava muito assustada, que não tinha propriamente provas de nada, mas que tinha a certeza de que a mulher de Zhang Gaoli, que nesta altura tem cerca de 70 anos, sabia de tudo aquilo que tinha acontecido. A publicação foi apagada muito depressa. Não existem registos do texto original, mas cerca de 100 mil pessoas ainda tiveram acesso à acusação. Entretanto, Peng Shuai desapareceu sem deixar rasto. A comunicação internacional do ténis e do desporto no geral já exigiu uma busca alargada pelo paradeiro da tenista. Há quem diga que esta fugiu por medo de represálias, há quem diga que foi capturada, que foi presa pelo regime chinês. A verdade é que independentemente de qual das alternativas for certa, se calhar está na altura de começarmos a perceber o que é que aconteceu a esta tenista que está desaparecida há 10 dias, sem paradeiro, sem deixar rastro e parece que ninguém está propriamente à procura dela.
Cenas dos próximos episódios, vamos ver. Seguimos agora para "O Túnel". E Bruno, começa a limpeza no Benfica, para já ainda não é do balneário.
Ainda não, mas poderá lá chegar. Nesta altura, ainda é em termos internos, mas em termos mais institucionais. Ainda não é conhecido o novo conselho de administração da SAD do Benfica. Já se percebeu que Domingos Soares de Oliveira, independentemente de poder ser uma peça-chave na empresa que vai gerir os direitos televisivos do campeonato a partir do momento em que avança a centralização, apesar de tudo, pode ainda ficar na Luz. Miguel Moreira é praticamente certo que vai sair, mas em termos internos começa a haver uma limpeza de tudo o que são pessoas mais próximas de Luís Filipe Vieira, nomeadamente Pedro Guerra e Carlos Janela, que eram duas das figuras mais conotadas com o antigo presidente do Benfica. E não deixa de ser curioso isto acontecer numa semana em que voltaram as notícias de um possível regresso de Luís Filipe Vieira ao Benfica para terminar aquilo que começou a construir em 2003, ao mesmo tempo em que é a semana em que já sabemos que a SIC vai transmitir algumas reportagens de investigação onde o antigo presidente do Benfica não fica propriamente bem e o clube volta a ser visado de uma forma indireta.
E o futebol está como está. Bom, e agora vamos ao Sporting, porque Frederico Varandas está com um dossiê grande de renovações. Todos os dias parece que há um jogador novo para renovar.
Sim, vai continuando. O Palhinha vai ser oficializada agora a renovação esta semana, vai ficar com um dos salários mais altos do plantel, também já ajustado à importância que ele tem na equipa. A seguir será o Gonçalo Inácio, o Adán e o Luís Neto também têm tudo acordado. Existe também a situação do Pedro Porro, que está resolvida, ou seja, o Sporting vai acionar a cláusula de opção junto do Manchester City e já existe um acordo também com o jogador para assinar contrato a título definitivo pelo Sporting. O próprio Koates, que acaba contrato em 2023, já sabe, e Frederico Varandas já falou com ele, que existe vontade do Sporting em prolongar esse vínculo. Agora, continua a existir uma pedra no sapato no meio destas renovações, que é João Cabral, porque esteve para sair 31 de agosto, no final não quis sair, continua sem renovar e o Sporting continua com um problema entre mãos, sem perceber muito bem o que é que pode fazer com ele.
E já que está o João Almeida para falarmos sobre ciclismo, é o destaque desta próxima meia hora. João, antes de mais, obrigado por te teres juntado a nós aqui na Rádio Observador. Vieste conhecer já o nosso novo estúdio. Vens de uma época em que acabou pela primeira vez em pódios de provas do World Tour nos Emirados, ganhou a Volta à Polónia e a Volta ao Luxemburgo, fez sexto no Giro e no Tirreno-Adriático. O que é que se podia esperar mais nestes últimos tempos?
Olá a todos, obrigado pelo convite. Sim, foi um excelente ano, fico muito satisfeito. Finalmente a minha primeira vitória como profissional. E tive mais do que uma, não foi só uma E acho que discuti todas as corridas em que estive presente, desde o início da época até ao final, e estou muito orgulhoso e satisfeito com a época que tive. Acho que não podia pedir mais.
