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Vamos às notícias . Jornal das 11 na Rádio Observador, edição do André Maia. André, começamos com a Operação Marquês. José Sócrates já teve de pagar custas judiciais de quase 17 mil € mas recusa revelar como.

O Tribunal Constitucional confirma que este valor já foi pago. Falamos da prestação de um serviço público de justiça nos processos judiciais em tribunal. Contatado pelo Observador, José Sócrates recusou responder como é que pagou este valor de quase 17 mil €. Diz que não quer partilhar a vida privada com estranhos. Está conosco em estúdio, neste Jornal das 11, o redator principal do Observador, Luís Rosa. Luís, bem-vindo mais uma vez. Pergunto, para começar, como é que chegamos a estes valores de 17 mil €.

O valor exato é 16.746,60 €. A informação, como acabaste de dizer, é uma informação oficial do Tribunal Constitucional. Não é um cálculo que o Observador tenha feito, foi um cálculo feito pela Secretaria Judicial do Tribunal Constitucional. Isso é muito importante para começar. É um valor que é muito elevado. Estamos a falar de cerca de 10 recursos que levou ao pagamento destas taxas. As taxas de justiça do Tribunal Constitucional são muito elevadas, são variáveis, dependem muito do que os juízes decidirem em termos de pagamento de unidades de conta e, por exemplo, José Sócrates chega a pagar em cinco recursos que perdeu, José Sócrates perdeu todos os recursos no Tribunal Constitucional, chega a ser condenado a pagar mais de 2 mil € por cada um dos recursos que perdeu. São valores muito significativos. Há processos em que as taxas de justiça são ainda mais elevadas.

Luís, o único rendimento que é conhecido de José Sócrates é uma subvenção vitalícia de 2.300 € brutos. O ex-primeiro-ministro, como disse, recusa responder como é que está a pagar estas custas judiciais. Pergunto por quê? Porque também ficamos aqui sem saber se tem outros rendimentos.

Esta é uma questão que é levantada. Atenção que o José Sócrates tem todo o direito a não responder ao Observador, obviamente, não é obrigado a responder. Nós somos obrigados a contactá-lo e exercer o contraditório, e foi isso que fizemos. O José Sócrates entendeu não responder e está no seu direito. O que é que isto levanta aqui? Levanta uma questão que no que diz respeito a José Sócrates é recorrente. Nós começamos por ter uma espécie de verdade absoluta no espaço público que o José Sócrates era milionário, tinha uma herança, era rico. Aliás, essa história até levou o próprio José Sócrates, que foi o governo de José Sócrates que acabou com a subvenção vitalícia. E o José Sócrates, para dar um exemplo, porque era rico, entendeu que não iria receber esta subvenção vitalícia. Aparentemente, deixou de ser rico e em 2016 passou a receber esta subvenção vitalícia. Isto estou só a constatar. Estamos a constatar factos, sem nenhum sarcasmo, nem nenhuma ironia.

Certo.

É uma constatação de facto. Isso põe em causa também a credibilidade do próprio José Sócrates, daquilo que diz no espaço público, porque é alvo de escrutínio. E o que isso levanta? Neste momento, sabemos, isto é uma informação oficial da Caixa Geral de Aposentações, é uma listagem que também é pública, é uma informação pública, José Sócrates continua a receber esta subvenção vitalícia. Isso quer dizer que não está a receber nenhum rendimento privado acima desse valor.

Certo.

