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Bem-vindo ao "Nem Tudo O Que Vai a Rede é Bola", com Bruno Roseiro, Mariana Fernandes e comigo, Aníbal Rebelo. Um programa onde, mais à frente, vamos entrevistar Pedro Martins, treinador português do Olympiacos e líder do Campeonato da Grécia, mas isso é na segunda parte. Para já, arrancamos com o primeiro tema. Bruno Roseiro, uma semana que ficou marcada por uma guerra aberta na Liga, com episódios sucessivos.
Uma guerra aberta que vai levar, inevitavelmente, à saída de Pedro Proença da Liga, seja antes da Assembleia Geral de 9 de junho, seja na própria Assembleia Geral. A questão daquelas cartas enviadas a Siza Vieira, João Paulo Rebelo e Marcelo Rebelo de Sousa para que houvesse futebol em sinal aberto na TV foi descrita como uma última gota, sendo que me parece claro que Pedro Proença pedia para que as operadoras fossem ressarcidas nesse cenário, que visava, sobretudo, evitar grandes aglomerados de pessoas, como já foi referido também pela Ministra da Saúde, Marta Temido. Mas tudo isto é, sobretudo, uma questão política que teve, nos capítulos da saída do Benfica e da direção da Liga e também no anúncio do final do contrato da NOS, o apertar de cerco que já não terá volta a dar. Entretanto, pelo que fomos apurando, já existem alguns nomes falados para uma sucessão, incluindo um antigo presidente de um clube grande que poderia merecer a aceitação de Benfica, Futebol Clube do Porto e Sporting. Ainda assim, José Couceiro é, nesta altura, a figura mais desejada para o cargo. Resta saber se o próprio vai aceitar. Tenho poucas dúvidas de que haverá uma mudança de paradigma, porque me parece que daqui para a frente a federação terá um papel muito mais forte e um peso muito maior no futebol português.
Entretanto, Mariana, vamos ao calendário da Liga, que já é conhecido.
Sim, a verdade é que o futebol em Portugal volta no dia 3 de junho, na próxima semana, com o Portimonense e Gil Vicente. É o primeiro jogo deste recomeço. O Porto também joga nesse mesmo dia em Barcelos com o Famalicão, que não tendo o seu estádio aprovado pela DGS, vai realizar o resto da temporada em Barcelos, no estádio do Gil Vicente. Benfica e Sporting entram em campo no dia seguinte, mas a verdade é que este é um calendário diferente daquele a que estamos habituados. Portanto, sem os habituais jogos sempre ao fim de semana e com todas as equipes a jogarem ao fim de semana, a ideia é que exista futebol quase todos os dias, porque a verdade é que nestes 48 dias que vai durar esta temporada, entre a jornada 25 e a jornada 23, só não existe futebol em nove dias do calendário. A verdade é que os candidatos ao título, Benfica e Porto, vão jogar quase sempre durante a semana. Dois estádios estão ainda por aprovar: o Bonfim, o estádio do Vitória de Setúbal, e o estádio dos Arcos, do Rio Ave. Isso deverá acontecer ainda hoje. Portanto, vão ficar quase todos os estádios aprovados, à exceção do Jamor, onde joga o Belenenses, também do Famalicão, do Moreirense e ainda do Santa Clara, nos Açores. Existem ainda algumas situações que vão levantar alguma discussão e dilema, como é o facto de os jogos com o Marítimo irem ser disputados na Madeira. Ou seja, o facto de o Marítimo jogar em casa e de obrigar as equipes do continente a deslocarem-se à Madeira para jogar contra o Marítimo. A verdade é que dos jogos que o Marítimo ainda tem de fazer em casa, quatro em cinco são às 21h ou ainda depois, o que acaba por inviabilizar o regresso no mesmo dia da equipa visitante da Madeira para o continente, o que aumenta os encargos. Um voo destes, um voo charter, portanto, fretar um voo para ir à Madeira e para regressar, que é um dos requisitos feitos pela DGS para este recomeço do campeonato, vai aumentar, obviamente, os encargos numa altura em que a ideia deveria ser reduzir ao máximo, depois de uma paragem de dois meses que deixou todos os clubes com alguma fragilidade financeira.
E agora, as cartas com o ás, o joker e a carta fora. E o primeiro ás de hoje é Hans-Dieter Flick, treinador do Bayern de Munique, Bruno Roseiro.