Esta época acaba também por ficar marcada por ser a última na Deceuninck, que voltou em 2021 a ter o Remco Evenepoel. Perguntava-te como é que foi gerir aqueles meses em que tinhas tantas equipes interessadas em ti e o que é que pesou mais na escolha pela Team Emirates, sendo que o líder era, nesta altura, o Pogačar.
Sim, felizmente tive ofertas de quase todas as equipes, o que é bom sinal. Não foi fácil fazer uma escolha, porque as equipes são todas muito boas e eram ofertas bastante boas, mas tentei focar no que eles me davam, que era ser líder numa grande volta e oportunidades. Encontrei isso na UAE Team Emirates e acho que fiz a melhor escolha que podia ter feito.
E eram muitos números que estavam em casa. Ou seja, o interesse desportivo percebia-se, por exemplo, da BORA e da Team Emirates, se calhar em perspetivas diferentes, mas a parte desportiva percebia-se. Mas os números não te assustaram quando começaste a ver tantos números à frente?
Sim, um pouco. Também depende do valor do mercado na altura. Na altura havia também um grande hype comigo, havia o hype comigo e os números, de facto, eram extraordinários, mas não escolhi a oferta maior, porque os números já são tão grandes que já não faz tanta diferença. Tentei focar-me na parte desportiva e foi isso que fiz. Acho que escolhi a melhor opção.
Olhando para este Giro, nós fomos acompanhando com atenção este último 2021. Há duas imagens que me ficam e que eu gostava de falar contigo sobre isso. Uma primeira que é a cara que tu fazes quando, logo ali naquele início, a seguir ao contrarrelógio, onde tu eras o melhor da Deceuninck, vês que a equipa trabalha para haver uma bonificação do Remco. E depois, na parte final, na última semana, acabares cinco das seis etapas no top seis, que eram etapas de montanha onde havia muitos ataques e contra-ataques e tu ias conseguindo sempre manter. Ou seja, nunca caías mesmo muitas vezes, estando só de líder na equipa. Eu pergunto se este reflexo na parte final e aquilo que tu conseguiste fazer, sobretudo na montanha, na parte final, foi quase uma resposta àquele trabalho para a bonificação do Remco no início, quando tu estavas na frente, em termos de Deceuninck.
Não, não estão relacionados. A parte da bonificação, obviamente, que foi algo impulsivo na altura, porque era suposto a fuga ainda estar na frente, não era suposto haver bonificações ali. E também era um segundo ou dois segundos, não ia fazer muita diferença. E depois na última semana, basicamente era eu o líder, porque o Remco já não estava presente em corrida. E eu trabalhei muito para aquilo, esforcei-me muito para aquilo e não vou ficar de braços cruzados e dei tudo todos os dias e ver o que conseguia fazer.
Mas sentes que também foi importante para os próprios corredores perceberem a maturidade que tu ganhaste de 2020 para 2021, ou seja, a maneira como tu já lidavas com a montanha e como nunca deixaste de descolar a coisa e andar sempre lá na frente.
Sim, exatamente. Queria mostrar a minha maturidade e que me esforcei imenso para aquilo e para todas as corridas, que estava em forma, que tenho evoluído em todos os aspetos. E era isso que eu queria provar. E quando eu estou em corrida é quase como se fosse outro João. E é em corrida que eu gosto de estar, é totalmente diferente.
Tu em termos de ranking, acabaste o ano no nono lugar em tempos de pontos e em quarto, se olharmos apenas para as provas por etapas, portanto, atrás do Pogačar, do Roglič e do Egan Bernal. Perguntava-te o que é que isto significa em termos pessoais, obviamente, e em termos de carreira também, e que impacto é que achas que pode ter na abordagem a provas onde um dos destaques, obviamente, será o Giro em 2022.
Sim, acho que é um bom indicativo, quer dizer que fui muito regular o ano todo e marquei pontos em todas as corridas. E estar em nono nos 10 primeiros do ranking mundial, acho que é muito positivo. Acho que não há assim tantos portugueses que conseguiram fazer isso. E eu com 23 anos conseguir estar com os melhores e ter a regularidade que muitos veteranos já têm, dá muita motivação para o futuro e quero trabalhar mais e esforçar-me cada vez mais, porque acho que ainda há bastante margem de evolução.
