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E de fato, Bruno, não se fala de outra coisa.
Não se fala de outra coisa. Não é só na imprensa, é também na imprensa, mas é nas redes sociais. Eu diria que também nos cafés, em todo lado, nas ruas. Mais uma vez Joana Marques no olho do furacão, aqui a propósito de um episódio da rubrica "Extremamente Desagradável" da Rádio Renascença.
Se calhar a seguir vai lançar um solo no Melóreina.
Vamos ver. Tudo é possível. Para já, muitas reações ao conteúdo desta rubrica e deste episódio, em que o alvo foi a atriz Mafalda Matos, uma pessoa que se identifica como autista, está no espectro do autismo e que tem falado muito sobre essa condição nas suas redes sociais. Joana Marques, também como é costume, gosta muito de olhar com atenção para algumas declarações que figuras públicas ou semipúblicas fazem nas suas redes sociais. E então resolveu escrutinar ou esmiuçar estas declarações de Mafalda Matos num episódio que teve o título de "Mafalda e os Amigos Neurodivergentes". Houve aqui muitas reações, de um lado pessoas a criticar o suposto bullying de Joana Marques. Também já não é uma novidade. Sabemos que quando Joana Marques ataca alguém ou escolhe alguém como alvo do seu programa, estas acusações repetem-se, que está a fazer bullying, que não é humor. E aqui, nas críticas à humorista, destaca-se o fato de estar a atacar alguém que sofre de uma doença, de uma condição como o autismo, porque há muitas pessoas que só são diagnosticadas em idade adulta, como foi o caso, aparentemente, desta atriz Mafalda Matos, que terá tido um diagnóstico tardio e que a ajudou, segundo a própria, a compreender também muitos dos comportamentos e das situações por que passou ao longo da vida. Portanto, haverá muitas pessoas que se identificam com aquilo que aconteceu com a atriz, que não tinham explicação para muitos comportamentos e que depois um diagnóstico feito já em idade adulta ajudou também a compreender. E o que é que acontece aqui? Muitas destas pessoas acabam por reorganizar os seus círculos sociais.
Sim, começam a compreender-se melhor.
A compreender-se melhor e também leva a conviverem com pessoas que partilham desta experiência. E eu creio que aqui o alvo de Joana Marques foi mesmo esta ideia de transformar esta identidade numa espécie de comunidade fechada, em que tudo o que se faz agora tem que ver com essa identidade e com essa condição. Isto gerou logo uma reação da própria atriz, Mafalda Matos.
Uma reação forte.
Uma reação forte, muito emotiva nas redes sociais. E claro, depois isso não parou.
Muito claro.
Passou das críticas.
E a discussão parece-me que continua a ser sobre os limites do humor, não é?
Sobre os limites do humor, sobre se se deve eleger aqui como alvo pessoas que de alguma forma têm fragilidades. Nós temos ouvido também Joana Marques ao longo do tempo dizer que pretende, de alguma forma aqui, desmascarar ou expor pessoas que são vaidosas e que se apresentam umas como bruxas.
Explora o ridículo. Se uma condição destas é suposto ser ridícula.
Pronto.
Ou pelo menos a noção de ridículo que cada um de nós tem, que é diferente.
Pois, lá está.
Porque as pessoas que supostamente têm o seu ridículo exposto, para elas próprias não estão a ser ridículas.
Claro.
É isso.
O ridículo pode ser um tipo que usa óculos e é o caixa de óculos.
Sim, claro.
Qualquer coisa serve.
A noção do ridículo, do que é que pode ser, do que é que deve ser ridicularizável, até com quem todos. Porque todos nós, com determinadas figuras, somos tentados a concordar que são ridículas. E aí não haverá grande problema, porque há uma espécie de unanimidade que no fundo defende.
Que nunca é unânime.
Que nunca é.
Claro, mas é mais ou menos.
Pode ser largamente majoritária.
Sim, e aqui neste caso, parece que já há uma divisão muito acentuada. Nós vimos no caso dos anjos, também houve pessoas a defender os anjos.
Houve, mas menos. Parece-me que havia uma maior unanimidade do que em relação a este caso. Não tenho visto nas redes sociais.
Mas também houve isso pra refutar aquilo que estavas a dizer, porque nunca há uma unanimidade.
Têm características diferentes os dois casos.