Sim, treinador do Bayern, que chegou apenas como interino para substituir o Nico Kovač no início de novembro. Teve numa primeira fase, quando лиou o Borussia Dortmund, duas derrotas que levaram a que existissem muitas notícias de o Bayern estar à procura de um novo treinador. Ele nesta altura leva uma série de 15 vitórias e um empate nos últimos 16 jogos entre Bundesliga e Liga dos Campeões. A equipa estava no quarto lugar, hoje já está na liderança com mais quatro pontos do Dortmund e esta terça-feira vai haver jogo entre ambos em Dortmund, que vai ser um jogo fantástico por aquilo que já se tem visto deste recomeço da Bundesliga. Este treinador, que foi durante muito tempo adjunto do Joachim Löw na seleção, conseguiu montar uma ideia de jogo muito interessante para o Bayern. Ele voltou a ser aquele Bayern do Guardiola e Heynckes, um rolo compressor que basicamente faz todo o jogo no meio-campo adversário. Isso voltou a acontecer com o Eintracht Frankfurt. Tenho curiosidade para perceber se, em termos físicos, a equipa terá capacidade para continuar assim, porque se assim for, parece-me que pode ser até uma grande candidata à vitória na Liga dos Campeões.
E o segundo ás, Mariana, vai para a tenista japonesa Naomi Osaka.
Sim, a Osaka que começou da melhor forma o ano de 2019, portanto o ano passado com a vitória no Open da Austrália, depois de já ter ganho o US Open naquela final muito midiática contra a Serena Williams. Não passou depois da quarta ronda nos outros três Grand Slams, caiu mesmo no jogo inicial em Wimbledon, está nesta altura no 10º lugar do ranking do WTA, portanto um bocadinho longe, não só da liderança do ranking, como daquilo tudo que na altura e depois dessa vitória no US Open, foi quase adivinhado para ela nestes anos seguintes. Mas a verdade é que nos últimos dias se tornou, e foi confirmada, como a jogadora mais bem paga, com receitas que rondam os 34,3 milhões de euros, que permitiram não só destronar Serena Williams, que liderou este ranking nos últimos quatro anos, mas também estabelecer o novo recorde de receitas. Portanto, ela não é só a jogadora mais bem paga atualmente, ela é a jogadora mais bem paga de sempre no ténis internacional. Agora precisa um bocadinho é de dar continuidade a este sucesso, não só fora de campo, mas também dentro de campo, com mais triunfos nos majors. E é preciso recordar que a verdade é que Naomi Osaka tem apenas 22 anos, portanto tem uma carreira ainda longa pela frente. O facto de ser a jogadora mais bem paga leva-nos a acreditar que a verdade é que os sponsors, os patrocinadores, nesta altura acreditam que é Naomi Osaka o futuro do ténis internacional.
E se trazes a Naomi como ás, no joker é Max Taylor o teu escolhido, este jogador do Manchester.
Sim, porque o Max Taylor acaba por ser aqui protagonista quase de uma verdadeira história de filme, um conto de fadas autenticamente com final feliz. Ele fez a formação no Manchester United a partir dos 14 anos, foi diagnosticado com um cancro apenas cinco meses depois de ter assinado o primeiro contrato profissional, isto foi no final de 2018. Foi submetido a uma cirurgia, fez nove semanas de quimioterapia para resolver o problema. Regressou já no início desta época australiana, jogou quase a época toda até à interrupção nos sub 23. Chegou a ser chamado por Solskjaer à equipa principal no final do ano passado, no final de 2018, para um jogo da Liga Europa contra o Astana. Não se estreou, portanto, não saiu do banco, mas a verdade é que recebeu esse voto de confiança de Solskjaer e agora na semana passada renovou contrato com o Manchester United. Isto tudo em 18 meses, tudo isto que aconteceu foi apenas em 18 meses, tendo ele até mudado oficialmente de nome, ele chamava-se Max Dunn, trocou de nome para Max Taylor, deixou de usar o nome do pai para usar o nome do padrasto. E a verdade é que é um nome que devemos ouvir bastante nos próximos tempos, porque é uma aposta forte do Manchester United para o futuro.
E Bruno Roseiro, o teu joker é Dmitri Nazarov, por dois motivos.