Tu disseste há pouco que quando estás em corrida és outro João. Quando é que isso se ativa? É quando vais, é quando partes?
Sim, basicamente é o meu mindset. Quando estou a chegar aos dias de corrida ou mesmo em corrida, ativo o meu race mode. Sou totalmente diferente em corrida. O sofrimento, não diria uma besta, mas é mesmo uma questão de ir ao limite do corpo e desafiar os limites.
E o que é que um corredor pensa quando está lá em cima, está a subir a montanha, quando praticamente já não tem força, o que é que dá força naquela altura para haver aquele bocadinho ainda mais de explosão na parte final?
Sim, no fundo é das duas, uma: é apanhar os que estão à frente ou é não deixar que os de trás nos apanhem. E depois é uma luta mental, é mesmo aquela luta mental comigo próprio, em eu desistir, não desistir, conseguir dar mais, não conseguir dar mais e tentar sempre continuar, basicamente. Mas é quilómetro a quilómetro, porque são subidas muito longas, grandes e lindas, no fundo, são subidas que eu gosto bastante.
Mas dá tempo para olhar?
Não, não dá tempo para olhar. Só olho sempre para o meu ciclocomputador e para a estrada.
Entretanto, já foi conhecido esta semana o traçado do Giro, se calhar tem menos contrarrelógio do que tu gostarias e poderia fazer a diferença, e não é propriamente meiguinho a nível de montanhas. Era o traçado que tu estavas à espera do Giro ou vai ser ainda mais complicado do que tu achavas?
Sim, eu estava à espera que houvessem três contrarrelógios, não só dois. E são dois não muito longos. Um acho que tem 9 ou até 18 km. Ou seja, a minha principal vantagem, que é o contra o relógio, não vai estar 200% do meu lado. Mas mesmo assim, com a evolução que eu tenho feito de alta montanha e também com que tenho me esforçado, acho que a corrida é sempre decidida na montanha. O contra o relógio afina um bocado as coisas.
Dá mais uns segundos.
Um lugar, dois lugares, mas acho que, no geral, se eu estiver em forma, acho que não vai me tirar um lugar do pódio nesse aspeto. Mas já estou a meter a barra muito alta. Mas obviamente eu vou me esforçar para dar o meu melhor e ver como é que corre.
E chegar ao pódio.
Sim, o pódio é um objetivo, um dia. Não quer dizer que seja já no próximo ano. Espero uma longa carreira pela frente, mas fazer um pódio numa grande volta é um objetivo que eu tenho e espero alcançar.
E ainda pensas, por exemplo, em 2020, quando tu conseguiste até ser quarto, ainda pensas que com outra equipe e mais ajuda, por exemplo, no Stelvio, já podias ter conseguido esse pódio no Giro?
Eu penso que não. Acho que nesse nível já não há colegas de equipe, é quase cada um por si.
E o Dennis também furou ali as contas todas.
Sim, exato. Depois é uma questão de tática de equipe. Há sempre uma equipe que está em vantagem. Nunca dá para estarmos todos no mesmo nível, mas acho que não conseguíamos ter feito melhor. Acho que toda a equipe se esforçou 100% por mim, todos deram o que tinham por mim e estou muito grato por tudo que fizeram por mim.
E já conheceste a equipe, digamos assim, já falaste com os teus novos companheiros, provavelmente aqueles que te vão acompanhar mais de perto no Giro?
Sim, nós tivemos um estágio agora nos Emirados este mês e foi bastante positivo. Fizemos atividades juntos, estivemos todos juntos, conhecemo-nos. Passamos tempo juntos, desenvolvemos relações. Muitas pessoas que eu não conhecia, mesmo do staff. É bom ter sempre uma boa relação. Em corrida tudo é diferente, as pessoas já têm que saber o que eu gosto, o que eu não gosto, os meus hábitos. Então pouco a pouco vamos estruturando essa relação e obviamente com a equipe que fará o Giro, fazemos estágios e vamos passar mais tempo juntos, fazemos corridas juntos e obviamente que isso vai fazer diferença em corrida.