Porque ele pode receber num trabalho privado, simplesmente abaixo de determinado valor. Se ultrapassar a subvenção vitalícia, deixa de poder receber a subvenção vitalícia. Como está a receber a subvenção vitalícia e neste momento que se saiba, o José Sócrates não quer esclarecer isso, este é o único rendimento, levanta-se aqui a questão: é que, por exemplo, em 2021, o José Sócrates foi condenado e só teve que pagar isto em 2022, atenção, que só teve que pagar em 2022, foi condenado a pagar 2.754 €. Isto suplanta a subvenção vitalícia, que tem o valor de 2.372 €, que é um valor bruto, não é um valor líquido, ou seja, ainda tem que ter descontos. Como é que o José Sócrates pagou estas taxas de justiça? Com outras taxas de justiça, novamente em 2022, outro processo também foi condenado a 2.754 € e 2.550. Levanta-se esta questão: como é que José Sócrates paga estas custas judiciais? Porque a litigância de José Sócrates tem duas questões, que é: em primeiro lugar, o acesso privilegiado ao direito. Ou seja, eu tenho dito isto várias vezes no espaço público, não há mais nenhum português que beneficie tanto da administração da justiça como o José Sócrates. O José Sócrates litiga, tem uma litigância até o infinito e mais além, está constantemente a recorrer, constantemente a reclamar, constantemente a criar incidentes processuais. A administração da justiça já pôs um travão nisso, aplicando o artigo 660 do Código de Processo Penal contra as manobras dilatórias, mas há aqui um acesso privilegiado ao direito, em que a administração da justiça está a dizer: "Stop, parou. Isto não pode acontecer". Isto devia levar a uma indignação até da própria Ordem dos Advogados, até da própria sociedade, porque mais nenhum português consegue recorrer tanto como o José Sócrates. Isso é um ponto. O outro ponto é: como é que o José Sócrates consegue pagar esta litigância? Não só em termos de custo de taxa de justiça, porque não nos podemos esquecer que o José Sócrates, além destes quase 17 mil € que já pagou, tem de pagar também cerca de mais de 15 mil € de taxa de justiça dos outros processos dos tribunais judiciais, porque Tribunal de Primeira Instância, Tribunal de Relação e Supremo Tribunal de Justiça são tribunais judiciais, o Tribunal Constitucional não é um tribunal judicial, está acima da estrutura judicial, e essas taxas de justiça só se pagam a final, ou seja, depois do trânsito em julgado de uma decisão final. Mas como o Tribunal de Relação de Lisboa aplicou o artigo 660 do Código de Processo Civil, também decidiu que o José Sócrates tem que pagar essas taxas de justiça agora. Como é que o José Sócrates vai pagar esses 15 mil €? É importante saber isso. Mas o advogado e as taxas de justiça? É porque não é só Pedro Dalila que está aqui a trabalhar. É impossível haver só Pedro Dalila a trabalhar para esta litigância extraordinária que José Sócrates tem. E quando é entrevistado, ignora a matéria e não pode ignorar. Resumindo e concluindo, este trabalho levanta aqui uma questão

Que é o pagamento das taxas de justiça, o pagamento destes serviços de advocacia, que isto é muito caro. Ter um advogado constantemente a litigar custa muito dinheiro. Eu não acredito que Pedro delito trabalhe pro bono. Não acredito, todo em todo. Os advogados recebem à hora. E portanto, isto é muito caro. Como é que José Sócrates paga estas questões? Como é que financia a sua defesa? Eu acho que é uma questão que merece ser problematizada em termos de espaço público. E em segundo lugar, o acesso privilegiado que José Sócrates tem ao direito e que não pode continuar a acontecer e a administração da justiça, aparentemente, também decidiu no mesmo sentido.

São questões que continuam no ar. Obrigado, Luís Rosa, redator principal do Observador, aqui na análise a esta notícia que faz manchete do nosso site esta hora, no site do Observador, em observador.pt. José Sócrates já teve de pagar custas judiciais de quase 17 mil euros só no Tribunal Constitucional. Recusa revelar como está a pagar estes valores.

Na atualidade política, o PSD quer todos os candidatos autárquicos aprovados até março e admite apoiar independentes.

