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O mundial e o calor. Só problemas. O mundial está a trazer muitos problemas este ano também.

Primeiro mundo.

Porque eu não tenho desgraça.

É isso mesmo. Temperaturas máximas superiores aos 30 graus, mas com níveis de umidade acima dos 80. Uma dificuldade quando se exige um esforço físico muito alto. A FIFA criou medidas para combater o calor, sobretudo em Miami, no Texas e no norte do México. A medida com maior impacto, que quem viu os jogos já percebeu, é a introdução das famosas pausas de hidratação em cada parte dos jogos, com três minutos. São pausas obrigatórias, independentemente da temperatura. Há quem considere que algumas equipas estão a aproveitar isto para uma espécie de truques, mas a verdade é que esta pausa já vimos que foi introduzida no último mundial, que também aconteceu num país muito propenso à competição, à atividade física intensa, que foi no Catar.

Com clima muito temperado.

Com clima muito temperado. E aí as alterações foram maiores. No Catar, as datas habituais do Campeonato do Mundo até foram alteradas, passaram do verão para os meses de novembro e de dezembro, mas nesse ano, em 2022, apesar de tudo, houve um esforço de adaptação diferente, feito com maior antecedência, porque foram construídos estádios de raiz equipados com tecnologias de arrefecimento, quer para os espetadores, quer para os jogadores. No caso deste campeonato mundial, só três estádios têm o ar-condicionado instalado, os de Atlanta, Houston e Dallas. Há quem diga que é pouco. Uma das questões que também se coloca é o que é que acontece fisicamente aos jogadores que estão expostos a estas condições. Um artigo do Observador falou com Rui Silva, médico especialista em medicina física e de reabilitação. Ele explica que quando aumenta a temperatura e a umidade, o corpo tem logo alterações grandes, como a frequência cardíaca, que aumenta, e o consumo de glicogênio. Ou seja, o corpo entra num nível a que não está habituado. É um trabalho excessivo, com enorme impacto muscular, que pode aumentar a frequência de espasmos musculares e de cãibras, uma maior fadiga. E depois, expressões, Paulo, que tu conheces bem, como um carrinho, o timing do carrinho ou o momento em que o avançado sabe que pode rematar à baliza. Este tipo de reações acaba por ficar limitado.

Carrinho é quando eles deslizam.

Sim, muito bem.

Há aquela brincadeira que é ficar nas pernas de um e ele vai com as mãos a fazer carrinho.

Eu sei mais desse.

A Joana faz isto todas as manhãs aqui.

Para simular a circulação.

Só para termos uma ideia, o nível de perda d'água de um atleta num jogo pode ser de três a quatro quilos, só para perceberem o que pode compensar.

Mas há jogos e jogos. No jogo de Portugal.

O que é que foi?

No jogo de Portugal, eu acho que eles gastaram menos calorias do que numa partida de xadrez, por exemplo. Que aí ainda há muita atividade cerebral.

Mas perde-se calorias a jogar xadrez.

É isso mesmo. Numa partida de xadrez perderam mais calorias do que os jogadores portugueses.

Provavelmente.

Eu cada vez que olhava, eles estavam ao passo e eu ia era no centro, quase.

Mas se calhar tinha a ver com isso. Pode explicar.

Conselho do médico.

É isso mesmo. Vamos ver como é que isto corre a seguir. Eu registei aqui neste artigo também uma declaração do antigo responsável médico da seleção, Henrique Jones. Ele fala deste tempo de aclimatização às novas condições da temperatura e da umidade. E ele diz aqui uma coisa, atentem para o que vai acontecer a seguir com a seleção portuguesa: "Posso responder com a minha experiência de quatro campeonatos do mundo, que sempre que Portugal jogou o mundial fora da Europa, os resultados foram maus".

Isso basta olhar para a história.

Sim, mas há aqui um padrão. Ele encontrou que correram mal por causa disso. E uma das causas, diz ele, pode ser os tempos prolongados de estágio antes da competição, precisamente neste trabalho de se aclimatarem às novas condições. Ele diz que isto muitas vezes traz uma saturação psicológica e rotinas demasiado intensas.

Talvez tenha sido por isso que fomos a última seleção a ir para os Estados Unidos. Mas é histórico. Aliás, os melhores resultados da seleção portuguesa nos mundiais foram precisamente na Inglaterra e na Alemanha, em 1966 e em 2006.

Quem diria, foi uma espécie de jogar em casa.