Tu além do Giro, que é claro a tua aposta por excelência, tens aqui mais algum objetivo pessoal que queiras alcançar no próximo ano ou estás a olhar ainda para este primeiro ano com a Emirates como uma espécie de ano de adaptação, onde ainda vais tentar sentir o terreno para depois então saltar?
Sim, o Giro é o principal objetivo. Aí que eu quero estar no meu pico de forma, mas as corridas que eu for é corridas que eu quero estar na discussão e na frente, não vou simplesmente só para ganhar ritmo. Então eu vou trabalhar duro para estar bem em todas as corridas, mas de modo que o meu pico de forma seja no Giro d'Italia.
E a primeira corrida do ano vai ser lá também aquela dos Emirados, como em 2021.
Sim, o UAE Tour.
O pódio já é pequenino, porque o pódio do ano passado já fizeste pódio. É uma corrida já para ti ou é para o Gaudu fazer a diferença outra vez?
Sim, temos a corrida em casa, a nossa equipe é de lá e obviamente vamos lá uma equipe muito forte para discutir a corrida, neste caso é vencer, é o nosso objetivo. E que ganhe o melhor. Neste caso, eu penso que ele seja mais forte que eu, tenho a certeza. E terei todo o gosto em trabalhar por ele e ajudá-lo em alcançarmos o objetivo, porque nós somos uma equipe e o objetivo da equipe está sempre em primeiro lugar. Nunca vou meter os meus objetivos pessoais à frente do nosso grande objetivo.
É diferente ter um líder de equipe tão novo, quase da tua idade? Porque normalmente os líderes de equipe, havia muito aquela figura do corredor mais consagrado, que já tinha ganho grandes voltas e aqui é alguém que já ganhou, de fato, duas vezes o Tour, mas que é praticamente da tua idade. Faz diferença também no vosso relacionamento terem praticamente a mesma idade?
Sim, eu acho que até facilita, porque somos do mesmo ano, temos a mesma idade. Tendo a mesma idade, temos mais ou menos as mesmas ideias, o mesmo mindset, temos a mesma fase da vida, apesar de ele ter ganho duas grandes voltas. Mas acho que facilita bastante e mostra que o ciclismo moderno está muito evoluído e os jovens estão cada vez mais fortes e a dar mais cartas.
Mas alguma vez sentiste um bocadinho esse complexo em relação a ti, de seres muito novo e de estares às vezes ao lado de pessoas com muito mais experiência do que tu?
Sim, eu gosto bastante de sentir isso, porque, pelo menos no passado, nas equipes que eu estive, mais propriamente aqui no Quick-Step, ter pessoas assim gostam de nos ajudar e transmitir a mensagem deles, a experiência deles, porque às vezes não precisamos aprender com os nossos erros, mas com os erros dos outros. E eles tentam sempre passar essa mensagem de modo que sejamos melhores ciclistas.
Não sei se foi semana passada. Deste uma entrevista, acho que foi à Cycling News, onde dizias que o grande segredo também do sucesso é manter um equilíbrio entre corridas e a vida, a vida normal. Pergunto como é que tu manténs esse equilíbrio e essa parte da vida normal, que é menos conhecida, o que tu gostas de fazer também, extra corridas e extra campeonato?
Sim, foi o que eu disse. Acho que passa muito pela parte mental do desporto. Nós, atletas de alto rendimento, mentalmente é duro e manter o foco uma época toda, às vezes não é possível. E quando não temos corridas e temos a possibilidade de, se calhar, relaxar um pouco mentalmente, estar com os amigos, ir jantar com os amigos, fazer coisas normais que as pessoas normais fazem.
Mas ainda é a mesma coisa do que antes de 2020? Se calhar, já não. Se calhar, já vais a um restaurante e já é diferente.
Já te conhecem.
Sim, se calhar, já me pedem uma fotografia.
Mas lidas bem com isso?
Sim, as pessoas respeitam sempre bastante o meu espaço também. Não sou o Ronaldo, não tenho 100 pessoas a pedirem fotos. Acho que é gratificante ver as pessoas a apreciarem o meu trabalho e os meus resultados e a conhecerem-me na rua.