Estes princípios estão expressos no documento Orientação Estratégica para as Autárquicas a que a Agência Lusa teve acesso. O documento reitera o objetivo do PSD se tornar a força política mais representativa do país nas eleições autárquicas. O PSD quer que todos os candidatos autárquicos estejam homologados até o fim do primeiro trimestre do próximo ano, ou seja, até o mês de março. Abre a porta a apoiar candidaturas independentes e, nos municípios maiores, fixa uma concertação obrigatória com a direção nacional. De acordo com os estatutos do PSD, cabe às distritais do partido aprovar as listas de candidaturas aos órgãos das autarquias locais, sob proposta da Comissão Política da Secção.

E ainda na política, André, destaque para o 22º Congresso do PCP, que estamos a acompanhar ao longo desta manhã. Os trabalhos foram retomados esta manhã e mais logo vai ser eleita a nova composição do Comitê Central.

A próxima direção do PCP vai ser eleita ao final da tarde, numa votação à porta fechada e por voto eletrónico. Deve resultar num Comitê Central com menos membros, mas mais jovem e com mais mulheres. O 22º Congresso do PCP começou ontem em Almada, decorre durante todo o fim de semana. Inês Batista, o primeiro dia ficou marcado pelas questões internas e pelos avisos sobre o futuro do PCP.

Aqui estamos, camaradas, no ano em que se comemoram os 50 anos do 25 de abril, no ano em que o nosso partido faz 103 anos, cá estamos nós, com muita alegria e uma grande confiança, contrariando os vaticínios negativos.

Pela voz de António Lopes, o 22º Congresso do PCP arranca com o Comitê Central a avisar que não vai ceder a vaticínios negativos. A mensagem é deixada quando falta menos de um ano para as próximas eleições autárquicas, que acontecem com 11 presidentes de Câmara eleitos pelo partido em fim de ciclo, mas também depois da perda de autarquias comunistas na última ida às urnas. O secretário-geral Paulo Raimundo começa o discurso por reconhecer um momento difícil para o PCP ao falar da ofensiva ideológica que prejudica o partido.

É um facto que ofensiva ideológica sempre houve. A grande diferença dos dias de hoje é a sua dimensão, meios e instrumentos ao seu serviço. Intensificam-se à escala global os mecanismos de condicionamento e controle ideológico, ancorados em gigantescos grupos económicos que controlam os meios de comunicação e as redes digitais e procuram impor o pensamento único e iludir a natureza do capitalismo.

Vasco Cardoso, membro do Comitê Central, aponta que foram discutidas antes do congresso as próprias insuficiências e dificuldades internas, mas garante que foram rejeitados fatalismos quanto ao presente e futuro do partido e, em vez disso, foram apontados caminhos a seguir.

Um debate no qual estiveram presentes os perigos e as ameaças, a grande desigualdade de meios na luta que travamos, as nossas próprias insuficiências e dificuldades, mas em que se rejeitaram visões fatalistas ou conceções criticistas e se apontaram caminhos e possibilidades de intervenção.

O primeiro dia de Congresso do PCP foi marcado também por críticas de Raimundo, direcionadas ao governo, por estar em sintonia com o Chega e Iniciativa Liberal, que identifica como forças reacionárias, e à cumplicidade do Partido Socialista. Houve espaço ainda para um olhar para o mundo, com críticas à União Europeia e aos Estados Unidos, e também apelos à paz. A partir do púlpito, vários pedidos para que sejam recrutados novos militantes para o PCP, que perdeu 2 mil membros nos últimos quatro anos.

A jornalista Inês Batista com o resumo do primeiro dia de Congresso do PCP, reunião magna dos comunistas, decorre até amanhã em Almada.

E André Maia, a Rádio Observador está a acompanhar este 22º Congresso do PCP, a par e passo, com entrevistas, análise e comentário.

Recuperamos, por isso, alguns dos destaques até agora desta reunião magna dos comunistas. Em entrevista à Rádio Observador, Bernardino Soares critica Gouveia e Melo, afirma que fala demais enquanto chefe do Estado Maior da Armada. O antigo presidente da Câmara de Loures considera que Gouveia e Melo não tem uma posição correta para quem está em funções militares.

