Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
As notícias com Carla Jorge Carvalho. Começamos com o impacto do mau tempo. O rio Douro transbordou esta madrugada para as margens do Porto e de Vila Nova de Gaia.
Ainda assim, sem causar danos significativos. A capitania do Douro atribui a subida do caudal do rio à chuva intensa que se fez sentir no interior e no norte do país. Num balanço, há instantes, feito à Rádio Observador, o capitão diz que a primeira vez que o rio Douro atinge uma cota tão alta é agora. Nesta altura, chegou a passar o cais da Ribeira e da Furada. Chegou perto das esplanadas, mas, para já, a capitania do Douro não está em conhecimento de situações mais complicadas. Os acessos, recorde-se, já tinham sido condicionados à população. Admite, ainda assim, que esta situação pode voltar a acontecer.
O caudal do rio Tejo voltou a aumentar. As atenções estão, por isso, viradas para Santarém, onde 250 pessoas foram retiradas esta noite de casa.
Uma operação que aconteceu nas zonas de maior risco. Algumas destas pessoas estão a ser acolhidas no Pavilhão Municipal de Santarém, onde passaram a noite. É para lá que vamos em direto. Nadine Soares, neste pavilhão, estão a ser recebidas pessoas que estão em grandes dificuldades e com grandes preocupações.
Sim, este centro de acolhimento de Santarém começou agora a acordar. As luzes já acenderam, mas a grande maioria das pessoas continua a descansar. Estou agora mais perto da zona exterior deste pavilhão, precisamente para respeitar esse descanso. Foram adaptadas camas e colchões para as 37 pessoas que aqui estão. Há comida distribuída numa mesa, num canto do pavilhão, doada pela população e recolhida pelos bombeiros da Proteção Civil. Falamos de pão, água, bolachas. Algumas pessoas a esta hora também já começam a utilizar os balneários deste pavilhão para fazer a higiene pessoal. Além do segurança que se encontra na porta do pavilhão, a única pessoa que vigia as pessoas neste momento é Vanessa Domingos, enfermeira da Unidade Local de Saúde de Santarém, que é especialista em saúde mental e que passou aqui a madrugada, colocou férias para ajudar. Defende, por isso, que a atual situação merece um especial cuidado, especialmente porque a maioria das pessoas que aqui se encontram são idosos com algumas doenças, doenças do ponto de vista mental e também algumas crianças. E daí essa decisão de Vanessa Domingos e de outros enfermeiros que ainda vão passar por aqui, de colocar férias para vir ajudar.
A situação que as pessoas estão a viver, de sair das suas casas de uma forma abrupta, deixando os seus pertences, e chegam aqui, saem da sua rotina, do seu espaço, e ficam mais ansiosas e têm aqui comportamentos relacionados com isso e picos hipertensivos que têm de acabar por ser medicados. Tivemos uma médica em regime voluntário, eu também estou em regime voluntário, e ela acabou por fazer aqui planos terapêuticos para estas pessoas e ficou de chamada. Acabei por contactá-la algumas vezes durante a noite.
Pessoas medicadas e com algumas dificuldades financeiras. É a situação da grande maioria das pessoas que aqui se encontra. Ainda assim, os voluntários esforçam-se para tornar este espaço um pouco mais agradável, especialmente para as crianças e bebês que aqui se encontram.
Quando percebemos que haveria crianças, trouxemos brinquedos, eles andaram aqui a brincar e correr durante o serão. Jantaram bem, dormiram toda a noite. Temos aqui dois bebês. Não houve choros, tudo tranquilo. Tivemos que fazer aqui algumas adaptações nas camas, porque os bebês queriam dormir com os pais e estas camas são muito estreitinhas. Tivemos que pôr aqui uns colchões, mas tudo se resolveu.
O relato de Vanessa Domingos, enfermeira que esteve responsável pelo turno da madrugada, explicava também que, além destas pessoas, os outros desalojados destas cheias do rio Tejo, de localidades como Caneiras e Ribeira de Santarém, conseguiram ir para casa de amigos ou até mesmo hotéis e por isso as pessoas que aqui se encontram são pessoas com maior dificuldade financeira. Para já, até o próximo enfermeiro voluntário chegar, Vanessa Domingos faz a ronda pelas camas e colchões para passar a medicação da manhã a estas pessoas e também começar a distribuir os pequenos-almoços. Isto numa altura em que também já se começa a ouvir os pingos da chuva a bater no teto deste pavilhão.
Nadine Soares, a acompanhar este despertar junto ao Pavilhão Municipal de Santarém, onde vários desalojados passaram a noite. Há uma refeição quente, há também apoio psicológico. A nível nacional, o site da Proteção Civil dá conta de 140 ocorrências. A maioria tem a ver precisamente com inundações e também com queda de árvores. Em Leiria, o edifício do Cinema City inundou devido à subida do rio, é o que mostram imagens nas redes sociais. Em Lisboa, o metro retomou a operação em toda a linha, apesar de terem sido tomadas medidas de proteção nas estações da frente ribeirinha.