Mas a verdade é que, principalmente ali naquele Giro de 2020, o teu nome, João Almeida, saltou para as capas dos jornais, das aberturas dos telejornais ali durante aquelas semanas. Tu naquela altura não estavas cá, estavas lá. Tiveste noção do impacto que a tua participação estava a ter em Portugal? Ou seja, a tua família e os teus amigos iam-te dizendo ou estavas mesmo alheado do que se estava a passar?
Sim, os meus pais iam-me dizendo, os meus amigos iam mandando fotos e falando das coisas, mas não tinha a mínima noção de como é que era a realidade. E depois quando voltei a Portugal e vi a loucura que tinha sido, que eu já estava a ver a fase final da loucura, mas as pessoas apoiaram mesmo muito e foi impressionante. Mesmo na minha zona onde eu vivo, na minha aldeia toda a gente me conhece, estamos todos bem e quando eu cheguei receberam-me como se fosse o Ronaldo, todos a apoiar-me. É muito gratificante ter pessoas assim na minha vida.
E tu, entretanto, consegues fazer este caminho todo numa altura que acaba por ser marcada pela pandemia, ou seja, as próprias corridas tiveram todas uma série de regras e uma série de obrigatoriedades anormais. Vocês, corredores, também pensavam muito nisso, sobretudo a seguir aos primeiros confinamentos. "Tenho de ter mais cuidado, posso dar um teste positivo e vai o trabalho toda a vida." Como é que era lidar também com essa parte?
Sim, sem dúvida. Se demos um teste positivo, primeiro tínhamos que ficar em quarentena, logo era quase duas semanas sem treinar. A forma perde-se logo e em corrida se houver um teste positivo, nós temos de ir para casa, não acabamos a corrida, e todas as pessoas da equipa que tiveram contacto connosco também não poderão fazer o trabalho deles, que é a corrida, e o staff fazer o trabalho deles. Então não só pomos em causa nós, mas toda a equipa. Todos tínhamos que ter cuidado com isso, porque mesmo não tendo sintomas, se o teste for positivo, não havia nada a fazer e prejudicávamos toda a equipa.
Mas sentiste que isso foi uma pressão adicional? Ou seja, em cima de tudo aquilo que vocês já estão a viver, ainda tinham de estar preocupados com isso ou ficava assim um bocado na parte de trás da cabeça?
Sim, ficava um pouco, porque a nossa rotina, no fundo, é treinar e descansar. Nós temos a nossa bolha fechada. Se ninguém tivesse contacto com mais ninguém, à partida, não haveria grande estresse. Mas às vezes nós pensávamos, por exemplo, no Giro, são três semanas, havia testes diários, às vezes todas as semanas, e se houvesse uma equipa com dois positivos, a equipa tinha que abandonar a volta. Havia sempre aquele nervosismo quando viesse o resultado dos testes, se houvesse positivos. Acho que todas as equipas pensavam assim e tinham um cuidado extra.
Este ano de 2021 ficou também marcado pelos Jogos Olímpicos, uma estreia dos Jogos Olímpicos. 13ª prova de estrada, 16ª de contrarrelógio. Este resultado é o reflexo também da competitividade que havia ou as próprias condições de Tóquio, sobretudo a humidade, também pesaram naquela altura da temporada?
Sim, a nossa corrida foi feita, acho que foi dos únicos sítios que, de facto, não havia a humidade que era suposto, havia menos.
Pois, eu fiquei com a parte boa, que era o centro de Tóquio.
Sim, aí eram condições muito mais extremas. Eu preparei-me para as condições piores. Fiz uma aclimatação numa câmara de calor e humidade em Coimbra. Se calhar, se houvesse condições mais extremas, se calhar até me tinha favorecido um pouco. Mas acho que, no fundo, a competitividade foi o fator mais decisivo. Todos os que estavam na frente tinham feito o tour, portanto, acho que é um fator que se nota. Mas fiquei muito satisfeito com a minha corrida. Também foi numa altura depois do Giro, a época já ia longa para mim, porque já era há muito tempo que estava em forma. Tentei manter-me na melhor forma possível e ficar muito satisfeito com o resultado na prova de estrada. Contrarrelógio não foi tal e qual como eu idealizava, mas todos temos dias menos bons e desde que eu não tenha quedas e não tenha lesões, é o mais importante.