É talvez o chefe militar, eu pelo menos não me lembro de outro, que mais entrevistas, declarações, depoimentos tem dado. Ele às vezes diz, como agora disse há uns dias, que está em função militar e não fala, mas está sempre a falar. E portanto, eu acho que há aqui, de facto, um posicionamento que não me parece o mais correto.

Declarações de Bernardino Soares no Direto ao Assunto da Rádio Observador de ontem. O ex-autarca deixou ainda críticas ao PS. Acusa Pedro Nuno Santos de ter dado a mão à direita por ter viabilizado o Orçamento do Estado e ter permitido que o Chega e a Iniciativa Liberal cresçam como oposição ao governo de Luís Montenegro.

E ontem a Rádio Observador entrevistou também o eurodeputado do PCP, João Oliveira. Defende que as presidenciais não se podem tornar numa feira de vaidades.

Também no Direto ao Assunto, João Oliveira adianta que o PCP vai apoiar um candidato que apresente as competências necessárias e considera que não é a popularidade que define o melhor candidato a Belém.

Podemos admitir que a disputa presidencial seja uma fogueira de vaidades para saber quem é o mais popular entre os 10 milhões de portugueses para ser o seu presidente. E isso, naturalmente, tem um conteúdo concreto. O presidente da República tem uma atuação

Um âmbito de actuação, uma esfera de atuação identificada na Constituição da República Portuguesa que não faz do cargo de Presidente da República um cargo de pouco importância. Essa circunstância é o que tem determinado a nossa opção, termos candidatos que deem expressão àquela que é a nossa visão do exercício dessas competências.

Agora o deputado do PCP, João Oliveira, no Direto ao Assunto da Rádio Observador, afirma ainda que o partido tem responsabilidade pelos resultados das legislativas. Voltamos agora em direto ao Congresso do PCP em Almada para uma análise a estes destaques. Vamos a um trio de Miguéis: Miguel Vitor Dias, o nosso repórter parlamentar, também Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador, e ainda o Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política. Vamos a uma ronda de comentário e análise, porque Miguel Vitor Dias, como seria de esperar, os desafios relacionados com as questões internas, mas também as eleições autárquicas e presidenciais estão a marcar esta reunião. Momento de definição do ciclo político que está pela frente para o PCP e para os partidos em Portugal, num momento de pausa no Congresso, 30 minutos de interrupção dos trabalhos depois do arranque neste sábado, o segundo dia da reunião magna. E como referiste, comigo tenho o Miguel Pinheiro e o Miguel Santos Carrapatoso. Miguel Pinheiro, este arranque de Congresso no dia de ontem tem servido para o PCP fazer uma catarse sobre aquilo que está mal e, por outro lado, afirmar a autonomia estratégica à esquerda e recusar opor o PS em sentido?

Sim, mas parece-me que o clima está mais para o primeiro ponto do que para o segundo. Acho que há aqui muito pessimismo. O discurso de Paulo Raimundo ontem pareceu-me muito de preparação dos militantes para tempos difíceis. Aliás, ele disse mais do que uma vez que os tempos eram difíceis, que era preciso ter paciência, que isto ia demorar a virar. Sim, há um outro ponto que poderia ser o de dizer: "Bem, o PS encostou-se à direita e por isso nós podemos aparecer como a verdadeira e única esquerda." Esse podia ser um objetivo tático agora do PCP. Mas eu não vejo o partido a conseguir fazer isso. Ou seja, eu vejo mais um lamento pela posição do PS do que um regozijo. Mesmo nós ouvindo nas entrevistas ao Observador, João Oliveira, Bernardino Soares, eu não os vejo a ver isto como uma oportunidade. Penso que foi o Bernardino Soares que disse: "O PS, ao ter viabilizado o orçamento do governo, permitiu ao Chega e à Iniciativa Liberal aparecerem como oposição", em vez de dizer: "Permitiram-nos a nós". Para eles, o facto de o PS ter viabilizado o orçamento foi bom para a direita. Em vez de ver aí uma oportunidade para o PCP, pela esquerda, conseguir ganhar eleitores. O Observador publicou um artigo aqui há umas semanas em que explicava o pessimismo, o receio que existe no PCP em relação às eleições autárquicas, por causa do Chega, precisamente.