Por dois motivos, sendo que, ponto prévio, isto devia ser uma carta fora, porque aquilo que ele fez não se deve fazer. Mas ele é jogador do RSB Birge-Aue, que é uma equipa da Segunda Liga alemã, que já tinha estado em destaque antes da competição por ter colocado todos os jogadores do plantel em quarentena por haver um caso positivo de Covid-19. O Nazarov corre agora o risco de ser castigado pela forma como celebrou no empate com o Nuremberg, ao saltar para o colo do motorista da equipa nos festejos. Mas está a haver já uma vaga para que não exista esse castigo, porque no fundo aquilo que ele fez foi o toque de normalidade que o futebol hoje não tem. E por quê? Festejou da forma mais espontânea possível com o motorista do autocarro, que na véspera tinha evitado que toda a equipa tivesse um acidente grave, porque um carro acabou por passar quase por cima do autocarro e ele conseguiu numa manobra evitar males maiores para a equipa. E apesar de ser proibido, eu diria que isto é a reação mais espontânea possível. É normal que isto aconteça no futebol, que nesta altura tem tudo menos normal.
Dmitri Nazarov no limite entre o joker ou a carta fora, mas quem está mesmo fora é a Liga Portuguesa de Futebol, Bruno.
Sim, porque numa altura em que o futebol tem, sobretudo, de estar junto para este regresso à competição, tem de voltar a jogar, tem de poder acabar a temporada, não só para agarrar a tábua de salvação, que é o dinheiro das transmissões, mas também porque o futebol necessita de ser um exemplo para a sociedade neste regresso que nós estamos a ter à normalidade. Aquilo que se tem vindo a assistir é mais uma semana de guerras, de disputas regionais, sobretudo entre Marítima e Nacional, de acusações, uma campanha muito estruturada para fazer cair o presidente da Liga e nada do que tem acontecido tem sido por acaso, é bom que se diga. E portanto, tudo isto era dispensável numa altura onde aquilo que o futebol tem de fazer é de dar o exemplo e todas estas questões da Liga podiam ser feitas depois de julho, depois de ter acabado o campeonato, numa altura onde já estivéssemos mais normalizados enquanto sociedade também.
Depois da carta fora da Liga, Mariana, tu trazes alguns dos jogadores do Sevilha para esta carta fora.
Sim, vários jogadores do Sevilha, nesse caso o Ocampos, o Banega, o Franco Vázquez e o Luuk de Jong, esqueceram-se, na verdade, de todas as recomendações que existem, não só por parte da Liga Espanhola, mas também quase todas as ligas a nível de protocolo. Decidiram juntar-se num almoço com famílias, com amigos, também com algum álcool à mistura, o que não ajudou. Uma fotografia acabou por chegar às redes sociais, das redes sociais passou então para a comunicação social, fez até capa do jornal A Marca. E a verdade é que este grupo de jogadores teve de vir a público pedir desculpa pelo erro, numa fase onde o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez já anunciou o regresso do futebol para 8 de junho, onde a Liga Espanhola aponta para o dia 11, mas ainda existe alguma incerteza. Incerteza essa que é engrossada por situações como esta e, na verdade, deve existir algum receio entre os jogadores e neste regresso ao futebol, numa altura em que as coisas parecem estar um bocadinho mais calmas em Espanha, mas onde ainda existe algum medo por parte dos jogadores.
E agora seguimos para o túnel. Bruno, eleições do Futebol Clube do Porto já com nomes a mexerem a sério nesta altura.
Sim, são eleições que mexem a sério e Pinto da Costa percebeu isso. Não é propriamente que tenha uma questão de receio em não ser eleito, mas percebeu que nesta altura e na atual conjuntura-
Começa a juntar os amigos e alguns eventuais adversários.
Se fizesse isso, eu diria que é a tática do Luís Filipe Vieira.
É por aí.