E o facto de os próximos Jogos serem em Paris, muito provavelmente com muitos portugueses lá, também ajuda a que tu tenhas essa ambição de chegar a uma medalha olímpica, como o Sérgio Paulinho conseguiu, por exemplo?
Sim, acho que esse é o sonho de qualquer atleta. Os Jogos Olímpicos é sempre uma corrida que tem outro sabor. Também estamos a correr pela nossa seleção e, no fundo, um resultado ali fica para a história do país e para a história do desporto. E eu obviamente gostaria, mas no fundo são 200 atletas que têm esse mindset de ir para lá para a medalha e a competitividade é muito alta.
Tu tens sido aqui um dos protagonistas, senão o protagonista, de um período muito entusiasmante do ciclismo português, não só em estrada, como também em pista, com o Rúben Guerreiro, os irmãos Oliveira, o Iúri Leitão, a Maria Martins. Como é que se justifica este crescimento da modalidade nos últimos anos? E perguntava também se é um bocadinho também a evolução na continuidade, na verdade, de um desporto que sempre teve tradição em Portugal.
Sim, exato. Felizmente, eu conheço-os a todos. Nós somos, digamos, quase todos da mesma fornada. Acho que posso chamar amigos a todos eles que mencionaste. E acho que é também um pouco da evolução e da aposta que a federação tem feito no ciclismo, obviamente com as condições que tem. Também com pouco não se pode fazer muito, não é? Mas acho que temos feito mesmo muito. Mas acho que mostra também que ainda podemos evoluir mais e se apostarem mais na federação por causa do ciclismo, acho que ainda conseguimos melhores resultados e mais atletas com nível mais alto.
E a ti o ciclismo de pista nunca te puxou?
Sim, eu fazia pista no passado, só mesmo por diversão e gostava de fazer, e gosto de fazer, mas a época de estrada já é longa o suficiente, já é muito dura. Então ter de fazer as duas épocas acho que é muito duro para mim E acho que iria me prejudicar na estrada.
Voltando um pouco atrás, como é que alguém de repente aparece com este gosto pelo ciclismo? Ou seja, uma coisa é gostar de andar de bicicleta, outra coisa é gostar de competir e ganhar no ciclismo. Como é que isso nasceu em ti?
Eu sempre fiz muitos desportos quando era mais criança. Experimentei natação, experimentei futebol, mesmo na escola, atletismo. Eu gostava de fazer tudo. Sempre fui muito competitivo, sempre andei de bicicleta também. E depois experimentei uma corrida de BTT e comecei a gostar. Experimentei a estrada e ainda gostei mais. E depois aquele bichinho da competição acho que desenvolveu-se ali e treinava mais porque queria fazer melhores resultados, mas sempre com aquele mindset de me divertir com o que eu gostava de fazer.
Mas nunca tiveste aquela questão da preocupação do plano B, ou seja, estás a fazer all-in nesta carreira e o que vai acontecer se não conseguires chegar lá?
Sim, eu sempre tive o plano B, que era a escola. Sempre tive boas notas. No secundário segui ciências porque também gostava, era mais abrangente. Se houvesse algum azar, tinha sempre o plano B. Depois ainda experimentei a faculdade, um semestre, mas decidi depois fazer o all-in no ciclismo, porque tive a oportunidade quase única de ir para a Cervelo e, no fundo, ir para a faculdade basta fazer os testes e posso entrar quase em qualquer ano. E aquelas oportunidades do ciclismo são uma vez na vida e eu decidi aproveitá-la e estou aqui hoje.
E o que é que te falta além de uma grande volta, o que é que te falta conseguir ainda? Qual é aquele objetivo além da grande volta que ainda te falta obter?
Sim, claro que ainda sou novo, estou a ambicionar muito, mas obviamente que o monumento no ciclismo seria também para a história, uma Liège, uma Lombardia, uma corrida assim de um dia que é muito importante.
Muito bem, João Almeida, obrigado por teres estado aqui conosco no Observador nesta conversa também sobre ciclismo. Termina por agora este Nem Tudo o que vai a rede é bola. Daqui a pouco já pode ouvir em observador.pt. Este programa vai estar em podcast disponível. Até já.