E o pior parece já ter passado em Alcácer do Sal, mas ainda assim a Proteção Civil mantém-se em alerta por causa do risco de cheias para o fim de semana.
Foi isso que deu conta na última hora o vereador da Proteção Civil, António Grilo, faz à Rádio Observador um ponto de situação no terreno. O cenário não é dramático como o de ontem. Ainda assim, é preciso cautela.
Efetivamente, neste momento, a água já baixou bastante. A vazante começou agora neste momento também a levar alguma água pelo rio abaixo, com alguma capacidade de encaixe. No entanto, e como dizia, e bem, temos que estar expectantes, porque existem barragens que ainda não iniciaram as suas descargas, nomeadamente a Barragem do Roxo e a Barragem do Monte da Rocha. Portanto, é um briefing que nós vamos fazer daqui a uns minutos para tentar perceber qual é o estado dessas barragens e o que é que aí vem para as próximas horas, porque há um cenário que nós temos em cima da mesa que tem a ver com a precipitação que se figura para as próximas horas. Portanto, hoje e amanhã.
Muita preocupação com o que pode vir ainda com a chuva, os avisos do vereador da Proteção Civil de Alcácer do Sal, António Grilo. Foi esta manhã entrevistado pelo Miguel Cordeiro, que está em Alcácer do Sal. E Miguel, como é que a população está a acordar?
A população agora está a acordar com muita chuva. Desde a última hora começou a chover bastante. Isto é já a previsão também para as próximas horas, esta Depressão Marta que vai afetar o território continental, principalmente a região do Alentejo. Chuva muito forte, isto deve continuar pelo menos até o dia de amanhã e, portanto, isto dificulta também possíveis trabalhos que se pudessem fazer com o recuo da água do Sado, porque de facto a cheia está a recuar, a água vai descendo. Ontem o cenário foi bem pior. Vamos ver o que acontece nos próximos dias, porque com a chuva vão também encher as barragens, preveem-se novas descargas e a água vem toda dar a Alcácer para depois seguir até ao oceano. Ao meu lado tenho João Pereira Lince. Ele vive na baixa da cidade de Alcácer. Aliás, ele vive num prédio que a parte do rés-do-chão ficou praticamente toda inundada. É um prédio que na parte de baixo tem uma dependência do banco, o Banco BPI, que ontem teve praticamente dois metros de água. Depois, o primeiro andar ainda continua a ser do banco e vive no segundo andar. João, como é que foi estes últimos dias viver neste prédio? Descreveu há pouco que teve cortes pontuais de eletricidade, internet foi perdendo.
Exatamente. De vez em quando faltava a eletricidade. Felizmente, temos o fogão a gás e fomo-nos sempre safando. Não tivemos um problema muito grave em casa, tirando a internet, que já há três dias não temos. Temos o acesso à casa por trás e, portanto, numa rua que está bastante mais elevada e fizemos praticamente a nossa vida normal. Obviamente que vendo todos os amigos e familiares com vidas destruídas, não ficamos muito felizes. Mas é a situação, isto são coisas que acontecem aqui nestas regiões. Há muitos anos que não acontecia, as pessoas mais novas não estavam habituadas. Eu lembro-me em criança de isto acontecer quase anualmente. Realmente, há muitos anos que não havia uma cheia desta dimensão. Penso que desta dimensão nunca houve ou se houve, foi uma antes de eu ter nascido. Dizem que em 1963 houve uma muito grande.
Portanto, nunca tinha visto nada assim.
Nunca vi nada assim.
João Pereira Lince, muito obrigado pela sua descrição. Diz ele o que têm dito quase todas as pessoas, que nunca viram nada assim e que a última grande cheia foi nos anos 60, mas de menor dimensão.
E agora enfrentar a dimensão desta cheia que o Miguel Cordeiro está a relatar em Alcácer do Sal. Portugal continua a ser afetado pela Depressão Leonardo. Amanhã espera-se já uma outra. Hoje ainda 10 distritos vão estar sob aviso laranja, não por causa da chuva, mas sim por causa da agitação marítima.
São agora 08h09. Carla, antes dos Momentos de Glória, que outras notícias marcam esta manhã?
O governo decidiu prolongar o estado de calamidade por mais uma semana. Fica em vigor até dia 15, decisão anunciada pelo Primeiro-Ministro numa comunicação ao país ontem à noite. Ao mesmo tempo, Luís Montenegro deixou várias garantias, incluindo os apoios previstos às famílias atingidas pela tempestade e que devem chegar o mais tardar na próxima segunda-feira. E afinal Pombal vai mesmo realizar eleições no próximo domingo. São assim três os municípios que adiam as presidenciais, a segunda volta, Alcácer do Sal, Arruda dos Vinhos e Golegã. Há mais concelhos a deixar a hipótese em cima da mesa. Santarém prometeu tomar uma decisão hoje. Em Abrantes, o presidente da Câmara diz que ainda não pensou no assunto. Sobre o tema, Presidente da República e Primeiro-Ministro concordam, os portugueses devem mesmo ir a votos este domingo, dia 8 de fevereiro.