São 19 autarquias, 11 autarcas em final de ciclo.

Em final de ciclo e o Chega a crescer nas áreas tradicionais do PCP. Acho que há ali um receio de que haja um furacão Chega que traga um grande problema para o PCP. Seria a terceira eleição com resultados dramáticos. Nas europeias, o partido até chegou a recear nem sequer ter nenhum eurodeputado, conseguiu ter João Oliveira. Nas autárquicas, se de repente o mito da força do PCP nas autárquicas desaparece. A maneira como eu oiço e ouvi o discurso de Paulo Raimundo foi a preparação para isso. Eu suspeito que o PCP já percebeu que as coisas vão correr muito mal e já está a preparar a militância para isso, para um longo período de refluxo, como diriam os comunistas, refluxo histórico.

Miguel Santos Carrapatoso, falta aqui ou falta neste congresso esta inversão do "ok, já admitimos os erros, agora como é que vamos adotar um discurso positivo e um discurso que nos permita marcar a diferença?" Ou já só pensam mesmo em conter os danos?

Era de se esperar pelo discurso do Paulo Raimundo no encerramento do Congresso, é aí que costuma ser mais voltado para questões concretas, propriamente para um balanço, que foi o que fez no primeiro dia de Congresso. Parece-me que o PCP encontrou um caminho, um caminho que lhe permite dizer: "O PS é o mau da fita, nós somos os verdadeiros campeões da esquerda e se querem, de facto, derrotar o governo de direita, têm de votar em nós". Portanto, é um regresso às origens, um regresso ao pré-geringonça. Esse discurso, como dizia o Miguel, tem limitações. Há a limitação do próprio passado recente. O PCP fez parte de um ciclo de governação de seis anos, se quisermos excluir os dois de maioria absoluta de António Costa, em que muitas das coisas que hoje são problemas reais, sobretudo nos serviços públicos, em tudo que diz respeito ao Estado Social, não foram resolvidas Também por responsabilidade do PCP. Enfim, o partido dirá que não tinha poder suficiente para influenciar o Partido Socialista numa certa direção, mas o PCP é co-responsável por esses seis anos de alianças à esquerda e, portanto, essa é uma limitação evidente. E depois, porque o ciclo político não parece ser muito favorável à afirmação dos partidos mais à esquerda. Vemos que houve uma alteração de dinâmica eleitoral. Temos não só o PSD no poder, e o CDS, naturalmente, mas também 50 deputados do Chega e, portanto, o ciclo não é favorável.

Não é um problema só do PCP, é de toda a esquerda.

Exato, não é um ciclo favorável para a esquerda e depois, a somar a isso, os erros próprios do PCP. A dificuldade de resolver, primeiro, a questão da pandemia, ou de lidar com a questão da pandemia, e agora, mais recentemente, toda a dificuldade em lidar com o drama da guerra da Ucrânia. O PCP também foi vítima, e também tem sido vítima, dos erros próprios que tem cometido. Diria que tem um caminho, o caminho parece mais ou menos sinalizado, e vimos pelas entrevistas de João Oliveira, Bernardinho Soares, pela intervenção de Paulo Raimundo e outras que se foram ouvindo, que de facto, o caminho é voltar às origens e responsabilizar o Partido Socialista pela ausência de uma alternativa à esquerda, vender o PCP como o único garante dessa política patriótica e de esquerda, na expressão do próprio PCP. Mas claro, vai ser um caminho longo, com muitos riscos e que não há um sinal evidente que possa vir a ser bem-sucedido. Sabemos que o PCP é quase uma exceção a nível europeu. Não há muitos outros partidos com as características do Partido Comunista Português de boa saúde por essa Europa fora. Existir com a força de quatro deputados e 19 autarcas já é uma grande exceção. Está, de facto, a atravessar um período difícil, tem um caminho, o caminho é estreito, não sabemos se terá ou não sucesso nessa missão.