Não quer esquecer a forma como José Eduardo Dinis integrou a lista dele e, de facto, com o tempo acabou por provar-se que foi a melhor opção para o Benfica, porque cada um no seu departamento e com a sua área, fez com que o clube andasse para frente. Neste caso, parece-me que pela atual conjuntura, Pinto da Costa percebe que é importante que os resultados sejam convincentes para acabar de vez com alguma contestação que tem existido no Futebol Clube do Porto, não tanto a nível desportivo e de gestão, mas sobretudo no aspecto mais econômico-financeiro e olhando também não só para a questão do fair play financeiro, mas também para os resultados do primeiro semestre da SAD do Futebol Clube do Porto. Mas Pinto da Costa tem aqui esta semana dois atos que simbolizam muito. Por um lado, abriu um site da sua candidatura, o que é a primeira vez que acontece, apesar de já estar há quase 40 anos na presidência, porque nunca tinha acontecido antes um cenário destes onde tinha de enfrentar um adversário, portanto, obrigatoriamente tem de levar este ato eleitoral um pouco mais a sério. Por outro, chamar Vítor Baía para a vice-presidência da direção, que me parece, pelas informações que fomos recolhendo, que deverá ser um primeiro passo para ir também para a SAD, representa não só uma mudança de paradigma no futebol com alguém que é um antigo capitão, um antigo campeão do Futebol Clube do Porto, mas também pode significar uma garantia de que existe alguém já perfilado para a presidência pós Pinto da Costa, na lista de Pinto da Costa. E isso também me parece ser um sinal importante nesta altura.
Vítor Baía, que houve uma altura que era apontado a uma candidatura como futuro presidente.
Também, e confirmou isso, que iria ser alguém importante para o Futebol Clube do Porto, curiosamente numa entrevista à Rádio Observador ao final da tarde, à Ana Filipe e ao João Alexandre. Agora, ele diz que é um dos dias mais felizes da vida dele, entrando para a vice-presidência do Futebol Clube do Porto, em caso de eleição de Pinto da Costa.
Mariana Fernandes, vamos agora para o lado das modalidades que atravessam tempos difíceis. Aqui o corte nas modalidades que foi já assumido pelo Benfica e que poderá acontecer também nos restantes clubes grandes.
Poderá e vai acontecer, quase com toda a certeza. Portanto, o Benfica acabou por ser apenas o primeiro clube dos grandes, digamos assim, a assumir esse corte que irá fazer ao nível das modalidades, um corte que será então transversal a todos os clubes, mas que funciona um bocadinho como um exemplo daquilo que irá acontecer daqui para a frente em tudo o que não seja futebol nos clubes. Ora as receitas dos clubes vêm de grande parte das quotizações, portanto, da máquina do futebol, dos bilhetes de época que são comprados logo no início das temporadas. A verdade é que ainda ninguém sabe ao certo se existirá ou não público, tanto nas modalidades como no futebol no próximo ano. Existindo, quantas pessoas podem ir a um pavilhão, também quantas pessoas podem ir a um estádio. Portanto, a verdade é que todos os orçamentos de todos os clubes estão a ser reajustados, o que pode, por um lado, baixar um pouco o nível de competitividade médio, obviamente, principalmente numa altura em que estes clubes e os clubes chamados grandes estavam a investir bastante nas modalidades, mas pode também levar a uma maior aposta na formação, se, claro, não existir esse orçamento para ir lá fora, para ir ao estrangeiro, para contratar jogadores, a formação terá de ser a grande base de sustentação destas equipas nesta altura.
Bruno Roseiro, para um minuto, vamos falar da entrevista de Frederico Varandas ao Canal 11.
Que não correu bem. Ou seja, no sábado, aquela reportagem que sai no New York Times, com o presidente do Sporting acaba por ser uma imagem positiva, não só da própria figura de Frederico Varandas enquanto presidente, mas também do próprio Sporting. E de recordar que há não muito tempo, sensivelmente há dois anos, o Sporting era sobretudo falado lá fora pelas piores notícias, pelas piores razões, depois do ataque a Alcochete. Eu diria que esta entrevista a Frederico Varandas veio confirmar tudo aquilo que os opositores do atual presidente do Sporting têm vindo a dizer em relação à falta de projeto desportivo, a uma série de erros que acabam por ser confirmados. E eu diria que aquela entrevista acaba por ter uma ideia-chave que mostra como nem tudo vai bem no Sporting. Quando existe a necessidade de o presidente do Sporting dizer que um jogador que ainda não fez um único minuto na equipa sénior, de um jogador que já estava no Sporting no sub-23 e, portanto, que havia a obrigatoriedade de o conhecer, que a partir do momento em que Frederico Varandas o viu a treinar nos séniores, não tem dúvidas que Matheus Nunes, que é um médio brasileiro, vai pagar o investimento de Rúben Amorim, é um erro por dois lados. Primeiro, mostra que pelos vistos não o conhecia ou não sabia ser tão bom no sub-23. Por outro, está a colocar um peso completamente desnecessário de um miúdo de 21 anos, que ainda não fez nenhum minuto pela equipa principal, que pode, de facto, ter um futuro promissor na equipa, mas que nesta altura será sempre avaliado como o jogador que um dia vai pelo menos valer 10 milhões de euros.
