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As notícias com João Lourenço.
Muito boa noite. Estamos no noticiário das duas da manhã e numa altura em que a região de Coimbra, mais de 3500 pessoas estão a ser retiradas de casa devido ao risco de cheias no rio Mondego. Vamos também ao longo da noite acompanhar essas operações com vários autarcas, vários presidentes de juntas de freguesia, numa altura em que a Proteção Civil já deu essa alerta para a retirada, concelhos de Coimbra, Soure e Montemor-o-Velho. Segundo as autoridades, há o risco de arrebentamento de um dos diques do rio Mondego. Por isso, várias freguesias devem ser evacuadas e segundo o comandante sub-regional da Proteção Civil de Coimbra, Carlos Luís Tavares, indica que a principal preocupação das autoridades está na margem esquerda do rio Mondego.
3000 em Coimbra, cerca de 500 no concelho de Soure e cerca de 80 no município de Montemor-o-Velho. Falando aqui na margem esquerda, partindo do princípio que o galgamento ou a rutura do dique pode acontecer à esquerda. Nós não sabemos onde vai acontecer. Como dissemos sempre do início, não há risco zero. E como tal, é uma situação que temos vindo a precaver. Tem sido bem gerida esta cheia, mas efetivamente estamos a atingir limites e como tal não queremos perder ninguém, queremos salvar vidas.
O responsável da Proteção Civil reforça o risco de arrebentamento do dique da margem direita do rio. Carlos Luís Tavares relembra que em 2019, o dique do Mondego precisou de menos água para colapsar.
A partir do Açude Ponte, a obra comporta 2000 metros cúbicos por segundo. Neste momento estão a passar 1800. Já estivemos nos 1850. Dar nota que em 2019 atingimos 2200 e foi aí que arrebentou o dique à direita. Portanto, não queremos correr estes riscos. A acontecer, estarmos de forma preventiva já a atuar.
E as recomendações da Proteção Civil. Já entrevista à RTP a presidente da autarquia de Coimbra, Ana Abrunhosa, avisa para os riscos de arrebentamento do dique do Mondego. Descreve mesmo que se esta situação se confirmar, é semelhante a uma bomba.
Se houver arrebentamento de um dique, então aí não dou estimativas, porque o que está aqui mesmo em causa, o rio Mondego é um rio empazado, é uma obra hidráulica, e neste momento há a probabilidade de haver rutura nessa obra hidráulica, e nós não sabemos aonde. Se houver um arrebentamento, é como uma bomba.
Neste momento, um lar de idosos já foi evacuado e os 34 utentes desta instituição vão pernoitar no Pavilhão Municipal Dr. Mário Cheia. E esta noite demitiu-se a ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral considera que já não tem condições para assumir o cargo. Foi pouco depois das nove da noite que, numa nota no site da presidência, fazia-se saber da interrupção do mandato da ministra. Foram pouco mais de oito meses debaixo de críticas da oposição, que culminam agora numa altura em que o país está a braços com uma crise. Matilde Malva, Sabino.
Maria Lúcia Amaral era provedora da Justiça quando, em junho do ano passado, foi a escolhida por Luís Montenegro. Num cargo que é esperado que lide com situações de crise, Maria Lúcia Amaral enfrentou duas provas de ferro. Primeiro, os incêndios durante o verão de 2025 e agora a destruição provocada pela Depressão Christine. É acusada de ficar em silêncio em momentos complexos. Uma ministra com dificuldades em responder aos jornalistas, como ocorreu, por exemplo, em julho, quando esperou quatro dias para prestar explicações sobre o incêndio em Ponte da Barca. Mas não ficou por aqui. A capacidade de comunicação continuou a ser alvo de fortes críticas. Em agosto, numa conferência de imprensa de apenas cinco minutos, recusou-se a responder a perguntas.
E uma vez mais, em nome de todos, um muito muito obrigado.
Senhora Ministra, podemos fazer uma pergunta, se faz favor?
E ficou por aqui. Há duas semanas, tempestade Christine. Primeiro, a ministra apareceu na sombra de Luís Montenegro e depois na de Marcelo Rebelo de Sousa. Pelo meio, tentou justificar-se.
Há muito trabalho que se faz em contexto de invisibilidade.
No gabinete?
No gabinete.
E sobre o que falhou, não sabe, disse três dias depois.
Não sei o que é que falhou. Não lhe posso dizer exatamente o que é que falhou, porque o sistema é complexo e as entidades coordenadoras do sistema de proteção civil têm tido todo o cuidado de garantir a colaboração entre todos.
Dificuldades de comunicação que marcam a saída da ministra Maria Lúcia Amaral, oito meses depois de assumir a pasta da Administração Interna.