Miguel, ia perguntar-te, porque este é o primeiro congresso de Paulo Raimundo como secretário-geral. Ontem, no discurso de abertura, uma intervenção longa, perto de uma hora de intervenção, mas que líder é que temos e como é que o partido também vai acolhendo Paulo Raimundo? Ou seja, está definitivamente virada a página, já ninguém pensa em Jerónimo de Sousa?

O papel dele é difícil, porque Jerónimo de Sousa foi um líder muito marcante. É verdade que quando Jerónimo de Sousa apareceu, também houve avaliações muito céticas sobre aquilo que ele iria fazer, mas a verdade é que era um símbolo de união no partido, ao contrário do que muitas vezes as pessoas pensam olhando para o PCP, porque é um partido fechado. Ainda hoje às 18h vai ser preciso toda a gente sair daqui, fechar todos os equipamentos eletrónicos para a eleição do Comitê Central, mas ao contrário da imagem que isso por vezes passa, o PCP é feito de pessoas e portanto tem muitas divergências. E Jerónimo de Sousa conseguiu manter o partido unido, especialmente na altura da Geringonça e teve esse papel histórico importante. Qual é o papel de Paulo Raimundo? Paulo Raimundo surgiu de surpresa para quem olhava de fora, claro. Houve um salto geracional, Paulo Raimundo é novo, mas as pessoas estavam a olhar para João Oliveira e para João Ferreira, que tiveram e têm uma presença na comunicação social mais presente. O PCP queixa-se muito de não conseguir ter espaço na comunicação social. A verdade é que João Oliveira, João Ferreira, mesmo Bernardinho Soares, vão conseguindo ter esse espaço na comunicação social, mas o partido fez outra escolha. Escolheu alguém que o país não conhece. E claro que isso cria uma dificuldade. Em primeiro lugar, o país tem que passar a conhecer Paulo Raimundo, e isso demora tempo. É verdade que existe uma maior força do coletivo. Aliás, ouvindo aquele discurso, percebia-se que aquele discurso não foi escrito por uma pessoa. Aquilo que nós vemos quando Luís Montenegro discursa, ou é ele que escreve o discurso ou tem um assessor que o ajuda. Este discurso foi escrito por muitas mãos e via-se ali que cada uma dessas várias mãos estava a tentar pôr, por um lado, a sua quinta, por isso é que o discurso teve a potência 50 minutos, porque cada quintinha do PCP tinha que estar ali presente. E acho que o Paulo Raimundo e com o discurso ontem houve esse problema, aquilo não pareceu um discurso genuíno, porque não pareceu ser o discurso dele. Ele estava a ler o discurso de outras pessoas. Acho que faltou ali esse lado que ajudaria Paulo Raimundo a afirmar-se. Depois, realmente, parece-me que ele tem uma visão muito pessimista e eu entendo. O Miguel Santos Carrapato estava a falar de qual o caminho de futuro. Eu acho que realmente o PCP ainda não conseguiu encontrar esse caminho, porque nós temos ouvido aqui várias pessoas a falarem da necessidade de fazer o trabalho do dia a dia junto das pessoas, identificar nas coletividades, nas associações, quais são as pessoas que se destacam e que, portanto, o partido deve tentar ter com elas. Mas há uma coisa típica nas campanhas do PCP que é distribuir Folhetos das fábricas na hora de saída e hora de entrada, hora de mudança de turno. De facto, o país cheio de fábricas e de operários como aqueles que estão no imaginário do PCP, esse país tem diminuído. Se formos olhar para os últimos anos, à esquerda, quem melhor apanhou, por exemplo, um novo problema, que é o da precariedade e o problema dos baixos salários em trabalhadores mais jovens, quem melhor apanhou esse discurso foi o Bloco de Esquerda. O PCP não conseguiu apanhar esse discurso. Em termos simbólicos, as pessoas pensam sempre na questão dos distribuidores do Uber. Tem sido uma questão importante em Portugal e lá fora. São trabalhadores ou são colaboradores? E o Bloco de Esquerda apanhou muito bem essa onda da precariedade e, de facto, o PCP continuou concentrado nas pessoas que têm emprego, cujo emprego é um emprego proletário, e em melhorar essas condições de vida. Não conseguiu alargar o leque de temas de que fala e, portanto, não conseguiu alargar o leque de eleitores potenciais, deixando esse espaço em aberto pro Bloco de Esquerda. E isso continua aqui. Há um problema que vem da teoria, esta preocupação que vamos ver aqui no Comitê Central de ter o número de operários ou de dirigentes com base operária que estão no Comitê Central. O PCP não consegue sair disto, porque tem que aplicar a teoria marxista e ao mesmo tempo, o mundo já é um bocadinho diferente. O PCP continua a organizar o mundo em operários intelectuais. É a outra grande categoria do Comitê Central e tem dificuldade em encaixar as pessoas que escapam a essa divisão teórica do mundo. Isso depois é um problema na prática, como estamos a ver.

