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Não se fala de outra coisa de uma funcionária que foi despedida por chegar mais cedo ao trabalho. É que não foi uma vez, não foram duas, foram várias vezes, não se sabe.
E o que fazia nesse tempo em que chegava?
Ser pontual e assíduo é uma daquelas coisas que aprendemos na escola primária? Não sei.
Em casa, até se calhar antes.
Pois, talvez sim.
Sim, mas os horários.
Sim, respeitar horários. Mas parece que no mundo do trabalho chegar mais cedo pode não ser sempre bom. Pelo menos foi assim numa empresa espanhola. Uma funcionária foi demitida por justa causa por chegar repetidamente 40 minutos mais cedo ao trabalho, mesmo depois do chefe insistir que parasse. Ela tem 22 anos, foi avisada pela primeira vez em 2023 para que entrasse nas instalações à hora marcada, mas continuou a não cumprir as ordens.
Não aguentava? Era mais forte do que ela.
Queria trabalhar.
Vontade. É como nós aqui.
Sim, acabamos por chegar antes das 17h. Ela foi avisada muitas vezes, através de avisos verbais, escritos. O turno começava às 7h30 da manhã e a mulher aparecia com frequência entre as 06h45 e as 07h00.
Inadmissível.
Foi despedida então por falta de conduta. Contestou, levou o caso a tribunal, mas a chefia defendeu-se a dizer que a funcionária repetiu 19 vezes a mesma situação. Mas há aqui mais qualquer coisa.
É de um dia ser de qualquer forma.
É, mas há aqui mais qualquer coisa, porque para além da pontualidade excessiva, a funcionária marcou por vezes saída depois de já estar longe do posto de trabalho. Portanto, ela saía mais cedo e marcava o ponto de saída depois, e já tinha vendido uma bateria de um automóvel da empresa sem autorização. Portanto, aqui se calhar não era o chegar cedo.
É uma pessoa com espírito empreendedor.
É isso. Os juízes acabaram por decidir a favor da empresa e sem direito a qualquer compensação.
Isso foi em Espanha, não é?
Foi em Espanha.
Isso faz-me lembrar uma velha anedota da Guerra Fria.
Qual é?
Rapidamente, três soviéticos que se encontram na prisão e chegam à conclusão de que a causa da detenção tinha sido o relógio que eles usavam. O primeiro disse: "O meu relógio andava sempre atrasado, chegava atrasado à empresa, ao emprego, fui despedido imediatamente e preso." Estamos a falar do regime soviético. O outro: "O meu andava sempre adiantado. Eu chegava meia hora sempre antes de mais, fui acusado de espionagem a favor do Ocidente." Foi preso também. O último disse: "O meu problema também foi o relógio. O meu relógio era impecavelmente exato e certo. Fui acusado de usar tecnologia ocidental." Lembrei-me agora do que foi tido por espionagem. Foi o que eu me lembrei.
Como ela. Sim, chegou mais cedo.
Também desconfiou que ela andasse à procura de segredos empresariais.
É verdade. Por falar em Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética, vamos até lá agora a propósito do assassinato do realizador Rob Reiner e da mulher, que foram encontrados mortos em casa, já sabemos, na noite de domingo. O filho de ambos, um homem de 32 anos, está detido pela suspeita do homicídio dos pais. Há suspeitas de problemas relacionados com toxicodependência deste suspeito também. As reações de lamento e de consternação não se fizeram esperar, sucederam-se, mas adivinhem quem é que obviamente reagiu de forma a causar uma grande polêmica e de forma, no mínimo, desagradável.
Já estou a revirar os olhos.
Já estás a revirar os olhos. Donald Trump, obviamente, na sua rede social, a Truth.
Ele não consegue, é mais forte do que ele.
Não consegue, é mais forte. E é tudo sobre ele. Portanto, associou a morte de Reiner às críticas que o realizador tinha feito à sua administração. Parece que é raro haver realizadores, então na área de Hollywood e da cultura americana, que estejam contra Trump. Na mensagem que escreveu, Trump começou por dizer: "Aconteceu uma coisa muito triste no domingo em Los Angeles." Daquilo que parecia uma normal mensagem de condolências, mas que rapidamente se transformou numa coisa desagradável. Disse que o realizador era atormentado e estava em dificuldades. Diz que Reiner faleceu, e citamos: "Faleceu juntamente com a sua esposa, Michelle, alegadamente devido à raiva que causou aos outros através da sua enorme, inflexível e incurável aflição com uma doença mental incapacitante, conhecida como Síndrome de Desequilíbrio de Trump." Continua o presidente americano: "Ele era conhecido por deixar as pessoas loucas com a sua obsessão furiosa pelo presidente Donald J. Trump, com a sua paranoia óbvia a atingir novos patamares à medida que a administração Trump superava todas as metas e expectativas de grandeza e com a idade de ouro da América a chegar, talvez como nunca antes."
Está com os dois dedos no ar. Com esse gesto de mostrar. Faz sentido.
Parece que foi assim que o Donald Trump escreveu isto, com os dois dedos.
Exato, com os indicadores.
O pau está a ficar cor-de-laranja. E o cabelo alourado.
É que nós já nos habituamos a esta coisa.
Falta-te pintar cabelo e tudo.
Vamos lá ver. Se calhar aqui há uns 15 anos, 20 anos, seria completamente inimaginável ter um presidente dos Estados Unidos a reagir à morte de alguém, quem quer que fosse, com um texto desta natureza.
Claro.
Mas com o Trump, tornou-se normal.
No limite, ficas em silêncio.
Em silêncio. O mínimo de pudor.
Se não tens nada a dizer, está calado.
Não digas. Fica calado.
Fica em silêncio.
Ainda por cima o conhecendo, claro que ele conhece os pormenores, pelo menos alguns detalhes desta situação.
Mas é mais forte do que ele. Houveram várias críticas a esta reação de Trump do campo republicano. A congressista Marjorie Taylor Greene veio dizer que esta é uma tragédia familiar, não tem nada a ver com política ou inimigos políticos.
Agora também é sensata, a Marjorie. Agora também se zangou com o Trump.
Zangou-se com ele.
Também descobriu a sensatez.
A grande questão é essa. Depois houve outro congressista, o Thomas Massie, que considerou os comentários de Trump inadequados e desrespeitosos perante um homem que foi brutalmente assassinado. Enfim, Trump já respondeu a isto também. Disse que não era fã de Rob Reiner de forma alguma, porque achava que ele era muito ruim para o nosso país. E assim andamos, de facto. Nossa ベ ス ト .