Jornalista Matilde Malva Sabino, com alguns dos momentos que marcaram o percurso de Maria Lúcia Amaral, enquanto ministra da Administração Interna, sai do cargo para ser substituída de forma temporária pelo primeiro-ministro. E o presidente da República diz que entendeu a decisão tomada num contexto particularmente difícil, com o país a lidar com as trágicas consequências do mau tempo das últimas semanas. Aos jornalistas, na cidade de Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa diz que a decisão é para respeitar.
Não vou dizer mais do que isto. Quem tomou a decisão, tomou a decisão, ponderou as circunstâncias, entendeu que não tinha condições pessoais e políticas. É uma situação naturalmente complexa, esta que vivemos nestas últimas semanas e, portanto, perante isso há que respeitar essa vontade da senhora ministra. E o senhor primeiro-ministro compreendeu isso, transmitiu. Eu compreendi, aceitei e agora amanhã veremos
Amanhã se verá, é a mensagem do Presidente da República, que se recusa a alongar em considerações sobre a saída de Maria Lúcia Amaral. E os partidos da oposição ao governo também começam a reagir e com críticas ao primeiro-ministro. Desde já, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, acredita que a demissão da ministra demonstra a falha do Executivo na resposta à emergência criada pelas tempestades.
É evidente que a demissão da ministra da Administração Interna é a prova de que o governo falhou na resposta a esta emergência, a esta tempestade.
Espera pedir justificações ao governo amanhã?
Vou mostrar ao primeiro-ministro que ele não pode alienar as suas próprias responsabilidades. O primeiro e mais importante responsável da Proteção Civil no país é o primeiro-ministro. Nunca tomei decisões, nem deixei de as tomar quando era ministro, sem falar com o primeiro-ministro. E, portanto, é natural e é um imperativo que decorre da lei, que o primeiro-ministro assuma as suas responsabilidades.
José Luís Carneiro, na sede do PS, em Lisboa, antes da reunião da Comissão Política do partido. O líder socialista, que também é antigo ministro da Administração Interna, considera que o governo tem um problema na resposta às crises e recorda ainda a gestão do apagão e dos incêndios do ano passado. Já o líder do Chega considera que esta é a prova da incapacidade do Executivo para gerir adversidades. Foi numa publicação na rede social X que reagiu André Ventura. O presidente do Chega diz que esta decisão prova que Montenegro vai perdendo o controle do Executivo passo a passo, da Saúde à Administração Interna. Ventura termina a mensagem a questionar quanto mais tempo vai demorar até serem resolvidos os outros erros de casting do governo. E na Rádio Observador ouvimos também essas outras reações de outras forças partidárias. Começamos pela Iniciativa Liberal, pela voz de Mário Amorim Lopes. O deputado lembra que o partido já tinha alertado para a falta de capacidade da ministra.
Foi uma grande jurista, com reconhecido mérito e fez um bom trabalho como Provedora da Justiça, mas não tinha as competências que são necessárias para ser uma ministra, sobretudo desta pasta, que é uma pasta muito exigente, que obriga a uma grande capacidade de decisão, uma grande capacidade de liderança, de coordenação de meios e também de comunicação.
Já o Livre critica o momento escolhido para a demissão da ministra. Timing questionado por Paulo Muacho, em vésperas de debate quinzenal no Parlamento.
O timing em que ela acontece também não é inócuo. É na véspera de um debate quinzenal, em que a oposição certamente que seria toda ela muito crítica com a atuação do governo na resposta a estas catástrofes e aos problemas que ainda estão a acontecer no terreno. E, portanto, esperamos que o primeiro-ministro não use, de certa forma, a demissão da ministra como uma forma de se esquivar essas responsabilidades.
O coordenador do Bloco de Esquerda reagiu também à demissão de Maria Lúcia Amaral. O coordenador do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, escreve que o Executivo falhou no dever mais básico, proteger o povo, e acrescenta que milhares de famílias pagaram o preço da incompetência e do abandono. O coordenador do Bloco de Esquerda termina dizendo que o país exige mudanças, não apenas demissões. Já o PCP afasta qualquer surpresa relativamente à saída da ministra. Paula Santos, líder parlamentar do partido, acredita que a demissão de Maria Lúcia Amaral é resultado, sobretudo, de uma gestão danosa do governo quanto à crise das últimas semanas.
Isto é reflexo, de facto, de tudo isso, porque estamos a falar da parte do governo que no início desconsiderou totalmente os impactos e as consequências da tempestade Cristine e as sucessivas intempéries que lhe sucederam. Mas aquilo que vimos foi, de facto, uma falta de resposta às populações e face àquilo que estava a acontecer no país.
Paula Santos, na emissão especial da Rádio Observador, sublinha ainda que esta quarta-feira é dia de debate quinzenal. Espera que Montenegro responda pelo que diz ser as medidas insuficientes do governo para ajudar as populações. É o ponto final nesta noticiário das duas da manhã. Informação na Rádio Observador regressa às 14h30