E têm. E aqui, o fato de se falar de uma doença, de uma condição, e uma condição que muitas pessoas vivem, não só na primeira pessoa, mas também com familiares, até com crianças, com os filhos. Levanta outras questões, também sensibiliza as pessoas de uma forma diferente para este tema e para a forma como olham aquilo que veem como um ataque a estas pessoas. É uma situação diferente e que já motivou queixas na ERC.
Então vamos ter uma segunda volta por aí, que é a decisão da ERC.
Ainda falta isso.
Deixa-me trazer um caso, e que foi a nossa colega Patrícia Oliveira que mandou mensagem recordando o programa do Bruno Nogueira, "Tabu", em que fazia humor com condições físicas variadas.
Mas envolvia as pessoas.
Envolvia as pessoas.
Envolvia as pessoas.
Havia uma concordância das pessoas, dos visados. Isso faz a diferença.
Daquelas pessoas que estavam ali. Atenção.
E aqui eu creio que a crítica da Joana Marques, claro que isto é humor, mas também comporta uma parte crítica social, é um pouco este aproveitamento, ou que ela vê como aproveitamento de certas condições, até para autopromoção.
Não é um combate ao preconceito que o Bruno Nogueira, no fundo, também queria fazer.
Exatamente. Eu acho que aqui ela orientou muito o programa para isso. Há pessoas que depois são diagnosticadas mais tarde, não são bem. É quase como se fosse: são autistas, mas não são bem, são uma forma menor de autismo e que depois se aproveitam dessa condição para autopromoção. Eu acho que esse era o alvo da Joana Marques. Claro que há pessoas que não veem as coisas dessa forma. Lá está, uma por se sentirem também incluídas nesse grupo, outras por conhecimento de casos semelhantes ou parecidos e se sentirem também atacadas. Para já, já chegou à ERC, como dizias, Paulo, agora vai ser interessante ver qual será a reação.
A ERC, se seguir aquilo que fez, por exemplo, com a análise de entrevistas do José Rodrigues dos Santos, vai ensinar a Joana Marques a fazer algo que não deve fazer.
O que deve ou não dizer. Enfim, não se fala de outra coisa e vai continuar a não se falar de outras coisas durante algum tempo.
Ainda no "não se fala de outra coisa", deixar só aqui a nota que o site "O Observador" tem, pela pena de António Moura dos Santos, um "rest in peace" a Glenn Ansert, o músico irlandês que morreu ontem. De resto, um dia com muitas mortes no mundo da música. O Kavinsky, um DJ francês que esteve em destaque, por exemplo, na cerimônia de encerramento dos últimos Jogos Olímpicos, também ontem morreu em Paris. O Glenn Ansert parece que tocou mais no coração dos portugueses, porque veio a Portugal algumas vezes.
Eu vi uma fotografia dele em Chaves.
Sim. Ele era muito amigo do Valter Lobo, um cantor português que faz programação também em algumas casas de espetáculos e que programou o Glenn Ansert. O Valter Lobo chegou a estar em palco várias vezes com o Glenn Ansert. É um irlandês da rua, pode-se dizer, aquelas figuras que conseguem ganhar um Oscar, mas depois nunca deixam de ter aquele lado de tipo porreiro que vai ao café contigo beber uma cerveja. Neste caso, seria uma Guinness. Não sei se ele gosta de Guinness ou não, mas sendo irlandês. E ele, ainda por cima, tem uma morte trágica, um acidente de moto nos arredores de Dublin. Tira a vida um cantor que toda gente parece dizer que era um tipo igual a nós e não uma grande estrela, apesar da sua carreira o poder fazer como tal, como uma grande estrela. Fica também um bocadinho assoberbado, porque depois isto é a nossa bolha. O teu feed.
Claro.
Claro.
As pessoas que conheces, claro.
As pessoas que eu conheço e as publicações que eu sigo, mesmo algumas que eu não imaginei que pudessem conhecer ou gostar de Glenn Ansert, todas fizeram um elogio ou tinham uma história com o Glenn Ansert. Não é uma grande estrela internacional, apesar de ter vencido um Oscar de melhor canção que fez para o filme "Once", em 2007. Ele já tinha participado também num outro filme alguns anos antes, em que fazia precisamente de um músico irlandês, o filme "Os Commitments", do Alan Park. É um filme bem jeitoso. Ele era muito novo nesta altura. Teve os The Frames, mas a carreira a solo também é digna. Fica aí o elogio e também o artigo do António Moura dos Santos a propósito de Glenn Ansert, que está em observador.pt.