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Paulo Ferreira, não se fala de outra coisa. Do quê?

Tanto se diz sobre o assunto. Não se diz, mas vai-se dizer, acho eu, porque esta é daquelas que pode dar série na Netflix ou outra plataforma qualquer. Imaginem um plano dos Estados Unidos para desviar o avião onde Nicolás Maduro, o presidente venezuelano, se faz transportar. O avião presidencial esteve em cima da mesa.

Espera, Paulo. Tentativas de interferência do governo norte-americano na América do Sul, na América Latina.

É uma coisa nova, nunca aconteceu.

Que estranho! Não, isso é uma ciência-ficção.

Nunca aconteceu. Aquilo nunca foi o quintal das traseiras dos Estados Unidos. Não esquecer, há aqui um contexto jurídico, vale o que vale, mas é que Nicolás Maduro está acusado de narcotráfico, ou pelo menos de promover o narcotráfico, se não me engano, desde 2020. Há mandados internacionais e é um pouco esse contexto. Pelo menos é uma boa justificação para isso. A história está contada na Associated Press, portanto, tem selo de qualidade, verificação de fonte, se quisermos, não é fake news. E a operação foi conduzida por um agente federal, começou em abril de 2024, durante o mandato de Joe Biden ainda, atenção, ainda a meio ano das eleições que reelegeram Trump. Acabou por fracassar a operação, sabemos agora, depois de meses de contatos secretos, mensagens codificadas e várias tentativas falhadas de persuasão. Ora bem, o plano começou a desenhar-se quando um informador contactou a embaixada norte-americana na República Dominicana a dizer que havia dois aviões utilizados por Maduro, dois Falcon, se quisermos, e por outros altos dirigentes venezuelanos, que estavam estacionados, a ser reparados, em manutenção, precisamente num aeroporto da República Dominicana. Eram dois jatos de luxo e segundo as autoridades americanas, esta manutenção até violava as sanções impostas pelo Departamento do Tesouro. Mas foi neste contexto que Edwin López, um agente que trabalhava na embaixada dos Estados Unidos, precisamente na República Dominicana, viu aqui uma oportunidade para tentar apanhar Nicolás Maduro. O agente federal convenceu as autoridades dominicanas a permitir que ele interrogasse os pilotos venezuelanos enviados por Caracas para tentarem recuperar as aeronaves. E no hangar do aeroporto, um a um, os militares venezuelanos lá foram chamados a uma sala de reuniões para uma conversa e o encontro decisivo foi com Bitner Villegas, coronel da Força Aérea, no fundo, é o piloto número um de Nicolás Maduro. López, o agente americano, fingiu não saber quem ele era, começou a conversa gravada com temas banais, a carreira militar do piloto, as personalidades que ele já tinha transportado, os modelos de aviões que pilotava, etc. Após alguns minutos, López foi direto ao assunto e perguntou se Villegas já tinha pilotado, transportado Hugo Chávez ou Nicolás Maduro, e o militar acabou por admitir que sim, vaidoso, até mostrou fotografias dele próprio com os dois presidentes venezuelanos. E no final, López fez-lhe a proposta: se ele transportasse Maduro secretamente para um local controlado pelos Estados Unidos, por exemplo, a própria República Dominicana, Porto Rico ou ainda a Baía de Guantánamo, em Cuba, ele podia tornar-se um homem muito rico e seria visto como o herói da Venezuela. A oferta em cima da mesa era de 50 milhões de dólares ao piloto que, no fundo, desviasse o avião. Com Maduro lá dentro, claro.

A América paga a traidores, não só paga a traidores, como incentiva, promove os traidores.

Promove, exatamente. Villegas, o piloto, manteve-se em silêncio, mas deu ao agente americano o seu número de telefone antes de sair. A partir daí, seguiram-se meses de trocas de mensagens através do WhatsApp e do Telegram. López chegou a enviar textos apelando a Villegas que ficasse do lado certo da história e que aproveitasse a recompensa dos 50 milhões de dólares, mas o piloto, porém, não respondeu e em setembro deste ano, 2025, perante uma nova tentativa, ele reagiu e escreveu: "Os venezuelanos são feitos de outra madeira. A última coisa que somos é traidores." Respondeu ele, segundo a reconstrução dos factos feita pela Associated Press. Depois bloqueou o número do agente americano. A história ficou por aqui. Já houve depois uma ida deste piloto à televisão, daqueles programas da meia-televisão venezuelana, com o punho erguido, depois de aparecer uma mensagem também no X de um agente da CIA norte-americano a dar os parabéns a este piloto, no fundo, uma tentativa de dizer que havia uma cumplicidade do piloto com as autoridades americanas. Portanto, tudo acabou na mesma, não há traidores neste caso e Maduro continua a governar a Venezuela.

Eu imagino, eu se fosse o piloto, eu diria a meio da viagem que tinha de fazer uma aterragem de emergência na República Dominicana. Isto dava uma ótima série da Netflix. Falando de coisas ainda na América Latina, mas muito mais graves. E reais. E que estão a acontecer. Reais no sentido de que estão a acontecer. Está a acontecer neste momento, não são planos.

Pensei que ias dizer que a minha história não era real.

Não. A tua vai dar tal série. A tua história supera a realidade. E esta também, por maus motivos, supera a realidade. Estou a falar da megaoperação policial no Rio de Janeiro, de combate ao narcotráfico. Já morreram mais de 130 pessoas, quatro polícias morreram nesta megaoperação que se realizou na terça-feira nos complexos do Almão e da Penha, na zona Norte do Rio de Janeiro. E as imagens que vamos vendo São surreais. Ninguém consegue imaginar. Estamos a falar de um país que não está em guerra, mas pelos vistos aquela zona em particular da cidade do Rio de Janeiro é uma zona de guerra neste momento. Os corpos das vítimas foram dispostos na praça de um dos complexos para identificação pelos familiares. Muitos dos corpos estavam em tronco nu para que se pudesse identificar através de sinais e de tatuagens, por exemplo. E claro, tem havido muitas reações. Já ouvimos no noticiário as reações do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, mas a ONG do Brasil e que atuam nesta área, dizem que há provas de execuções sumárias, de tortura também de alguns destes homens, quase todos homens, porque também terá havido algumas mortes de civis, de pessoas que não estavam envolvidas, moradores nesta área e que acabaram por ser apanhados pelo tiroteio. É uma situação que vai continuar a ser desenvolvida. Vamos perceber o alcance disto, também quem é que deu a ordem para esta operação, que havia mandados de detenção de alguns dos elementos, os cabecilhas destas redes de narcotráfico, mas estamos a falar de um patamar de violência e de brutalidade completamente inaudito, mesmo no Brasil, mesmo na história do Brasil, que teve outros momentos ali nos anos 90 de ações policiais, por exemplo, na prisão de Carandiru, que resultaram também em mais de 100 mortos. Mas a este nível, com esta dimensão, nunca se viu. Vamos perceber nos próximos dias também o que se passou e o que ainda vai acontecer.