Miguel Santos Campadoso, pra fechar esta questão de Paulo Raimundo, é um líder que também ainda procura afirmar-se e ganhar mediatismo pro país, mesmo que internamente a questão esteja bem resolvida?

Obviamente. De facto, a escolha de Paulo Raimundo, na altura, surpreendeu muito. Mas visto a esta distância, consegue-se perceber pelo menos o objetivo. E o objetivo era ter alguém com um perfil muito idêntico ao de Jerónimo de Sousa, quem teve a oportunidade de travar algum conhecimento com Paulo Raimundo, percebe que é uma pessoa afável, de bom trato, popular entre os militantes do partido, mas também para fora. Consegue-se perceber o perfil do escolhido. Agora, o problema da visibilidade e da naturalidade mantém-se, agravou-se porque Paulo Raimundo já é secretário-geral do partido há algum tempo e mesmo assim continua sem ter uma grande imagem pública ou uma grande agenda política, uma agenda identificável até. E depois tem o desafio, que não é um desafio, será sempre uma vantagem para o partido, mas uma desvantagem pra afirmação da sua liderança, que é ter figuras como Bernardino Soares, mas também João Ferreira e João Oliveira, que têm anos de exposição mediática e política que lhes permitem ser facilmente reconhecidos na rua e serem entrevistados facilmente e terem o interesse também da comunicação social. Paulo Raimundo tem essa dificuldade, mas eu acho que não se esgota na personalidade de Paulo Raimundo, nem na escolha de Paulo Raimundo. Jerónimo de Sousa era muito popular, muito conhecido pelos militantes do partido, mas também fora do partido gerava simpatia, até por quadros de outros partidos, respeitado diria que por quase todos os partidos, genericamente. E mesmo assim, o declínio do PCP acentuou-se ainda durante a liderança de Jerónimo de Sousa.

Claro, o problema do PCP não é de liderança.

Paulo Raimundo pode não ter sido o líder que conseguiu ou ainda não conseguiu galvanizar e alavancar o PCP, mas eu tenho pra mim que o PCP já está pra lá desse ponto. Ou seja, dificilmente vamos voltar a ter um PCP com a força eleitoral que teve no passado. No passado recente, atenção, não no passado histórico. Será sempre um partido à procura de sobreviver enquanto força capaz de influenciar o Partido Socialista em aproximar-se das bandeiras do PCP. Agora, isso demora tempo, é preciso muito mais do que quatro deputados, é preciso muito mais do que 19 autarcas. Tem de fazer um caminho, um ciclo que será longo, e eu acho que essa é uma nota que se vai percebendo nas conversas com militantes e dirigentes do PCP aqui. Acho que há a percepção que será um ciclo necessariamente longo, que se fará em oposição ao Partido Socialista, sempre, mas que mais à frente poderá dar os seus frutos ou não.