Muito bem, na segunda parte deste programa junta-se a nós Pedro Martins, treinador português no Olympiacos.
Chamo-me Rita Porto e sou jornalista da secção de sociedade. Trabalho os temas de saúde no Observador e posso dizer que estamos a acompanhar o surto do novo coronavírus desde o primeiro dia. Ainda ninguém imaginava que se iria tornar uma pandemia e que em tão pouco tempo chegaria a Portugal. E aqui estamos, o Observador a informar, a explicar, a dar-lhe conta da evolução do coronavírus minuto a minuto. É isto que fazemos todos os dias, a toda hora, com rapidez, mas sempre com clareza e rigor para lhe fazer chegar a melhor informação. Estamos sempre ao seu lado e agora precisamos que esteja do nosso lado. Se quer juntar-se à nossa missão de serviço público, torne-se assinante do Observador.
Segunda parte do Nem Tudo Que Vai a Rede é Bola, junta-se agora a nós Pedro Martins, treinador português, está no Olympiacos. Antes de mais, obrigado por estar aqui na Rádio Observador. Pedro, como é que está a situação na Grécia? Como é que tem sido este regresso aos treinos dentro desta espécie de nova normalidade que agora está a apanhar também o futebol?
Antes de mais, agradecer o convite e dar um abraço a todos vocês em Portugal inteiro. Dentro da normalidade, aliás, o que se passa na Grécia, passa-se também em Portugal. Eu neste tempo estive sempre cá, no entanto, tenho acompanhado constantemente aquilo que se passa no nosso país. E, grosso modo, aquilo que tem passado na Grécia, passa-se exatamente mesmo em Portugal. Embora, no início, o governo grego, desde início, muito cedo, impôs restrições muito sérias desde o recomeço desta pandemia. Fecharam-se as escolas mais cedo, os jogos também sem público mais cedo, viagens mais cedo. Enfim, houve algumas situações em que houve, de facto, um acentuado e medidas adicionais muito mais recentes do que aquelas que se passaram em Portugal, mas estamos a falar aqui de dois, três, quatro dias, não mais do que isso.
O Olympiacos foi também um dos primeiros clubes que entrou na agenda, digamos assim, deste novo coronavírus, pelo teste positivo ao presidente. Depois a equipa entrou logo de quarentena, fez os testes, deu logo negativo. Aquilo que eu gostava de recuperar era, naquela altura sabia-se muito pouco do que era esta Covid-19, o que era o novo coronavírus, como é que se podia passar. Aquilo que eu lhe perguntava é: o que se recorda dessa altura, pensando que, de facto, a informação era muito pouca?
Eu acho que continuamos a saber pouco, porque todos os dias somos invadidos com novas informações sobre o próprio vírus e nós próprios estamos a nos adaptar a novas circunstâncias que não estávamos habituados. E este vírus foi uma grande lição para todos nós, porque temos sempre a impressão que somos responsáveis e temos o controle do que são as nossas vidas. Isto veio nos provar que isso não é verdade. Aconteceu com o presidente, é um fato, mas a equipa esteve sempre muito estável. Quando o presidente deu conhecimento, ele praticamente não tínhamos visto em 15 dias. Aconteceu isso no Arsenal em que estivemos com ele e depois não mais estivemos com ele. E nesses 15 dias não houve ninguém que tivesse sintomas de gripes e, portanto, passou um bocadinho ao lado. De início, a equipa, alguns jogadores, não todos, mas alguns mais sensíveis, mais preocupados. Depois que nós fizemos os testes e deram negativo, ficaram todos mais tranquilos, como é evidente. Mas também estamos a falar aqui num espaço de meia dúzia de horas, porque foi esse momento em que enquanto fizemos teste, o conhecimento, fizemos teste e o reconhecimento do resultado dos testes, foi um espaço muito reduzido.
E quando começou a ver os outros campeonatos a parar, as competições europeias também a parar, temeu que tivesse acabado ali a possibilidade de sangrar campeão com uma eventual suspensão ou anulação de toda a temporada?