Para além da questão geográfica, é muito referida a dificuldade de Portugal quando joga contra seleções de outros continentes. Mesmo que à partida sejam mais fracas, basta lembrar com os Estados Unidos, com Marrocos, em 1986 e também no último mundial, algumas dificuldades quando jogam contra equipas de outros continentes.

É interessante também olhar para esse padrão agora.

Não é muito animador.

Não é, mas agora, até porque Portugal já participou em mais campeonatos do mundo.

Aliás, não é só com Portugal. A única equipa campeã do mundo num continente, fora do seu continente, a primeira foi a Espanha, em 2010, e agora no Catar, também a Argentina acabou por ganhar fora do continente. O Brasil já tinha ganho também em 1958, mas a primeira seleção europeia, creio, que a ganhar fora do continente foi precisamente a Espanha, que ganhou na África do Sul.

Ora bem. É para pensarmos nestas coisas todas. O futebol não é só paixão, Paulo.

Não é só paixão.

É também muito sofrimento e muita racionalidade.

Sobretudo racionalidade. Eu gosto muito da racionalidade do futebol.

É uma caixinha de surpresas, como tu dizias ontem.

É uma caixinha de surpresas. E onde é que nós vemos isso tudo? Através da televisão, muitas vezes. E isso está a mudar também. A entrada da LiveModeTV, neste caso em Portugal, uma experiência que já vem do Brasil, está a abalar o mercado audiovisual e promete ser o início, provavelmente, de uma nova fase na transmissão de grandes eventos, neste caso, desportivos. O sistema estreou-se em Portugal agora, está a transmitir 34 jogos do Mundial de Futebol. Supera mesmo, em número de jogos, aquilo que são os transmitidos pelas cadeias tradicionais, pela RTP, SIC e TVI, que vão transmitir um cimatório de 20. Este é um sistema que tem raízes no Brasil, um formato inaugurado por lá, a CaseTV, e é um modelo de negócio que disponibiliza, neste caso, desporto através do YouTube, de forma absolutamente gratuita. Não depende de subscrições ou de pagamentos. E o foco, diz a marca, está na relação que vai criando com o público, na criação de uma comunidade e depois, ao longo do tempo, na monetização desses seguidores todos com outras marcas. No fundo, é um modelo de negócio também dos influenciadores e dos mídia de uma forma tradicionais. E o impacto em Portugal já se nota, já há números de quarta-feira, do jogo de Portugal com o Congo. O canal, antes de mais, este canal do YouTube, o LiveModeTV, nessa altura ultrapassou a fasquia dos 500 mil subscritores, portanto, pessoas que passaram a subscrever o canal, mas tiveram mais de 1 milhão e meio de visualizações durante o jogo. Em termos comparativos, a SIC, que transmitiu o jogo em canal aberto, chegou a 4,8 milhões de espetadores. Ou seja, se nós somarmos aqui seis milhões e pouco de pessoas que viram o jogo, um quarto, cerca de 25% da fatia, já foram através do LiveModeTV e do YouTube. A entrada está, obviamente, a gerar reações duras no setor. Alega-se que a FIFA viu neste projeto um bom instrumento na fase de negociação dos direitos com as televisões para fazer preços mais altos, tipo, se vocês não pagam este preço, haverá quem pague, nomeadamente a LiveModeTV. A FIFA, na negociação em Portugal, exigia €430 mil para a transmissão televisiva de cada jogo do Mundial. São dos direitos mais caros, obviamente, também geram mais audiência. E já há marcas associadas a estas transmissões. Em Portugal, temos o BPI, a Coca-Cola, os Laboratórios Vichy, a EDP, a BWI, a Betclic, a SAGS e a McDonald's, que são patrocinadores desta transmissão. E os resultados que vêm do Brasil também ilustram o potencial do projeto. É a primeira vez em mais de 20 anos que os direitos totais do Mundial do Brasil não estão nas mãos dos canais tradicionais de televisão. A CaseTV garantiu a transmissão do Brasil de todos os 104 jogos. E, por exemplo, o jogo de estreia de Portugal no Mundial foi unicamente transmitido precisamente lá no Brasil pela CaseTV. Portanto, está aqui uma mini revolução em curso também no negócio tradicional da televisão, que é um negócio, sobretudo sinal aberto, cada vez mais dependente dos grandes eventos, nomeadamente dos grandes eventos desportivos, e sobretudo o apelo a audiências mais jovens. Há aqui uma linguagem também, não sei se vocês já viram, a abordagem é completamente mais descontraída.

Quase sem filtros. Para não dizer que é mesmo sem filtros.

Muita interação com redes sociais e, portanto, a apelar, a piscar o olho claramente a formas de consumo audiovisual de gerações mais novas.