E atenção, sendo que o PCP, e bem, não olha só para o PCP. Há tudo o resto, ou melhor, não é tudo o resto, há mais uma coisa que é a CGTP. E é significativo que o novo líder da CGTP pertence mesmo ao Comitê Central, ao contrário do que acontecia com Isabel Camarinha. Se houvesse alguma dúvida, que não havia.

Dissipa-se agora.

Dissipa-se totalmente. Nós temos assistido a um Há algum agravamento da conflitualidade social nas áreas que o PCP domina, da função pública, através dos sindicatos. Tivemos uma greve na função pública há pouco tempo, vemos as greves nos transportes. O PCP perde no lado político, mas vai fazer tudo para manter a força sindical.

Que é uma base de recrutamento também importante.

Mas a questão é que agora enfrenta uma concorrência que no passado não enfrentava, com o crescimento de movimentos inorgânicos, alguns deles evidentemente associados ao Chega ou alimentados pelo Chega, pelo menos.

Claro, o Chega não conseguiu. André Ventura anunciou a criação de uma grande área sindical no partido. Já todos nos esquecemos disso, mas que foi um enorme fracasso. O Chega está a fazer é, subterraneamente, alimentar e aproveitar estes tais movimentos de que o Miguel falava, que são obviamente um risco para os sindicatos tradicionais. Aliás, como vimos com os sapadores agora quando houve a manifestação em que de repente os sindicatos estavam ali tentando justificar-se e eram quase apontados como sendo cúmplices do governo contra os sapadores. Mas, apesar de tudo, a CGTP, o PCP através da CGTP ainda tem muitíssimo poder, tem uma estrutura organizada que funciona muito bem e claro, vai usar a CGTP para, neste momento em que as coisas não estão a correr bem politicamente, tentar que venha algum oxigênio e que venha algum oxigênio dali. Obviamente, aliás, o PCP sempre fez isso.

Miguel Pinheiro, Miguel Santos Carrapatoso, obrigado pela vossa análise. Estaremos de regresso aqui ao Congresso do PCP daqui a sensivelmente meia hora, também para ouvir algumas das principais intervenções do dia.

Jornalista Miguel Viterbo Dias, a partir de Almada, onde está a decorrer o Congresso do PCP, aqui também com o comentário do Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política, e também do Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador. Voltaremos daqui a alguns minutos novamente até ao Congresso do PCP, que está a ser acompanhado ao minuto no site do Observador.

11 horas e 34 minutos, André Maia, vamos a outras notícias em destaque a esta hora.

Quatro serviços de urgência de ginecologia e obstetrícia e um de pediatria estão fechados este fim de semana. Estão fechados os serviços de urgência de obstetrícia e ginecologia do Hospital Nossa Senhora do Rosário no Barreiro, de Vila Franca de Xira, do Hospital de Santo André em Leiria e ainda no Hospital de Santarém. Já no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, está encerrada uma urgência de pediatria, é o que indica o portal do Serviço Nacional de Saúde. O primeiro-ministro da Coreia do Sul promete que vai fazer de tudo para garantir uma governação estável. Isto depois do Parlamento ter aprovado a destituição do presidente. Em causa está a tentativa de Yoon Suk Yeol de impor a lei marcial, e o que o levou a ser acusado de traição. Cerca de 200 mil pessoas concentraram-se junto ao Parlamento para celebrar o voto a favor da destituição do presidente da Coreia do Sul.

Jornal das 11 com André Maia.