Bem, antes de mais, devo dizer que o Olympiacos ainda não é campeão. Vamos entrar agora no playoff. Mas também devo dizer, se o campeonato terminasse naquela altura, eu acho que não passaria na cabeça de ninguém se não atribuíssem o campeonato Olympiacos. Fruto dos pontos e porque foi dos poucos países, campeonatos do mundo em que toda a gente jogou entre toda a gente. Houve uma fase regular em que toda a gente teve a oportunidade de jogar entre toda a gente. Não temíamos isso. Não tememos. Aliás, o Olympiacos é dos clubes que quer continuar a competição, porque temos muita coisa em jogo, não só um título, mas acima de tudo o prestígio e a honra de termos esta profissão. E eu acho que rapidamente a sociedade tem que reorganizar-se, tem que se agitar e tem que procurar novas alternativas, porque o futuro próximo vai ser muito complicado pra toda a gente. E o futebol tem que ser um exemplo nesse sentido.
Depois daquela vitória no prolongamento contra o Arsenal, que foi um dos pontos altos da época, teve também aquele primeiro jogo com o Wolverhampton, dos oitavos da Liga Europa, já à porta fechada. Aquilo que eu lhe perguntava era, já tendo passado por essa experiência, como é que é fazer um jogo à porta fechada, o que altera? E já agora, com as tua ambições também, agora para o resto da Liga Europa.
Era a terceira experiência, porque houve aqui alguns problemas, o que é normal no contexto grego, e nós tivemos dois jogos antes à porta fechada no Karascalais. Portanto, nós já tínhamos algum hábito e algumas rotinas. Mas é altamente desolador. Não é desmotivante, mas é desolador. Não se vive o jogo da mesma forma, não tendo público. O público está como os jogadores para o futebol. Sem um e o outro, não tem a mesma essência. E ponto. É desolador.
Existem aqui várias possibilidades, já foram levantadas várias possibilidades para a conclusão das competições europeias, como jogos só uma mão ou toda a competição que ainda falta concentrada em duas ou três semanas. Existe aqui algum formato que considere ideal ou mais exequível para terminar as competições?
No contexto grego, eu acho que não vamos ter problemas. O campeonato no contexto grego na Liga Europa, provavelmente. Aliás, eu tenho a noção e tenho algumas informações que a partir do jogo do Wolverhampton, os quartos, as meias e a final vão ser disputados sensivelmente no mesmo local. Pelo menos os quartos e as meias vão ser disputados na mesma cidade. E eu acho que é imperioso, porque há um menor desgaste e estamos a falar em jogos dos quartos-final numa semana, não estamos a falar em 10 dias, em 15 dias. Estamos a falar em jogos a serem jogados à quarta e ao domingo e as meias-finais logo a seguir. E portanto, faz todo sentido elas serem comprimidas desta forma e também é uma forma de controlar situações em que os jogadores ou os profissionais sejam expostos à presença do vírus e, portanto, também é um bom controle e são medidas que são bem-vindas. Aliás, não sei se é uma confidência ou não, inclusivamente a própria UEFA está a pensar em que haja a possibilidade de haver uma pequena porcentagem de adeptos a observar os jogos, a estarem nesses jogos.
É o tal um quinto, se calhar, do estádio.
Exatamente. Ainda não está definido e eles não sabem qual é o valor percentual de espectadores, mas pelo menos já é um bom indicador.
Durante esta pandemia, houve também uma série de decisões extra futebol na Grécia, umas a ver com o Olympiacos, outras a ver com o PAOK. Entretanto, surgiram também notícias dos presidentes do Olympiacos e do PAOK que não se acertavam por causa do regresso à competição. Aquilo que eu lhe perguntava era, e recuperando também um pouquinho aquilo que estava a dizer, já ter jogado duas vezes à porta fechada antes do jogo com o Wolverhampton, se essa situação, de certa forma, mexe com a preparação de uma equipa ou se pelo fato de já ser recorrente, acaba por passar completamente ao lado?
Não, passa-nos ao lado completamente. É recorrente e faz parte da cultura. Também não difere muito do que aquela existe em Portugal.
Eu ia me atirar para aí.
Os presidentes e os profissionais estão sempre à parte.
Mas pelo menos há aí uma diferença que, por exemplo, o presidente do PAOK, pelo menos entrou com uma arma dentro de campo. Pelo menos só aí já é um pouquinho diferente em relação a Portugal, apesar de tudo.
Sim, há extremos, como é evidente. Portugal e a Grécia nesse aspecto levam as situações a vários extremos. Inclusivamente os clubes visitantes nos jogos grandes de grande rivalidade, nenhum adepto vai ao estádio ver a sua equipa a jogar fora. Ninguém. Porque de facto é extremamente perigoso. Não vamos a esse limite em Portugal. E portanto, há algumas diferenças, mas no que concerne à rivalidade entre clubes, ela é muito idêntica àquela que existe em Portugal.
A verdade é que no meio disto tudo, a grande parte dos campeonatos já voltaram aos treinos e o Carlos Carvalhal, treinador do Rio Ave, disse, por exemplo, numa entrevista ao Guardian, que dar treinos com estas condições e com tantas limitações acaba também por ser um desafio para os treinadores. E também já vimos na Bundesliga, onde já começou o futebol, que os jogos têm o ritmo um pouquinho mais baixo nesta fase, com mais lesões do que o normal. Este é mesmo um desafio mais difícil também para os treinadores e não só para os jogadores, como se tem falado?
É um desafio, mas eu não acho que também seja um desafio acentuado. Nós tivemos que nos preparar, é um facto. Muito sinceramente, tenho algumas reservas. Como é que a minha equipa vai se apresentar, por exemplo, no início em jogos amigáveis, como é que vamos reagir? É um facto, esta é a incerteza. Os jogadores sem ritmo competitivo de um momento para outro estarem a fazer jogos de 90 minutos, o que não é fácil. Não implementamos aqui o princípio da adaptação, o que é extremamente perigoso e por isso é que nós temos dados na Alemanha, porque praticamente os jogadores em três semanas já estão a fazer jogos de 90 minutos e que não é fácil. E por isso é que continuam a ser jogos de pré-época, embora no contexto de campeonato, mas não deixam de ser isso mesmo, porque não há hipótese de contornar tudo isso. E os treinadores têm que se adaptar, toda a gente. Aliás, nós, inclusivamente, no Olympiacos, toda a estrutura teve que se adaptar a uma nova realidade. Desde a chegada dos jogadores até o momento em que se vão embora São totalmente diferentes do que era antes do COVID. Portanto, há aqui uma adaptação. Na minha opinião, é tudo só uma questão de rotinas.
O Pedro, entretanto, renovou contrato com o Olympiacos. Aquilo que eu lhe perguntava era se o principal objetivo é recuperar a hegemonia na Grécia ou se existe também uma outra perspectiva em termos europeus de poder fazer campanhas mais longas na Europa, nomeadamente na Liga Europa ou na Liga dos Campeões, por exemplo.
Aquilo que me foi pedido, como é evidente, e foi pedido pelo presidente, era que rapidamente o Olympiacos recuperasse o título e que a equipa do maior clube na Grécia recuperasse rapidamente o título. Isso foi pedido. Outro fator, e eu acho que nós conseguimos, é que recuperamos também o prestígio do Olympiacos na Europa. E não estou só a falar deste ano, já no ano passado tivemos jogadas de grande qualidade, grande mérito, inclusivamente a eliminação do próprio AC Milan foi também um momento alto na vida do clube em termos europeus. E este ano as coisas felizmente estão a correr bem e nós queremos continuar nesta prova, sabendo que o Wolverhampton é uma equipa muito bem orientada pelo Nuno, excelentes jogadores, um adversário difícil, mas que nós temos também ambições de chegar mais à frente.
O Pedro e o Olympiacos perderam Podence já no mercado de janeiro para o Wolverhampton, mas ainda têm outros portugueses no plantel, como é o caso do Rúben Semedo. Queria perguntar-lhe como é que foi trabalhar com o Rúben nesta quase segunda vida que ele teve no futebol, em que chegou até a ser convocado para a Seleção Nacional depois de tudo aquilo que aconteceu.
O Rúben tem um grande comportamento, tem estado muito bem, tem feito uma época muito positiva, daí ser chamado pelo selecionador. Continua a trabalhar, está bem, está motivado. Estou feliz, porque o Rúben está a demonstrar aquilo que sempre muita gente perspetivava sobre ele, que ele de facto fosse um dos grandes centrais de nível europeu e está a trabalhar para isso, está a caminhar para isso.
O Olympiacos, como grande parte das equipes, também vive muito à base do mercado de transferências, como é óbvio. Ou seja, quem se destaca mais, é mais cobiçado por equipes maiores. Existe também sempre uma questão de prospecção e recrutamento que está sempre ativo. Aquilo que eu lhe perguntava era como é que desenha este mercado de transferências e quais são as dificuldades de um treinador no próximo mercado de transferências para montar um plantel, tendo em conta que tudo aponta que a realidade será, de facto, completamente diferente?
Isso é uma boa questão, mas eu devo dizer que quando eu cheguei ao Olympiacos em 2018 e que me foi pedido uma grande reestruturação no plantel, eu acho que os problemas que eu tinha na altura eram muito superiores àqueles que neste momento estamos a viver, porque o plantel está formado. Basicamente, mesmo havendo alterações na próxima época, estamos a falar grosso modo de 10% do plantel, não é significativo, mas vai ter que se adaptar. No entanto, nós estamos habituados com mercado muito extenso. Provavelmente este vai ser maior. Provavelmente não vamos assistir a grandes contratações avultadas. Provavelmente numa primeira fase, os clubes ainda vão se adaptar também a uma nova realidade, mas eu penso que dentro de meses as coisas vão voltar à normalidade. E para mim, como eu disse, o mercado em 2018 ou o mercado que normalmente em Portugal eu estava habituado, quando nós fazíamos boas épocas e vendíamos jogadores, tínhamos que reformular novamente os plantéis. Aqui, nesta altura e da forma como está o Olympiacos, não vamos ter grandes oscilações no plantel.
A verdade é que os treinadores portugueses estão cada vez mais cotados. Só aqui nesta conversa temos o Pedro, já falámos também de Nuno Espírito Santo, também temos Villas-Boas, por exemplo, em França, Mourinho em Inglaterra, e têm também cada vez mais procura no estrangeiro. Aquilo que eu lhe perguntava era se acha que a médio-
Nós temos tantos, e o Jorge e o Vítor.
Exatamente. Aquilo que eu lhe perguntava-
Enfim, temos tanta gente, felizmente.
Aquilo que eu lhe perguntava, Pedro, era se acha que a médio prazo a sua carreira vai passar mais pelo exterior e pelo estrangeiro ou se admite voltar a breve prazo para Portugal?
Não sei. Não gosto de fazer muitas previsões sobre como é que vai ser a minha carreira. Acredito que ela vai ser ascendente. Da forma como eu trabalho e patamar a patamar, acredito que ela vai ter ascendência, mas muito sinceramente, não acredito que vá passar por Portugal nos próximos tempos.
Só para acabar, e olhando agora também um pouquinho fora de futebol, a Grécia anunciou agora uma série de medidas já de confinamento, também um pouco à semelhança do que tem acontecido em Portugal. Existe uma preocupação clara em relação ao turismo, que é uma das grandes fontes de receita do país. Aquilo que lhe perguntava era, em relação aos clubes de futebol, se também já se nota uma preocupação crescente, como existe, por exemplo, cá em Portugal, em relação à parte económica e ao impacto que a pandemia poderá ter.
Em termos económicos, sim, claramente. Muita gente está preocupada e há reuniões no sentido de haver algumas alterações relativamente à parte financeira dos clubes, mesmo esta parte que está para acabar. E o que eu acho é que, por exemplo, eu não vejo na Grécia, de facto, um planeamento para esta fase. Um planeamento de como é que vamos proteger os profissionais de todas as situações, como é que se vai fazer os testes, em que momentos, em que alturas, quem é que os faz, como é que vamos proteger os profissionais em autocarros onde há uma maior proximidade social e onde está praticamente toda a gente no mesmo local ou nos hotéis. É isto que ainda não tenho informação dos profissionais do planeamento da Liga ou da Federação, então muito menos da Federação, darem respostas com a realidade, com as necessidades que os profissionais necessitam ter também, porque também precisam ter esse conforto e essa confiança para voltar às competições. Isso eu não encontro, não vejo em Portugal nesse aspeto dar passos significativos.
Muito obrigado Pedro Martins. Final de jogo, apito final neste "Nem tudo o que vai arder é bola". Daqui a pouco em observador.pt já pode ouvir este programa em podcast. Até já.